Poemas neste tema
Relações e Família
Ymah Théres
Estudos
I
Vosso o ventre, vossa a mesa,
vossa a escolha e o meu amor.
Vossos todos os perfumes
que vos dei - bandeja em flor.
Vosso o riso e vossa a hora
de meu gosto e meu penhor.
Vossas, neves que já tive,
vossos, beijos, meu senhor.
Que andarilhos sonhos gastos
vos visitam, de onde vou:
minha busca, meu silêncio,
meu olhar de solidão,
minha sede de água pura,
minha mão em vossa mão.
II
Escorre do meu ventre a lassidão do viver. (não foi ontem nem hoje: é de sempre o cansaço de estar ausente do rumo dos faróis). Escorre, como uma lava, e faz sulcos no rosto e nas mãos: migalhas mortas de uma fome velha, de brinquedos esfarinhados no fundo do baú. No entanto, como acender as lanternas, na noite soturna, que alimentem, de secreto abismo, rosas temporãs?
Vosso o ventre, vossa a mesa,
vossa a escolha e o meu amor.
Vossos todos os perfumes
que vos dei - bandeja em flor.
Vosso o riso e vossa a hora
de meu gosto e meu penhor.
Vossas, neves que já tive,
vossos, beijos, meu senhor.
Que andarilhos sonhos gastos
vos visitam, de onde vou:
minha busca, meu silêncio,
meu olhar de solidão,
minha sede de água pura,
minha mão em vossa mão.
II
Escorre do meu ventre a lassidão do viver. (não foi ontem nem hoje: é de sempre o cansaço de estar ausente do rumo dos faróis). Escorre, como uma lava, e faz sulcos no rosto e nas mãos: migalhas mortas de uma fome velha, de brinquedos esfarinhados no fundo do baú. No entanto, como acender as lanternas, na noite soturna, que alimentem, de secreto abismo, rosas temporãs?
971
Cláudio Alex
Não sou arroz, eu não!
Eu não sou arroz, não, meu amor!
Te esforçaras para faze-lo,
mas escorregarei, sempre
pela saída impossível,
pela janela que parecia fechada.
E te sacudirei com força,
te revirarei por dentro
cairás sempre deitada na cama
e eu te terei.
Não sou arroz, eu não
nunca terás a certeza
completa de que sou
todo teu, por mais que eu diga
que eu afirme, ficara sempre
uma pontinha de duvida
de toda essa certeza.
Saberás que sou teu,
saberás que me tens,
mas temeras sempre
aquela saída oculta
que possa parecer uma porta
por onde eu
poderei desaparecer
por trás dela.
E me amaras loucamente
e me desejaras ter dentro de ti
porque quando estiver ali dentro,
envolvido no jogo da paixão terás
todas certezas.
Mas em outra hora, não terás tantas certezas,
e por essa razão fazer amor comigo
será mais imprescindível
do que com qualquer outra pessoa,
entregar-te-á com mais força
com maior afinco, porque
será quando terás a certeza
que me tens.
Nunca te acharas dona da situação
por completo, poderei te surpreender
com algo inimaginável.
Abalarei teu excesso de confiança.
E eu te virarei do avesso,
e te farei mulher
como ninguém jamais
te fez ou fará.
Desconfiaras sempre que te sentir confiante,
e aprenderas a extrair do teu homem
cada gota de prazer, que é tua e que é minha.
Porque assim ficaras mais nua e serás
possuída de todas as maneiras.
E gostaras de sê-lo.
Eu não sou arroz, eu não.
Eu te darei o antepasto,
o primeiro prato,
o segundo,
e te darei,
para deliciar,
a sobremesa.
Depois te regarei
de licor.
Aprenderas a não
acreditar que dominas.
Mesmo dominando
não terás certeza.
Porque no momento
seguinte eu posso
virar o jogo e ter toda.
Mas sempre tente me dominar,
finja que me tens na tuas mãos,
e ao mesmo tempo terás e não me terás.
Me saberás teu no intimo,
mas não terás confiança de di-lo
de boca cheia.
Eu, absolutamente, amor
não sou arroz, nem mesmo armário,
nunca serei uma mediocridade cotidiana.
Serei sempre um homem, digno da mulher és,
mas que só eu saberei, porque só eu sei faze-la.
Serei um homem digno de ter um filho contigo,
e desejaras muito este filho, porque também terás
um pouco mais de certeza de que serei teu.
E um dia, fora do espaço e do tempo,
saberás que eu sou desse jeito,
porque...
... bem, hoje não te darei certezas.
Terás que obte-las.
Hoje é segredo.
Te esforçaras para faze-lo,
mas escorregarei, sempre
pela saída impossível,
pela janela que parecia fechada.
E te sacudirei com força,
te revirarei por dentro
cairás sempre deitada na cama
e eu te terei.
Não sou arroz, eu não
nunca terás a certeza
completa de que sou
todo teu, por mais que eu diga
que eu afirme, ficara sempre
uma pontinha de duvida
de toda essa certeza.
Saberás que sou teu,
saberás que me tens,
mas temeras sempre
aquela saída oculta
que possa parecer uma porta
por onde eu
poderei desaparecer
por trás dela.
E me amaras loucamente
e me desejaras ter dentro de ti
porque quando estiver ali dentro,
envolvido no jogo da paixão terás
todas certezas.
Mas em outra hora, não terás tantas certezas,
e por essa razão fazer amor comigo
será mais imprescindível
do que com qualquer outra pessoa,
entregar-te-á com mais força
com maior afinco, porque
será quando terás a certeza
que me tens.
Nunca te acharas dona da situação
por completo, poderei te surpreender
com algo inimaginável.
Abalarei teu excesso de confiança.
E eu te virarei do avesso,
e te farei mulher
como ninguém jamais
te fez ou fará.
Desconfiaras sempre que te sentir confiante,
e aprenderas a extrair do teu homem
cada gota de prazer, que é tua e que é minha.
Porque assim ficaras mais nua e serás
possuída de todas as maneiras.
E gostaras de sê-lo.
Eu não sou arroz, eu não.
Eu te darei o antepasto,
o primeiro prato,
o segundo,
e te darei,
para deliciar,
a sobremesa.
Depois te regarei
de licor.
Aprenderas a não
acreditar que dominas.
Mesmo dominando
não terás certeza.
Porque no momento
seguinte eu posso
virar o jogo e ter toda.
Mas sempre tente me dominar,
finja que me tens na tuas mãos,
e ao mesmo tempo terás e não me terás.
Me saberás teu no intimo,
mas não terás confiança de di-lo
de boca cheia.
Eu, absolutamente, amor
não sou arroz, nem mesmo armário,
nunca serei uma mediocridade cotidiana.
Serei sempre um homem, digno da mulher és,
mas que só eu saberei, porque só eu sei faze-la.
Serei um homem digno de ter um filho contigo,
e desejaras muito este filho, porque também terás
um pouco mais de certeza de que serei teu.
E um dia, fora do espaço e do tempo,
saberás que eu sou desse jeito,
porque...
... bem, hoje não te darei certezas.
Terás que obte-las.
Hoje é segredo.
762
Zacarias Martins
Cala-te Boca
Se minha boca calasse,
falariam por mim, os olhos.
Se meus olhos não dissessem nada,
os meus atos colocariam a boca no trombone.
Ainda restarias as mãos,
que tentariam um diálogo mudo.
O coração, que bateria mais forte.
O pensamento, que iria mais longe.
A imaginação, que voaria mais alto.
A esperança, que é a última que morre.
E minha poesia, para falar de amor.
falariam por mim, os olhos.
Se meus olhos não dissessem nada,
os meus atos colocariam a boca no trombone.
Ainda restarias as mãos,
que tentariam um diálogo mudo.
O coração, que bateria mais forte.
O pensamento, que iria mais longe.
A imaginação, que voaria mais alto.
A esperança, que é a última que morre.
E minha poesia, para falar de amor.
1 740
Aluízio Medeiros
Canto do Século
Nunca mais ouvirei violinos em surdina
nem pianos em surdina
nem cantos litúrgicos suavíssimos
nem músicas de sinos e de órgãos nunca mais.
O espírito mecânico do século esmagou as doces melodias
Nunca mais riscos de fogo de esferas vermelhas
nem a cabeleira azul de Olga flutuando no espaço
nem alvas gaivotas revoando nunca mais.
O céu está plúmbeo o céu está plúmbeo.
Nunca mais veleiros singrando serenamente os mares
nem canções de águas claras nunca mais.
O navio de aço levou a namorada para a distância
para a bruma silenciosa da distância.
Os mares estão revoltos os mares estão revoltos.
O barulho do mundo sólido desabou com estrondo.
Universo que desfalece que desfalece.
Ai de mim! Estou esmagado estou cego. Ai de mim!
Um anjo metálico com asas de hélices
me arrebatará para cima das nuvens.
nem pianos em surdina
nem cantos litúrgicos suavíssimos
nem músicas de sinos e de órgãos nunca mais.
O espírito mecânico do século esmagou as doces melodias
Nunca mais riscos de fogo de esferas vermelhas
nem a cabeleira azul de Olga flutuando no espaço
nem alvas gaivotas revoando nunca mais.
O céu está plúmbeo o céu está plúmbeo.
Nunca mais veleiros singrando serenamente os mares
nem canções de águas claras nunca mais.
O navio de aço levou a namorada para a distância
para a bruma silenciosa da distância.
Os mares estão revoltos os mares estão revoltos.
O barulho do mundo sólido desabou com estrondo.
Universo que desfalece que desfalece.
Ai de mim! Estou esmagado estou cego. Ai de mim!
Um anjo metálico com asas de hélices
me arrebatará para cima das nuvens.
967
Adriana Abdenur
Pátria
Pátria
Era pequenininha. Bebia no leite de minha mãe
os resquícios de sua nostalgia,
e à noite, embriagada, chorava de saudades
de uma terra que tampouco conhecia.
Cresci fabricando números para contar a nossa distância:
falava de léguas e de nós, de jardas infinitas.
Vivia uma vida centrífuga em torno do teu turbilhão,
fazendo de conta que meu eixo
era mais que uma ilusão.
Falava em voltar sem jamais ter ido,
fingindo que te pertencia.
Via teu rosto imprimido
nos jornais da tarde, nos cartões postais, e ria:
-- Vou morar lá um dia, eu dizia.
Mas a vida fez-se ao meu redor,
e ancorou-me no lado de fora.
Vivo agora com a angústia de saber
que a saudade que não se mata
tampouco vai-se embora.
Vejo-me de casa feita e filha no colo.
Sei que lhe passo no leite sedes mais atrozes
do que aquela que sacio:
a vontade de relembrar
um passado ainda vazio,
e a saudade que nos persegue
por esta vida no exílio.
Era pequenininha. Bebia no leite de minha mãe
os resquícios de sua nostalgia,
e à noite, embriagada, chorava de saudades
de uma terra que tampouco conhecia.
Cresci fabricando números para contar a nossa distância:
falava de léguas e de nós, de jardas infinitas.
Vivia uma vida centrífuga em torno do teu turbilhão,
fazendo de conta que meu eixo
era mais que uma ilusão.
Falava em voltar sem jamais ter ido,
fingindo que te pertencia.
Via teu rosto imprimido
nos jornais da tarde, nos cartões postais, e ria:
-- Vou morar lá um dia, eu dizia.
Mas a vida fez-se ao meu redor,
e ancorou-me no lado de fora.
Vivo agora com a angústia de saber
que a saudade que não se mata
tampouco vai-se embora.
Vejo-me de casa feita e filha no colo.
Sei que lhe passo no leite sedes mais atrozes
do que aquela que sacio:
a vontade de relembrar
um passado ainda vazio,
e a saudade que nos persegue
por esta vida no exílio.
1 042
Antônio de Godói
Místico
Lua, noiva do azul, Verônica sombria,
Sobe à igreja do Céu para o eterno noivado...
Amplo e curvo cintila o espaço iluminado
Como um pálio de luz em funeral ao dia.
Tem volúpias o luar que roça à noite a fria
Face... Profano ser, feito para o Pecado,
Eu não posso beijar o teu rosto sagrado,
Santo, como, talvez, o rosto de Maria...
Deus as pálpebras fecha e fica a noite escura;
Sombras descem à terra e a noite doce e calma
Enche o peito de amor e põe sossego na alma.
Ah! se deres um beijo em minha boca impura,
Por glórias contarei os beijos que me deres,
Bela Nossa Senhora entre as outras mulheres...
Sobe à igreja do Céu para o eterno noivado...
Amplo e curvo cintila o espaço iluminado
Como um pálio de luz em funeral ao dia.
Tem volúpias o luar que roça à noite a fria
Face... Profano ser, feito para o Pecado,
Eu não posso beijar o teu rosto sagrado,
Santo, como, talvez, o rosto de Maria...
Deus as pálpebras fecha e fica a noite escura;
Sombras descem à terra e a noite doce e calma
Enche o peito de amor e põe sossego na alma.
Ah! se deres um beijo em minha boca impura,
Por glórias contarei os beijos que me deres,
Bela Nossa Senhora entre as outras mulheres...
829
Ana Amélia
Mal de Amor
Toda pena de amor, por mais que doa,
No próprio amor encontra recompensa.
As lágrimas que causa a indiferença
Seca-as depressa uma palavra boa.
A mão que fere, o ferro que agrilhoa,
Obstáculos não são que Amor não vença,
Amor transforma em luz a treva densa;
Por um sorriso Amor tudo perdoa.
Ai de quem muito amar não sendo amado,
E depois de sofrer tanta amargura,
Pela mão que o feriu não for curado...
Noutra parte há de em vão buscar ventura:
Fica-lhe o coração despedaçado,
Que o mal de Amor só nesse Amor tem cura.
No próprio amor encontra recompensa.
As lágrimas que causa a indiferença
Seca-as depressa uma palavra boa.
A mão que fere, o ferro que agrilhoa,
Obstáculos não são que Amor não vença,
Amor transforma em luz a treva densa;
Por um sorriso Amor tudo perdoa.
Ai de quem muito amar não sendo amado,
E depois de sofrer tanta amargura,
Pela mão que o feriu não for curado...
Noutra parte há de em vão buscar ventura:
Fica-lhe o coração despedaçado,
Que o mal de Amor só nesse Amor tem cura.
1 362
Ana Amélia
Mal de Amor
Toda pena de amor, por mais que doa,
No próprio amor encontra recompensa.
As lágrimas que causa a indiferença
Seca-as depressa uma palavra boa.
A mão que fere, o ferro que agrilhoa,
Obstáculos não são que Amor não vença,
Amor transforma em luz a treva densa;
Por um sorriso Amor tudo perdoa.
Ai de quem muito amar não sendo amado,
E depois de sofrer tanta amargura,
Pela mão que o feriu não for curado...
Noutra parte há de em vão buscar ventura:
Fica-lhe o coração despedaçado,
Que o mal de Amor só nesse Amor tem cura.
No próprio amor encontra recompensa.
As lágrimas que causa a indiferença
Seca-as depressa uma palavra boa.
A mão que fere, o ferro que agrilhoa,
Obstáculos não são que Amor não vença,
Amor transforma em luz a treva densa;
Por um sorriso Amor tudo perdoa.
Ai de quem muito amar não sendo amado,
E depois de sofrer tanta amargura,
Pela mão que o feriu não for curado...
Noutra parte há de em vão buscar ventura:
Fica-lhe o coração despedaçado,
Que o mal de Amor só nesse Amor tem cura.
1 362
Cláudio Alex
Te Espero
Todo amor tem que ser livre
Quem sou eu para dizer o certo,
quem sou eu para dizer o errado.
Todo amor acontece porque é perfeito
da forma que se apresenta.
Expresso meu amor
da forma e do jeito que ele é.
Expresso com as formas de sedução
que sei fazer e que a vida ensinou.
Faço-o livre porque livre ele o é.
Deixar de assim manifesta-lo
significa transforma-lo
em algo em que já não é.
Sou teu por uma opção de entrega,
porque esta entrega vem de dentro
e decorre de uma sensação plena.
é natural que ele se expresse
para alguém que preenche
completamente as emoções no peito.
E poderia haver alguém ao lado
que não haveria espaço dentro
para ser compartilhado.
O amor preenche-me por inteiro.
Estou triste
porque não tenho você ao meu lado.
Mas é uma tristeza completa
que é melhor que uma alegria
incompleta e cheia de vazios.
Se estou triste,
é porque às vezes o amor é triste,
é uma forma de sua manifestação.
Se, às vezes, sozinho solto um sorriso,
é porque se manifesta em mim
uma parte alegre de você.
Coisas que me fazem teu,
porque verdadeiramente te amo.
Se, às vezes, sozinho, eu choro
é porque se manifesta em mim
uma parte melancólica de ti,
nem por isso menos bela.
Coisas que me fazem teu.
Porque a verdade não esta só na alegria,
e o melancólico convive com o alegre.
Se às vezes fico com raiva
é porque o amor se manifesta
com a incompreensão.
Coisas que eu não compreendo.
Coisas que não sou compreendido.
Mas se existe a raiva
é sinal que existe o desejo:
um desejo incompreendido
mas que existe e é forte demais
para ser colocado de lado
junto das pequenices diárias.
Todas essas manifestações
são manifestações de amor.
Foste em busca do paraíso terrestre.
Te odiei.
Agora já não sinto, mas senti.
Essas coisas acontecem e fazem parte.
Longe de deixar-me tomar pela autopiedade,
isso serviu de aprendizado.
Aprendizado sobre você.
Não é aprendizado sobre nosso amor.
Nosso amor é como é
e assim é pleno.
É um aprendizado sobre você
porque é a tua verdade
que se manifestou.
E cada vez que isso acontece
aparece mais a verdade
daquilo que existe em nos.
Não sou perfeito, não és perfeita,
somos como somos,
e assim nos amamos.
Cada vez percebo mais
como nossos mecanismos de vida
começam a se integrar
cada vez mais e melhor.
Sei que te dar garantia
dessa compreensão,
dessa busca do entendimento,
te da segurança de ser
aquilo que realmente você é.
Você percebe que ai se expressa
a tua liberdade de ser
dentro de um relacionamento?
Vim para a sua vida
não de forma passageira.
Vim para a tua vida
para ficar contigo.
Temos tempo e não temos tempo.
Na verdade o tempo
é o que menos interessa.
Vim exercer em ti
a minha forma de sedução
e que te faz sentir mulher
perfeita e completa.
Vim para mexer com tua química
para transformar os teus hormônios
para mudar o teu desejo.
Vim para mudar a tua vida
e te trazer um mundo
que na verdade apenas pressentes.
Vim para te tomar por mulher
quando todos a tratam por menina.
Vim para te dar saber
da plenitude do desejo
e da arte de flui-lo.
Vim para você me ver
todos os e dias e afirmar baixinho:
- Este é meu homem!
Vim para te fazer inteira,
para integrar teus sentimentos,
para criar sinergia
e te fazer crescer em ti.
Vim para te mostrar que esta trancafiada
e não consegues viver,
que estas sufocada
de tanto a fazer
e nada fazer.
Quero que saiba que te amo
e que nada existe no mundo
que me desalente.
Que vencerei teu medo,
que te levarei comigo
para fazer amor.
E, então, saberás de tudo
e terás confiança maior
em teu próprio ser.
Eu vim aqui, desse mesmo jeito
para te levar ao encontro
do que existe em ti.
E só o amor, um grande amor,
é capaz de fazer coisas tão simples
e tão difíceis de serem feitas.
Estou aqui, sou teu,
venha definitivamente
para o meu encontro.
Te espero.
Quem sou eu para dizer o certo,
quem sou eu para dizer o errado.
Todo amor acontece porque é perfeito
da forma que se apresenta.
Expresso meu amor
da forma e do jeito que ele é.
Expresso com as formas de sedução
que sei fazer e que a vida ensinou.
Faço-o livre porque livre ele o é.
Deixar de assim manifesta-lo
significa transforma-lo
em algo em que já não é.
Sou teu por uma opção de entrega,
porque esta entrega vem de dentro
e decorre de uma sensação plena.
é natural que ele se expresse
para alguém que preenche
completamente as emoções no peito.
E poderia haver alguém ao lado
que não haveria espaço dentro
para ser compartilhado.
O amor preenche-me por inteiro.
Estou triste
porque não tenho você ao meu lado.
Mas é uma tristeza completa
que é melhor que uma alegria
incompleta e cheia de vazios.
Se estou triste,
é porque às vezes o amor é triste,
é uma forma de sua manifestação.
Se, às vezes, sozinho solto um sorriso,
é porque se manifesta em mim
uma parte alegre de você.
Coisas que me fazem teu,
porque verdadeiramente te amo.
Se, às vezes, sozinho, eu choro
é porque se manifesta em mim
uma parte melancólica de ti,
nem por isso menos bela.
Coisas que me fazem teu.
Porque a verdade não esta só na alegria,
e o melancólico convive com o alegre.
Se às vezes fico com raiva
é porque o amor se manifesta
com a incompreensão.
Coisas que eu não compreendo.
Coisas que não sou compreendido.
Mas se existe a raiva
é sinal que existe o desejo:
um desejo incompreendido
mas que existe e é forte demais
para ser colocado de lado
junto das pequenices diárias.
Todas essas manifestações
são manifestações de amor.
Foste em busca do paraíso terrestre.
Te odiei.
Agora já não sinto, mas senti.
Essas coisas acontecem e fazem parte.
Longe de deixar-me tomar pela autopiedade,
isso serviu de aprendizado.
Aprendizado sobre você.
Não é aprendizado sobre nosso amor.
Nosso amor é como é
e assim é pleno.
É um aprendizado sobre você
porque é a tua verdade
que se manifestou.
E cada vez que isso acontece
aparece mais a verdade
daquilo que existe em nos.
Não sou perfeito, não és perfeita,
somos como somos,
e assim nos amamos.
Cada vez percebo mais
como nossos mecanismos de vida
começam a se integrar
cada vez mais e melhor.
Sei que te dar garantia
dessa compreensão,
dessa busca do entendimento,
te da segurança de ser
aquilo que realmente você é.
Você percebe que ai se expressa
a tua liberdade de ser
dentro de um relacionamento?
Vim para a sua vida
não de forma passageira.
Vim para a tua vida
para ficar contigo.
Temos tempo e não temos tempo.
Na verdade o tempo
é o que menos interessa.
Vim exercer em ti
a minha forma de sedução
e que te faz sentir mulher
perfeita e completa.
Vim para mexer com tua química
para transformar os teus hormônios
para mudar o teu desejo.
Vim para mudar a tua vida
e te trazer um mundo
que na verdade apenas pressentes.
Vim para te tomar por mulher
quando todos a tratam por menina.
Vim para te dar saber
da plenitude do desejo
e da arte de flui-lo.
Vim para você me ver
todos os e dias e afirmar baixinho:
- Este é meu homem!
Vim para te fazer inteira,
para integrar teus sentimentos,
para criar sinergia
e te fazer crescer em ti.
Vim para te mostrar que esta trancafiada
e não consegues viver,
que estas sufocada
de tanto a fazer
e nada fazer.
Quero que saiba que te amo
e que nada existe no mundo
que me desalente.
Que vencerei teu medo,
que te levarei comigo
para fazer amor.
E, então, saberás de tudo
e terás confiança maior
em teu próprio ser.
Eu vim aqui, desse mesmo jeito
para te levar ao encontro
do que existe em ti.
E só o amor, um grande amor,
é capaz de fazer coisas tão simples
e tão difíceis de serem feitas.
Estou aqui, sou teu,
venha definitivamente
para o meu encontro.
Te espero.
1 030
Antônio Chaves
Descendo o Parnaíba
Nas águas, vê que límpidas bonanças...
Que verde o destas árvores florindo!
Parece o verde dessas esperanças
Que em nossos corações brotam sorrindo.
Como as almas sonâmbulas e mansas
Dos lírios virginais que estão dormindo,
Quantas almas de cândidas crianças
Há nas estrelas que já vêm surgindo!
Tu és um quadro desta Natureza!
Minha alma, ao ver em ti tanta beleza,
De ti somente se tornou cativa...
Sem sol a flor sucumbe, morre a planta...
Dá que eu sinta, portanto, ó minha Santa,
O sol do teu amor! Faze que eu viva!
Que verde o destas árvores florindo!
Parece o verde dessas esperanças
Que em nossos corações brotam sorrindo.
Como as almas sonâmbulas e mansas
Dos lírios virginais que estão dormindo,
Quantas almas de cândidas crianças
Há nas estrelas que já vêm surgindo!
Tu és um quadro desta Natureza!
Minha alma, ao ver em ti tanta beleza,
De ti somente se tornou cativa...
Sem sol a flor sucumbe, morre a planta...
Dá que eu sinta, portanto, ó minha Santa,
O sol do teu amor! Faze que eu viva!
1 008
Antônio de Godói
Do Mês de Maria
O sagrado esplendor de curvas cinzeladas
No relevo imortal do corpo alabastrino!
(Maio é todo um cendal de violetas dobradas...
Roçam asas no azul adelgaçado e fino...)
Rosto feito a buril de espumas congeladas
Na redoma de luz de um luar opalino!
(Reflorescem rosais... nas noites consteladas
Erra um doce rumor de citara e violino...)
Ó Senhora, de olhar claro e puro de Santa,
Virgem pura do Céu que minha alma quebranta
(A brisa corre, o ambiente é fresco, o sol não arde.)
Dá-me o fulgor que bóia em teu olhar tristonho,
Para assim clarear a noite do meu Sonho...
(Vão cantando no azul as citaras da tarde... )
No relevo imortal do corpo alabastrino!
(Maio é todo um cendal de violetas dobradas...
Roçam asas no azul adelgaçado e fino...)
Rosto feito a buril de espumas congeladas
Na redoma de luz de um luar opalino!
(Reflorescem rosais... nas noites consteladas
Erra um doce rumor de citara e violino...)
Ó Senhora, de olhar claro e puro de Santa,
Virgem pura do Céu que minha alma quebranta
(A brisa corre, o ambiente é fresco, o sol não arde.)
Dá-me o fulgor que bóia em teu olhar tristonho,
Para assim clarear a noite do meu Sonho...
(Vão cantando no azul as citaras da tarde... )
818
Wanda Cristina
Aliteração
Eu quero dançar contigo
dentro do poesia,
como dança o povo dentro do Estado.
Eu quero rebolar contigo em cada rima,
como rebola o povo dentro do salário.
Eu escolho uma aliteração
para a nossa vida:
filhos, felicidade, família, feijão, farinha...
como o povo, em fé,
faz folia, forra a fome com futebol e fantasia.
dentro do poesia,
como dança o povo dentro do Estado.
Eu quero rebolar contigo em cada rima,
como rebola o povo dentro do salário.
Eu escolho uma aliteração
para a nossa vida:
filhos, felicidade, família, feijão, farinha...
como o povo, em fé,
faz folia, forra a fome com futebol e fantasia.
1 187
Wanda Cristina
Aliteração
Eu quero dançar contigo
dentro do poesia,
como dança o povo dentro do Estado.
Eu quero rebolar contigo em cada rima,
como rebola o povo dentro do salário.
Eu escolho uma aliteração
para a nossa vida:
filhos, felicidade, família, feijão, farinha...
como o povo, em fé,
faz folia, forra a fome com futebol e fantasia.
dentro do poesia,
como dança o povo dentro do Estado.
Eu quero rebolar contigo em cada rima,
como rebola o povo dentro do salário.
Eu escolho uma aliteração
para a nossa vida:
filhos, felicidade, família, feijão, farinha...
como o povo, em fé,
faz folia, forra a fome com futebol e fantasia.
1 187
Weydson Barros Leal
O Que
o que nos vem
e o que deixamos;
o que nunca encontra
o que eternamente
é par,
o lar;
a comunhão;
o que nos é pedido
e o que nos leva;
o que damos;
o que precisamos;
o que é busca;
o que somente
nos procura;
o que ninguém concede;
o caminho;
o laço;
a cama;
o que lutamos
pelas mãos;
o que desperdiçamos;
o que nos é dado escrever;
o sonho
e o acontecimento;
o homem que ama;
os danos e o benfazejo;
o lucro;
a perda;
a falta;
o jogo;
o amor;
a flecha
e o conto;
a ficção;
os pés;
(a solidão);
o relógio;
a morte;
a música e a vela;
o ventre;o vão;a paixão;
o que queremos;
o que quer;
o que vivemos;
o que vive;
o orgasmo;
a espera;
a água;
a esperança ...
e o que deixamos;
o que nunca encontra
o que eternamente
é par,
o lar;
a comunhão;
o que nos é pedido
e o que nos leva;
o que damos;
o que precisamos;
o que é busca;
o que somente
nos procura;
o que ninguém concede;
o caminho;
o laço;
a cama;
o que lutamos
pelas mãos;
o que desperdiçamos;
o que nos é dado escrever;
o sonho
e o acontecimento;
o homem que ama;
os danos e o benfazejo;
o lucro;
a perda;
a falta;
o jogo;
o amor;
a flecha
e o conto;
a ficção;
os pés;
(a solidão);
o relógio;
a morte;
a música e a vela;
o ventre;o vão;a paixão;
o que queremos;
o que quer;
o que vivemos;
o que vive;
o orgasmo;
a espera;
a água;
a esperança ...
884
Valeria Braga
Poema
Poema
Imprimo no poema as minhas letras tatuadas,
letras vadias,
andarilhas,
ciganas sem baralhos.
Imprimo a letra da poesia por dentro do ventre
e dentro das gavetas, à chave.
Do poema, apenas imploro um olhar cheio de desejo,
que já sou lua
ou nem sei quem sou.
Pássaro colorido o poema que voa
por sobre os céus da minha cabeça,
por sobre o céu da minha boca.
E lá vou eu, mastigando as letras,
mastigando a palavra que nunca te disse,
passando a língua molhada em cada verso
de amor ou tristeza,
engolindo cada sílaba
como se sorve bebida, homem,
flor ou criança.
Bandida, a poesia
que dorme e acorda morta de sono
e não me deixa dormir
e não me deixa viver
e não me deixa.
Vem o poema e aperta o gatilho
e me fere no peito e me mata,
e me deixa mais tonta,
mais louca que sou.
E te aceito assim, te quero assim,
poema de todas as formas
como bicho, vida, sol e chão.
Imprimo no poema as minhas letras tatuadas,
letras vadias,
andarilhas,
ciganas sem baralhos.
Imprimo a letra da poesia por dentro do ventre
e dentro das gavetas, à chave.
Do poema, apenas imploro um olhar cheio de desejo,
que já sou lua
ou nem sei quem sou.
Pássaro colorido o poema que voa
por sobre os céus da minha cabeça,
por sobre o céu da minha boca.
E lá vou eu, mastigando as letras,
mastigando a palavra que nunca te disse,
passando a língua molhada em cada verso
de amor ou tristeza,
engolindo cada sílaba
como se sorve bebida, homem,
flor ou criança.
Bandida, a poesia
que dorme e acorda morta de sono
e não me deixa dormir
e não me deixa viver
e não me deixa.
Vem o poema e aperta o gatilho
e me fere no peito e me mata,
e me deixa mais tonta,
mais louca que sou.
E te aceito assim, te quero assim,
poema de todas as formas
como bicho, vida, sol e chão.
1 033
Vitor L. Mendes
Poemas ao Vento
A poesia cavalga no sopro do vento.
Nada existe em seu caminho, que possa se esconder.
Nada escapa ao toque gélido do Minuano,
Para que o vento norte venha, logo após, aquecer.
O poema encontra voz no murmúrio do mar,
No canto dos grilos nas noites de luar
E na orquestra de pássaros ao alvorecer,
Que a natureza sempre teima em reger.
Os versos se vestem de luz na paisagem,
Na lourice alegre dos raios do sol,
Que bricam de bordar sonho e imagem
Em leves filigranas tecendo o arrebol.
Tento em vão descrever em palavras
Tudo aquilo que sinto e quero te contar,
Mas teus ouvidos se negam
E teus olhos desviam o olhar.
Quem sabe teu coração venha algum dia saber,
Que o galope do poema não pode parar...
Nada existe em seu caminho, que possa se esconder.
Nada escapa ao toque gélido do Minuano,
Para que o vento norte venha, logo após, aquecer.
O poema encontra voz no murmúrio do mar,
No canto dos grilos nas noites de luar
E na orquestra de pássaros ao alvorecer,
Que a natureza sempre teima em reger.
Os versos se vestem de luz na paisagem,
Na lourice alegre dos raios do sol,
Que bricam de bordar sonho e imagem
Em leves filigranas tecendo o arrebol.
Tento em vão descrever em palavras
Tudo aquilo que sinto e quero te contar,
Mas teus ouvidos se negam
E teus olhos desviam o olhar.
Quem sabe teu coração venha algum dia saber,
Que o galope do poema não pode parar...
1 114
Vitor Casimiro
Despista-se
Mulher da minha vida
Por que se esconde
Sei que existe
Mas onde?
Dê-me um sinal
Qualquer pista
Antes que, de tão
cansado, desista.
Por que se esconde
Sei que existe
Mas onde?
Dê-me um sinal
Qualquer pista
Antes que, de tão
cansado, desista.
744
Waldy Sombra
Meu Chão, Minha Canção
Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e
da minha infância!
Quis a neurose cearense da peregrinação
que eu me afastasse de ti,
mas, qual árvore arrancada,
levei nas raízes
o massapê das tuas várzeas.
Nasceste, limoeiro, Terra minha,
do abraço molhado de dois rios
num parênteses de amor.
Por isso, decerto, o feitiço
que exerces sobre os teus filhos.
Em mim, operas o milagre da transfiguração,
porque és força,
és vida,
és canção.
Basta-me pensar em ti,
para que me transporte à felicidade.
Vejo-me, então, pelo terreiro da Gangorra,
chispando no meu cavalo-de-talo,
fogoso, olhos faiscantes
de cacos de garrafa...
No cavalete de, mulungu, sinto-me artista,
e desafio espumas, balseiros e funis
do Riacho Seco e do Banabuiú
nos anos de águas grandes.
Enternece-me
a doce cantilena do bê-a-bá e da tabuada
da escola de Maria Sombra,
e chega-me
o vibrante tropel,
o baralhador ritmado do Cavalo Preto do meu pai.
Vêm-me aos ouvidos as vozes da várzea,
com o vento vespertino Aracati,
farfalhando palhas, varrendo tudo
e debulhando cachos de carnaúba madura.
Surgem-me, iluminadas,
as hóstias de zinco dos cata-ventos
da ilha do meu avó Zé Sombra
zunindo, zunindo,
puxando água, puxando água,
para a sede das bananeiras.
Subo à torre da Matriz,
escondido de Deolindo,
puxo a corda do sino e
encho de badaladas
a luz branca e morna da manhã.
Na saudade, a alegria da Noite de Festas!
Mastigo os cavalos-de-broa e as fogosas
de João Jaguaribe,
os tijolinhos e mariolas de Eugeninho,
bebo aluá de milho
do pote suado
debaixo da tamarineira
de Maria Pernambucana
e rezo, enfim, minha gulodice
num rosário-de-catolé
em frente ao portão grande do Mercado.
Apoteoticamente lá vem desfilando
a Banda de Música do Maestro Odílio,
com as zabumbadas dos bombos
de João de Carminha
e Antônio Rapadura
— Tum-dum ... tum-dum.. tum-dum ... —
marcando o festivo compasso
do meu coração.
Que outra terra, que outra gente
me trariam de volta
esses sons,
essas imagens?
Por isso e por muito mais,
Limoeiro, tu és para mim
o chão mais valioso do mundo!
Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e da minha infância!
Chão que, um dia, me receberá
para o último sono.
Chão do meu nascimento e
da minha infância!
Quis a neurose cearense da peregrinação
que eu me afastasse de ti,
mas, qual árvore arrancada,
levei nas raízes
o massapê das tuas várzeas.
Nasceste, limoeiro, Terra minha,
do abraço molhado de dois rios
num parênteses de amor.
Por isso, decerto, o feitiço
que exerces sobre os teus filhos.
Em mim, operas o milagre da transfiguração,
porque és força,
és vida,
és canção.
Basta-me pensar em ti,
para que me transporte à felicidade.
Vejo-me, então, pelo terreiro da Gangorra,
chispando no meu cavalo-de-talo,
fogoso, olhos faiscantes
de cacos de garrafa...
No cavalete de, mulungu, sinto-me artista,
e desafio espumas, balseiros e funis
do Riacho Seco e do Banabuiú
nos anos de águas grandes.
Enternece-me
a doce cantilena do bê-a-bá e da tabuada
da escola de Maria Sombra,
e chega-me
o vibrante tropel,
o baralhador ritmado do Cavalo Preto do meu pai.
Vêm-me aos ouvidos as vozes da várzea,
com o vento vespertino Aracati,
farfalhando palhas, varrendo tudo
e debulhando cachos de carnaúba madura.
Surgem-me, iluminadas,
as hóstias de zinco dos cata-ventos
da ilha do meu avó Zé Sombra
zunindo, zunindo,
puxando água, puxando água,
para a sede das bananeiras.
Subo à torre da Matriz,
escondido de Deolindo,
puxo a corda do sino e
encho de badaladas
a luz branca e morna da manhã.
Na saudade, a alegria da Noite de Festas!
Mastigo os cavalos-de-broa e as fogosas
de João Jaguaribe,
os tijolinhos e mariolas de Eugeninho,
bebo aluá de milho
do pote suado
debaixo da tamarineira
de Maria Pernambucana
e rezo, enfim, minha gulodice
num rosário-de-catolé
em frente ao portão grande do Mercado.
Apoteoticamente lá vem desfilando
a Banda de Música do Maestro Odílio,
com as zabumbadas dos bombos
de João de Carminha
e Antônio Rapadura
— Tum-dum ... tum-dum.. tum-dum ... —
marcando o festivo compasso
do meu coração.
Que outra terra, que outra gente
me trariam de volta
esses sons,
essas imagens?
Por isso e por muito mais,
Limoeiro, tu és para mim
o chão mais valioso do mundo!
Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e da minha infância!
Chão que, um dia, me receberá
para o último sono.
476
Waldy Sombra
Meu Chão, Minha Canção
Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e
da minha infância!
Quis a neurose cearense da peregrinação
que eu me afastasse de ti,
mas, qual árvore arrancada,
levei nas raízes
o massapê das tuas várzeas.
Nasceste, limoeiro, Terra minha,
do abraço molhado de dois rios
num parênteses de amor.
Por isso, decerto, o feitiço
que exerces sobre os teus filhos.
Em mim, operas o milagre da transfiguração,
porque és força,
és vida,
és canção.
Basta-me pensar em ti,
para que me transporte à felicidade.
Vejo-me, então, pelo terreiro da Gangorra,
chispando no meu cavalo-de-talo,
fogoso, olhos faiscantes
de cacos de garrafa...
No cavalete de, mulungu, sinto-me artista,
e desafio espumas, balseiros e funis
do Riacho Seco e do Banabuiú
nos anos de águas grandes.
Enternece-me
a doce cantilena do bê-a-bá e da tabuada
da escola de Maria Sombra,
e chega-me
o vibrante tropel,
o baralhador ritmado do Cavalo Preto do meu pai.
Vêm-me aos ouvidos as vozes da várzea,
com o vento vespertino Aracati,
farfalhando palhas, varrendo tudo
e debulhando cachos de carnaúba madura.
Surgem-me, iluminadas,
as hóstias de zinco dos cata-ventos
da ilha do meu avó Zé Sombra
zunindo, zunindo,
puxando água, puxando água,
para a sede das bananeiras.
Subo à torre da Matriz,
escondido de Deolindo,
puxo a corda do sino e
encho de badaladas
a luz branca e morna da manhã.
Na saudade, a alegria da Noite de Festas!
Mastigo os cavalos-de-broa e as fogosas
de João Jaguaribe,
os tijolinhos e mariolas de Eugeninho,
bebo aluá de milho
do pote suado
debaixo da tamarineira
de Maria Pernambucana
e rezo, enfim, minha gulodice
num rosário-de-catolé
em frente ao portão grande do Mercado.
Apoteoticamente lá vem desfilando
a Banda de Música do Maestro Odílio,
com as zabumbadas dos bombos
de João de Carminha
e Antônio Rapadura
— Tum-dum ... tum-dum.. tum-dum ... —
marcando o festivo compasso
do meu coração.
Que outra terra, que outra gente
me trariam de volta
esses sons,
essas imagens?
Por isso e por muito mais,
Limoeiro, tu és para mim
o chão mais valioso do mundo!
Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e da minha infância!
Chão que, um dia, me receberá
para o último sono.
Chão do meu nascimento e
da minha infância!
Quis a neurose cearense da peregrinação
que eu me afastasse de ti,
mas, qual árvore arrancada,
levei nas raízes
o massapê das tuas várzeas.
Nasceste, limoeiro, Terra minha,
do abraço molhado de dois rios
num parênteses de amor.
Por isso, decerto, o feitiço
que exerces sobre os teus filhos.
Em mim, operas o milagre da transfiguração,
porque és força,
és vida,
és canção.
Basta-me pensar em ti,
para que me transporte à felicidade.
Vejo-me, então, pelo terreiro da Gangorra,
chispando no meu cavalo-de-talo,
fogoso, olhos faiscantes
de cacos de garrafa...
No cavalete de, mulungu, sinto-me artista,
e desafio espumas, balseiros e funis
do Riacho Seco e do Banabuiú
nos anos de águas grandes.
Enternece-me
a doce cantilena do bê-a-bá e da tabuada
da escola de Maria Sombra,
e chega-me
o vibrante tropel,
o baralhador ritmado do Cavalo Preto do meu pai.
Vêm-me aos ouvidos as vozes da várzea,
com o vento vespertino Aracati,
farfalhando palhas, varrendo tudo
e debulhando cachos de carnaúba madura.
Surgem-me, iluminadas,
as hóstias de zinco dos cata-ventos
da ilha do meu avó Zé Sombra
zunindo, zunindo,
puxando água, puxando água,
para a sede das bananeiras.
Subo à torre da Matriz,
escondido de Deolindo,
puxo a corda do sino e
encho de badaladas
a luz branca e morna da manhã.
Na saudade, a alegria da Noite de Festas!
Mastigo os cavalos-de-broa e as fogosas
de João Jaguaribe,
os tijolinhos e mariolas de Eugeninho,
bebo aluá de milho
do pote suado
debaixo da tamarineira
de Maria Pernambucana
e rezo, enfim, minha gulodice
num rosário-de-catolé
em frente ao portão grande do Mercado.
Apoteoticamente lá vem desfilando
a Banda de Música do Maestro Odílio,
com as zabumbadas dos bombos
de João de Carminha
e Antônio Rapadura
— Tum-dum ... tum-dum.. tum-dum ... —
marcando o festivo compasso
do meu coração.
Que outra terra, que outra gente
me trariam de volta
esses sons,
essas imagens?
Por isso e por muito mais,
Limoeiro, tu és para mim
o chão mais valioso do mundo!
Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e da minha infância!
Chão que, um dia, me receberá
para o último sono.
476
Carlos Augusto Viana
A Báscula do Desejo
1O mar inventa canteiros nos cílios das areias,
multiplica-se no marulhar do ar nos grãos de milho
move-se em murmúrios nas conchas múltiplas do alpendre.
Estilhaços da chuva na memória:
um mapa embrulhado nas pálpebras,
um cavalo singrando o arco-íris,
um girassol se contorcendo num jarro.
2Teus peitos em chamas cobrem de espumas as ilhas,
as franjas do vento inauguram temporais.
Teu corpo se derrama, enorme, sobre as dunas
que a mão dos vendavais tece no litoral de novembro.
O amor são as patas do cavalo
sobre os espelhos das campinas,
o sol incendiando a penugem do canavial,
o mapa dos olhos no escuro,
uma cidade que se despe como um calendário.
O amor é um roçado de enigmas,
claros como o silêncio dos retratos,
iniludíveis como o olhar dos bois,
ávidos
como as mãos que cavam a terra
ou os pés que namoram caminhos.
Amar é escrever teu nome
no ventre de uma inacessível praia
onde adormecem um deus e as cordas de uma guitarra.
Amar é escrever teu nome
como se escreve um poema sem palavras,
assim como a noite se inscreve na solidão de um homem.
3O amor
se
pétala
sempre
exala
por isso
amar
não conserva arames
em suas léguas
4De teus olhos em água
saltam inscrições em fogo,
assim como existe um outro mar
que se desdobra além das ondas,
um calendário nas sombras
que se diluem nas paredes.
De teus olhos em água,
as inscrições em fogo
tingem de nova cor a paisagem
e dão às horas o enigma dos minerais.
Das inscrições em fogo,
o amor e sua linguagem de água,
o amor e suas sombras nas areias da memória.
o amor
e a escritura de seu abandono,
as tenebrosas buscas, as urtigas da dúvida,
o trigo interrompido, o gesto não pendoado,
o grão das horas a arder sob o sol das esperas.
O amor
e suas mãos que palmilham palavras,
o inatingível, o inumerável,
o que não se conhece, o que não se aprende jamais.
multiplica-se no marulhar do ar nos grãos de milho
move-se em murmúrios nas conchas múltiplas do alpendre.
Estilhaços da chuva na memória:
um mapa embrulhado nas pálpebras,
um cavalo singrando o arco-íris,
um girassol se contorcendo num jarro.
2Teus peitos em chamas cobrem de espumas as ilhas,
as franjas do vento inauguram temporais.
Teu corpo se derrama, enorme, sobre as dunas
que a mão dos vendavais tece no litoral de novembro.
O amor são as patas do cavalo
sobre os espelhos das campinas,
o sol incendiando a penugem do canavial,
o mapa dos olhos no escuro,
uma cidade que se despe como um calendário.
O amor é um roçado de enigmas,
claros como o silêncio dos retratos,
iniludíveis como o olhar dos bois,
ávidos
como as mãos que cavam a terra
ou os pés que namoram caminhos.
Amar é escrever teu nome
no ventre de uma inacessível praia
onde adormecem um deus e as cordas de uma guitarra.
Amar é escrever teu nome
como se escreve um poema sem palavras,
assim como a noite se inscreve na solidão de um homem.
3O amor
se
pétala
sempre
exala
por isso
amar
não conserva arames
em suas léguas
4De teus olhos em água
saltam inscrições em fogo,
assim como existe um outro mar
que se desdobra além das ondas,
um calendário nas sombras
que se diluem nas paredes.
De teus olhos em água,
as inscrições em fogo
tingem de nova cor a paisagem
e dão às horas o enigma dos minerais.
Das inscrições em fogo,
o amor e sua linguagem de água,
o amor e suas sombras nas areias da memória.
o amor
e a escritura de seu abandono,
as tenebrosas buscas, as urtigas da dúvida,
o trigo interrompido, o gesto não pendoado,
o grão das horas a arder sob o sol das esperas.
O amor
e suas mãos que palmilham palavras,
o inatingível, o inumerável,
o que não se conhece, o que não se aprende jamais.
1 655
Valentim Magalhães
Íntimo
Esta alegria loura, corajosa,
Que é como um grande escudo, de ouro feito,
E faz que à Vida a escada pedregosa
Eu suba sem pavor, calmo e direito,
Me vem da tua boca perfumosa,
Arqueada, como um céu, sobre o meu peito:
Constelando-o de beijos cor de rosa,
Ungindo-o de um sorriso satisfeito...
A imaculada pomba da Ventura
Espreita-nos, o verde olhar abrindo,
Aninhada em teu cesto de costura;
Trina um canário na gaiola, inquieto;
A cambraia sutil feres, sorrindo,
E eu, sorrindo, desenho este soneto.
Que é como um grande escudo, de ouro feito,
E faz que à Vida a escada pedregosa
Eu suba sem pavor, calmo e direito,
Me vem da tua boca perfumosa,
Arqueada, como um céu, sobre o meu peito:
Constelando-o de beijos cor de rosa,
Ungindo-o de um sorriso satisfeito...
A imaculada pomba da Ventura
Espreita-nos, o verde olhar abrindo,
Aninhada em teu cesto de costura;
Trina um canário na gaiola, inquieto;
A cambraia sutil feres, sorrindo,
E eu, sorrindo, desenho este soneto.
991
Weydson Barros Leal
O Teu Sorriso é uma Dança
O teu sorriso é uma dança
tua boca nasce a cada dia
como a faca e a fruta.
há nos teus dentes uma cor
que não há noutra forma de tempo —
a brancura dos teus olhos é irmã e cai
em teu brilho de ursa
e em cada anel.
o teu sorriso é uma forma de vencer as guerras
e as tuas mãos sobre os joelhos
uma arquitetura de gregos.
dei to sobre tudo que desperto
em tua aura de prataria cega
e o meu deleite e a minha dor
copulam numa fogueira pública.
penso que caiu alguma lua no jardim que andaste aqui
e a própria queda dos impérios
é uma predição de ti —
o teu passado é uma praia
onde nasceram as conchas
e o teu presente uma eternidade de luz e de ondas
onde as conchas cantam
teu dom e tua luz.
II
— até quando seremos felizes?
até quando seremos a mira
que o espelho espera?
o duplo multiplicado?
— lembra quando rasgamos o peito e o tempo escoou?
eram moedas e flores
e um hálito de pedras ...
— hoje a flauta doce foi buscada;
o amargo do vinho; a noite;
e uma barca de espelhos
que navega cegamente para guerra...
III
há um poeta rindo no portal da tua casa
que não sou eu mas o eu que te acompanha
e eu estar em ti é lembrar de mim
quando penso que és minha casa.
permaneço em sonho
enquanto tu me navegas,
e existir em ti é realizar os planos
de quando existires
saberes como sofrem os sonhos —
amor é mar
que sempre subexiste
e quando queremos navegar
a vela nos devora
e o vento é sempre triste.
IV - MANHÃ NA LUA
haverás, amada,
de recordar a hora em que éramos felizes:
há poesia no passado
mas não há tempo —
há a dor
a praia e a pedra
onde ancorar o dia
e acordar sobre o teu lado
sem saber
que o sonho é um círculo finito
que sem meios de tecer
tu fias
e colhes a noite
como um manto sobre os braços
uma nau descomunal
ou um verbo que cria.
V - PORTRAIT
sonhávamos tanto que éramos doces
e nosso último disfarce
foi tornarmo-nos amigos
sob a fé de toda balaustrada
de lustres e alaúdes lúgubres
que terminam
quando nua e com flores
cantas
e transbordas os açudes...
acordamos e corremos aos jornais
em busca de poemas
limpamos toda casa onde o sonho é moradia
o sonho que buscamos, o sonho que nos cria
apenas uma trégua
quando a guerra
é a única maneira de se conquistar
e a bandeira só por cada jogo se jogar
porque só é o cadafalso
e falso o laço
do ar.
VI - AUGEN
verde a luzidia forma que encontrares no poema
que verde é seu encanto
enquanto canto sua pena
que a vida nunca estabelece
rara, sem sua medida de tristeza.
talvez a fala
que emudece espaços
a ausência pressentida ou as horas
medirão o tempo da distância...
talvez o olhar
que umedece os passos
o brilho docemente agudo
das pérolas
o jogo
ou as conchas
serão em mim a tua proteção.
as mãos
como os limites de um deus
ou urna pomba absurdamente nua ou despetalada
sobre minha cabeça pousas
nesta sombra que enriquece a luz.
VII - SAL
quando esqueces o meu nome
é poesia a minha dor que se constrói...
— tanta tristeza em sabermos o que seríamos...
e se não fosse a poesia ? — o sonho da noite
é o medo do dia
e o teu sonho é um barco que irá chegar
e o seu vento a minha esperança
que também é sua praia.
vê esta pedra — sim, a que guarda sob o tempo
o pulso das vidas; —
ergue tua mão agora,
sorve o lampejo
que esqueci de esconder sob a pedra:
nesta praia só há um lugar onde o amor sobrevive,
e a fé e a fidelidade
caminham utopicamente
banhando os pés.
VIII
somos fundamente tristes quando amamos em segredo...
— o que buscamos em nossa lida?...
todas as ilhas sofrem de ser só
e sempre amar por último o penúltimo engano...
adulo duelos no ancoradouro que há em mim...
há mulheres debruçadas sobre a lua
e o tempo e o traço, se hão,
são partes da mão
e o poeta um pedaço
do espaço e do chão...
o sonho é apenas a espera a vida inteira...
num canto em mim todos os homens agonizam
e o deus e a voz
é o eu em nós...
ri, para que eu pense que o mundo acabou!...
teremos que cantar enquanto fundas
as avenidas foscas todas toscas fenecem,
jardins se amontoam sobre os muros
e crianças criam mundos...
canto enquanto sabes que podemos amar...
o amor é um costela que sangra...
o amor é um cortejo sobre o mar...
IX - JORNADA
haverá de nos suportar o tempo da lida,
tudo quanto de tristeza e alegria não cabem no poema —
o verso deve ser comedido
para não comprometer a irmandade
dos solitários poetas.
e haverá a força para não amar e
a tarde para recriar os sapatos — os pés
representam asseados a alma do poeta,
quando sujos, sua coragem e abnegação.
haverá todo tempo para construir o verso
limpar a casa e escrever
literatura —
haverá música e pêssegos
quando o espaço entre o chão e a alma
for um preenchimento apenas de coisas velhas
e com nós
for surdamente esquecido
entre as estações.
tua boca nasce a cada dia
como a faca e a fruta.
há nos teus dentes uma cor
que não há noutra forma de tempo —
a brancura dos teus olhos é irmã e cai
em teu brilho de ursa
e em cada anel.
o teu sorriso é uma forma de vencer as guerras
e as tuas mãos sobre os joelhos
uma arquitetura de gregos.
dei to sobre tudo que desperto
em tua aura de prataria cega
e o meu deleite e a minha dor
copulam numa fogueira pública.
penso que caiu alguma lua no jardim que andaste aqui
e a própria queda dos impérios
é uma predição de ti —
o teu passado é uma praia
onde nasceram as conchas
e o teu presente uma eternidade de luz e de ondas
onde as conchas cantam
teu dom e tua luz.
II
— até quando seremos felizes?
até quando seremos a mira
que o espelho espera?
o duplo multiplicado?
— lembra quando rasgamos o peito e o tempo escoou?
eram moedas e flores
e um hálito de pedras ...
— hoje a flauta doce foi buscada;
o amargo do vinho; a noite;
e uma barca de espelhos
que navega cegamente para guerra...
III
há um poeta rindo no portal da tua casa
que não sou eu mas o eu que te acompanha
e eu estar em ti é lembrar de mim
quando penso que és minha casa.
permaneço em sonho
enquanto tu me navegas,
e existir em ti é realizar os planos
de quando existires
saberes como sofrem os sonhos —
amor é mar
que sempre subexiste
e quando queremos navegar
a vela nos devora
e o vento é sempre triste.
IV - MANHÃ NA LUA
haverás, amada,
de recordar a hora em que éramos felizes:
há poesia no passado
mas não há tempo —
há a dor
a praia e a pedra
onde ancorar o dia
e acordar sobre o teu lado
sem saber
que o sonho é um círculo finito
que sem meios de tecer
tu fias
e colhes a noite
como um manto sobre os braços
uma nau descomunal
ou um verbo que cria.
V - PORTRAIT
sonhávamos tanto que éramos doces
e nosso último disfarce
foi tornarmo-nos amigos
sob a fé de toda balaustrada
de lustres e alaúdes lúgubres
que terminam
quando nua e com flores
cantas
e transbordas os açudes...
acordamos e corremos aos jornais
em busca de poemas
limpamos toda casa onde o sonho é moradia
o sonho que buscamos, o sonho que nos cria
apenas uma trégua
quando a guerra
é a única maneira de se conquistar
e a bandeira só por cada jogo se jogar
porque só é o cadafalso
e falso o laço
do ar.
VI - AUGEN
verde a luzidia forma que encontrares no poema
que verde é seu encanto
enquanto canto sua pena
que a vida nunca estabelece
rara, sem sua medida de tristeza.
talvez a fala
que emudece espaços
a ausência pressentida ou as horas
medirão o tempo da distância...
talvez o olhar
que umedece os passos
o brilho docemente agudo
das pérolas
o jogo
ou as conchas
serão em mim a tua proteção.
as mãos
como os limites de um deus
ou urna pomba absurdamente nua ou despetalada
sobre minha cabeça pousas
nesta sombra que enriquece a luz.
VII - SAL
quando esqueces o meu nome
é poesia a minha dor que se constrói...
— tanta tristeza em sabermos o que seríamos...
e se não fosse a poesia ? — o sonho da noite
é o medo do dia
e o teu sonho é um barco que irá chegar
e o seu vento a minha esperança
que também é sua praia.
vê esta pedra — sim, a que guarda sob o tempo
o pulso das vidas; —
ergue tua mão agora,
sorve o lampejo
que esqueci de esconder sob a pedra:
nesta praia só há um lugar onde o amor sobrevive,
e a fé e a fidelidade
caminham utopicamente
banhando os pés.
VIII
somos fundamente tristes quando amamos em segredo...
— o que buscamos em nossa lida?...
todas as ilhas sofrem de ser só
e sempre amar por último o penúltimo engano...
adulo duelos no ancoradouro que há em mim...
há mulheres debruçadas sobre a lua
e o tempo e o traço, se hão,
são partes da mão
e o poeta um pedaço
do espaço e do chão...
o sonho é apenas a espera a vida inteira...
num canto em mim todos os homens agonizam
e o deus e a voz
é o eu em nós...
ri, para que eu pense que o mundo acabou!...
teremos que cantar enquanto fundas
as avenidas foscas todas toscas fenecem,
jardins se amontoam sobre os muros
e crianças criam mundos...
canto enquanto sabes que podemos amar...
o amor é um costela que sangra...
o amor é um cortejo sobre o mar...
IX - JORNADA
haverá de nos suportar o tempo da lida,
tudo quanto de tristeza e alegria não cabem no poema —
o verso deve ser comedido
para não comprometer a irmandade
dos solitários poetas.
e haverá a força para não amar e
a tarde para recriar os sapatos — os pés
representam asseados a alma do poeta,
quando sujos, sua coragem e abnegação.
haverá todo tempo para construir o verso
limpar a casa e escrever
literatura —
haverá música e pêssegos
quando o espaço entre o chão e a alma
for um preenchimento apenas de coisas velhas
e com nós
for surdamente esquecido
entre as estações.
1 147
Vera Romariz
Sem Óculos
Na cama te quero
sem óculos
esquadro e régua
sem limites nas dobras
dos lençóis
mais moderno
selvagem
das entradas e bandeiras
petróleo sem surpresas
ciências plataformas
correntes colossais
Na cama te faço
objeto de pesquisa
sem financiamento
externo
materialista dialético
de roucas práxis
rituais
diabólico jeito de ser Deus
sem cruz
cruzando corpos desiguais
Na cama te quero
vivendo papéis profanos
motor ligado
jato de gás em fogo
fósforo que vira tocha
no sair da caixa
e incendeia jardins, plantas, flores
canaviais
sem óculos
esquadro e régua
sem limites nas dobras
dos lençóis
mais moderno
selvagem
das entradas e bandeiras
petróleo sem surpresas
ciências plataformas
correntes colossais
Na cama te faço
objeto de pesquisa
sem financiamento
externo
materialista dialético
de roucas práxis
rituais
diabólico jeito de ser Deus
sem cruz
cruzando corpos desiguais
Na cama te quero
vivendo papéis profanos
motor ligado
jato de gás em fogo
fósforo que vira tocha
no sair da caixa
e incendeia jardins, plantas, flores
canaviais
1 295
Wanda Cristina
Babugem de Esperança
Este soneto que sai a boca,
salgado e amargo, exalando dor,
é a babugem da esperança louca,
que desbotou em lágrimas de amor.
Inúteis foram as noites acordadas,
poemas tristes, olhos que choraram:
inúteis foram as dores suicidadas
nos meus carinhos que te desculparam,
Estou sozinha com a minha mão.
E estes meus dedos que te compreenderam
puseram a culpa no meu coração.
E as saudades que me envelheceram,
presas em jaulas de ingratidão,
insistem em viver, mas já morreram.
salgado e amargo, exalando dor,
é a babugem da esperança louca,
que desbotou em lágrimas de amor.
Inúteis foram as noites acordadas,
poemas tristes, olhos que choraram:
inúteis foram as dores suicidadas
nos meus carinhos que te desculparam,
Estou sozinha com a minha mão.
E estes meus dedos que te compreenderam
puseram a culpa no meu coração.
E as saudades que me envelheceram,
presas em jaulas de ingratidão,
insistem em viver, mas já morreram.
894