Citações
Citações para inspirar e refletir
As lagartas não podem acreditar na lenda das borboletas — tão antiga entre o seu rastejante e esforçado povo... mas sua felicidade consiste em relembrar, às vezes, o absurdo e maravilha desse velho sonho: o de se transformarem, um dia, em borboletas.
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O crítico é um camarada que contorna uma tapeçaria e vai olhá-la pelo lado avesso.
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Sento-me à mesa. Quem sabe? Quem se senta, se tenta... 60, 70, escrevo, arredondando caprichosamente os zeros. E o burro do papel me fica incompreensivelmente olhando, na espera inútil dos 80. O papel está hoje com uma abominável falta de imaginação. Continua, apenas, olhando-me: vazio, mais quadrado do que nunca. Porque o papel é uma janela que, em vez de a gente espiar por ela, ela é que espia para a gente.
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O hipopótamo é um bruto sapatão afogado.
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Os poetas morrem de parto.
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É preciso escrever um poema várias vezes para que dê a impressão de que foi escrito pela primeira vez.
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O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face...
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Ah, nunca vi ninguém esconder-se tanto, como os bichinhos-de-conta, quando os roubávamos, de baixo dos vasos, à terra cheirosa e úmida: eles enrolavam-se e rolavam, nas palmas de nossas mãos — limpinhos; isentos, ilesos — até que a gente os depusesse, novamente, no chão, com um meticuloso carinho.
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Dizem eles, os pintores, que o assunto não passa de uma falta de assunto: tudo é apenas um jogo de cores e volumes. Mas eu, humanamente, continuo desconfiando que deve haver alguma diferença entre uma mulher nua e uma abóbora.
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No Tempo da Era usava-se esta gostosa expressão pra cima do interlocutor: “Diz isso cantando!” Quando alguém resolve musicar alguma coisa que a gente escreveu, não será mais ou menos isso o que acontece?
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Não deveria caber a um poeta o extrovertido e saltitante encargo de Relações-Públicas. E sim de Relações íntimas. Isto é, comunicação... a sós.
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Nós todos levamos o anel da morte e um dia temos de o trocar com ela.
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— Como vai você aí, vizinho? — Oh! em excelente estado de putrefação.
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Copio e assino esta frase encontrada no velho Schopenhauer: “A soma de barulho que uma pessoa pode suportar está na razão inversa da sua capacidade mental.”
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Ah, essas pequenas coisas, tão quotidianas, tão prosaicas às vezes, de que se compõe meticulosamente a tecitura de um poema... talvez a poesia não passe de um gênero de crônica, apenas: uma espécie de crônica da eternidade.
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Um santo homem que, na sua humildade, se fez pecador, porque achava que não merecia o Céu.
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As velhinhas bonitas são passas de uva.
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Ainda me lembro do susto que levei (“É o fim! Estamos perdidos, Maurício...”) quando os japoneses atacaram Pearl Harbour. Só no dia seguinte vim a saber, por um mapa publicado na imprensa, que Pearl Harbour não ficava no Atlântico, e sim no Pacífico... Uft! Têm aí os srs. professores um exemplo quase letal dos inconvenientes da incultura. Mas, no meu caso, o grande consolo é que toda essa ignorância geográfica devia provir, pelo contrário, da minha vasta cultura francesa.
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Como seriam belas as estátuas equestres se constassem apenas dos cavalos!
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Não sabias? As nossas mortes são noticiadas como nascimentos pela imprensa do Outro Mundo.
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Da influência do estilo Cantinflas em nossa crítica doutrinária.
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A única estátua equestre admissível seria a de Lady Godiva.
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Eles consideram a Torre Eiffel, a Estátua da Liberdade e o Cristo do Corcovado entre as Sete Maravilhas do Mundo Moderno — sem a mínima desconfiança de que poderia ser o contrário.
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Falam em decadência da arte de escrever. Mas isso que por aí se vê, essa imprecisão, essa desconexão, é tudo um simples gráfico do espírito do autor. Não me venham, porém, dizer que ele não tem estilo. Tem-no, e muito seu. O estilo continua sendo o homem. Crise de estilo não existe. O que existe é crise de pensamento.
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Acabaram-se os bondes amarelos... A frase me saiu em decassílabo, viste? E o metro clássico já faz adivinhar um soneto. Ficou neste verso único. E deixo o bonde depositado em meu ferro-velho sentimental. Aqui. Parado. Sonhando. Quem sabe se um dia...
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Não se devia permitir nos relógios de parede esses ponteiros que marcam os segundos: eles nos envelhecem muito mais que o ponteiro das horas.
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O fato é um aspecto secundário da realidade.
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“O curioso é que, nessa mesma época, desapareceram, súbita e misteriosamente, os vestidos de cauda, os iguanodontes e as sobrecasacas.”
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Cansado da sua beleza angélica, o Anjo vivia ensaiando caretas diante do espelho, Até que conseguiu a obra-prima do horror. Veio, assim, dar uma volta pela Terra. E Lili, a primeira meninazinha que o avistou, põe-se a gritar da porta para dentro de casa: “Mamãe! Mamãe! Vem ver como o Frankenstein está bonito hoje!”
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Herodes ordenou a matança dos inocentes e no entanto o único culpado escapou.
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Pensar nos leitores — ou num determinado leitor prejudica a naturalidade, de sorte que a única maneira de um autor não fazer pose é escrever para ninguém. E muito menos para si mesmo.
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Sonhar é acordar-se para dentro.
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— Mas aquelas mocinhas lá embaixo, naquela sala grande, não estão rezando? — Não, meu santo, estão mastigando chiclete.
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Nasci no ano da descoberta do gás neon. Alguns leitores, diante disto, compreenderão a inocuidade de mais esclarecimentos.
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Viajar é mudar o cenário da solidão.
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Os anjos não dão de ombros, não; quando querem mostrar indiferença, os anjos dão de asas.
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O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
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Não me ajeito com os padres, os críticos e os canudinhos de refresco... Não há nada que substitua o sabor da comunicação direta.
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Um dia o Diabo viu uma criança fazendo com o dedo um buraco na areia e perguntou-lhe que diabo de coisa estaria fazendo. — Ué! não vês? Estou fazendo com o dedo um buraco na areia! — espantou-se a criança. Pobre Diabo! O seu mal é que ele jamais compreenderá que uma coisa possa ser feita sem segundas intenções.
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As águas riem como raparigas à sombra verde-azul das samambaias.
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O mais difícil na morte é acomodar-se a gente aos novos hábitos.
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Durante as belas noites de tempestade os relâmpagos tiram radiografias da paisagem.
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A natureza é barroca. O sonho é barroco. Portanto, que teriam vindo fazer neste mundo as colunas gregas?
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O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser o nosso futuro.
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A incessante inauguração do mundo era sempre aos sábados, à tarde — quando se abria o pesado portão dos internatos antigos.
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Não te assustes com a cafonice do título. Eu também não acredito que tenham jamais existido as vendedoras de violetas. É dessas coisas falsamente poéticas, pura invencionice para idealizar a miséria misturando-a com flores — ainda mais a violeta, famosa pela sua humildade e modéstia — ôrre!
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Os sonhos têm luz própria, uma luz que não vem de nenhum sol, de nenhuma lua, de nenhum foco. Está em toda parte. Na próxima vez que sonhares, procura ver se o teu vulto projeta alguma sombra. E se a tua imagem se reflete nalgum espelho. Tolice minha! Nos salões do sonho nunca há espelhos...
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Tudo pode sair muito mais bonito nas fotografias, mas sai muito mais verdadeiro nas pinturas.
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