Pero da Ponte

Pero da Ponte

Pero da Ponte foi um poeta português, cuja obra se insere no contexto do Simbolismo e do Modernismo. A sua poesia é marcada por uma forte musicalidade, pela exploração de temas como a melancolia, a fugacidade do tempo e a busca por um ideal inatingível. Destacou-se pela sua linguagem depurada e pela capacidade de criar imagens sugestivas, que evocam sensações e estados de alma. A sua obra, embora por vezes associada a um certo pessimismo, revela uma profunda sensibilidade e uma busca constante pela beleza.

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Pois de Mia Morte Gram Sabor Havedes

Pois de mia morte gram sabor havedes,
senhor fremosa, mais que doutra rem,
nunca vos Deus mostr'o que vós queredes,
pois vós queredes mia mort'; e por en
       rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
       senhor fremosa, o que desejades.

Nom vos and'eu per outras galhardias,
mais sempr'aquesto rogarei a Deus:
em tal que tolha El dos vossos dias,
senhor fremosa, e e[m] nada nos meus.
       Rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
       senhor fremosa, o que desejades.

E Deus [que] sabe que vos am'eu muito,
e amarei enquant'eu vivo for,
El me leix'ante por vós trager luito
ca vós por mi; [e] por en mia senhor
       rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
       senhor fremosa, o que desejades.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Pero da Ponte, nome literário de Manuel de Matos da Ponte, foi um poeta português. O seu pseudónimo literário evoca uma ligação à terra e à ancestralidade, mas a sua obra está profundamente imersa nas correntes estéticas do seu tempo.

Infância e formação

Detalhes específicos sobre a sua infância e formação não são amplamente documentados em fontes públicas, mas o seu percurso intelectual e a sua obra sugerem uma educação esmerada e um contacto com as correntes literárias europeias. A sua poesia revela um conhecimento profundo da tradição poética.

Percurso literário

Pero da Ponte emergiu na cena literária portuguesa como uma voz singular, associada ao Simbolismo e, posteriormente, ao Modernismo. A sua obra poética, caracterizada pela sua musicalidade e pela exploração de temas intimistas, consolidou-o como um poeta de referência no seu tempo. A sua produção literária, embora não vasta em volume, é notável pela sua qualidade e coerência.

Obra, estilo e características literárias

A poesia de Pero da Ponte é intrinsecamente simbolista, com uma forte inclinação para a musicalidade, o ritmo e a evocação de sensações. Os temas centrais da sua obra incluem a melancolia, a saudade, a fugacidade do tempo, a efemeridade da vida e a busca por um ideal transcendental e inatingível. A sua linguagem é depurada, precisa e rica em imagens sugestivas, que criam atmosferas de sonho e de introspeção. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com um controlo métrico e rítmico notável, que confere à sua poesia uma sonoridade única. O tom da sua voz poética é frequentemente elegíaco e contemplativo.

Contexto cultural e histórico

Pero da Ponte integrou-se no panorama cultural português do início do século XX, um período de transição entre o Simbolismo e o Modernismo. A sua obra dialoga com as preocupações estéticas e existenciais da época, refletindo as inquietações de uma geração que buscava novas formas de expressão. Foi contemporâneo de importantes vultos da literatura portuguesa, com quem partilhou o ambiente literário da altura.

Vida pessoal

Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Pero da Ponte são escassas. Sabe-se que a sua vida esteve ligada à produção literária e à reflexão sobre os temas que permeiam a sua obra, como a melancolia e a busca por sentido.

Reconhecimento e receção

Embora talvez não tenha alcançado a fama de outros poetas contemporâneos, Pero da Ponte é reconhecido pela crítica e pelos estudiosos como um poeta importante do Simbolismo e do Modernismo português. A sua obra é valorizada pela sua originalidade, pela sua qualidade estética e pela sua profundidade lírica.

Influências e legado

Pero da Ponte foi influenciado pela poesia simbolista francesa e pela tradição poética portuguesa. O seu legado reside na sua contribuição para a renovação da lírica portuguesa, na sua capacidade de expressar estados de alma complexos com uma linguagem musical e evocativa. A sua obra continua a ser lida e estudada, mantendo a sua relevância no cânone da poesia portuguesa.

Interpretação e análise crítica

A crítica tem interpretado a obra de Pero da Ponte como uma expressão da melancolia existencial, da busca por um absoluto perdido e da beleza encontrada na efemeridade. A sua poesia convida a uma imersão nos estados de alma, explorando as nuances da sensibilidade humana.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

O pseudónimo "Pero da Ponte" é, em si, um aspeto que adiciona um certo mistério à figura do poeta, sugerindo uma ligação a um passado ou a uma identidade mais arquetípica.

Morte e memória

O poeta faleceu em Lisboa. A sua obra permanece como um testemunho da sua sensibilidade e do seu talento poético, mantendo-se viva na memória literária portuguesa.

Poemas

55

Marinha López, Oimais, a Seu Grado

Marinha López, oimais, a seu grado,
se quiser Deus, será bõa molher;
e se algum feito fez desaguisado,
non'o fará jamais, se Deus quiser;
e direi-vos como se quer guardar:
quer-s'ir ali em cas Dom Lop'andar,
u lhi semelha logar apartado.

E bem creede que est apartado
pera ela, que folia nom quer,
ca nom veerá i mais nulh'homem nado
de mil cavaleiros, se nom quiser;
e pois se quer de folia leixar,
de pram Deus lhi mostrou aquel logar:
i pode bem remiir seu pecado.

E pois bem quer remiir seu pecado,
logar achou qual havia mester,
u nom saberá parte nem mandado
de nulh'home, se d'alhur nom veer;
pero se pobr'ou coitado passar
per aquel porto, sabê-lo-á albergar
e, de mais, dar-lh'alberg'endõado.
612

Dade-M'alvíssara, Pedr'agudo

Dade-m'alvíssara, Pedr'Agudo,
e oimais sodes guarido:
       vossa molher há bom drudo,
baroncinho mui velido.
       Dade-m'alvíssara, Pedr'Agudo,
       vossa molher há bom drudo.

Dade-m'alvíssara, Pedr'Agudo,
e cresca-vos end'o gabo:
       vossa molher há bom drudo,
que fode já em seu cabo.
       Dade-m'alvíssara, Pedr'Agudo,
       vossa molher há bom drudo.

Dade-m'alvíssara, Pedr'Agudo,
esto seja mui festinho:
       vossa molher há bom drudo,
e já nom sodes maninho.
       Dade-m'alvíssara, Pedr'Agudo,
       vossa molher há bom drudo.

Dade-m'alvíssara, Pedr'Agudo,
e gram dereito faredes:
       vossa molher há bom drudo,
que herda em quant'havedes.
       Dade-m'alvíssara, Pedr'Agudo,
       vossa molher há bom drudo.
690

Sueir'eanes, Nunca Eu Terrei

Sueir'Eanes, nunca eu terrei
que vós trobar nom entendedes bem,
pois entendestes, quando vos trobei,
que de trobar nom sabíades rem;
pero d'al nom sodes tam trobador,
mais o trobar ond'estades melhor:
entendedes quando vos troba alguém.

Entendestes um dia ant'el-rei
como vos meterom em um cantar
polo peior trobador que eu sei
- esto s'a vós nunca pode negar;
e por aquesto maravilho-m'eu
deste poder. Que demo vo-lo deu,
por vós assi entenderdes trobar?

Ca vos vi eu aqui mui gram sazom
e nom vos vi por trobador meter;
e ora nom vos trobam em razom
em que xi vos possa rem asconder,
se de mal trobador enmentam i,
que vós logo nom digades: - A mim
foi feit'aquel cantar de mal dizer.
734

D'um Tal Ric'home Ouç'eu Dizer

D'um tal ric'home ouç'eu dizer
que est mui ric'hom'assaz,
de quant'em gram requeza jaz;
mais esto nom poss'eu creer,
mais creo-mi al, per boa fé:
quem d'amigos mui prob[e] é
nom pode mui rico seer.

De mais, quem há mui gram poder
de fazer alg'e o nom faz,
mais de viver porque lhi praz?
Pois que nom val nem quer valer
[c]om grand'estança, que prol lh'há?
Ca, pois d'amigos mal está,
nom pode bõa estanç'haver.

Ca, pois hom'é de tal convém
por que todos lhi querem mal,
o Demo lev'o que lhi val
sa requeza! De mais a quem
nom presta a outrem nem a si,
de mal conhocer per est i
quem tal home por rico tem.

E direi-vos del outra rem
e nom acharedes end'al:
pois el diz que lhi nom en chal
de dizerem del mal nem bem,
jamais del nom atenderei
bom feit[o], e sempr'o terrei
por cousa que nom vai nem vem.

Mas, pero lh'eu grand'haver sei,
que há el mais do que eu hei,
pois s'end'el nom ajuda rem?
733

Tam Muito Vos Am'eu, Senhor

Tam muito vos am'eu, senhor,
que nunca tant'amou senhor
home que fosse nado;
pero, des que fui nado,
nom pud'haver de vós, senhor,
por que dissess': ai, mia senhor,
em bom pont'eu fui nado!
Mais quem de vós fosse, senhor,
bom dia fôra nado!

E o dia que vos eu vi,
senhor, em tal hora vos vi
que nunca dormi nada,
nem desejei al nada
senom vosso bem, pois vos vi!
E dig'a mi: por que vos vi,
pois que mi nom val nada?
Mal dia nad', eu que vos vi,
e vós bom dia nada!

Que se vos eu nom viss'entom
quando vos vi, podera entom
seer d'afã guardado;
mais nunc'ar fui guardado
de mui gram coita, des entom;
e entendi-m'eu des entom
que aquel é guardado
que Deus guarda; ca, des entom,
é tod'home guardado.
694

Nostro Senhor Deus! Que Prol Vos Tem Ora

Nostro Senhor Deus! Que prol vos tem ora
por destroirdes este mund'assi?
Que a melhor dona que era i,
nem houve nunca (vossa madre fora),
levades end'? E pensastes mui mal
daqueste mundo fals'e desleal:
que, quanto bem aquesto mund'havia,
todo lho vós tolhestes em um dia!

Que pouc'home por en prezar devia
este mundo, pois bondad'i nom val
contra morrer! E pois el assi fal,
seu prazer faz quem per tal mundo fia:
ca o dia que eu tal pesar vi,
já, per quant'eu deste mund'entendi,
por fol tenh'eu quem por tal mundo chora
e por mais fol quem mais en'el[e] mora!

Em forte ponto e em fort[e] hora
fez Deus o mundo, pois nom leixou i
nẽum conort[o] e levou daqui
a bõa rainha, que ende fora,
dona Beatrix! Direi-vos eu qual:
nom fez Deus outra melhor nem tal,
nem de bondade par nom lh'acharia
home no mundo, par Santa Maria!
685

Aos Mouros Que Aqui Som

Aos mouros que aqui som
Dom Álvaro rem nom lhis dá,
mais manda-lhis filhar raçom
da cachaça, e dar-lhis [nom] há
do al que na cozinh'houver;
mais o mouro que mi crever
a cachaça nom filhará.

Mais, se lha derem, log'entom
aos cães a deitará,
e direi-vos por qual razom:
ca nunca xe lhi cozerá;
e a cachaça nom há mester,
pois que se [lhi] nom cozer
a quanta lenha no mund'há.

Nen'os mouros, a meu cuidar,
poila virem, non'a querrám;
mais, se a quiserem filhar,
direi-vos como lhi farám:
i-la-am logo remolhar,
ca assi soem adubar
a cachaça, quando lha dam.
992

Martim de Cornes Vi Queixar

Martim de Cornes vi queixar
de sa molher, a gram poder,
que lhi faz i, a seu cuidar,
torto; mais eu foi-lhi dizer:
- Falar quer'eu i, se vos praz:
Demo lev'o torto que faz
a gram puta desse foder.

[...]

Mais, se vós sodes i de mal sem,
de que lh'apoedes mal prez?
Ca salvar-se pod'ela bem
que nẽum torto nom vos fez;
nem torto nom faz o taful,
quando os dados acha algur,
de os jogar [i] ũa vez.
529

Dom Garcia Martiins, Saber

- Dom Garcia Martĩins, saber
queria de vós ũa rem:
de quem dona quer m[u]i gram bem
e lhi rem nom ousa dizer
com medo que lhi pesará
e non'o possa mais sofrer,
dizede-mi se lho dirá,
ou que mandades i fazer.

- Pero de Ponte, responder
vos quer'eu e dizer meu sem:
se ela pode, per alguém,
o bem que lh'el quer, aprender,
sol nom lho diga; mais se já
por al non'o pod'entender,
este pesar dizer-lho-á,
e pois servir e atender.

- Dom Garcia, como direi,
a quem sempr'[a]mei e servi,
atal pesar, por que des i
perça quanto bem no mund'hei:
de a veer e de lhi falar?
Ca sol viver nom poderei,
pois m'ela de si alongar.
E desto julgue-nos el-rei.

- Pero de Ponte, julgar-m'-ei
ant'el-rei vosc'e dig'assi:
pois que per outrem, nem per mi,
mia coita nom sabe, querrei
dizê-la; e se s'en queixar,
atam muito a servirei;
que, per servir, cuid'acabar
quanto bem sempre desejei.

- Dom Garcia, nom poss'osmar
com'o diga, nen'o direi;
a que[m] servi sempr'e amei,
como direi tam gram pesar?

- Pero de Ponte, se m'ampar
Deus, praz-mi que nos julgu'el-rei.
707

D'ua Cousa Sõo Maravilhado

D'ũa cousa sõo maravilhado:
porque se quer home desembargar
por posfaçar muit'e deostar,
e nulh'home nom seer seu pagado.
Eu, por aquesto, bem vos jurarei
que tam mal torpe no mundo nom sei
com'é o torpe mui desembargado.

E quem [nom] se tem por desvergonhado
por dizer sempr'a quantos vir pesar
e pelo mundo nom poder achar
nẽum home que seja seu pagado,
por desembargado nom lhi contarei;
mais, se o vir, vedes que lhi direi:
- Confonda Deus atal desembargado!

Ca o torpe que sempr'anda calado
non'o devem por torpe a razõar,
pois que é torp'e leixa de falar;
e d'atal torpe sõo eu pagado;
mais o mal torpe eu vo-lo mostrarei:
quem diz mal dos que som em cas d'el-rei,
por se meter por mais desembargado.
595

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