Citações
Citações para inspirar e refletir
Um folhetinista — um corretor. O corretor também precisa ser rápido e conhecer a língua a fundo. Por que não o incluímos na literatura? A vida possui compartimentos. Aquele pode familiarizar-se com este e este com aquele, todos com todos. A fortuna é cega. Os acasos determinam o homem. Sabemos, por certo, o que somos, mas não sabemos o que poderemos vir a ser. Por que incluímos justamente o folhetinista na literatura?
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O mundo das relações, no qual um cumprimento é mais forte do que uma crença e no qual as pessoas se asseguram do inimigo quando agarram a sua mão, considera como cálculo a renúncia ao seu sistema, e ainda que não chegue a detestar Hércules por dificultar a sua própria vida e a de três mil bois, ele sonda os seus motivos e pergunta: “O que o senhor tem contra Áugias?”.
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Não me relaciono de facto com pessoas que utilizam a palavra “efetivamente”.
72
Uma forma de sociedade que conduz à liberdade mediante a coação pode ficar atolada no meio do caminho. A outra forma, que conduz ao despotismo por meio da liberdade, sempre atinge a sua meta.
73
O rufião é o órgão executivo da imoralidade. O órgão executivo da moralidade é o chantagista.
87
O nacionalismo é um turbilhão em que qualquer outro pensamento desaparece.
74
É natural morrer por uma pátria na qual não se pode viver. Mas nesse caso, enquanto patriota, eu preferiria o suicídio de uma derrota.
86
O mundo ainda se recusa a admitir sem reservas que a fome e o amor governam a sua economia. Pois ele por certo permite que a cozinheira dê as ordens, mas a prostituta é contratada meramente como ajudante.
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Quando o pecado se atreve a avançar, é proibido pela polícia. Quando se esconde, recebe um alvará.
86
Dizem que o meu estilo capturou todos os ruídos da época atual. Isso torna-o aborrecido aos contemporâneos. Mas pessoas de outra época talvez o coloquem ao ouvido como uma concha na qual um oceano de lama toca música.
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Não cumprimentar não basta. Também não cumprimentamos pessoas que não conhecemos.
70
Durante a semana, conseguimo-nos fechar para o mundo. Mas há um sentimento dominical penetrante do qual não conseguimos escapar nem mesmo num porão, no topo de uma montanha ou dentro de um elevador.
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Os jornalistas escrevem porque não têm nada a dizer, e têm algo a dizer porque escrevem.
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Em algum lugar, encontrei a seguinte inscrição: “Pede-se deixar o lugar assim como se deseja encontrá-lo”. Se os educadores da vida falassem às pessoas com a metade da ênfase dos donos de hotéis!
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Os vermes dizem: “Sem nós não haveria cadáveres!”.
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Quando os inquilinos souberam que a dona do prédio era uma cafetina, todos quiseram sair. Mas eles ficaram no prédio quando ela lhes garantiu que tinha mudado de ramo e agora se dedicava à agiotagem.
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O que faz de mim a maldição da sociedade à margem da qual vivo é o modo súbito como renomes, caracteres e cérebros se revelam perante mim sem que eu precise desmascará-los. Alguém carrega a sua importância por anos a fio até que eu o alivie desse peso num momento imprevisto. Deixo-me enganar pelo tempo que quiser. Não é assunto meu “penetrar as intenções” das pessoas, e de modo algum me preparo para isso. Mas certo dia o meu vizinho coloca a mão na testa, sabe quem é e odeia-me. A fraqueza foge de mim e diz que sou inconstante. Tolero o comodismo porque não me pode fazer mal; certo dia, quando se tratar de um sim ou de um não, ele morrerá espontaneamente. Basta que alguma vez eu esteja certo em fazer algo que tenha cheiro de carácter ou que de algum modo me torne suspeito: a mentalidade revela-se automaticamente. Se for verdade que maus exemplos arruínam bons costumes, isso é válido em medida ainda maior para os bons exemplos. Qualquer um que tenha a força de ser um exemplo deforma o seu ambiente, e os bons costumes, que são o conteúdo da vida da má sociedade, correm sempre o risco de serem corrompidos. A insipidez tolera o meu comportamento enquanto ele se mantém em limites académicos; se o demonstro numa acção, porém, ela assusta-se e foge. Aguento o tédio por muito mais tempo do que ele a mim. Dizem que sou intolerante. O contrário é verdadeiro. Posso relacionar-me com as pessoas mais tediosas sem o notar. Estou tão ocupado comigo mesmo a cada momento que nenhuma conversa me pode fazer mal. Para a maioria, a vida social é um banho de imersão em que se submerge a cabeça; a mim, ela mal me umedece os pés. Nenhuma anedota, nenhuma recordação de viagem, nenhuma dádiva do cofre do conhecimento, numa palavra, aquilo que as pessoas consideram ser o suprassumo da conversação, é capaz de deter a minha actividade interior. Em todas as épocas, a força criadora causou maior mal-estar à impotência do que esta a ela. A partir disso se explica porque a minha companhia se torna insuportável a tanta gente e que perseverem ao meu lado apenas em razão de uma cortesia despropositada. Seria coisa fácil para mim ir ao encontro daqueles que sempre precisam de ser estimulados durante uma conversa. Por mais inculto que eu seja e por mais que eu entenda menos de astronomia, contraponto e budismo do que um recém-nascido, eu por certo seria capaz, mediante a habilidosa intercalação de perguntas, de simular um interesse e de demonstrar um conhecimento superficial que daria mais alegrias a um sabe-tudo do que um conhecimento especializado que o poderia envergonhar. Mas eu, que em toda a minha vida ainda não dei um passo ao encontro de necessidades que não reconheci como estimuladoras do espírito, mostro ser um completo malcriado nessas situações. E não, talvez, um malcriado que boceja — isso seria humano —, não, mas um malcriado que pensa! Ao mesmo tempo, desdenho comunicar os meus próprios dons ao indigente que padece suplícios de Tântalo diante dos seus conhecimentos adquiridos pela leitura e que precisa passar fome nos celeiros egípcios do conhecimento. Com um coração endurecido ao ponto da petrificação, chego a fazer piadas piores do que aquelas que me ocorrem, e não revelo nada daquilo que escrevo no meu bloco de notas entre dois goles de café. No dia em que, num momento de descuido, não me ocorrer nenhuma ideia e existir o risco de que a vida social penetre no meu cérebro, dou um tiro em mim.
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Não nos devemos entristecer com o que a cultura fez da mulher num trabalho de dois milénios. Um bocadinho de curiosidade remedeia tudo.
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Antes um cavalo do campo se acostumar a um automóvel do que um passante da Ringstrasse se acostumar comigo. Pessoas assustadiças já provocaram muitos acidentes.
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Os moralistas ainda resistem ao facto de o valor da mulher determinar o seu preço. Entretanto, há muito que o preço determina o seu valor, e disso nenhuma moral dá conta.
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Nápoles é uma cidade altamente moralista em que se pode procurar mil rufiões até encontrar uma prostituta.
78
Não basta à necessidade de solidão que se esteja sentado sozinho a uma mesa. Também precisa haver cadeiras vazias em volta. Quando o empregado de mesa tira uma dessas cadeiras nas quais não há ninguém sentado, sinto um vazio e a minha natureza sociável desperta. Não posso viver sem cadeiras vazias.
78
O jornalismo empestou o mundo com talento; o historicismo, sem ele.
72
Com frequência, o historiador é apenas um jornalista virado para o passado.
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As crianças não entenderiam porque os adultos se defendem contra o prazer; os velhos, por sua vez, entendem menos ainda.
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Hoje em dia não é possível distinguir o ladrão da vítima do roubo: nenhum deles leva objetos de valor consigo.
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Divido as pessoas que não cumprimento em quatro grupos. Há aquelas que não cumprimento para não me comprometer. Esse é o caso mais simples. Há aquelas que não cumprimento para não as comprometer. Isso já exige uma certa atenção. Mas então há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto delas. Com estas é ainda mais difícil de lidar. E, por fim, há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto de mim mesmo. Isso exige um cuidado especial. No entanto, já tenho uma rotina razoavelmente estabelecida e, pela maneira como não cumprimento, sei expressar de tal modo cada uma destas nuanças que não sou injusto com ninguém.
73
Uma individualidade pode resistir mais facilmente à coação do que um indivíduo à liberdade.
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Escreve-se de tal maneira sobre o tempo e o espaço como se fossem coisas para as quais ainda não se tivesse encontrado qualquer aplicação na vida prática.
78
Quando corrigimos um erro após muito tempo, os superficiais criticam o erro e os profundos chamam-nos de inconsequentes.
76
O prazer feminino compara-se ao masculino como uma epopeia a um epigrama.
74
Subestimam o meu comodismo quando dizem que antipatias pessoais me levaram a declarar que determinado literato é um charlatão. Ora, não vou gastar o meu ódio para liquidar uma mediocridade literária!
70
O maior acontecimento local, que ocorre em todas as cidades simultânea e incessantemente, é o menos notado: a entrada do caixeiro na vida intelectual.
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Desprezemos as pessoas que não têm tempo. Lastimemos as pessoas que não têm trabalho. Mas invejemos os homens que não têm tempo para trabalhar!
74
Ninfa — esse é também um estágio da vida de alguns insetos.
78
O ciúme é um ladrar de cães que atrai os ladrões.
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As mulheres nunca estão com a cabeça no lugar, e por isso também querem que os homens não estejam com a sua no lugar, mas no lugar onde elas estiverem.
75
O erotismo relaciona-se com a sexualidade como o ganho com a perda.
76
Que a mulher tenha tanto espírito quanto um espelho tem corpo.
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Os pensamentos são isentos de impostos. Mas acabamos tendo problemas do mesmo jeito.
87
Uma mentira inocente exigida pelas circunstâncias é sempre perdoável. Mas aquele que diz a verdade sem coação não merece indulgência.
83
Num escritor podemos observar sintomas que deixariam um grande negociante maduro para a internação.
67
Há uma credulidade inferior da confiança e uma credulidade superior do ceticismo. Um sujeito é enganado, outro é homem o bastante para enganar a si próprio. Aquele é feito de bobo, este é um sabedor que não deixa aquilo que sabe estragar a sua brincadeira quando olha por cima do próprio ombro. (Eu queria a assinatura dela num postal. Pedi a um amigo que a falsificasse. Se ele acrescentar que é autêntica, certamente acreditarei.) Antes, quando eu ainda acreditava, não teria podido ter ideia da minha credulidade. Agora, fico frequentemente perplexo com as surpresas que me faço e com o facto de me surpreender. Desde que a minha desconfiança cresceu, sei o quanto acredito.
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O sexual é apenas a subtração de duas forças. O voyeur soma três.
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O que fazem os membros femininos das associações de bons costumes? Dedicam-se a eliminar a prostituição. O que importa é o incêndio, mesmo quando as mulheres não queimam mais, mas querem apagar o fogo. O que importa é o incêndio!
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Deus tomou a costela da mulher, fez o homem, tirou-lhe o fôlego vital e transformou-o num torrão de terra.
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Com o passar dos anos tornei-me um oportunista em busca de desvantagens sociais. Espreito, farejo e caço as ocasiões em que poderia escandalizar um conhecido ou perder uma relação influente. Talvez ainda alcance uma boa posição!
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A imaginação tem o direito de gozar a sombra da árvore que transforma em bosque.
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