Lista de Poemas

Antônio Triste

Esguio como um poste da Avenida
Cheio de fios e de pensamentos,
Antônio era triste como as árvores
Despidas pelo inverno,
Alegre, às vezes, como a passarada
Nos fins da madrugada.

Sozinho, como os bancos de uma praça
Em noites de neblina,
Antônio, protegido de retalhos
Com seu cigarro aceso,
Lembrava-me um balão que, multicor,
Se vê no firmamento:
Não se sabe donde veio
Não se sabe aonde vai.

Não era velho
Nem era moço,
Não tinha idade
Antônio Triste.

Quando as luzes cansadas se apagavam
E as trevas devoravam a cidade,
Antônio Triste chorava e cantava:
À luz de um cigarro, bailava e rodava
Pelas ruas desertas e molhadas.

Mas, certa noite um varredor de rua,
Viu muito lixo no chão:
Tanto trapo amontoado,
Quase um balão de São João!

Um resto de cigarro num canto da boca,
A mecha se apagara.
Antônio, o triste balão de retalhos,
Findara!


Publicado no livro Antônio Triste (1946).

In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.1-
4 657

Poema das Grandes Catedrais

As grandes catedrais ressurgirão das águas,
E as aves da floresta conhecerão
A linguagem dos peixes noturnos...
As grandes catedrais ressurgirão das ondas,
Trazendo para o mundo das nuvens
As princesas sem reino coroadas de coral...
As grandes catedrais ressurgirão dos tempos,
E os homens serão crianças,
Contemplando o mar pela primeira vez!


Publicado no livro Poema do Silêncio (1954).

In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.3
1 616

O Ar

Em nossa transparência
Os muros da carne.

Em nossa angústia
O vento rebelde.

Em nossa nuvem
O vôo do pássaro.

Em nossa fonte
A água invisível.

Em nossa árvore
A serpente do nada.

Somos o ar
Na torre das palavras.


Publicado no livro Quinze Anos de Poesia (1958).

In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.7
2 560

Som Distante

Pela janela aberta para o céu de estrelas,
Penetrou, pelo meu quarto a dentro,
O rumor de um corpo que é lançado ao mar!
A eleita de meus sonhos
Teve por última morada
O fundo do Oceano!

Seus cabelos loiros são agora
Mensagens da luz do sol
No abismo das águas.
Seu corpo, muito branco,
Quando livrar-se da mortalha
Que os marinheiros rudes coseram,
Será, na imensa noite oceânica,
Um raio de luar a percorrer abismos.

A eleita de meus sonhos
Teve por última morada
O fundo do Oceano!
Os bancos submersos de corais,
As esverdeadas águas,
Hão de invejar seus lábios rubros
E a cor de seus olhos verdes;
Suas mãos espirituais
Serão estrelas de cinco pontas
Correndo o mundo das águas.

Um corpo amortalhado foi lançado ao mar!
Algo de estranho passou dentro de mim!
Pois sinto-me afastado para sempre
Do círculo vicioso da Esperança!


In: BOMFIM, Paulo. Antônio Triste. Pref. Guilherme de Almeida. Il. Tarsila do Amaral. São Paulo: Martins, 1946
1 704

A Água

Despe, na solidão da tarde,
Tua roupagem manchada de quotidiano,
E deixa que a chuva molhe teus cabelos
E vista teu corpo de escamas de prata.
Pousa, em teus ombros, o manto dos lagos
E colhe no cântaro de tuas mãos
A música dos dias que adormeceram
No fundo de teu ser.
Mármores líquidos moldarão teu corpo.
Nuvem,
Penetrarás a carne da manhã.


Publicado no livro Quinze Anos de Poesia (1958).

In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.7
2 330

Redescoberta

Não há idade,
Apenas um rio voluptuoso,
Correndo para trás.
Em suas águas mornas
Ruas antigas deságuam
Com casas, rostos e melodias
Que, no retorno ao tempo,
Se redescobrem.
Nas margens do rio,
Um velho cinema exibe
Um filme sem atores.
As cadeiras estão vazias,
Somente a frisa vive,
Como, se medrosas mãos adolescentes,
Se encontrassem na treva,
Formando molduras douradas.
Na torrente que regressa
O pátio do colégio insula-se
Há frio e solidão
Na merenda infantil.
Além, uma bola bate nos vidros do dia,
E um trem regressa
Com cafezais florindo na fumaça.
Das águas que correm como sangue,
Surge uma casa, e um realejo toca,
E os retratos voltam a viver,
A falar como avós,
A ter os cabelos brancos despenteados
Pelo vento que sopra com mãos de brinquedo.
Depois,
Os lampiões vão-se acendendo
E, em calçadas bruxuleantes,
Os heróis regressam
Com rosas rubras no capacete
E lírios nascendo no caule dos fuzis.
E o rio caminha
Para trás;
Em seu leito
Bolas de vidro colorido
Rolam como seixos;
O menino tacteia-se na noite,
Sente a febre que molda o rosto,
E mergulha no tempo
Para sempre!


Publicado no livro Ramo de Rumos (1961).

In: BOMFIM, Raul. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.152-15
1 509

XXIII [A linguagem do eterno

A linguagem do eterno
Principia no efêmero.
Em nosso mar
A intuição é pérola.


Poema integrante da série Prelúdios de Inverno.

In: BOMFIM, Paulo. Sinfonia branca. São Paulo: Martins, 1955
1 485

XXVI [As flores falam perfumes

As flores falam perfumes
E pensam cor...


Poema integrante da série Prelúdios de Inverno.

In: BOMFIM, Paulo. Sinfonia branca. São Paulo: Martins, 1955
1 658

Soneto XVII [Noites que são galeras cor do tempo

Noites que são galeras cor do tempo:
Velas de sombra pousam na paisagem,
E o silêncio desperta outro silêncio,
Nos mudos tripulantes que hoje somos!

Noites que são galeras cor da morte:
Quilhas de ônix e grandes remos de ébano,
Revolvem singraduras de luar
No mar atormentado de lembranças!

Noite que são galeras cor do espaço:
Grandes barcos de treva carregados
De abismos e de pétalas de luz!

Noites que são galeras que não voltam:
Um dia chegaremos ao refúgio
Das naus transfiguradas em passado!


Poema integrante da série Sonetos Brancos.

In: BOMFIM, Paulo. Sinfonia branca. São Paulo: Martins, 1955
1 814

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Identificação e contexto básico

Paulo Bomfim foi um poeta brasileiro. Publicou sua obra principalmente em português.

Infância e formação

A infância e formação de Paulo Bomfim não são amplamente documentadas em termos de detalhes específicos sobre o ambiente social ou educativo que o moldou. Sabe-se que a sua paixão pela escrita e pela poesia se desenvolveu ao longo do tempo, absorvendo influências culturais e literárias que se refletiriam na sua obra futura.

Percurso literário

O percurso literário de Paulo Bomfim é marcado por uma dedicação à poesia, com uma evolução gradual na sua expressão lírica. A sua obra, embora talvez não associada a grandes movimentos literários de vanguarda, conquistou um espaço próprio pela sua qualidade e profundidade. Ao longo do tempo, consolidou um estilo reconhecível.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Paulo Bomfim é caracterizada por uma lírica introspectiva e reflexiva. Os temas recorrentes incluem a passagem do tempo, a memória, a existência humana e a busca por sentido. A sua linguagem é cuidada, com um ritmo que confere musicalidade aos versos, utilizando metáforas e imagens sugestivas. O tom poético de Bomfim é frequentemente melancólico e contemplativo, explorando a subjetividade e as complexidades da alma. O seu estilo é marcado pela concisão e pela densidade imagética, com uma relação equilibrada entre a tradição e a modernidade, sem se prender a formas fixas, mas com uma estrutura interna coesa.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Paulo Bomfim inseriu-se no panorama literário brasileiro, contribuindo para a poesia com uma voz singular. A sua obra dialoga com as preocupações existenciais e culturais da sua época, embora sem necessariamente se vincular a movimentos sociais ou políticos explícitos.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Paulo Bomfim, como relações familiares, amizades ou crenças específicas, não são amplamente divulgados na sua biografia pública. Sabe-se que a poesia foi uma constante na sua vida, moldando a sua expressão e a forma como se relacionava com o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Paulo Bomfim conquistou um reconhecimento no meio literário pela qualidade da sua poesia. A sua obra é apreciada pela profundidade lírica e pela habilidade estilística, o que lhe valeu um lugar de destaque entre poetas contemporâneos brasileiros. A receção crítica tem destacado a sua capacidade de evocar emoções e reflexões profundas.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências específicas de Paulo Bomfim são difíceis de determinar sem acesso a declarações suas, mas o seu estilo sugere um apreço pela poesia que valoriza a introspeção e a musicalidade. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia brasileira com versos que convidam à reflexão sobre temas universais, influenciando possivelmente gerações futuras pela sua sensibilidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Paulo Bomfim convida a múltiplas leituras, focando-se na exploração da condição humana, da efemeridade da vida e da importância da memória. As suas análises críticas frequentemente apontam para a profundidade existencial dos seus poemas e para a beleza formal da sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da personalidade ou hábitos de escrita de Paulo Bomfim não são de fácil acesso. A sua dedicação à poesia sugere um percurso de constante busca pela expressão perfeita, possivelmente com um ritual de escrita próprio, focado na introspeção e na elaboração cuidadosa de cada verso.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Informações sobre a morte de Paulo Bomfim e publicações póstumas não estão detalhadamente disponíveis em fontes gerais, mas a sua obra permanece como um testemunho da sua arte poética.