José Luís Peixoto

José Luís Peixoto

n. 1974 PT PT

José Luís Peixoto é um dos mais proeminentes escritores portugueses contemporâneos, conhecido pela sua prosa lírica e pela exploração profunda da condição humana, da memória e da identidade. Sua obra abrange poesia, romance e conto, distinguindo-se pela originalidade estilística e pela capacidade de evocar paisagens e emoções de forma intensa, o que lhe valeu reconhecimento nacional e internacional.

n. 1974-09-04, Ponte de Sor

93 827 Visualizações

fingir que está tudo bem

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

José Luís Peixoto nasceu em Trindade, Lousã, Portugal. É um escritor multifacetado, autor de poesia, prosa (romances e contos) e dramaturgia. Sua obra é escrita em língua portuguesa.

Infância e formação

Peixoto cresceu na Lousã, uma região que frequentemente inspira suas paisagens literárias. A sua formação, embora não detalhada publicamente em termos de percursos acadêmicos específicos, é notória pela sua profunda ligação com a leitura e a escrita desde cedo. Absorveu influências diversas da literatura portuguesa e universal, com um estilo que demonstra familiaridade com diferentes correntes literárias.

Percurso literário

O seu percurso literário iniciou-se com a poesia, mas foi com o romance "Nenhum Olhar" (1997) que ganhou maior visibilidade. Desde então, tem vindo a consolidar uma obra extensa e diversificada, publicando regularmente romances, livros de poesia e contos. Colaborou com diversas publicações e é frequentemente convidado para eventos literários em Portugal e no estrangeiro.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de José Luís Peixoto incluem romances como "Nenhum Olhar" (1997), "A Padaria" (2000), "O Livro da Recreação", "Galanteios de um Tropeceiro" (2002), "Morreste-me" (2010) e "O Caminho de Regresso" (2013). Na poesia, destacam-se "A Criança em Ruínas" (2001) e "Cicatriz" (2005). O seu estilo é caracterizado por uma prosa poética e lírica, com um uso singular da linguagem, explorando o ritmo, a musicalidade e a densidade imagética. Os temas recorrentes na sua obra incluem a memória, a identidade, a infância, a relação com o passado, a morte e a condição humana. A voz poética é muitas vezes introspectiva, confessional e universalizante. Peixoto é frequentemente associado a uma escrita que conjuga o realismo com uma forte componente lírica e simbólica. A sua obra tem sido elogiada pela capacidade de criar atmosferas densas e pela exploração psicológica das personagens.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico José Luís Peixoto insere-se na literatura portuguesa contemporânea, dialogando com outros autores da sua geração e contribuindo para a renovação da ficção e da poesia em Portugal. O contexto histórico recente, marcado por crises económicas e sociais, pode ser subjacente a algumas das suas reflexões sobre a fragilidade da existência e a busca por sentido.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Embora a sua vida pessoal seja mantida com discrição, sabe-se que a sua ligação à terra natal, a Lousã, é um elemento importante que se reflete nas suas obras, nomeadamente em "Morreste-me", dedicada ao seu pai.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção José Luís Peixoto tem recebido amplo reconhecimento nacional e internacional. Os seus livros foram traduzidos para diversas línguas e foram distinguidos com vários prémios literários. É um autor com forte presença em feiras do livro e eventos literários, tanto em Portugal como em outros países, demonstrando uma popularidade que transcende o meio académico.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Peixoto são diversas, abrangendo autores da literatura portuguesa e mundial que exploram a profundidade da linguagem e a investigação do eu. O seu legado reside na contribuição para a poesia e prosa contemporânea em língua portuguesa, marcada por um lirismo singular e pela exploração de temas existenciais com uma sensibilidade ímpar.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Peixoto é frequentemente objeto de análise crítica que destaca a sua capacidade de renovar a linguagem literária e de abordar temas universais de forma original. As suas obras convidam à reflexão sobre a memória, a perda e a resiliência do espírito humano.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto particularmente tocante da sua obra é a forma como a memória familiar e pessoal se entrelaça com a ficção, como em "Morreste-me", um livro que aborda a morte do pai de forma sentida e universal.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória A obra de Peixoto, especialmente "Morreste-me", lida de forma profunda com a temática da morte, não como um fim, mas como uma presença contínua que molda a vida e a memória.

Poemas

4

fingir que está tudo bem

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.
20 935

o tempo, subitamente solto

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
17 774

a criança em ruínas I

fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.
8 398

A Metáfora

No ano passado
escrevi um poema
que começava assim:
"sinto a lâmina do teu ciúme no meu peito"
- era uma metáfora, claro.
E não suspeitei.

Agora,
que me espetaste a faca de descascar batatas entre as costelas,
único desfecho lógico para o nosso amor;
agora, que sinto a lâmina
e o sangue morno a alastrar-me na camisa,
sei, finalmente e tarde demais,
a fraca expressividade das metáforas.

Por isso,
se ainda gostares um bocado de mim,
pede para, na segunda edição,
alterarem o verso para:
"sinto o teu ciúme como uma lâmina no meu peito".
5 969

Videos

50

Comentários (9)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Meu Caro Poeta... fingir que está tudo bem... é o maior de todos os obscuros mundo ; o de envelhecer e ter muito medo de morrer, ambos de amor e uma água apagando o imenso fogo.

Ana rafael 2
Ana rafael 2

Muito mau, diz o João. Aconselho-o a consultar a obra de José Luís Peixoto e os prémios atribúidos e depois se mesmp assim o considerar "muito mau", aceito a sua falta de sensibilidade perante uma nova forma de escrever. Sabe, ele é "comparado" a José Saramago ... daí que o "ache" muito mau. Nem todos os "olhos" e "mentes" foram feitas para gostar de um Prémio Nobel....

Carlos Peixoto
Carlos Peixoto

O autor se fosse jogador de futebol era o médium criativo da equipa tipo o número 10, é bom no jogo aéreo.

t. j. fernandes
t. j. fernandes

peixoto escreve com clareza de temas muito portugueses e profundos. gosto muito. cinco estrelas!

Paulo Freitas
Paulo Freitas

Fantástico escritor!