Citações
Citações para inspirar e refletir
Essa mania de ler sobre autores fez com que, no último centenário de Shakespeare, se travasse entre uma professorinha do interior e este escriba o seguinte diálogo:Que devo ler para conhecer Shakespeare?— Shakespeare.
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Eis que descubro um retrato meu, aos dez anos. Escondo, súbito, o retrato. Sei lá o que estará pensando de mim aquele guri!
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Li apenas duas vezes a obra de Cesário Verde. Dele me ficaram dois versos, duas suaves assombrações que, de longe em longe, atravessam, por um momento, minha memória distraída:“os querubins do lar flutuam nas varandas...”“enleva-me a quimera azul de transmigrar...”Dois versos, direis que é pouco para uma obra inteira, de toda uma vida! Há poetas que se contentam com um busto em praça pública.
58
Os extrovertidos são julgados normais. Quanto aos introvertidos, chegam a submetê-los a tratamento. Mas para curá-los de quê? De não poderem ser chatos, como os outros?
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Como todos os indivíduos profundamente sentimentais, acontece que tenho verdadeiro horror ao sentimentalismo verbal.Daí, certos toques de “humour” nos meus poemas. Uns toques de impureza, pois.E na verdade te digo que poeta puro, mesmo, “na santidade da sua nudez”, só mesmo a Cecília Meireles.A nossa Cecília que, a 9 do mês de novembro em que escrevo estas linhas, faz exatamente cinco anos que não morreu.
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Conheci uma moça meio biruta, que era um encanto. Dizia coisas. Certa vez saiu-me com esta: “O cristal é mais frágil porém muito mais sincero que o bisquit.” Foi assim mesmo que ela disse, sem pausa e sem pontuação: tinha uma frase cantante e ininterrupta como conversa de vento. Um encanto, repito. Seria biruta, mesmo?
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O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente.
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A primeira esquina, encontro uma cara oca, uma cara sem cara... O melhor, o melhor é voltar, o quanto antes, para o quarto. Com o máximo cuidado de não olhar, acaso, para o espelho.
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Bem que eu desejaria entender tanto de poesia como certos críticos, mas aí, então, não conseguiria fazer um único verso...
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— Manuela é nome de mulher de sapo — sentencia Lili. E não adianta perguntar por quê. — Todo o mundo sabe...
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O mais difícil, mesmo, é a arte de desler.
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As dentaduras expostas nas montras de artigos protéticos parecem dentaduras de antropófagos.
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São Tomé — que, como todo o mundo sabe, foi o precursor da dúvida cartesiana — jamais perdeu a obsessão das verdades palpáveis e por isso foi parar no Inferno. Ora, os mais infelizes dentre os infernados são os arrependidos e um destes censurou tristemente a Tomé:— Viste? Só de teimoso tu perdeste o Céu.E Tomé:— O Céu? Não sejas doido... Só existe o Inferno!
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Eu só te poderia dar uma noção do nada se não tivéssemos nascido. Agora é tarde, é muito tarde, minha filha... Ah, deliciosamente tarde!
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Uma das coisas que não consigo absolutamente compreender são os que se convertem a outras religiões. Para que mudar de dúvidas?
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Vi uma guriazinha vindo pela calçada, de pé no chão, e arrastando, preso a uns cordéis, o seu par de sapatos. Eles a seguiam que nem dois cachorrinhos. Uma verdadeira “hippie” — mas ainda em estado de puro lirismo.
54
Venezianas que não sejam verdes são um revoltante crime contra a natureza.
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O verdadeiro inventor da leitura dinâmica é esse numeroso público acostumado a ler os letreiros nas telas cinematográficas. Eis um dos motivos por que sou contra a dublagem dos filmes. Tirar aos aficionados do cinema a sua costumeira leitura relâmpago é fazer sabotagem à campanha do Mobral — pois abriríamos as salas de projeção exatamente a esses a quem se deveria convencer, antes de tudo, de que o analfabetismo é uma porta fechada.
58
Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí... Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo!
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Foi no meio da rua. Uma parada. Um abraço. O outro perguntou-lhe:— Para onde vai o senhor?— Para o outro lado.
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Os cirurgiões têm olhos de odaliscas...
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A verdadeira couve-flor é a hortência.
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Havia um tempo em que o céu mirava-se nos meus olhos e não meus olhos no azul do céu, o que não é nenhuma novidade, porque todo o mundo já passou por essa fase: só tem que nem todos se lembram.
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Desconfio muito que, nos dias de nevoeiro, os fantasmas aproveitam para passear incógnitos pelas ruas...
64
A sensação póstuma com que folheamos essas revistas atrasadas na sala de espera dos consultórios médicos.
28
Amor, quantos crimes se cometem em teu nome!
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— Os Anjos existem?— Devem existir, por certo, em vista da insistência com que aparecem em meus poemas.
40
Ah! esses vizinhos habilidosos que estão sempre consertando coisas, martelando coisas, nas horas mais insólitas, enquanto eu me acho entregue apenas a este silencioso vício: a leitura.
48
As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho.
80
Não há quem não reconheça como a voz faz parte de uma personalidade. Imagine-se que horror a Greta Garbo falando com uma voz de falsa grã-fina carioca.
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Dizeis que tudo é amor e eu vos direi que a fome é tudo; tanto assim que o verbo comer, na insondável sabedoria do povo, também significa possuir carnalmente.
38
O poema é um objeto súbito:Os outros objetos já existiam.
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A coisa mais solitária que existe é um solo de flauta.
49
Essa fúria de limpeza que ataca periodicamente as donas de casa não será por acaso uma lavagem de consciência culpada?
48
Esse tic-tac dos relógios é a máquina de costura do Tempo a fabricar mortalhas.
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Quando guri, eu tinha de me calar, à mesa: só as pessoas grandes falavam. Agora, depois de adulto, tenho de ficar calado para as crianças falarem.
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Qual a essência do cômico?Um homem de perna de pau nos deixa indiferentes, polidamente indiferentes.Mas três homens de perna de pau andando juntos na rua... Essa não! Por que estás rindo?
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Um autor, primeiro, é assunto. Mas a glória, mesmo, é quando ele vira falta de assunto.
57
Não, não tenhas escrúpulos: se, alta noite, meteres uma bala no ouvido, os vizinhos pensarão — polidamente — que foi apenas um pneu que estourou.
58
A Art poétique de Boileau, sim... mas que extraordinária Arte da Prosa.
49
Esse olhar sonhador com que as mulheres saem do cinema onde a heroína do filme sofreu uma curra.
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O verão é um senhor gordo sentado na varanda e reclamando cerveja. O inverno é o vovozinho tiritante. O outono, um tio solteirão. A primavera, em compensação, é uma menina pulando na corda.
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Com a adição de mais um dia nos anos bissextos — esse indesejado 29 de fevereiro — a gente sempre desconfia que na verdade foi vítima de uma subtração.
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Na mala que nem o Anjo da Guarda, nem o Delegado do Distrito, nem eu mesmo consigo encontrar, está a minha imagem única, fechada a chave — e a chave caída no fundo do mar!Não adianta chamar escafandro, nem homens-rãs, nem a sereia mais querida, nem os atenciosos hipocampos, nada adianta.E, por falar em querida, jamais se viu um crime tão perfeito:— Não existem vestígios de mim.
61
Não sei se alguém já descobriu que a sutilíssima arte desses palhaços de circo está justamente na graça que eles não têm.
50
Ainda há gente que, por preço nenhum, se animaria a entrar num cemitério à noite. Bobagem. Somente no Dia de Finados é que exsurge dentre aqueles mármores um que outro fantasma. E mesmo esses poucos não prestam a mínima atenção a qualquer vivente — tão ocupados se acham eles em limpar do limo suas próprias lápides, em roubar de outros defuntos algumas flores para as dispor artisticamente ao pé de seus túmulos esquecidos.
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As épocas de transição nunca foram idades de ouro, séculos de ouro. São apenas épocas de arame. Que a gente tem de atravessar como o bamboleante fio estendido de um lado a outro do circo. E isto, note-se bem, sem rede de segurança.(Lá embaixo, na arena, estão rugindo as feras.)
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Também me lembro que quando eu era gurizote e briguei mais uma vez para sempre com a Gabriela, deixei-a ali na praça (era domingo, depois da missa) e fui passar pela sua casa, pela sua calçada, pela sua rua.
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