Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Lucy Teixeira
Elegia Fundamental
Metamorfose,
os fundamentos de tua lógica
são cimentados de lâminas vivas,
Voraz, Vastíssima, cujos pé não vejo,
as tuas normas
em que ventre ou motor se organizaram?,
pura dilaceração continuada.
Obsessão cantando o seu nome ininterrupto,
nunca verei a tua face,
negra e fulgurante,
vagarosa e veloz,
impiedosa coisa inabalável
que me namora a coisa mais esplêndida;
ainda não, prestidigitadora,
a divertir-se já com o que me foi
suave raiz cujo perfume queimo
neste campo onde se luta uma lembrança.
Começa o teu sigilado festim,
enquanto as correias do ar,
sustentam o pavilhão onde ficamos
cada vez menos acariciados
e gradualmente aturdidos.
Começa o teu discurso, dragão,
e cresta, e cresta
onde em nós é que dói.
.........................................................
Pela manhã
ergue-se o ervatário
indo colher no campo
vagas ervas medicinais.
Colhe a luz do teu sorriso,
plantador cujas mãos,
cobertas de anéis de areia
agora possuem a Terra.
os fundamentos de tua lógica
são cimentados de lâminas vivas,
Voraz, Vastíssima, cujos pé não vejo,
as tuas normas
em que ventre ou motor se organizaram?,
pura dilaceração continuada.
Obsessão cantando o seu nome ininterrupto,
nunca verei a tua face,
negra e fulgurante,
vagarosa e veloz,
impiedosa coisa inabalável
que me namora a coisa mais esplêndida;
ainda não, prestidigitadora,
a divertir-se já com o que me foi
suave raiz cujo perfume queimo
neste campo onde se luta uma lembrança.
Começa o teu sigilado festim,
enquanto as correias do ar,
sustentam o pavilhão onde ficamos
cada vez menos acariciados
e gradualmente aturdidos.
Começa o teu discurso, dragão,
e cresta, e cresta
onde em nós é que dói.
.........................................................
Pela manhã
ergue-se o ervatário
indo colher no campo
vagas ervas medicinais.
Colhe a luz do teu sorriso,
plantador cujas mãos,
cobertas de anéis de areia
agora possuem a Terra.
1 255
1
José Terra
Insegurança
Tenho medo de ti, ó meu irmão,
Dessas palavras mansas tenho medo,
Se até as pedras ouvem o segredo
Guardado nos confins do coração ...
Tenho receio, amor, dessa canção
Que tu me cantas, desse teu enredo
Será teu corpo a nau para o degredo.
Teus braços nus a grade da prisão?
Minha mãe! minha mãe! não te confio
O meu destino e é vão esse teu pranto!
Não trairás acaso o filho amado?
Não me conheço nessa voz que rio,
Espreitam-me os assassinos, e, no entanto,
É um criminoso o que ficar calado!
Dessas palavras mansas tenho medo,
Se até as pedras ouvem o segredo
Guardado nos confins do coração ...
Tenho receio, amor, dessa canção
Que tu me cantas, desse teu enredo
Será teu corpo a nau para o degredo.
Teus braços nus a grade da prisão?
Minha mãe! minha mãe! não te confio
O meu destino e é vão esse teu pranto!
Não trairás acaso o filho amado?
Não me conheço nessa voz que rio,
Espreitam-me os assassinos, e, no entanto,
É um criminoso o que ficar calado!
1 088
1
Gláucia Lemos
Poemas da Distância
Como se fosses chegar
na hora seguinte.
Estendo os meus olhos
para lá da poeira
mas meus olhos imergem
nas águas do mar...
Se eu sei que,
cortando a enchente
que cresceu e venceu o alto do muro
e alagou o caminho,
não virás ainda,
se eu sei que
os trilhos que os pneus
traçaram paralelos nesta estrada de areia,
nem sabem de ti,
entendo quanto é louco
este olhar que te espera
esperando um milagre.
Se me lembro
de que vieste na noite de ontem
à hora da estrela,
e quando eu colhia o diamante de Vésper
te tinha comigo,
sei,
como é louco este olhar que te espera
esperando o milagre!
na hora seguinte.
Estendo os meus olhos
para lá da poeira
mas meus olhos imergem
nas águas do mar...
Se eu sei que,
cortando a enchente
que cresceu e venceu o alto do muro
e alagou o caminho,
não virás ainda,
se eu sei que
os trilhos que os pneus
traçaram paralelos nesta estrada de areia,
nem sabem de ti,
entendo quanto é louco
este olhar que te espera
esperando um milagre.
Se me lembro
de que vieste na noite de ontem
à hora da estrela,
e quando eu colhia o diamante de Vésper
te tinha comigo,
sei,
como é louco este olhar que te espera
esperando o milagre!
1 045
1
Antero de Quental
Nihil
Homem!
Homem! Mendigo do Infinito!
Abres a boca e estendes os teus braços
A ver se os astros caem dos espaços
A encher o vácuo imenso do finito!
Porque sobes à rocha de granito?
Porque é que dás no ar tantos abraços?
E cuidas amarrar com férreos laços
Um reflexo da sombra de um espírito?
Vê que o céu, por escárnio, a luz nos lança!
Que, à tua voz, a voz da imensidão
Responde com imensa gargalhada!
A ideia fechou a porta à esperança
Quando lhe foi pedir agasalho e pão....
Deixou-a cara a cara com o Nada!! ..
Homem! Mendigo do Infinito!
Abres a boca e estendes os teus braços
A ver se os astros caem dos espaços
A encher o vácuo imenso do finito!
Porque sobes à rocha de granito?
Porque é que dás no ar tantos abraços?
E cuidas amarrar com férreos laços
Um reflexo da sombra de um espírito?
Vê que o céu, por escárnio, a luz nos lança!
Que, à tua voz, a voz da imensidão
Responde com imensa gargalhada!
A ideia fechou a porta à esperança
Quando lhe foi pedir agasalho e pão....
Deixou-a cara a cara com o Nada!! ..
5 078
1
Gláucia Lemos
Poema Para o Atormentado Silêncio
Que rei me colherá deste silêncio
depois que escondi dentro dos meus cofres
as chagas que se pejam de mostrar?
Que sons comoverão os meus ouvidos
depois que cortei as falas aos pastores
e recuei minha melhor orquestra?
Que lábios semearão na minha boca
sementes mentirosas como as tuas
sabores de groselha e de absinto?
Que espinhos forrarão mais outra estrada
pra quem neste silêncio atormentado
não poderá jamais deixar de ir?
Ah.. quem guardará minhas respostas
depois que me neguei a procurá-las?...
23.06.96
depois que escondi dentro dos meus cofres
as chagas que se pejam de mostrar?
Que sons comoverão os meus ouvidos
depois que cortei as falas aos pastores
e recuei minha melhor orquestra?
Que lábios semearão na minha boca
sementes mentirosas como as tuas
sabores de groselha e de absinto?
Que espinhos forrarão mais outra estrada
pra quem neste silêncio atormentado
não poderá jamais deixar de ir?
Ah.. quem guardará minhas respostas
depois que me neguei a procurá-las?...
23.06.96
1 147
1
Gláucia Lemos
Poema Para o Atormentado Silêncio
Que rei me colherá deste silêncio
depois que escondi dentro dos meus cofres
as chagas que se pejam de mostrar?
Que sons comoverão os meus ouvidos
depois que cortei as falas aos pastores
e recuei minha melhor orquestra?
Que lábios semearão na minha boca
sementes mentirosas como as tuas
sabores de groselha e de absinto?
Que espinhos forrarão mais outra estrada
pra quem neste silêncio atormentado
não poderá jamais deixar de ir?
Ah.. quem guardará minhas respostas
depois que me neguei a procurá-las?...
23.06.96
depois que escondi dentro dos meus cofres
as chagas que se pejam de mostrar?
Que sons comoverão os meus ouvidos
depois que cortei as falas aos pastores
e recuei minha melhor orquestra?
Que lábios semearão na minha boca
sementes mentirosas como as tuas
sabores de groselha e de absinto?
Que espinhos forrarão mais outra estrada
pra quem neste silêncio atormentado
não poderá jamais deixar de ir?
Ah.. quem guardará minhas respostas
depois que me neguei a procurá-las?...
23.06.96
1 147
1
José Chagas
O Apito do Passado
O Mearim derrama na distância
uma água que em sonhos nos invade,
como fio invisível que se lance a
separar em duas a cidade.
E essa água vem banhar sem que se canse a
vida inteira que no rio nade,
porquanto água de amor que lava infância
lava também velhice e mocidade.
Mearim — rio velho e rio novo,
alegria e aflição de um mesmo povo —
um mar se afoga nos mistérios teus.
Mas preservas em ti, para Pedreiras,
vibrando no ar, o apito das primeiras
lanchas que nos deixaram seu adeus.
uma água que em sonhos nos invade,
como fio invisível que se lance a
separar em duas a cidade.
E essa água vem banhar sem que se canse a
vida inteira que no rio nade,
porquanto água de amor que lava infância
lava também velhice e mocidade.
Mearim — rio velho e rio novo,
alegria e aflição de um mesmo povo —
um mar se afoga nos mistérios teus.
Mas preservas em ti, para Pedreiras,
vibrando no ar, o apito das primeiras
lanchas que nos deixaram seu adeus.
1 471
1
David Mourão-Ferreira
Sala de Espera
Quem foi
antes de mim não demorou,
Aqui, senão o tempo de cansar-se....
Fiquei, na sala verde, eu só:
A sós comigo, só
Impuro e sem disfarce..
Verde, também, a vida onde esperamos
O fim que bem sabemos nos espera....
M as enquanto aqui estamos
Sejam verdes os ramos
E verde a Primavera....
Quem por aqui passou, passou
Em busca dum pavor que lhe faltara...
Fiquei, nasala verde, eu só.
(Agora nem me dou
à flor mais rara....)
Perto me aguarda a simples decisão.
(Que por enquanto, aqui, é só a espera.)
- E , arrependido, o coração
Vai dizendo que não
À Primavera.
antes de mim não demorou,
Aqui, senão o tempo de cansar-se....
Fiquei, na sala verde, eu só:
A sós comigo, só
Impuro e sem disfarce..
Verde, também, a vida onde esperamos
O fim que bem sabemos nos espera....
M as enquanto aqui estamos
Sejam verdes os ramos
E verde a Primavera....
Quem por aqui passou, passou
Em busca dum pavor que lhe faltara...
Fiquei, nasala verde, eu só.
(Agora nem me dou
à flor mais rara....)
Perto me aguarda a simples decisão.
(Que por enquanto, aqui, é só a espera.)
- E , arrependido, o coração
Vai dizendo que não
À Primavera.
4 728
1
David Mourão-Ferreira
Sala de Espera
Quem foi
antes de mim não demorou,
Aqui, senão o tempo de cansar-se....
Fiquei, na sala verde, eu só:
A sós comigo, só
Impuro e sem disfarce..
Verde, também, a vida onde esperamos
O fim que bem sabemos nos espera....
M as enquanto aqui estamos
Sejam verdes os ramos
E verde a Primavera....
Quem por aqui passou, passou
Em busca dum pavor que lhe faltara...
Fiquei, nasala verde, eu só.
(Agora nem me dou
à flor mais rara....)
Perto me aguarda a simples decisão.
(Que por enquanto, aqui, é só a espera.)
- E , arrependido, o coração
Vai dizendo que não
À Primavera.
antes de mim não demorou,
Aqui, senão o tempo de cansar-se....
Fiquei, na sala verde, eu só:
A sós comigo, só
Impuro e sem disfarce..
Verde, também, a vida onde esperamos
O fim que bem sabemos nos espera....
M as enquanto aqui estamos
Sejam verdes os ramos
E verde a Primavera....
Quem por aqui passou, passou
Em busca dum pavor que lhe faltara...
Fiquei, nasala verde, eu só.
(Agora nem me dou
à flor mais rara....)
Perto me aguarda a simples decisão.
(Que por enquanto, aqui, é só a espera.)
- E , arrependido, o coração
Vai dizendo que não
À Primavera.
4 728
1
Antero de Quental
O Convertido
Entre os
filhos d um século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
D uma ânsia impotente de infinito.
Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza ...
Mas , um dia, abalou-se-me a firmeza,
Deu-me rebate o coração contrito!
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para deus minha alma triste!
Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!
filhos d um século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
D uma ânsia impotente de infinito.
Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza ...
Mas , um dia, abalou-se-me a firmeza,
Deu-me rebate o coração contrito!
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para deus minha alma triste!
Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!
2 461
1
Antero de Quental
O Convertido
Entre os
filhos d um século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
D uma ânsia impotente de infinito.
Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza ...
Mas , um dia, abalou-se-me a firmeza,
Deu-me rebate o coração contrito!
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para deus minha alma triste!
Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!
filhos d um século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
D uma ânsia impotente de infinito.
Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza ...
Mas , um dia, abalou-se-me a firmeza,
Deu-me rebate o coração contrito!
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para deus minha alma triste!
Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!
2 461
1
Antero de Quental
O Convertido
Entre os
filhos d um século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
D uma ânsia impotente de infinito.
Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza ...
Mas , um dia, abalou-se-me a firmeza,
Deu-me rebate o coração contrito!
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para deus minha alma triste!
Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!
filhos d um século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
D uma ânsia impotente de infinito.
Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza ...
Mas , um dia, abalou-se-me a firmeza,
Deu-me rebate o coração contrito!
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para deus minha alma triste!
Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!
2 461
1
Lígia Diniz
Por Isso
Por não me dares nada
Quando quero tudo
Por te dar tudo
Quando não pedes nada
Por isto
e por mil outras coisas
Mais ainda
por estas mil outras coisas
Pelos teus olhos de criança crescida
Teu jeito de adulto imaturo
Tua risada rascante
Tua maneira de te importar
não te importando
Por aquele sábado
E aqueles treze dias infinitos
E estes dias que não passam quando não estás perto
Pelos que quase não vejo, por estar ao teu lado
Pelos meus olhos que choram (às vezes)
como os de uma criança sozinha
Pelos meus olhos que sorriem quando te vêem
Pelas nossas bocas
E mais, por esta saudade infinita
das coisas que ainda estão por vir
E pelo medo de que elas não venham
Porque eu te amo tanto que meu peito dói
E a alma inteira estremece
Por ser completamente tua,
Só te peço uma coisa: seja verdadeiramente meu.
Quando quero tudo
Por te dar tudo
Quando não pedes nada
Por isto
e por mil outras coisas
Mais ainda
por estas mil outras coisas
Pelos teus olhos de criança crescida
Teu jeito de adulto imaturo
Tua risada rascante
Tua maneira de te importar
não te importando
Por aquele sábado
E aqueles treze dias infinitos
E estes dias que não passam quando não estás perto
Pelos que quase não vejo, por estar ao teu lado
Pelos meus olhos que choram (às vezes)
como os de uma criança sozinha
Pelos meus olhos que sorriem quando te vêem
Pelas nossas bocas
E mais, por esta saudade infinita
das coisas que ainda estão por vir
E pelo medo de que elas não venham
Porque eu te amo tanto que meu peito dói
E a alma inteira estremece
Por ser completamente tua,
Só te peço uma coisa: seja verdadeiramente meu.
895
1
Lígia Diniz
Por Isso
Por não me dares nada
Quando quero tudo
Por te dar tudo
Quando não pedes nada
Por isto
e por mil outras coisas
Mais ainda
por estas mil outras coisas
Pelos teus olhos de criança crescida
Teu jeito de adulto imaturo
Tua risada rascante
Tua maneira de te importar
não te importando
Por aquele sábado
E aqueles treze dias infinitos
E estes dias que não passam quando não estás perto
Pelos que quase não vejo, por estar ao teu lado
Pelos meus olhos que choram (às vezes)
como os de uma criança sozinha
Pelos meus olhos que sorriem quando te vêem
Pelas nossas bocas
E mais, por esta saudade infinita
das coisas que ainda estão por vir
E pelo medo de que elas não venham
Porque eu te amo tanto que meu peito dói
E a alma inteira estremece
Por ser completamente tua,
Só te peço uma coisa: seja verdadeiramente meu.
Quando quero tudo
Por te dar tudo
Quando não pedes nada
Por isto
e por mil outras coisas
Mais ainda
por estas mil outras coisas
Pelos teus olhos de criança crescida
Teu jeito de adulto imaturo
Tua risada rascante
Tua maneira de te importar
não te importando
Por aquele sábado
E aqueles treze dias infinitos
E estes dias que não passam quando não estás perto
Pelos que quase não vejo, por estar ao teu lado
Pelos meus olhos que choram (às vezes)
como os de uma criança sozinha
Pelos meus olhos que sorriem quando te vêem
Pelas nossas bocas
E mais, por esta saudade infinita
das coisas que ainda estão por vir
E pelo medo de que elas não venham
Porque eu te amo tanto que meu peito dói
E a alma inteira estremece
Por ser completamente tua,
Só te peço uma coisa: seja verdadeiramente meu.
895
1
Lígia Diniz
Por Isso
Por não me dares nada
Quando quero tudo
Por te dar tudo
Quando não pedes nada
Por isto
e por mil outras coisas
Mais ainda
por estas mil outras coisas
Pelos teus olhos de criança crescida
Teu jeito de adulto imaturo
Tua risada rascante
Tua maneira de te importar
não te importando
Por aquele sábado
E aqueles treze dias infinitos
E estes dias que não passam quando não estás perto
Pelos que quase não vejo, por estar ao teu lado
Pelos meus olhos que choram (às vezes)
como os de uma criança sozinha
Pelos meus olhos que sorriem quando te vêem
Pelas nossas bocas
E mais, por esta saudade infinita
das coisas que ainda estão por vir
E pelo medo de que elas não venham
Porque eu te amo tanto que meu peito dói
E a alma inteira estremece
Por ser completamente tua,
Só te peço uma coisa: seja verdadeiramente meu.
Quando quero tudo
Por te dar tudo
Quando não pedes nada
Por isto
e por mil outras coisas
Mais ainda
por estas mil outras coisas
Pelos teus olhos de criança crescida
Teu jeito de adulto imaturo
Tua risada rascante
Tua maneira de te importar
não te importando
Por aquele sábado
E aqueles treze dias infinitos
E estes dias que não passam quando não estás perto
Pelos que quase não vejo, por estar ao teu lado
Pelos meus olhos que choram (às vezes)
como os de uma criança sozinha
Pelos meus olhos que sorriem quando te vêem
Pelas nossas bocas
E mais, por esta saudade infinita
das coisas que ainda estão por vir
E pelo medo de que elas não venham
Porque eu te amo tanto que meu peito dói
E a alma inteira estremece
Por ser completamente tua,
Só te peço uma coisa: seja verdadeiramente meu.
895
1
Lauro Leite
Os Tempos
Tinha uma porção de anjos
segurando o algodão daquela nuvem branca;
e o que pintou de azul o fundo,
manchou de cinza o fim dos nossos olhos
e nos beijamos,
Tinha um lago calmo
e o vento sussurrava malícias,
o peixe prata luar de agosto saltou
e nos amamos.
Tinha o fogo dos infernos,
um Lucifer danado
e homens se matando;
eu tinha lágrimas nos olhos
e tu também choravas
quando nos deixamos.
segurando o algodão daquela nuvem branca;
e o que pintou de azul o fundo,
manchou de cinza o fim dos nossos olhos
e nos beijamos,
Tinha um lago calmo
e o vento sussurrava malícias,
o peixe prata luar de agosto saltou
e nos amamos.
Tinha o fogo dos infernos,
um Lucifer danado
e homens se matando;
eu tinha lágrimas nos olhos
e tu também choravas
quando nos deixamos.
424
1
João Marcio Furtado Costa
Cromoterapia
Cromoterapia
(06/96)
Do vermelho, a mensagem: pare!
Puro paradoxo!
Me excita a boca sensual,
e sigo.
Do branco, as vestes da paz.
Pura coerência!
Mistura de todas as cores,
um dia...
Do rosa , fêz-se a Rosa.
Pura beleza!
Da cor, a flor. Minha irmã,
que adoro.
Do preto, diz-se ausência.
Puro preconceito!
Na noite se vive a vida,
marco presença.
Do verde, a essência: natureza.
Pura ecologia!
Matéria prima da preservação: o homem,
maduro.
Do amarelo, pinta-se o pálido.
Puro despeito!
Oriente, tua cabeça é guia,
e força.
Do azul, o céu, a glória.
Puro pleonasmo!
Teu nome reflete as estrelas,
Cruzeiro.
(06/96)
Do vermelho, a mensagem: pare!
Puro paradoxo!
Me excita a boca sensual,
e sigo.
Do branco, as vestes da paz.
Pura coerência!
Mistura de todas as cores,
um dia...
Do rosa , fêz-se a Rosa.
Pura beleza!
Da cor, a flor. Minha irmã,
que adoro.
Do preto, diz-se ausência.
Puro preconceito!
Na noite se vive a vida,
marco presença.
Do verde, a essência: natureza.
Pura ecologia!
Matéria prima da preservação: o homem,
maduro.
Do amarelo, pinta-se o pálido.
Puro despeito!
Oriente, tua cabeça é guia,
e força.
Do azul, o céu, a glória.
Puro pleonasmo!
Teu nome reflete as estrelas,
Cruzeiro.
940
1
Júlia Cortines
A Vingança de Cambises
Disseram — diz o rei a Prexaspes — que o vinho
Sobe presto à cabeça em denso torvelinho
De vapores, e a febre, o delírio produz,
Que irradiam no olhar uma sinistra luz.
Ou, pouco a pouco, pelo organismo se entorna,
Qual onda de torpor, voluptuosa e morna?
Disseram; e tu tens a ousadia de vir
Em face de teu rei palavras repetir
De estultos, e afirmar que o vinho afrouxa braços
Que fazem, como os meus, os reinos em pedaços?
Ao contrário; verás; (e bêbado entesou
No arco a flecha) porém é preciso que aponte
Um alvo; — o coração de teu filho.
E atirou,
Da criança, que nele o doce olhar fitava,
— Olhar que o etéreo azul do infinito espelhava, —
Varando lado a lado o peito e o coração.
E o pai disse, curvando humildemente a fronte:
— "Nem de Apolo é mais firme e mais certeira a mão."
Sobe presto à cabeça em denso torvelinho
De vapores, e a febre, o delírio produz,
Que irradiam no olhar uma sinistra luz.
Ou, pouco a pouco, pelo organismo se entorna,
Qual onda de torpor, voluptuosa e morna?
Disseram; e tu tens a ousadia de vir
Em face de teu rei palavras repetir
De estultos, e afirmar que o vinho afrouxa braços
Que fazem, como os meus, os reinos em pedaços?
Ao contrário; verás; (e bêbado entesou
No arco a flecha) porém é preciso que aponte
Um alvo; — o coração de teu filho.
E atirou,
Da criança, que nele o doce olhar fitava,
— Olhar que o etéreo azul do infinito espelhava, —
Varando lado a lado o peito e o coração.
E o pai disse, curvando humildemente a fronte:
— "Nem de Apolo é mais firme e mais certeira a mão."
491
1
Trajano Galvão
A Crioula
Sou cativa... que importa? folgando
Hei de o vil cativeiro levar! ...
Hei de sim, que o feitor tem mui brando
Coração, que se pode amansar!...
Como é terno o feitor, quando chama,
À noitinha, escondido com a rama
No caminho — ó crioula, vem cá! —
Há nada que pague o gostinho
De poder-se ao feitor no caminho,
Faceirando, dizer — não vou lá — ?
Tenho um pente coberto de lhamas
De ouro fino, que tal brilho tem,
Que raladas de inveja as mucamas
Me sobre-olham com ar de desdém.
Sou da roça; mas, sou tarefeira.
Roça nova ou feraz capoeira,
Corte arroz ou apanhe algodão,
Cá comigo o feitor não se cansa;
Que o meu cofo não mente à balança,
Cinco arrobas e a concha no chão!
Ao tambor, quando saio da pinha
Das cativas, e danço gentil,
Sou senhora, sou alta rainha,
Não cativa, de escravos a mil!
Com requebros a todos assombro
Voam lenços, ocultam-me o ombro
Entre palmas, aplausos, furor!...
Mas, se alguém ousa dar-me uma punga,
O feitor de ciúmes resmunga,
Pega a taça, desmancha o tambor!
Na quaresma meu seio é só rendas
Quando vou-me a fazer confissão;
E o vigário vê cousas nas fendas,
Que quisera antes vê-las nas mãos.
Senhor padre, o feitor me inquieta;
É pecado ... ? não, filha, antes peta.
Goza a vida... esses mimos dos céus
És formosa... e nos olhos do padre
Eu vi cousa que temo não quadre
Com o sagrado ministro de Deus...
Sou formosa... e meus olhos estrelas
Que transpassam negrumes do céu
Atrativos e formas tão belas
Pra que foi que a natura mais me deu?
E este fogo, que me arde nas veias
Como o sol nas ferventes areias,
Por que arde? Quem foi que o ateou?
Apagá-lo vou já — não sou tola...
E o feitor lá me chama — ó crioula
E eu respondo-lhe branda "já vou".
Hei de o vil cativeiro levar! ...
Hei de sim, que o feitor tem mui brando
Coração, que se pode amansar!...
Como é terno o feitor, quando chama,
À noitinha, escondido com a rama
No caminho — ó crioula, vem cá! —
Há nada que pague o gostinho
De poder-se ao feitor no caminho,
Faceirando, dizer — não vou lá — ?
Tenho um pente coberto de lhamas
De ouro fino, que tal brilho tem,
Que raladas de inveja as mucamas
Me sobre-olham com ar de desdém.
Sou da roça; mas, sou tarefeira.
Roça nova ou feraz capoeira,
Corte arroz ou apanhe algodão,
Cá comigo o feitor não se cansa;
Que o meu cofo não mente à balança,
Cinco arrobas e a concha no chão!
Ao tambor, quando saio da pinha
Das cativas, e danço gentil,
Sou senhora, sou alta rainha,
Não cativa, de escravos a mil!
Com requebros a todos assombro
Voam lenços, ocultam-me o ombro
Entre palmas, aplausos, furor!...
Mas, se alguém ousa dar-me uma punga,
O feitor de ciúmes resmunga,
Pega a taça, desmancha o tambor!
Na quaresma meu seio é só rendas
Quando vou-me a fazer confissão;
E o vigário vê cousas nas fendas,
Que quisera antes vê-las nas mãos.
Senhor padre, o feitor me inquieta;
É pecado ... ? não, filha, antes peta.
Goza a vida... esses mimos dos céus
És formosa... e nos olhos do padre
Eu vi cousa que temo não quadre
Com o sagrado ministro de Deus...
Sou formosa... e meus olhos estrelas
Que transpassam negrumes do céu
Atrativos e formas tão belas
Pra que foi que a natura mais me deu?
E este fogo, que me arde nas veias
Como o sol nas ferventes areias,
Por que arde? Quem foi que o ateou?
Apagá-lo vou já — não sou tola...
E o feitor lá me chama — ó crioula
E eu respondo-lhe branda "já vou".
2 010
1
Trajano Galvão
A Crioula
Sou cativa... que importa? folgando
Hei de o vil cativeiro levar! ...
Hei de sim, que o feitor tem mui brando
Coração, que se pode amansar!...
Como é terno o feitor, quando chama,
À noitinha, escondido com a rama
No caminho — ó crioula, vem cá! —
Há nada que pague o gostinho
De poder-se ao feitor no caminho,
Faceirando, dizer — não vou lá — ?
Tenho um pente coberto de lhamas
De ouro fino, que tal brilho tem,
Que raladas de inveja as mucamas
Me sobre-olham com ar de desdém.
Sou da roça; mas, sou tarefeira.
Roça nova ou feraz capoeira,
Corte arroz ou apanhe algodão,
Cá comigo o feitor não se cansa;
Que o meu cofo não mente à balança,
Cinco arrobas e a concha no chão!
Ao tambor, quando saio da pinha
Das cativas, e danço gentil,
Sou senhora, sou alta rainha,
Não cativa, de escravos a mil!
Com requebros a todos assombro
Voam lenços, ocultam-me o ombro
Entre palmas, aplausos, furor!...
Mas, se alguém ousa dar-me uma punga,
O feitor de ciúmes resmunga,
Pega a taça, desmancha o tambor!
Na quaresma meu seio é só rendas
Quando vou-me a fazer confissão;
E o vigário vê cousas nas fendas,
Que quisera antes vê-las nas mãos.
Senhor padre, o feitor me inquieta;
É pecado ... ? não, filha, antes peta.
Goza a vida... esses mimos dos céus
És formosa... e nos olhos do padre
Eu vi cousa que temo não quadre
Com o sagrado ministro de Deus...
Sou formosa... e meus olhos estrelas
Que transpassam negrumes do céu
Atrativos e formas tão belas
Pra que foi que a natura mais me deu?
E este fogo, que me arde nas veias
Como o sol nas ferventes areias,
Por que arde? Quem foi que o ateou?
Apagá-lo vou já — não sou tola...
E o feitor lá me chama — ó crioula
E eu respondo-lhe branda "já vou".
Hei de o vil cativeiro levar! ...
Hei de sim, que o feitor tem mui brando
Coração, que se pode amansar!...
Como é terno o feitor, quando chama,
À noitinha, escondido com a rama
No caminho — ó crioula, vem cá! —
Há nada que pague o gostinho
De poder-se ao feitor no caminho,
Faceirando, dizer — não vou lá — ?
Tenho um pente coberto de lhamas
De ouro fino, que tal brilho tem,
Que raladas de inveja as mucamas
Me sobre-olham com ar de desdém.
Sou da roça; mas, sou tarefeira.
Roça nova ou feraz capoeira,
Corte arroz ou apanhe algodão,
Cá comigo o feitor não se cansa;
Que o meu cofo não mente à balança,
Cinco arrobas e a concha no chão!
Ao tambor, quando saio da pinha
Das cativas, e danço gentil,
Sou senhora, sou alta rainha,
Não cativa, de escravos a mil!
Com requebros a todos assombro
Voam lenços, ocultam-me o ombro
Entre palmas, aplausos, furor!...
Mas, se alguém ousa dar-me uma punga,
O feitor de ciúmes resmunga,
Pega a taça, desmancha o tambor!
Na quaresma meu seio é só rendas
Quando vou-me a fazer confissão;
E o vigário vê cousas nas fendas,
Que quisera antes vê-las nas mãos.
Senhor padre, o feitor me inquieta;
É pecado ... ? não, filha, antes peta.
Goza a vida... esses mimos dos céus
És formosa... e nos olhos do padre
Eu vi cousa que temo não quadre
Com o sagrado ministro de Deus...
Sou formosa... e meus olhos estrelas
Que transpassam negrumes do céu
Atrativos e formas tão belas
Pra que foi que a natura mais me deu?
E este fogo, que me arde nas veias
Como o sol nas ferventes areias,
Por que arde? Quem foi que o ateou?
Apagá-lo vou já — não sou tola...
E o feitor lá me chama — ó crioula
E eu respondo-lhe branda "já vou".
2 010
1
Luciano Matheus Tamiozzo
Solidão
Solidã o é esperar um pouco mais
De alguém que nos oferece um pouco menos
Do que poderia oferecer...
De alguém que nos oferece um pouco menos
Do que poderia oferecer...
898
1
Valéry Larbaud
Mesmo
Somos ambos o mesmo:
Linhas de um mesmo desenho,
Sombras de um mesmo desejo,
Paisagens de luzes violentas
Que um mesmo sol ilumina.
Deixamos igual rastro sobre a neve
E quando a luz da noite nos concede
Alguma música, algum espanto,
Choram nossos olhos igual lágrima.
Linhas de um mesmo desenho,
Sombras de um mesmo desejo,
Paisagens de luzes violentas
Que um mesmo sol ilumina.
Deixamos igual rastro sobre a neve
E quando a luz da noite nos concede
Alguma música, algum espanto,
Choram nossos olhos igual lágrima.
856
1
Luís Delfino
Altar sem Deus
Inda não voltas? — Como a vida salta
Destes quadros de esplêndidas molduras!
Mulheres nuas, raras formosuras...
Só a tua nudez entre elas falta ...
Pede-te o espelho de armação tão alta,
Onde revias tuas formas puras;
Pedem-te as cegas, lúbricas alvuras
Do linho, que a Paixão no leito exalta.
Pedem-te os vasos cheios de perfume
Os dunquerques, as rendas, as cortinas,
Tudo quanto a mulher de bom resume,
Escolhido por tuas mãos divinas...
E sai do teu altar vazio, ó nume,
A tristeza indizível das ruínas ...
Destes quadros de esplêndidas molduras!
Mulheres nuas, raras formosuras...
Só a tua nudez entre elas falta ...
Pede-te o espelho de armação tão alta,
Onde revias tuas formas puras;
Pedem-te as cegas, lúbricas alvuras
Do linho, que a Paixão no leito exalta.
Pedem-te os vasos cheios de perfume
Os dunquerques, as rendas, as cortinas,
Tudo quanto a mulher de bom resume,
Escolhido por tuas mãos divinas...
E sai do teu altar vazio, ó nume,
A tristeza indizível das ruínas ...
1 624
1
Luís Delfino
Altar sem Deus
Inda não voltas? — Como a vida salta
Destes quadros de esplêndidas molduras!
Mulheres nuas, raras formosuras...
Só a tua nudez entre elas falta ...
Pede-te o espelho de armação tão alta,
Onde revias tuas formas puras;
Pedem-te as cegas, lúbricas alvuras
Do linho, que a Paixão no leito exalta.
Pedem-te os vasos cheios de perfume
Os dunquerques, as rendas, as cortinas,
Tudo quanto a mulher de bom resume,
Escolhido por tuas mãos divinas...
E sai do teu altar vazio, ó nume,
A tristeza indizível das ruínas ...
Destes quadros de esplêndidas molduras!
Mulheres nuas, raras formosuras...
Só a tua nudez entre elas falta ...
Pede-te o espelho de armação tão alta,
Onde revias tuas formas puras;
Pedem-te as cegas, lúbricas alvuras
Do linho, que a Paixão no leito exalta.
Pedem-te os vasos cheios de perfume
Os dunquerques, as rendas, as cortinas,
Tudo quanto a mulher de bom resume,
Escolhido por tuas mãos divinas...
E sai do teu altar vazio, ó nume,
A tristeza indizível das ruínas ...
1 624
1