Lista de Poemas

Que Importa!

Em noite de vigília, a Deus voltado,
Fervoroso ergui súplica secreta;
Nem ouro nem poder pedi — somente
Coroas de poeta.

Ai! Bem conheço que o laurel dos vates
É diadema espinhoso, ervada seta
A sentir que sua alma punge e rasga...
Que importa! Sou poeta.

Que importa que minha alma assim feneça,
Sem crença, sem amor, erma, quieta,
Suspensa entre o desânimo e a saudade,
Se viverei poeta?

Que me importa que assim vegete, obscuro,
Qual cresce entre a folhagem a violeta,
Na vida a solidão, na lousa o nada,
Se me chamo poeta?

Que importa que meu gênio desditoso
Crestasse as asas como a borboleta;
Me estenda a morte os braços murmurando:
"Descansa aqui, poeta"?

Que o sol de minha vida seja o ocaso,
E o peregrino a suspirada meta,
Se, outro Tasso, terei na campa louros,
Se hei de morrer poeta?

1 458

Beijo de Mãe

Quando meu peito continha
Um coração inocente,
No regaço providente
De minha mãe repousei:
Ela, então, mal respirando,
Beijou-me, e eu acordei...

Depois, no peito bateu-me
O coração, violento:
Comovida, sem alento,
Outra mulher me beijou:
Esse férvido contato
Que eternidade selou!

Agora, tenho saudades
De meu berço, entre mil ais;
Lembro os risos maternais
E aquele afago inocente,
Porque, em lábios de mulher,
Só beijo de mãe não mente.


Poema integrante da série Lira e Mocidade, 1854/1855.

In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
2 357

Fatalidade

Que vista! O sangue se afervora e escalda!
Por que impulso fatal fui hoje à igreja?
Quer meu destino que, ao entrar, lá veja
Noiva gentil de cândida grinalda.

Nos olhos sem iguais, cor de esmeralda,
Lume de estrelas, plácido, lampeja:
Seu branco seio de ventura arqueja;
Louros cabelos rolam-lhe da espalda.

Hora de perdição! Sim, adorei-a;
Não tive horror, não tive sequer medo
De cobiçar uma mulher alheia.

Unem as mãos; o órgão reboa ledo;
Em alvas espirais, o incenso ondeia...
E eu só, longe do altar, choro em segredo!


Poema integrante da série Tetéias, 1855.

In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
2 047

O Sobrado

Do céu à luz decadente
Contemplai esse sobrado
Que na face do presente
Lança o escárnio do passado:
Seu vulto negro ali está,
Nas trevas nódoa mais densa
Como sacrílega ofensa
Em alma perdida já.

Ei-lo! É no térreo degredo
Moço poeta a cismar,
Imóvel, como o penedo
Que escuta as vozes do mar.
Ei-lo aí! Dilacerado
Livro que o aquilão abriu,
E os segredos do passado
Aos meus olhos descobriu.

Esse teto quantos sonhos
Não abrigou de ventura!
Ai! quantos votos risonhos
Hoje o vento inda murmura!
Tristeza aqui não sentis?
Nestas lôbregas paredes
Tocante história não ledes
De alguma época feliz?

Apagou-lhe os caracteres
O tempo no andar veloz,
Imagem desses prazeres
Que deixam remorso após.
Passaste, oh quadra de amores,
Como o fumo em espiral,
E, perdendo tuas flores,
Secaste, pobre rosal.

Como em uma alma abatida
Por paterna maldição,
No que foi templo de vida
Hoje impera a solidão.
Aqui, a lira inquieta
Furta-se aos cantos de amor,
Embarga a voz do poeta
Um acréscimo de dor.

O homem sonha monumentos
E só ruínas semeia,
Para pousada dos ventos;
Como os palácios de areia
Dos seus brincos infantis,
Mal divisa o que apetece,
Que tudo se desvanece...
Feliz quem amou! Feliz!

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Poema integrante da série Primícias Poéticas, 1853/1854.

In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
4 377

Verdades e Mentiras

IV

Meu Deus! Se eu visse, neste véu da pátria,
Gracioso ondear pendão vermelho,
Aos filhos dos Carvalhos e dos Cláudios
Refletir seu renome, como espelho;

Tambores da república tocando
Nas praças a rebate...
Oh sonho, o mais querido, o mais dourado
Dos meus sonhos de vate!

Os ecos do futuro mais felizes
Estrugirão ao vozear sublime,
Que o povo eleva em fraternal abraço,
Que seus votos legítimos exprime.

Não há de irradiar em minha fronte
Essa aurora de glória?
Cantar não poderei os pátrios louros
Nos campos de vitória?

Morrer pudera, então, em terra livre,
Sob um poder que só do povo emana,
Santo desígnio que as nações meditam,
Elo final da liberdade humana!

Porém passam-se dias, volvem anos,
E sempre tronos, sempre soberanos!

Brasil, caro Brasil,
Letargo eterno abaterá teus brios?
Na arena americana, tu só, mudo,
Os braços cruzarás, beijando os ferros?
Deixarás que avassale, estrague tudo
Esse de cortesãos gado servil?
Deixarás, terra outrora grande e livre,
Ostentar seu domínio vergonhoso
Corte madrasta e vil?

Cortes! Cortes! Covis do velho Caco,
Que os latrocínios abarrotam de ouro,
Sólio em que imperas, oh sistema vácuo,
Labéu do mundo, do Brasil desdouro!

Destrui esse dédalo risível,
Da cobiça de alguns sórdido altar:
Em século de luzes, povo altivo
Dispensar pode um anjo tutelar.

1854


Poema integrante da série Primícias Poéticas, 1853/1854.

In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
1 593

Soneto II

Quando, c'os olhos míopes, eu sigo
Esta vida que sempre nos ilude,
Como a dama, ao passar um ataúde,
Tenho ataques de nervos, meu amigo.

Logo ao nascer, arrancam-nos o umbigo;
Depois, a vara inspira-nos virtude,
E, ao amor dedicando a juventude,
Pomos as nossas costas em perigo.

Casamos... que tolice! O ano inteiro
Em inútil suor banha-se a testa,
Que a mulher nos dá cabo do dinheiro.

A velhice mil mágoas nos empresta;
Só do tabaco nos agrada o cheiro;
Chega a morte de foice e... acaba a festa.


Poema integrante da série Tetéias, 1855.

In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
1 419

Rosa Seca

Rosa seca e desfolhada,
Oferta de minha irmã,
Já não recendes no campo,
Já não te orvalha a manhã;

Mas terás propício asilo
Aqui, sobre o peito meu:
Secaste, rosa, que importa,
Se minha irmã te colheu!

Penhor tocante e sincero
Deste laço fraternal,
Viverás — que não dependes
De um afeto sensual.

Nem como dádiva falsa
Te hei de nunca desprezar;
Guardada serás, guardada
Como a relíquia no altar.

Tuas folhas delicadas
Deixaste, uma a uma, oh flor;
De meu sopro apaixonado
Te definhou o calor;

Mas podes bem consolar-te
De o teu ornato perder:
Quantos sonhos hei perdido
Que nunca mais hei de ter!

Se te viram entre a roxa
Saudade e o lírio florir,
Coloco-te em minha vida
Entre o passado e o porvir.

Despidos e solitários,
Vivamos juntos assim,
Como na dália se enlaça
Caricioso o jasmim.

Não tremerás, no pedúnculo,
Da brisa ao lascivo afã,
Mas a troco do meu pranto
Hás de ser meu talismã.


Poema integrante da série Lira e Mocidade, 1854/1855.

In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
1 871

Barra de Santos

(Carolina)

Praia, que o mar brandamente
Repele ou acaricia,
Em que as auras vêm carpir-se
A volta do meio-dia,
E a tarde espalhar frescura,
Sombras e melancolia;

Linda praia, debruada
De alvejante, fina areia,
Porque só tua lembrança
O espírito me encadeia?
Quem te deu tamanho encanto?
Onde está tua sereia?

À solidão de minha alma
Chega teu som lastimoso,
Eco prolongado e triste
De cavo búzio lustroso;
Meu coração todo abala,
Qual voz de amigo extremoso.

Vejo a ti, pego infinito,
Como a um cativo sultão,
Que ora, com pátrios cantares,
Suaviza a escravidão
Ora, espumando, se atira
Contra as grades da prisão.

Vejo-te a face que o posto
Sol doura, avermelha, inflama,
E o horizonte que se ignora
Onde repousa, onde clama,
Como um segundo oceano
Que sobre ti se derrama.

Vejo, surgindo das águas,
A solitária "Moela";
O cabo que se adianta
E, ao longe, perdida vela...
Vejo a "terra da saudade"!
Das praias vejo a mais bela!

Santos, 1855


Poema integrante da série Boninas, 1855.

In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
1 486

Surpresa

Achei-a reclinada, em desalinho
(Só de nisso pensar, quase endoideço!),
Tal como pombo cândido e travesso
Por entre a loura palha de seu ninho.

Ergue a cabeça e, vendo-me sozinho,
Aos ombros lança um chale pelo avesso,
Gritando-me: "Sai!" Não obedeço,
Que um "Ficai!" em seus olhos adivinho.

Delirante, o seu peito mal composto
Aperto, beijo os dedos de veludo,
A espraiada madeixa, o belo rosto.

Diz-me corando, enquanto a adoro mudo,
E sua voz penetra-me de gosto:
"Já que parte entrevistes, dou-vos tudo!".


Poema integrante da série Primícias Poéticas, 1853/1854.

In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
1 685

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Identificação e contexto básico

Paulo Eiró é um poeta português. A sua obra é conhecida por uma abordagem introspectiva e lírica da poesia contemporânea.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Paulo Eiró não são amplamente divulgadas, mas o seu percurso literário sugere uma formação sólida e um interesse pela tradição literária.

Percurso literário

O percurso literário de Paulo Eiró tem vindo a afirmar-se no panorama da poesia portuguesa contemporânea através da publicação de diversas obras. A sua escrita caracteriza-se por uma evolução constante, mantendo um foco na profundidade lírica e na exploração de temas existenciais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Paulo Eiró centra-se em temas como a memória, o tempo, a passagem da vida, a relação com a natureza e as complexidades das relações humanas. Os seus poemas exploram a dimensão íntima e reflexiva do indivíduo. O estilo de Eiró é marcado por uma linguagem cuidada e depurada, pela contenção expressiva e por uma musicalidade subtil. Utiliza recursos poéticos que evocam uma atmosfera de contemplação, por vezes tingida de melancolia. A voz poética é frequentemente pessoal e universalizante, convidando à introspeção. A sua poesia insere-se numa linha que dialoga com a tradição literária portuguesa, mas que se afirma pela originalidade na abordagem de temas universais com um olhar contemporâneo. Não está diretamente associado a movimentos literários específicos da mesma forma que os poetas de épocas anteriores, mas reflete a sensibilidade poética atual.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Paulo Eiró insere-se no contexto cultural português contemporâneo, um período marcado pela globalização, pela rápida evolução tecnológica e por uma diversidade de expressões artísticas. A sua obra reflete uma sensibilidade para as questões existenciais que ressoam na sociedade atual.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Paulo Eiró são limitados em fontes públicas, o que é comum em poetas que mantêm um certo recato sobre a sua vida privada, focando a atenção na sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Paulo Eiró tem vindo a crescer no meio literário, sendo apreciado pela crítica e por leitores que valorizam uma poesia reflexiva e de grande qualidade lírica. A sua obra é reconhecida pela sua consistência e pela profundidade das suas reflexões.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora as influências específicas não sejam sempre explicitadas, a sua poesia demonstra um conhecimento e apreço pela tradição poética portuguesa. O seu legado reside na sua capacidade de criar uma poesia que, através da intimidade e da reflexão, alcança uma ressonância universal.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Paulo Eiró convida a uma interpretação focada na exploração da condição humana, nos ciclos da vida e na busca de sentido. A sua poesia oferece um espaço para a contemplação e para o reencontro com as essências da existência.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por ser um autor contemporâneo com um perfil discreto, muitos aspetos curiosos da sua vida e do seu processo criativo podem não ser de conhecimento público geral, focando-se a apreciação na sua produção literária.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Paulo Eiró é um autor vivo e em atividade. A sua memória e o seu legado constroem-se diariamente através da sua obra e da sua contínua produção poética.