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Poemas neste tema

Relações e Família

Herberto Helder

Herberto Helder

Fonte - Ii

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Fonte - Ii

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

Notícias Escrevinhadas Na Beira de Estrada

Não sou de choro fácil a não ser quando descubro qualquer coisa muito interessante sobre ácido desoxirribonucleico. Ou quando acho uma carta que fale sobre a descoberta de um novo modelo para a estrutura do ácido desoxirribonucleico, uma carta que termine com “muito amor, papai”. Francis Crick achou o desenho do ADN e escreveu a seu filho só para dizer que “nossa estrutura é muito bonita”. Estrutura, foi o que ele falou. Antes de despedir-se ainda disse: ” Quando você chegar em casa vou-te mostrar o modelo”. Isso não esqueça os dois pacotes de leite, já agora passe a comprar pão, guarde o resto do dinheiro para seus caramelos, e quando você chegar eu te mostro o mecanismo copiador básico a partir do qual a vida vem da vida. Não sou de choro fácil mas um composto orgânico cujas moléculas contêm as instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos me comove. Cromossomas me animam, ribossomas me espantam. A divisão celular não me deixa dormir, e olha que eu moro bem no meio da montanha. De vez em quando vejo passar os aviões, mas isso nunca acontece de madrugada — a noite se guarda toda para o infinito silêncio. Algumas vezes, durante o apuramento das estrelas, penso nos santos que protegem os pilotos. Amelia Earhart disse que não casaria a não ser que fosse assinada uma tabela de condições e essas condições implicavam a possível fuga a qualquer momento.” I cannot gurantee to endure at all times the confinements of even an attractive cage”. Vai passarinho. Soube de uma canção cujo refrão dizia I would die for you, fiquei pensando que mais de metade das canções do mundo dizem isso mas eu nunca entendi isso. Negócio de amor e morte, credo. Lá na escola eles ensinavam que amor são sete vidas multiplicadas, então acho que amor é o contrário do fim. Sei lá, o mundo está mudando tanto. Não sou de choro fácil a não ser quando penso em determinados milagres que ainda não aconteceram. Meu time ganhou por três a dois. O maior banco norte-americano errou, e errou em muitos milhões. Ninguém chegou a falar do aniversário do Superman, e isso também conta como erro. Faltam seis dias para a Primavera, está tendo uma contagem comunitária na aldeia mais próxima daqui. Acho que está chegando a hora do sossego, e que muita alegria vai pintar por aí. Acho que uma palavra é muito mais bonita do que uma carabina, mas não sei se vem ao caso. Nenhuma palavra quer ferir outras palavras: nem desoxirribonucleico, nem montanha, nem canção. Todos esses conceitos têm os seus sinónimos simplificados, veja só, ácido desoxirribonucleico e ADN são exatamente a mesma coisa, e o resto das palavras você acha. É tudo uma questão de amor e prisma, por favor não abra os canhões. Quando Amelia Earhart morreu continuava casada com Putnam — suspeito que ela deve ter visto rostos incríveis nas estrelas. Que coisa mais linda esse ácido despenteado, caramba. Olhei com mais atenção o desenho da estrutura e descobri: a raça humana é toda brilho.
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Valter Hugo Mãe

Valter Hugo Mãe

brincávamos a cair nos braços um do outro

brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as actrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade
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Valter Hugo Mãe

Valter Hugo Mãe

brincávamos a cair nos braços um do outro

brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as actrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade
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Valter Hugo Mãe

Valter Hugo Mãe

brincávamos a cair nos braços um do outro

brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as actrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade
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Herberto Helder

Herberto Helder

Cântico Dos Cânticos - Quinto Poema

Tu és bela, minha amiga, como Tirça,
esplêndida como Jerusalém.
Terrível como um exército debaixo dos estandartes.

Afasta de mim teus olhos, que me fascinam.

Tua cabeleira é um rebanho de cabras
deitado nas encostas de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.

São sessenta as rainhas e oitenta as concubinas,
e é sem número o número das raparigas virgens.
Única porém é a minha amada,
a minha eleita.
E é a única de sua mãe, a amada filha
de sua mãe.
Viram-na as raparigas, e chamaram-na bem-aventurada,
e celebraram-na rainhas e concubinas.

Coro das raparigas de Jerusalém

Quem é que aparece como a aurora,
grande como a lua,
branca como o sol,
terrível como um exército debaixo dos estandartes?

Desci ao jardim das nogueiras para ver os rebentos do vaie,
para ver se a vinha rebentara,
se as romãzeiras estavam em flor.
— Não sei, mas transportou-me o desejo
para a cabeça dos carros do meu povo.

Coro das raparigas de Jerusalém

Volta, volta, ó Sulamite,
volta, volta, para que nós te contemplemos.

Porque olhais para a Sulamite, como se dançasse
ao som de um coro duplo?

Que soberbos são teus pés nas sandálias,
ó filha de príncipe.
A curva das tuas coxas é como um colar,
obra das mãos de um artista.
Abre-se teu umbigo como uma taça redonda,
em teu ventre, montículo de trigo
cercado de lírios.

Teus seios parecem duas gazelinhas gémeas;
e o pescoço, uma torre de marfim.
Teus olhos são as piscinas de Heshbôn,
junto à porta de Bat-Rabbin.
E o teu nariz é como a torre do Líbano,
sentinela voltada para Damas.
E a tua cabeça ergue-se semelhante ao Carmelo,
e as tuas tranças são como a púrpura.

Um rei está fascinado pela tua cabeleira.

Como és bela bela, como
és bela, ó amor, ó delícias.
No teu impulso, és como a palmeira
— teus seios são cachos de tâmaras.
Sejam teus seios como cachos de uvas;
teu hálito, perfume de maçã;
tuas palavras, um vinho delicado.

Como corre nos lábios dos que dormem,
assim pertence o vinho ao meu amado.

E eu pertenço ao meu amado,
e é para mim que se dirige o seu desejo.

— Vem, meu amor, partamos para os campos.
Passaremos a noite nas aldeias,
e pela manhã iremos aos vinhedos.
Veremos se já rebenta a vinha,
e os pâmpanos florescem, e as romãzeiras estão em flor.
Então eu te farei o dom de mim mesma.

As mandrágoras libertam o seu perfume,
e os melhores frutos estão diante da nossa porta.
Para ti, meu amado, eu guardarei os frutos,
os verdes frutos, os frutos já maduros —
para ti os guardarei, ó meu amado.

Fosses tu meu irmão. Poderia beijar-te,
sem surpresa de ninguém.
Irás comigo a casa de minha mãe,
e tudo me ensinarás.
Dar-te-ei a beber um vinho perfumado,
o meu licor de romãs.

O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.

Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
994 1
Herberto Helder

Herberto Helder

Cântico Dos Cânticos - Primeiro Poema

Sou morena mas bela, ó raparigas de Jerusalém,
como as tendas de Quedar,
como os pavilhões de Salomão.
Não olheis meu rosto bronzeado:
foi o sol que me queimou.
Os filhos de minha mãe viraram-se contra mim,
mandaram-me guardar as vinhas.
Porém, eu não guardei a minha própria vinha.

Diz-me, tu a quem ama o meu coração:
onde apascentas o rebanho,
onde o recolhes ao meio-dia?
Para que eu não erre, cara velada, como uma vagabunda,
entre os rebanhos dos teus companheiros.

Coro das raparigas de Jerusalém

Se o não sabes, ó mais bela entre as mulheres,
segue as pegadas dos rebanhos,
apascenta os cabritos junto às tendas dos pastores.

Comparo-te à minha égua, atrelada
ao carro do Faraó.
Inalterável em sua maravilha se conserva teu rosto
ao meio das arrecadas, e o pescoço
com seus colares.
Longos pingentes de ouro e esferas de prata,
para ti.

Enquanto o rei se assenta à sua mesa,
exala o meu nardo o seu perfume.
O meu amado é como um ramo de mirra
cravado entre meus seios —
cacho de ligustro nas vinhas de En-Gaddi.

Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas.

Como és belo belo, meu amado, como
és belo.
Verde de folhagem é o nosso leito verde.

As traves da nossa casa são de cedro, os forros
em madeira de cipreste.

Eu sou a rosa de Saron, o lírio dos vales.

Como o lírio no meio dos cardos,
assim é a minha amada entre as outras raparigas.

Como a macieira entre as árvores de um pomar,
assim é o meu amado entre os homens.
— Sentei-me à sua sombra, coberta
pelos grandes frutos da sua árvore.

Levou-me o meu amado pelas câmaras da festa,
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.

— Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.

O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.

— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
711 1
Matilde Campilho

Matilde Campilho

Fur Com Cara de Whitman

foi assim que você pensou que eu viria ao mundo
foi assim que que você me viu na floresta
foi assim que você me viu pendurado no poste elétrico
sempre pendurado num ramo qualquer, sempre usando
o verão.
você se lembra daquele verão no Brooklin
em que ficámos perseguindo os bombeiros
durante todo o dia apenas para ver
uma vez e depois outra vez
o leque aquático que se abria sobre o fogo?
você citava poetas húngaros mas nesse tempo
eu só queria saber de inventar uma língua
que não existisse.
você se lembra do concierge que nos recebia
na pensão do Brooklin como se nunca
nos houvesse visto antes?
e não havia semana que passasse
em que nós não dormíssemos
pelo menos uma madrugada
na pensão do Brooklin.
me lembro dos dólares amassados
que eu semanalmente tirava do bolso
para pagar a Doug
eu sabia o nome de Doug
o Doug nos tratava disfarçadamente
por menina e menino.
você falava que os dólares vinham
sempre com uma forma diferente
eu adoro como você consegue tirar um coelho do bolso
eu adoro como você consegue tirar uma lâmpada do bolso
eu adoro como você consegue tirar a Beretta 92fs do bolso

foi assim que você pensou que eu ficaria
no mundo
com corpo de besta vestida
usando um lápis pousado na orelha

foi assim que você me viu
pedindo três ovos para Miss Elsie
a senhora da mercearia na Court Street
ela me deu oito ovos
porque ela sempre dava alguma coisa
ela me achava uma graça e ela não acreditava
em números ímpares. eu também não.
me lembro de você na mercearia
do Brooklyn
você costumava ficar lá atrás
brincando na secção das ferramentas.
se eu tivesse mais do que um coelho,
uma lâmpada ou uma pistola
eu teria te comprado um Black n’ Decker
eu acho que você seria a pessoa mais feliz da ilha
com um Black n’ Decker enfiado no cinto.

foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.

só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem. Deus não dorme
e você também não.
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

Roma Amor

Seu cabelo está vermelho
você falou
seu cabelo está todo iluminado
de vermelho & luz
I never wanna be
your weekend lover
respondi certeiro
rebobinando 600 dias
Você lembra da canção?
I never wanna be
your weekend lover
suas mãos desenhando a dança
no oxigênio daquele julho
e o pó se levantando
desde os seus calcanhares
até a nuca de fogo
Você fazendo pouco
de tudo que antes havia
sido chamado de baile
Purple Rain
seu cabelo está todo iluminado
de vermelho & luz
Você se lembra daquele julho?
Uau
você falou
sua pele cresce no vaso
da melanina cada ano mais
E por falar em canções
imagine Maria Teresa
arrumando a casa
arrastando os móveis
na interminável busca
por vestígios de pó
Quem sabe
se na centésima partícula
não será possível achar um pedacinho
do genoma do marido morto
Imagine Maria Teresa
de cabeça enfaixada
varrendo varrendo varrendo
até ficar envolta
na nuvem de pó em genomas
que acontece brilhantemente
no centro da sala
És faxinação, amor
Seu cabelo está todo iluminado
de partículas galácticas
sua pele brota toda negra
ameaçando a primeira visão
que o centauro ofereceu
ao menino de 13 anos
Quando apontou a concha de ouro
La deite a mano no tempo expresso diano
Você falou
é a forma como maio bate na janela
se refrate na geladeira
vai bater nos azulejos
se aloja em seus cabelos
respondi
é a época
das sementes e das explosões
amante de final de semana
não, meu bem
muito menos de quinta-feira
Pense nas crianças
nos avós das crianças
no olho de couro do tio das crianças
Veja só
nem todo mundo tem a possibilidade de ver
entrar em sua família
Um dançarino suspenso
um dançarino su-suspenso
constantemente suspenso
entre o rochedo e a flor
Pense nas crianças
e na fé de nossas crianças
Seu cabelo está todo vermelho
você falou
tudo está muito iluminado
I never wanna be
your weekend lover
eu falei
Então você abriu a porta
para interromper com a refração
para acabar com a promessa
para fechar o desenho
para espulsar o centauro
para estilhaçar a concha
para calar o príncipe
para colocar o móvel no lugar
e empurrar Maria Teresa
Você falou
vai embora
Desça as escadas e suma
Saia agora
Tem alguém chegando aí
e hoje
hoje é só segunda-feira
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

Roma Amor

Seu cabelo está vermelho
você falou
seu cabelo está todo iluminado
de vermelho & luz
I never wanna be
your weekend lover
respondi certeiro
rebobinando 600 dias
Você lembra da canção?
I never wanna be
your weekend lover
suas mãos desenhando a dança
no oxigênio daquele julho
e o pó se levantando
desde os seus calcanhares
até a nuca de fogo
Você fazendo pouco
de tudo que antes havia
sido chamado de baile
Purple Rain
seu cabelo está todo iluminado
de vermelho & luz
Você se lembra daquele julho?
Uau
você falou
sua pele cresce no vaso
da melanina cada ano mais
E por falar em canções
imagine Maria Teresa
arrumando a casa
arrastando os móveis
na interminável busca
por vestígios de pó
Quem sabe
se na centésima partícula
não será possível achar um pedacinho
do genoma do marido morto
Imagine Maria Teresa
de cabeça enfaixada
varrendo varrendo varrendo
até ficar envolta
na nuvem de pó em genomas
que acontece brilhantemente
no centro da sala
És faxinação, amor
Seu cabelo está todo iluminado
de partículas galácticas
sua pele brota toda negra
ameaçando a primeira visão
que o centauro ofereceu
ao menino de 13 anos
Quando apontou a concha de ouro
La deite a mano no tempo expresso diano
Você falou
é a forma como maio bate na janela
se refrate na geladeira
vai bater nos azulejos
se aloja em seus cabelos
respondi
é a época
das sementes e das explosões
amante de final de semana
não, meu bem
muito menos de quinta-feira
Pense nas crianças
nos avós das crianças
no olho de couro do tio das crianças
Veja só
nem todo mundo tem a possibilidade de ver
entrar em sua família
Um dançarino suspenso
um dançarino su-suspenso
constantemente suspenso
entre o rochedo e a flor
Pense nas crianças
e na fé de nossas crianças
Seu cabelo está todo vermelho
você falou
tudo está muito iluminado
I never wanna be
your weekend lover
eu falei
Então você abriu a porta
para interromper com a refração
para acabar com a promessa
para fechar o desenho
para espulsar o centauro
para estilhaçar a concha
para calar o príncipe
para colocar o móvel no lugar
e empurrar Maria Teresa
Você falou
vai embora
Desça as escadas e suma
Saia agora
Tem alguém chegando aí
e hoje
hoje é só segunda-feira
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

Tiger Balm

O brasileiro acha que o amor é importante porra, eu cá não acho nada, só fui arranhando poemas, alinhando conchas, tirei o relógio nos últimos anos para escrever, para ler os textos norte-americanos, guaranis e siríacos. Disse que era índio mas nunca fingi que era índio, sei o que quer dizer biraquera mas nunca me despi na rua. Entendi que não existe um poeta maior e espero ter entendido que um esquiador, um pescador, um astrólogo e um boxeur são quase sempre a mesma coisa. Escutei muitos ícaros e entendi alguns quando me esqueci de tentar entender. Reparei no rosto daquele moço pintado de azul e vi como o pirata lhe apontava uma arma ao alvo. Acho que toda a gente sabe que o alvo é o lugar entre uma sobrancelha e outra, o olho. Frequentei gabinetes de dermatologia mas não percebi nada antes de ter lido o poeta chinês. Soube de histórias de ladrões que foram os primeiros a entrar no céu logo depois de Cristo, e também soube de um anjo que não estava acostumado a fazer de cicerone a esse tipo de gente. Descobri que o círilico não é tão difícil assim se se prestar atenção à forma como são escritos os nomes. Aprendi que desenhar montanhas e a palavra espera são lugares muito semelhantes e que ambos podem ser comparados à dormida de um gavião no olho de Deus. Conheci um jogador de criquete que largou o desporto para dedicar-se à prosa porque acreditava na sorte. Reparei que o seu traje se manteve inalterado nas duas profissões: camisa branca e luvas brancas funcionam como músculo em qualquer eremita. Estudei muito sobre a prática do assobio, ainda não concluí nada e acho que é por isso que sei assobiar de três formas diferentes. Aquela frase sobre o amor está escrita em cartazes espalhados por todas as cidades onde já estive. Havia também uma frase sobre tigres, mas essa ficou num cartaz apenas, numa cidade apenas. Li sobre pássaros e passei a saber que os pássaros medem a distância em unidades de corpo e não em metros: a densidade de cada corpo não importa, o que importa é a distância entre eles. Ainda assim me perguntei muitas noites qual seria a medida de uma asa. Em determinado momento achei que Kuhiu era o homem mais bonito do mundo. Quando não pude mais com o silêncio escutei as canções de Tom Waits, de Leonard Cohen e de Bob Dylan. Soube da morte de Michael Jackson no mesmo dia em que soube que o amor sim é importante, mas não é imutável. Acho que chorei. Telefonei a meu primeiro amor e contei-lhe sobre essa mesma morte. Lembro-me que ele ficou muito tempo calado e depois escutou-se pelo país o ruído de uma garganta seca. Entre nós será a guerra, foi o que ele disse, mas isso foi muito tempo antes. Aconteceu também que eu pedi esse tal em casamento: uma vez, outra vez e depois outra vez. Ele negou três vezes mas nem por isso deixei de achar que ele era o poeta mais bonito do mundo. E fiquei com a impressão que ele nunca deixou de achar que eu era o animal selvagem mais bonito do mundo. Descobri que o eixo de uma aldeia pode muito bem ser o eixo de um corpo de mulher. Soube que se faziam procissões perto do mar mas que estas nunca chegavam ao mar. Fotografei a mulher mais bonita da procissão e apontei o foco à linha que divide as suas omoplatas. Foi aí que aprendi a rezar. Apaixonei-me por bandeiras no Verão de dois mil e dez, quando os meninos dançavam um transe muito psicadélico feito do som dos ramos das aurocárias. Descobri que meu pai nem sempre tinha razão sobre as pessoas, mas que a terra onde meu pai me educou talvez sim. Tremi quando me disseram que o único imperador era o imperador do sorvete. Também me comovi quando entendi que o xisto nascia laminado nalgumas praias e que isso queria dizer escultura. Aprendi a contar pelas manchas múltiplas de uma papaia e acentuei a palavra açaí muitas vezes. Vi dois leões roçado os focinhos um no outro e vi dois leões rugindo contra Deus quando repararam que seus focinhos eram exactamente o mesmo focinho. Decidi que astronauta era a palavra mais incrível de todas, mais ainda do que açaí, e então resolvi que todos os poemas a partir dali seriam escritos no centro de um círculo desenhado num capacete. Já não sei o que acha o brasileiro porque hoje eu acho que brasileiro ou argelino são precisamente a mesma coisa: tudo o que respira, brota. Sei sobre escavação e entalhamento, sei sobre três veleiros cravados numa medalha de ouro. E também sei sobre um homem cujo coração funciona a trinta batimentos por minuto, porque ele é um homem filho de um peixe. Acho que a ternura é importante.
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

Tiger Balm

O brasileiro acha que o amor é importante porra, eu cá não acho nada, só fui arranhando poemas, alinhando conchas, tirei o relógio nos últimos anos para escrever, para ler os textos norte-americanos, guaranis e siríacos. Disse que era índio mas nunca fingi que era índio, sei o que quer dizer biraquera mas nunca me despi na rua. Entendi que não existe um poeta maior e espero ter entendido que um esquiador, um pescador, um astrólogo e um boxeur são quase sempre a mesma coisa. Escutei muitos ícaros e entendi alguns quando me esqueci de tentar entender. Reparei no rosto daquele moço pintado de azul e vi como o pirata lhe apontava uma arma ao alvo. Acho que toda a gente sabe que o alvo é o lugar entre uma sobrancelha e outra, o olho. Frequentei gabinetes de dermatologia mas não percebi nada antes de ter lido o poeta chinês. Soube de histórias de ladrões que foram os primeiros a entrar no céu logo depois de Cristo, e também soube de um anjo que não estava acostumado a fazer de cicerone a esse tipo de gente. Descobri que o círilico não é tão difícil assim se se prestar atenção à forma como são escritos os nomes. Aprendi que desenhar montanhas e a palavra espera são lugares muito semelhantes e que ambos podem ser comparados à dormida de um gavião no olho de Deus. Conheci um jogador de criquete que largou o desporto para dedicar-se à prosa porque acreditava na sorte. Reparei que o seu traje se manteve inalterado nas duas profissões: camisa branca e luvas brancas funcionam como músculo em qualquer eremita. Estudei muito sobre a prática do assobio, ainda não concluí nada e acho que é por isso que sei assobiar de três formas diferentes. Aquela frase sobre o amor está escrita em cartazes espalhados por todas as cidades onde já estive. Havia também uma frase sobre tigres, mas essa ficou num cartaz apenas, numa cidade apenas. Li sobre pássaros e passei a saber que os pássaros medem a distância em unidades de corpo e não em metros: a densidade de cada corpo não importa, o que importa é a distância entre eles. Ainda assim me perguntei muitas noites qual seria a medida de uma asa. Em determinado momento achei que Kuhiu era o homem mais bonito do mundo. Quando não pude mais com o silêncio escutei as canções de Tom Waits, de Leonard Cohen e de Bob Dylan. Soube da morte de Michael Jackson no mesmo dia em que soube que o amor sim é importante, mas não é imutável. Acho que chorei. Telefonei a meu primeiro amor e contei-lhe sobre essa mesma morte. Lembro-me que ele ficou muito tempo calado e depois escutou-se pelo país o ruído de uma garganta seca. Entre nós será a guerra, foi o que ele disse, mas isso foi muito tempo antes. Aconteceu também que eu pedi esse tal em casamento: uma vez, outra vez e depois outra vez. Ele negou três vezes mas nem por isso deixei de achar que ele era o poeta mais bonito do mundo. E fiquei com a impressão que ele nunca deixou de achar que eu era o animal selvagem mais bonito do mundo. Descobri que o eixo de uma aldeia pode muito bem ser o eixo de um corpo de mulher. Soube que se faziam procissões perto do mar mas que estas nunca chegavam ao mar. Fotografei a mulher mais bonita da procissão e apontei o foco à linha que divide as suas omoplatas. Foi aí que aprendi a rezar. Apaixonei-me por bandeiras no Verão de dois mil e dez, quando os meninos dançavam um transe muito psicadélico feito do som dos ramos das aurocárias. Descobri que meu pai nem sempre tinha razão sobre as pessoas, mas que a terra onde meu pai me educou talvez sim. Tremi quando me disseram que o único imperador era o imperador do sorvete. Também me comovi quando entendi que o xisto nascia laminado nalgumas praias e que isso queria dizer escultura. Aprendi a contar pelas manchas múltiplas de uma papaia e acentuei a palavra açaí muitas vezes. Vi dois leões roçado os focinhos um no outro e vi dois leões rugindo contra Deus quando repararam que seus focinhos eram exactamente o mesmo focinho. Decidi que astronauta era a palavra mais incrível de todas, mais ainda do que açaí, e então resolvi que todos os poemas a partir dali seriam escritos no centro de um círculo desenhado num capacete. Já não sei o que acha o brasileiro porque hoje eu acho que brasileiro ou argelino são precisamente a mesma coisa: tudo o que respira, brota. Sei sobre escavação e entalhamento, sei sobre três veleiros cravados numa medalha de ouro. E também sei sobre um homem cujo coração funciona a trinta batimentos por minuto, porque ele é um homem filho de um peixe. Acho que a ternura é importante.
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

Briga Entre Um Terreno Sagrado E Outro

Perdi muito tempo pensando
sobre se você iria para o céu
ou para o inferno
Achava que com tanta gente
ferida por seu punhal
havia uma possibilidade
Sim uma possibilidade
de que você fosse parar
no inferno
Mas depois também tinha
aquela coisa de você nadando
na Praia da Amoreira
ou de você desenhando
com uma pedrinha branca
na pele do rochedo irregular
ou até de você aparecendo
sorrindo na minha frente
Tinha a forma como você
conversava com estranhos
na rua à hora dos lobos
Seu jeito de segurar a raqueta
quando jogava badminton
Aquela sua atrapalhação
quando você se atrasava
Você sempre se atrasava
e chegava correndo
se justificando
olhando o relógio
que você nem tinha
Você toda afogueada
subindo no banco de trás
de minha bicicleta
enquanto eu continuava
lendo o jornal internacional
calmamente
sempre calmamente
te esperando

Você dizia des-des-desculpa
eu lia a última parte da notícia
que falava de um barco
encalhado na Mesoamérica
e depois te dizia vamos?
Havia a possibilidade
é havia uma forte possibilidade
de que você terminasse no céu
ou no paraíso
O tempo que você levava
para se despertar
nas manhãs de dezembro
A atenção que você dedicava
a todas as partes de seu corpo
e de meu corpo
e do corpo do raminho
de magnólias
que adormeciam
e acordavam connosco
no hotel mais sujo da cidade
em dezembro e fevereiro
Isso dizia muito sobre
sua vocação para a meditação
e também para o desespero
Passei muito tempo pensando
sobre se tua inclinação
te levaria até o inferno
pouco depois de tua morte
E mais do que isso
eu também pensava
se você morrer eu morro
se você escolher o gole do diabo
eu bebo do mesmo cantil
Foi assim que me tornei ladrão
Assim que apontei o canivete
na têmpora de Xavier Tementree
Assim que assaltei a horta biológica
para levar todos os pés da salsa dourada

Foi assim que esbofeteei o policial
e pior que isso foi assim que esmurrei
meu colega samurai
quando eu sabia que ele fazia aquilo
só por diversão ou por imitação
Passei muito tempo pensando
num lado e no outro
E portanto nos intervalos do terror
para cobrir minha retaguarda
Eu dançava na quermesse
Alimentava os castores
Contava as línguas das tribos
Fazia vénias aos astrofísicos
Beijava todas as cabeças
dos pássaros e dos lampiões
Não fosse deus tecer a manta
e fazer-te escolher a água benta.

Para onde você vai eu não sei
Na verdade não me importa mais
Porque no caminho do post-mortem
Aconteceu que dei de caras com a vida.
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

M

Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando constantemente dentro das paredes mestras e nós já sabíamos isso, porque a paixão não é de todo a coisa mais importante mas é sim o canudinho através do qual dá para ver que o mundo é muito feito de construções de papel — celulose que vem da árvore e que depois se transforma em lista telefônica de onde alguém arranca a página e logo transforma em veleiros e montanhas. Talvez porque na porta do restaurante habitual alguém toca clarinete ao sol, porque até as ruínas podemos amar nesta cidade, porque eu tenho um olho em você e você tem um dedo em mim, porque para chegar no telhado do aqueduto é preciso percorrer a estreita escadaria de pedra e é impossível não esfregar as costas nas paredes úmidas. Porque atingir o ponto de rebuçado significa simplesmente abandonar todas as coisas e dedicar-se só à concentração, mesmo que todas as coisas sejam um olho preto e um olho castanho e sua dissociação seja a possível causa para a avalanche. Porque a palavra Bushboy não existia até aqui mas agora sim, porque fazer equilibrismo sobre a corda amarela dentro do apartamento é tudo o que já imaginávamos que ia ser, mesmo antes de acontecer. Porque no interior do pulmão do cervo tem a carne que brilha, brilha tanto como o sol que se espelha na ponta da seta. Porque acreditamos, você e eu, que a razão final é que a erva cresça muito acima de nossas cabeças.
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