Valter Hugo Mãe

Valter Hugo Mãe

n. 1971 AO AO

Valter Hugo Mãe é um poeta e escritor português conhecido pela sua poesia densa, reflexiva e muitas vezes melancólica. A sua obra explora temas profundos como a existência, a passagem do tempo, a memória, a dor e a busca por sentido num mundo complexo. Caracteriza-se por uma linguagem cuidada, por vezes hermética, mas sempre carregada de uma forte musicalidade e um profundo lirismo, que o tornam uma voz singular na literatura contemporânea em língua portuguesa.

n. 1971-09-25, Saurimo

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brincávamos a cair nos braços um do outro

brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as actrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade
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Biografia

Identificação e contexto básico

Valter Hugo Mãe, nome pelo qual é conhecido o poeta e romancista português Valter Hugo Poulson, nasceu em Angola. A sua obra literária, que abrange poesia e prosa, é amplamente reconhecida pela sua profundidade temática e pela sua linguagem cuidada e musical. A sua nacionalidade é portuguesa e escreve em língua portuguesa.

Infância e formação

Nascido em Angola, Valter Hugo Mãe passou a sua infância e adolescência em Portugal, no seio de uma família que lhe proporcionou um ambiente de estudo e apreciação pela cultura. A sua formação académica, embora não especificamente detalhada em termos de influências literárias iniciais, parece ter sido enriquecida por um contacto precoce com a leitura e com a paisagem cultural portuguesa, que viria a moldar a sua sensibilidade e o seu estilo.

Percurso literário

O percurso literário de Valter Hugo Mãe iniciou-se no campo da poesia, onde rapidamente se destacou pela originalidade e pela força expressiva da sua escrita. Ao longo do tempo, a sua obra evoluiu, explorando novas facetas temáticas e estilísticas, mas sempre mantendo uma identidade reconhecível. Além da sua atividade como poeta, o autor dedicou-se também à escrita em prosa, com romances que alcançaram grande sucesso de crítica e público, demonstrando a sua versatilidade.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Valter Hugo Mãe incluem títulos de poesia como "a Jurema" e "doce vida", e romances como "O Filho de Mil Homens" e "A Máquina de Fazer Espanhóis". Os temas dominantes na sua obra são a existência, a passagem do tempo, a memória, a dor, a infância, a paternidade e a fragilidade humana. O seu estilo poético é marcado pela densidade imagética, pelo uso frequente de metáforas e comparações, pela musicalidade e pelo ritmo, muitas vezes com uma estrutura que foge às formas tradicionais, abraçando o verso livre. A voz poética é frequentemente confessional e lírica, explorando a subjetividade e as emoções profundas. A linguagem de Valter Hugo Mãe é caracterizada pela sua riqueza vocabular, pela criação de neologismos e pela capacidade de evocar imagens fortes e sensoriais. Introduziu inovações temáticas ao abordar com crueza e sensibilidade temas considerados tabu, como a velhice, a doença e a morte. A sua obra dialoga tanto com a tradição literária como com a modernidade, integrando-se no contexto do modernismo português, com uma forte marca de singularidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Valter Hugo Mãe insere-se no panorama literário português contemporâneo, um período marcado por diversas transformações sociais e culturais. A sua obra reflete, de forma subtil, as inquietações e os dilemas da sociedade atual, abordando questões existenciais que ressoam com a experiência humana universal. Embora não seja explicitamente um autor de intervenção política, a sua escrita, ao focar-se na condição humana, pode ser vista como um reflexo das tensões e das fragilidades da sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Os detalhes sobre a vida pessoal de Valter Hugo Mãe são, por vezes, entrelaçados com a sua obra, que frequentemente aborda temas autobiográficos ou inspirados nas suas vivências. A relação com a infância, a figura paterna e a família são temas recorrentes, sugerindo uma forte ligação entre as suas experiências de vida e a sua produção literária. O autor tem demonstrado uma postura reservada quanto a aspetos mais íntimos, preferindo que a sua obra fale por si.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Valter Hugo Mãe alcançou um lugar de destaque na literatura contemporânea em língua portuguesa, sendo reconhecido tanto em Portugal como no Brasil. Recebeu diversos prémios literários importantes, que atestam a qualidade e o impacto da sua obra. A sua poesia e prosa têm sido objeto de estudo académico e a sua popularidade junto dos leitores é significativa, o que demonstra a sua capacidade de alcançar um público vasto e diversificado.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora as influências diretas na sua obra sejam um aspeto a ser aprofundado em análises críticas, o estilo único de Valter Hugo Mãe sugere uma leitura atenta da tradição poética, assim como uma abertura a novas formas de expressão. O seu legado reside na capacidade de renovar a linguagem poética, de abordar temas universais com uma sensibilidade singular e de criar personagens e narrativas que perduram na memória dos leitores. A sua influência pode ser notada em poetas e escritores mais jovens que procuram novas formas de explorar a linguagem e a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Valter Hugo Mãe tem sido objeto de diversas interpretações críticas que apontam para a riqueza simbólica e a profundidade existencial dos seus textos. Os temas filosóficos, como a finitude, o amor e a busca de identidade, são centrais nas análises. A sua abordagem à dor e à fragilidade humana, aliada a uma linguagem que muitas vezes desafia convenções, gera debates sobre a natureza da arte e a sua capacidade de representar a complexidade da experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante da obra de Valter Hugo Mãe é a forma como ele entrelaça a experiência pessoal com a criação artística, tornando a sua obra um espelho das suas reflexões mais íntimas. A sua dedicação à escrita, aliada a uma discrição sobre a sua vida privada, contribui para uma aura de mistério em torno da sua figura, alimentando a curiosidade dos leitores sobre os processos criativos e as inspirações que moldam os seus textos. Os seus escritos, tanto em prosa como em verso, são frequentemente marcados por um profundo lirismo e por uma observação minuciosa da realidade, muitas vezes transfigurada pela sua imaginação.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Até ao momento, Valter Hugo Mãe encontra-se vivo e continua a sua prolífica produção literária. Não existem, portanto, publicações póstumas ou circunstâncias de morte a relatar.

Poemas

7

brincávamos a cair nos braços um do outro

brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as actrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade
642

a capitalização do amor

não escondemos que aprendemos a
capitalizar o amor, entregando
amplamente os nossos melhores
momentos às raparigas mais carentes.
o amor, sabemos bem, é o caminho directo
para a inutilidade, e nós procuramos as
raparigas que mais rapidamente se
inutilizem perante as coisas clássicas
da vida. não nos queremos atarefar com
a vulgaridade, e gostaríamos até de
impregnar cada gesto com características
alienígenas, mas o tempo escapa-se e o
dinheiro também e, se só pensamos no amor,
não temos como fazer de outro modo
senão vendê-lo entusiasticamente, como
fontes de trovões bonitos jorrando nas
praças mais movimentadas das cidades. e
as raparigas correm para nós urgentes
e cheias de vida, férteis de tudo quanto o
amor se abate sobre elas, uma alegria rica
de se ver, e nós a balançar os braços para
chamar a atenção de mais e mais e
já nem sabemos como parar, como forças
incontroladas, à semelhança de mecanismos
ferozes da natureza, e só sairemos daqui
quando desfalecermos de amor até
pelas raparigas mais feias
679

nenhum amor escapa impune

deixa-me perguntar se te
pareço tão assustado assim. Não
me sinto deslocado, talvez curioso, mas
nem surpreso. algo em ti me puxa
sempre ao sentimento, mesmo antes de
te conhecer, lembras-te, uma propensão para
te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus
modos, recusar admitir que também eu sou
capaz de crueldades quotidianas e
impunes. queria conversar contigo
sobre o nelson, que foi ver as coisas a
arder fotografando a própria
pele. queria falar-te da isabel e de como
choramos juntos, muito maricas, quando
nos correm mal estes amores ou, pior, a
nossa amizade. esta noite sonhei contigo e
achei graça dizer-te que cheirava mal
na nossa cama. que me incomodou a luz a entrar
pela persiana por fechar. que ouvi com dor o
orgasmo da vizinha de baixo

queria que soubesses que também eu
poderia ter ardido para o nelson
fotografar. queria que soubesses que
também poderia parar de chorar pela
isabel. queria que soubesses que o faria
exclusivamente
para arruinar o meu coração, se fosse a
tua vontade e com isso te deixasse em
paz. faria qualquer coisa, ainda que
quisesse morrer a seguir, faria qualquer coisa que,
por um instante, te pusesse
a pensar em mim
589

modo de amar

prometo ser-te fiel se mo fores
também, não é certo que mo venhas a
ser. por isso, já to perdoo

prefiro partir assim para o resto da
vida. assim, com os olhos abertos à
frustração e talvez à vulnerabilidade

não prevejo nada em concreto, acredita,
não tenho olhos para outras moças,
só o digo assim por ser verdade

que tarde ou cedo havemos de encontrar
nos outros motivos de inusitado
interesse, e depois, pergunto,

vale mais que acordemos um amor
sobreposto ao futuro, um amor agora
que tenha conhecimento do futuro

e não esperar mais nada senão
a verdade. a decadente verdade que
chega já depois dos primeiros beijos
953

se o vento é a ignição

se o vento é a ignição
das árvores venha o
temporal, elas ateadas sobre
as nossas cabeças, desmembradas
da terra como voadores desajeitados, meu pai
já conheço o vão da tua fome, peço-te,
faz de mim uma colher
divina
1 062

o homem que já não sou

não me olhes agora que estou
mais velho e não correspondo em
nada ao homem que
amaste, procura encarar a tristeza
sem me incluíres, seria demasiado
cruel que me usasses para a
dor. para ti
quis trazer as coisas mais belas
e em tudo o que fiz pus o
cuidado meticuloso de quem
ama. não me obrigues a cortar os
pulsos quando fores num minuto ao
jardim com o cão

esta noite, sem notares, sustive a
respiração e quase morri. não deste
por nada. julgaste que voltei a
ressonar e até terás esboçado um
sorriso. e se eu pudesse morrer
enquanto sorris, pergunto

deixo para depois, ou talvez
desista. mas não pode ser se
tu me olhares em busca de tudo o que
já não existe. não pode ser, levo a
faca maior para debaixo do meu
travesseiro, juro-te que me
mato se continuares assim
751

poema sobre o amor eterno

inventaram um amor eterno. trouxeram-no em braços para o meio das pessoas e ali ficou, à espera que lhe falassem. mas ninguém entendeu a necessidade de sedução. pouco a pouco, as pessoas voltaram a casa convictas de que seria falso alarme, e o amor eterno tombou no chão. não estava desesperado, nada do que é eterno tem pressa, estava só surpreso. um dia, do outro lado da vida, trouxeram um animal de duzentos metros e mil bocas e, por ocupar muito espaço, o amor eterno deslizou para fora da praça. ficou muito discreto, algo sujo. foi como um louco o viu e acreditou nas suas intenções. carregou-o para dentro do seu coração, fugindo no exacto momento em que o animal de duzentos metros e mil bocas se preparava para o devorar
757

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