Citações neste tema
Guerra e Paz
Karl Kraus
A superioridade de fogo é uma vantagem se por meio dela se devem proteger bens culturais ainda mais importantes do que ela. Porém, visto que a superioridade de fogo exclui a existência de bens culturais mais importantes, não resta nada para explicar a vantagem da superioridade de fogo senão a consideração de que a superioridade de fogo serve para proteger a superioridade de fogo.
76
Karl Kraus
O palavrório é conduzido por milhares de tubos à consciência popular. Um soldado ferido, que certamente jamais lera um livro ou mesmo um jornal, não obstante apropriou-se do tom com que uma consciência tranquila se despede. «Agora posso morrer em paz», disse ele, «hoje matei catorze!»
58
Karl Kraus
Que convocação de instrução! Editores têm a Cruz de Ferro, soldados escrevem folhetins e generais são doutores.
62
Karl Kraus
Como o mundo é governado e conduzido à guerra? Os diplomatas mentem aos jornalistas e acreditam na mentira quando a leem.
64
Karl Kraus
Um poeta alemão chamou o barulho das metralhadoras de “música das esferas” e um poeta austríaco observou como “todos os caules estão em posição de sentido”. Se os poetas obedecerem dessa forma, o cosmos e a natureza começarão a rebelar-se.
70
Karl Kraus
Que confusão mitológica é essa, afinal? Desde quando Marte é o deus do comércio e Mercúrio o deus da guerra?
76
Karl Kraus
Não obstante, aquele que retorna a casa não se deixará reintegrar facilmente na vida civil. Acredito, pelo contrário, que ele invadirá o interior do país e só então dará início à guerra. Ele arrebatará os êxitos que lhe foram negados e a guerra terá sido uma brincadeira de crianças comparada à paz que então irromperá. Que Deus nos proteja da ofensiva que então será iminente! Uma atividade medonha, não mais domada por comando algum, pegará em armas e em prazeres em todas as situações da vida, e haverá mais morte e mais doença no mundo do que a guerra alguma vez lhe exigiu.
70
Karl Kraus
Contra a acusação de que soldados alemães cortam pés de crianças a golpes de machado, jornalistas alemães apelam ao facto de esse povo ter produzido Lutero, Beethoven e Kant. Mas em relação a isso, esse povo é pelo menos tão inocente quanto em relação às atrocidades que lhe são atribuídas, e seria mais eficaz, contra tais acusações, apelar aos espíritos que a Alemanha ainda quer produzir no futuro. Se chegamos ao ponto de julgar que a pátria não exige dos seus génios outros serviços que dos seus lenhadores, e se aqueles, por um acaso mortal, podem ser dispensados da oportunidade de lhe prestar outros serviços voluntariamente, então por certo não surgirá mais génio algum. As façanhas intelectuais de Lutero, Beethoven e Kant, apesar de tudo o que a cultura alemã sabe a respeito e a ideologia alemã nelas inclui, não têm qualquer ligação com um estado do qual hoje, ao nível pessoal, talvez apenas se libertassem graças ao ofício sacerdotal, à surdez e a uma deformação da coluna vertebral.
57
Karl Kraus
Entre a língua e a guerra podemos constatar aproximadamente a seguinte relação: aquela língua que mais estiver enrijecida sob a forma de chavões também será responsável pela tendência e pela disposição para substituir a substância por um sucedâneo de entonação; com convicção, achar irrepreensível em si própria tudo aquilo que no outro apenas provoca censura; desmascarar com indignação aquilo que também se gosta de fazer; enredar qualquer dúvida num matagal de frases e repelir sem esforço, como um ataque inimigo, qualquer suspeita de que alguma coisa não esteja em ordem. Essa é sobretudo a qualidade de uma língua que hoje se parece com aquele produto acabado cuja venda constitui o conteúdo da vida dos seus falantes; ela brilha como uma auréola e tem apenas a alma óbvia do homem de bem que não tem tempo de cometer uma maldade porque a sua vida se limita aos negócios e, caso não seja suficiente, deixa uma conta em aberto.
61
Karl Kraus
O herói é alguém que encara uma multidão. Na nova guerra, o primeiro a conquistar essa posição é o lançador de bombas aéreas, alguém que inclusive encara a multidão de cima.
74
Karl Kraus
Um aprendiz de feiticeiro parece ter-se aproveitado da ausência do mestre. Só que em vez de água corre sangue.
62
Karl Kraus
O jogo infantil “nós brincamos de guerra mundial” é ainda mais desolador do que a realidade “nós brincamos de criança”. Seria desejável a essa humanidade que as suas crianças de colo começassem a matar com êxito as outras de fome e acabassem com a clientela das amas de leite.
63
Karl Kraus
É com razão que sempre se afirma nas reflexões sobre cultura e guerra que os utilitários são os outros. Essa concepção provém do idealismo alemão, que também transfigurou os géneros alimentícios e os laxantes.
58
Karl Kraus
Talvez a guerra traga uma única mudança, mas uma mudança em razão da qual ela certamente não foi empreendida: as vítimas da psicanálise voltarão sadias para casa. Pois a guerra entende quase tão pouco de psicologia quanto a psicanálise, mas, diante do método individualizante desta, que na maioria dos casos se atém ao nada, a guerra pelo menos tem a vantagem de, na maioria dos casos, padronizar os indivíduos, e assim, proporcionar ao nada a sua verdadeira posição. É bom quando águas-vivas que nem sequer eram instrumentos sejam elevadas a tal condição.
76
Karl Kraus
Esta época sempre prefere uma informação certa a uma morte heroica incerta. É por isso que o jornal, que fala a língua da época como ninguém, noticiou o seguinte: “Morte heroica iminente dos soldados alemães na China”.
75
Karl Kraus
“Em função dos acontecimentos bélicos, precisamos, para nosso pesar, restringir temporariamente o tamanho dos nossos números; contudo, assim que as condições normais forem restabelecidas, empenhar-nos-emos em compensar os nossos assinantes com a publicação de números mais volumosos.” É o que promete a Österreichische Rundschau. Como se vê, há circunstâncias que poderiam levar o mais encarniçado pacifista a pensar de maneira menos preconceituosa acerca do valor da guerra.
60
Karl Kraus
Se alguém tivesse dito ao Diabo, para quem a guerra desde sempre foi uma pura paixão, que alguma vez haveria homens com um interesse comercial na continuação da guerra, que eles nem sequer se dariam ao trabalho de ocultá-lo e que os seus lucros ainda lhes proporcionariam reconhecimento social, ele o mandaria contar essa história a outro. Porém, quando se tivesse convencido do facto, o Inferno envergonharia de vergonha e ele teria de reconhecer que durante toda a sua vida foi um pobre diabo!
70
Karl Kraus
Quando se teme a ordem de batalha da vida burguesa não se deveria agarrar a oportunidade e desertar para a guerra?
69
Anterior
Página 11