Poemas

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

E mais existo

Os filósofos querem que o vermelho
só exista
quando olho para ele.
Mas diante da papoula
sobre a mesa
minha funda certeza é
que este sangue em flor…

949
Marina Colasanti
Marina Colasanti

De caça a caçador

Para alcançar palavras que nos fogem
preciso é acarpetar os passos
velar de espesso véu nosso desejo
e esperá-las
calados
de tocaia.
Sempre haver…

633
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Com seu grito imenso

O moço meu vizinho
jogou-se da janela.
Quinze andares
abismo de pastilhas azuis
céu vertical
que acaba no cimento.
Nenhum arbusto ou galho
na…

1 142
Marina Colasanti
Marina Colasanti

A coxa

Sendo redonda
a coxa
ainda assim tem
dois lados
pois tem um lado de fora
que sem medo se mostra
e tem um lado de dentro
que é sagrado.
…

1 268
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Naquela praça

Era um banheiro o que eu queria
naquela praça aplastrada de sol
não uma andorinha morta.
Tirar a poeira das sandálias
molhar a testa e os pulsos
qualque…

1 120
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Paisagem entre vidro e espelho

Aqui sentada
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria image…

1 085
Marina Colasanti
Marina Colasanti

E rainúnculos

Trezentos anos
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão

1 130
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Desde que

Desde que operou o nariz
essa mulher joga a cabeça para trás
e ri.
Livrou-se do perfil
que era dela e
das outras mulheres da família
apagou
do…

1 147
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Ao largo

Um homem nada
Só
em mar aberto.
Metade do seu corpo nada
em água
metade do seu corpo nada
em céu
e ele todo em azul nada
e mais nada.

1 079
Marina Colasanti
Marina Colasanti

No túmulo de inox

Morto
resseco
o inseto
jaz sobre o fogão e
me recebe quando tiro a panela.
Ainda há pouco
eu lhe admirava a beleza na janela
exata esmeralda

1 088
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Na encosta são

Os ciprestes
na encosta
não são árvores.

Os ciprestes
na encosta são
pontos de exclamação
da natureza.

Villa Serbelloni, Bellagio,…

1 007
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Sem vermelho, porém

Um jovem de Botticelli
toma café
no libre service das Galeries Lafayette.
É aquele de barrete vermelho
com quem já estive em Washington,
mas sem barrete…

942
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Chamava-se Gina

Minha babá foi encontrada
em meio a um campo
e estava semimorta.
Mais que babá
governanta
com seu francês aspirado
de toscana boca.

Min…

1 236
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Como nada

No quinto degrau
da escada do jardim
o gambá morto.
Nem pássaro
nem cão
de quem é fácil
apiedar-se.
Apenas um gambá
cadáver sem glamour …

1 219
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Cuidando de comida

Na sala de cima
meu marido escreve.
Embaixo
na cozinha
faço tinir as louças.
Ponho-me em seu lugar
ouvindo sem ouvir
este bater de prato

1 205
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Tempo afora, morte adentro

Gordas como repolhos
as rosas são irmãs das hortaliças
na horta portuguesa que vejo
da janela.
A abóbora esquecida no telhado
talo cortado
avança e…

979
Marina Colasanti
Marina Colasanti

De encrespado dorso

Na manhã nublada
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão…

1 093
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Modigliani desenha

Que peso invisível sujeita músculos
e carnes
dessas mulheres cariátides?
Eu poderia dizer:
viga
arquitrave.
Eu poderia pensar:
mármore
pe…

1 010
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Porque era moda

Ela tinha uma peruca no banheiro
- no tempo em que usávamos perucas -
e rolos espalhados no mármore da pia.
Tanto tempo passado
volto a encontrá-la e
di…

1 097
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Projeto póstumo

Se
quando morta
me fizerem busto
volto
pomba gentil
e
cago nele.

1 300
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Por ser meu pai

Agradeço
por ser meu pai
o louco
e não o probo
por ser o perdulário
e não o avaro
que tudo conservou.
Agradeço a meu pai
as mãos abertas<…

1 379
Marina Colasanti
Marina Colasanti

De quem hoje penso

Olhando os velhos
- aqueles que eu ontem dizia velhos
e de quem hoje penso: nós -
olhando os velhos
em suas fotografias de juventude
constato
com n…

1 109
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Quando a fome

Como lobo esfaimado
arrodeando aldeia
o turista se achega ao restaurante.
Hirto o invisível pelo
afiadas orelhas ao inexistente aviso
fareja com os olho…

680
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Sera d'estate a Roma

Accanto a Palazzo Altemps
in trattoria
il vecchio cameriere spina il pesce
con la stessa protesa devozione
con cui San Girolamo curava
i suoi scritti,<…

1 324