Citações neste tema
Literatura e Palavras
Machado de Assis
[…] a vida dos livros é vária como a dos homens. Uns morrem de vinte, outros de cinquenta, outros de cem anos, ou de noventa e nove, para não desmentir o poeta laureado. Muitos há que, passado o século, caem nas bibliotecas, onde a curiosidade os vai ver, e donde podem sair em parte para a história, em parte para os florilégios. Ora, esse prolongamento da vida, curto ou longo, é um pequeno retalho de glória. A imortalidade é que é de poucos.
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Machado de Assis
Agora, ao levantar-me, apesar do cansaço de ontem, meti-me a reler algumas páginas do Prometeu de Ésquilo, através de Leconte de Lisle; ontem entretive-me com Fedon de Platão, também de manhã; veja como ando grego, meu amigo.
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Machado de Assis
Taine prevê que no ano 2000 ainda se lerá a Partida de gamão , uma novelinha de trinta páginas; e, falando das outras narrativas do autor de Carmen [Prosper Mérimée], todas de escasso tomo, faz esta observação verdadeira: “É que são construídas com pedras escolhidas, não com estuque e outros materiais da moda”.
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Machado de Assis
Um dia, quando já não houver Império Britânico nem República Norte-Americana, haverá Shakespeare; quando se não falar inglês, falar-se-á Shakespeare.
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Machado de Assis
Não se entristeça com o silêncio; não o há completo, e em todo caso, console-se com a ideia de que há vinte e trinta anos era pior. Alencar mais de uma vez se me queixou da maneira por que a imprensa de então acolhia os seus livros, e já tinha nome feito. Não os acolhia mal, ao contrário; mas a nossa imprensa então era mais comercial e política. As notícias literárias eram simpáticas, mas curtas, as palavras quase tabelioas.
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Machado de Assis
Mas ainda que algumas páginas não agradem a todos, não faz mal. “ Je n’écris que pour cent personnes ”, dizia Stendhal no princípio deste século, e vê que os seus livros vão galgando o fim, e entrarão pelo outro.
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Machado de Assis
[…] o verso solto de José Basílio [da Gama] tem aquela harmonia, seguramente mais difícil, a que é preciso chegar pela só inspiração e beleza do metro. Não serão sempre perfeitos. O meu bom amigo [Henrique César] Muzzio, companheiro de outrora, crítico de bom gosto, achava detestáveis aqueles dois famosos versos do Uruguai:
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Machado de Assis
Este último nome [Baudelaire] é um dos feitiços da nova e nossa igreja; e entretanto, sem desconhecer o belo talento do poeta, ninguém em França o colocou ao pé dos grandes poetas; e todavia a gente continua a deliciar-se nas estrofes de Musset, e a preferir L’Espoir en Dieu , à Charogne . Caprichos de gente velha.
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Machado de Assis
Tive um antecessor ilustre, apto para este árduo mister, erudito e profundo, que teria prosseguido no caminho das suas estreias, se a imaginação possante e vivaz não lhe estivesse exigindo as criações que depois nos deu. Será preciso acrescentar que aludo a V. Exa.?
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Machado de Assis
[…] se tu tens algum filho, leitor amigo, não o faças político, nem literato, nem estatuário, nem pintor, nem arquiteto! Pode ter algum pouco de glória, e essa mesma pouca: muita que seja, nem só de glória vive o homem. Cantor, isso sim; isso dá muitos mil cruzados, dá admiração pública, dá retratos nas lojas; às vezes chega a dar aventuras romanescas.
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Machado de Assis
O cronista não tem cargo d’almas, não evangeliza, não adverte, não endireita os tortos do mundo; é um mero espectador, as mais das vezes pacato, cuja bonomia tem o passo tardo dos senhores do harém. Debruça-se, cada domingo, à janela deste palacete, e contempla as águas do Bósforo, a ver os caíques que se cruzam, a acompanhar de longe a labutação dos outros.
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Machado de Assis
[…] há sempre uma qualidade nos contos, que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos.
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Machado de Assis
[…] é preciso atender ao uso das palavras. Não cansam só as línguas que as dizem; elas próprias gastam-se. Quando menos, adoecem. A anemia é um dos seus males frequentes; o esfalfamento é outro. Só um longo repouso as pode restituir ao que eram, e torná-las prestáveis.
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Machado de Assis
Um contador de histórias é justamente o contrário de historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias. Por que essa diferença? Simples, leitor, nada mais simples. O historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado, humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar o que se passou é só fantasiar.
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Machado de Assis
As frases feitas são a companhia cooperativa do espírito. Dão o trabalho único de as meter na cabeça, guardá-las e aplicá-las oportunamente, sem dispensa de convicção, é claro, nem daquele fino sentimento de originalidade que faz de um molambo seda. Nos casos apertados dão matéria para um discurso inteiro e longo — dizem, mas pode ser exageração.
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Machado de Assis
Os que procuram resgatar a pureza da língua, trazendo à luz de uma constante publicidade as obras clássicas dos velhos autores, sempre nos tiveram entre os seus aplaudidores mais entusiastas.
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Machado de Assis
A literatura, como Proteu, troca de formas, e nisso está a condição da sua vitalidade.
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Machado de Assis
Tenho notado nos nossos atuais escritores o uso de palavras vulgares e conhecidas com desprezo de termos poéticos ou simplesmente clássicos.
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Machado de Assis
Cumpre ter ideias, em primeiro lugar; em segundo lugar expô-las com acerto; vesti-las, ordená-las, a apresentá-las à expectação pública. A observação há de ser exata, a facécia pertinente e leve; uns tons mais carrancudos, de longe em longe; uma mistura de Geronte e de Scapin, um guisado de moral doméstica e solturas da rua do Ouvidor…
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