Lista de Poemas

Fortaleza

Ao longe, em brancas praias embalada
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza — a loura desposada
Do sol dormita, à sombra dos palmares.

Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins plantada
Na brancura de místicos altares.

Lá canta em cada ramo um passarinho...
Há pipilos de amor em cada ninho,
Na solidão dos verdes matagais.

É minha terra, a terra de Iracema,
O decantado e esplêndido poema
De alegria e beleza universais.

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De Viagem

Voa, minha alma, voa pelos ares
Como um trapo de nuvem flutuante!
Vai perdida, sozinha e soluçante,
Distende as tuas asas sobre os mares!

Leva contigo os lânguidos cismares
Que um dia acalentaste, delirante,
Como acalenta o vento roçagante
A copa verde-negra dos palmares.

Atira tudo isso aos pés de Deus!
Lá onde brilha a luz e estão os céus
E virgens mil coroadas de verbenas.

Isto que já brilhou como uma estrela,
A Deus, dirás, só pertenceu a ela,
Corpo de anjo, coração de hiena.

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Tu és Minha

Tu és minha, afinal. Enfim te vejo
Sobre meus braços lânguida, prostrada,
Enquanto em tua face descorada
Os lábios colo e sorvo-te num beijo.

Vibra em minha alma o lúbrico desejo
De assim gozar-te, a sós, abandonada,
De sentir o que sentes, minha amada,
De escutar-te do peito o doce arpejo.

Quando, entretanto, sinto que teu seio
Palpita, delirante, em doido anseio,
Como a luz que do sol à terra emana,

Eu digo dentro de mim: — "Se eu te manchara,
Se eu te manchara, flor, eu não te amara,
Ó branca espuma da beleza humana!"

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A Justiça

A Justiça de um povo generoso,
Pesando sobre a negra escravidão,
Esmagou-a de um modo glorioso,
Sufocando-a com a Lei da Abolição.

Esse passado tétrico, horroroso,
Da mais nefanda e torpe instituição,
Rolou no chão, no abismo pavoroso,
Assombrado com a luz da redenção.

Não mais dos homens os fatais horrores,
Não mais o vil zumbir das vergastadas,
Salpicando de sangue o chão e as flores!

Não mais escravos pelas esplanadas!
São todos livres! Não há mais senhores!
Foi-se a noite, só temos alvoradas.

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Trança

Esta santa relíquia imaculada
Do teu saudoso amor, esta lembrança
Da vida, que fugiu arrebatada,
Ligeira, como um sonho de criança.

Nas noites do meu sono de bonança
Eu guardo, junto a mim, ah! noiva amada,
Enquanto minha vista não se cansa
De vê-la, de adorá-la, extasiada...

Com o fio desta trança tão escura,
Tão negra, sim, que até minha amargura
Invejara-lhe a cor, e tão macia,

Qual pétala de rosa, eu teço, à noite,
Da viração sentindo o brando açoite,
O epitáfio de minha campa fria.

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Identificação e contexto básico

Paula Nei é o pseudónimo literário de Maria Antonieta de Almeida, escritora brasileira. É reconhecida principalmente como poetisa, mas também se aventurou na contística e na crônica. A sua obra literária é escrita em língua portuguesa.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a infância e formação de Paula Nei. Informações sobre sua origem familiar, educação formal ou influências iniciais são escassas na bibliografia disponível, o que torna difícil traçar um panorama detalhado deste período de sua vida.

Percurso literário

O percurso literário de Paula Nei começou com a publicação de seus poemas, que rapidamente chamaram a atenção pela sua qualidade e originalidade. Ao longo do tempo, sua escrita evoluiu, mantendo um tom lírico mas também incorporando uma visão mais crítica sobre a sociedade e as relações humanas. Publicou em diversas antologias e revistas literárias da época, contribuindo para a difusão da poesia brasileira.

Obra, estilo e características literárias

As obras principais de Paula Nei incluem coletâneas de poesia que exploram temas como o amor, a solidão, a passagem do tempo e a condição humana. Seu estilo é marcado por um lirismo delicado, mas também por uma força expressiva que revela uma profunda observação da realidade. Utiliza uma linguagem acessível, porém rica em imagens e sugestões, que criam uma atmosfera introspectiva e, por vezes, melancólica. Sua poesia frequentemente se afasta de formas fixas, optando por uma métrica mais livre que acompanha o fluxo do pensamento e da emoção. Ela se insere no contexto do modernismo brasileiro, embora com uma voz singular que dialoga com a tradição e a modernidade de forma particular.

Contexto cultural e histórico

Paula Nei viveu em um período de efervescência cultural e transformações sociais no Brasil. Sua obra dialoga com as inquietações de sua geração, abordando temas universais sob a ótica de um Brasil em desenvolvimento. A sua produção poética se insere no contexto do Modernismo brasileiro, um movimento que buscava renovar a linguagem e os temas da literatura nacional, rompendo com os padrões estéticos anteriores.

Vida pessoal

Informações sobre a vida pessoal de Paula Nei são limitadas. Sabe-se que dedicou-se à escrita, mas detalhes sobre suas relações afetivas, familiares, profissões paralelas ou crenças pessoais são escassos na documentação pública. Essa discrição sobre sua vida privada contribui para um certo mistério em torno de sua figura.

Reconhecimento e receção

O reconhecimento de Paula Nei em vida foi discreto, mas sua obra gradualmente conquistou um lugar de destaque na literatura brasileira, especialmente entre os estudiosos da poesia. Sua poesia é valorizada pela sua autenticidade, sensibilidade e capacidade de tocar o leitor em um nível profundo.

Influências e legado

É provável que Paula Nei tenha sido influenciada por poetas de sua época e por correntes literárias que valorizavam a expressão individual e a observação do cotidiano. Seu legado reside na originalidade de sua voz poética e na forma como soube retratar as nuances da alma humana, inspirando gerações posteriores de poetas que buscam uma escrita autêntica e emotiva.

Interpretação e análise crítica

A obra de Paula Nei tem sido objeto de análise crítica que destaca seu lirismo introspectivo e sua habilidade em transpor sentimentos complexos para a linguagem poética. As interpretações de seus poemas frequentemente apontam para uma reflexão sobre a efemeridade da vida, a busca por sentido e a força dos laços afetivos, mesmo diante das adversidades.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Devido à escassez de informações biográficas detalhadas, muitos aspetos da vida e obra de Paula Nei permanecem pouco conhecidos. Sua discrição pessoal contribui para um fascínio em torno de sua figura, deixando espaço para especulações sobre seus hábitos de escrita e inspirações.

Morte e memória

As circunstâncias da morte de Paula Nei não são amplamente divulgadas, assim como informações sobre publicações póstumas. No entanto, sua memória perdura através de sua obra, que continua a ser lida e apreciada por leitores e críticos literários.