Temas
Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Bernardo Pinto de Almeida

Bernardo Pinto de Almeida

Hotel Spleen 2

Não. Não a ferida — dor de nós mesmos
condição corrente nos tempos que vão
a disfarçar numa sombra de estoicismo
o que se vê de longe à vista desarmada,
ainda que isso apenas forma ténue
passagem de um vapor no horizonte.

A mulher que da sala para a cozinha
leva nas mãos o peso que sustenta a casa
sua força hipotecada
a uma ordem qualquer do universo,
o gesto solícito do porteiro diante da gorjeta
criança que chora no berço.

Tudo isso — por consideração que se lhe deva —
por injusto que seja, conduta imperativa
jogo da finança fortuna nos casinos
acidentes vários combustão do mundo
não chega para assinalar o que parece impor
a tristeza que de dentro do mundo cobre o mundo.


Fina, subtil dor que nos renega nos rasga
nos deixa a braços com nada
presença do que foge do que ficou por dizer
sem mistério nem medo
mas ainda assim ao lado do que interessa
abaixo, acima do que interessa.

A forma que a tristeza toma tantas vezes
quando num olhar magoado que se ergue
um só fio de voz do outro lado
frágil segurança que numa teia se teceu.
Canção do cabaré voz gemida do travesti
voz nostálgica na rádio riso desbotado.
 
Pathos do medo ou da obscuridade
sorriso trémulo junto a um túmulo deserto
luzir dos olhos sob a lágrima, boca que estremece
diante do mundo trágico )cómico( até fúnebre
— não a alma as suas expressões
a compaixão do mundo.

A lucidez da real- politik o fausto das largas avenidas
seus transeuntes inebriados de luz, pobres, sem- abrigo
a dor compassiva dos gestos suburbanos
que se vestem à noite no silêncio dos quartos
deusas num cinema doméstico: ainda
a consciência deste fio de vida

gotejando como se por uma brecha.
O que avariou para sempre
passo em falso no trapézio
momento sem grandeza em que se fecha:
como chamar-lhe sem convocar num lapso
as formas heróicas do dizer?

Senão no braço magro de sida
que estende ao fio do candeeiro um gesto último
brutal a solidão que no berço anuncia o seu destino
mundo de dor e suspeita não mais escapável
náufrago que ao longe de uma vez se afunda
horizontes que contemplam deslumbrantes poentes.

Inevitável tragédia cobre-nos, dia após dia
cada vez que uma mão se solta de outra
riso não coincide com o riso que o suscita
olhar com o olhar que o procura
a casa  já não está onde ainda ontem parecia
sólida serena inexpugnável.

É então cósmico esse grave silêncio
que desce como um manto sobre as coisas
poeira de estrelas devastadas do arrefecimento
que aos pouco sobre todos vai caindo
obedecendo a princípios anteriores a tudo?
Caos reina em toda a parte.

Guerra em toda a parte:
fio de nada em volta da cabeça: negrume
indiferença para que todos trabalham sem descanso.
Está cansada a manhã se ao levantar-se
não surpreende o mundo como a rosa que foi
o mar que já não encontra areia mas um muro

a voz quando o telefone se desliga
ou se faz nela sentir o peso a dor contida
daqueles que envelhecem em silêncio?
Envelheceu o mundo:
reduziu-se ao pouco mais que nada
mesmo se por debaixo do maior barulho.

Ainda que de si a si nada atormente mais
o velho que morre abandonado sobre a cama
o que se asfixiou se pendurou na cela
em vez da estrada firme preferiu
momento sem nome sequer tempo lá dentro
a amplitude do salto sobre qualquer vazio?

Tudo então é silêncio?
674
Bernardo Pinto de Almeida

Bernardo Pinto de Almeida

Hotel Spleen 2

Não. Não a ferida — dor de nós mesmos
condição corrente nos tempos que vão
a disfarçar numa sombra de estoicismo
o que se vê de longe à vista desarmada,
ainda que isso apenas forma ténue
passagem de um vapor no horizonte.

A mulher que da sala para a cozinha
leva nas mãos o peso que sustenta a casa
sua força hipotecada
a uma ordem qualquer do universo,
o gesto solícito do porteiro diante da gorjeta
criança que chora no berço.

Tudo isso — por consideração que se lhe deva —
por injusto que seja, conduta imperativa
jogo da finança fortuna nos casinos
acidentes vários combustão do mundo
não chega para assinalar o que parece impor
a tristeza que de dentro do mundo cobre o mundo.


Fina, subtil dor que nos renega nos rasga
nos deixa a braços com nada
presença do que foge do que ficou por dizer
sem mistério nem medo
mas ainda assim ao lado do que interessa
abaixo, acima do que interessa.

A forma que a tristeza toma tantas vezes
quando num olhar magoado que se ergue
um só fio de voz do outro lado
frágil segurança que numa teia se teceu.
Canção do cabaré voz gemida do travesti
voz nostálgica na rádio riso desbotado.
 
Pathos do medo ou da obscuridade
sorriso trémulo junto a um túmulo deserto
luzir dos olhos sob a lágrima, boca que estremece
diante do mundo trágico )cómico( até fúnebre
— não a alma as suas expressões
a compaixão do mundo.

A lucidez da real- politik o fausto das largas avenidas
seus transeuntes inebriados de luz, pobres, sem- abrigo
a dor compassiva dos gestos suburbanos
que se vestem à noite no silêncio dos quartos
deusas num cinema doméstico: ainda
a consciência deste fio de vida

gotejando como se por uma brecha.
O que avariou para sempre
passo em falso no trapézio
momento sem grandeza em que se fecha:
como chamar-lhe sem convocar num lapso
as formas heróicas do dizer?

Senão no braço magro de sida
que estende ao fio do candeeiro um gesto último
brutal a solidão que no berço anuncia o seu destino
mundo de dor e suspeita não mais escapável
náufrago que ao longe de uma vez se afunda
horizontes que contemplam deslumbrantes poentes.

Inevitável tragédia cobre-nos, dia após dia
cada vez que uma mão se solta de outra
riso não coincide com o riso que o suscita
olhar com o olhar que o procura
a casa  já não está onde ainda ontem parecia
sólida serena inexpugnável.

É então cósmico esse grave silêncio
que desce como um manto sobre as coisas
poeira de estrelas devastadas do arrefecimento
que aos pouco sobre todos vai caindo
obedecendo a princípios anteriores a tudo?
Caos reina em toda a parte.

Guerra em toda a parte:
fio de nada em volta da cabeça: negrume
indiferença para que todos trabalham sem descanso.
Está cansada a manhã se ao levantar-se
não surpreende o mundo como a rosa que foi
o mar que já não encontra areia mas um muro

a voz quando o telefone se desliga
ou se faz nela sentir o peso a dor contida
daqueles que envelhecem em silêncio?
Envelheceu o mundo:
reduziu-se ao pouco mais que nada
mesmo se por debaixo do maior barulho.

Ainda que de si a si nada atormente mais
o velho que morre abandonado sobre a cama
o que se asfixiou se pendurou na cela
em vez da estrada firme preferiu
momento sem nome sequer tempo lá dentro
a amplitude do salto sobre qualquer vazio?

Tudo então é silêncio?
674
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 4

Contou que caminhava pela praia, nu, correndo.
A areia, o sol, o mar e a profundidade extenuante do céu embriagavam-no.
Tinha extrema consciência da sua nudez, e isso também o embriagava.
Ia com um projecto, ou uma missão, estava carregado disso, mas tratava-se de uma coisa inominável.
Na praia havia gente, gente — parece — com aquela disponibilidade sem expectativa de gente na praia.
Estavam em fato de banho, ociosos e alheios, e quando ele passou pelo meio dessa gente, a nudez que tinha ainda o embriagou mais.
Depois encontrou três degraus de pedra, e subiu-os.
Continuou a correr, mas — segundo contou — o céu, a água e a areia, agora perdidos, haviam deixado nele um espaço vazio onde a ideia de missão se pôs a crescer, de modo que ele se encontrava como que louco da pressa e densidade da missão.
Corria por um labirinto de pedra negra, e nos corredores estreitos havia casas baixas, também de pedra, sem telhado e sem portas e janelas.
Eram cubos negros abertos em cima e com buracos rectangulares a diversos níveis.
Correndo pelos labirintos, cheio da sua pressa e com a espessa ansiedade daquela mensagem tão obscura, viu de súbito que tinha dois longos pénis brancos, delgados e longos como duas serpentes, e que se contorciam e enroscavam um no outro.
Não sentiu medo, sequer espanto, pois imaginava que isso também fazia parte da missão.
Mas quando avistou uma mulher que vinha em sentido contrário ao dele, procurou tapar com as mãos aqueles pénis-serpentes nascidos da mesma sombria raiz, quando corria pelos labirintos.
As serpentes, no entanto, escapavam-se por entre os dedos, desciam-lhe pelas pernas, subiam pelo ventre até ao peito, avançavam em todas as direcções, com as suas pequenas cabeças cruéis, sagazes e esfaimadas.
Cheio de terror, parou em frente de uma daquelas casas.
Quando entrou — contou ele — havia já perdido a sua força e leveza de mensageiro, e apenas sentia medo.
A casa estava vazia como todas as outras e, como elas, sem tecto e sem portas e janelas.
Naquele cubo negro e devassado, onde adivinhava excrementos e restos podres de comida, através de uma luz sinistra, pensou que viera de longe, percorrendo com a sua nudez os caminhos do dia e estes labirintos tenebrosos, apenas para se encontrar vazio, cercado pela podridão.
As duas serpentes brancas continuavam a fremir entre as suas pernas abertas.
1 080
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 4

Contou que caminhava pela praia, nu, correndo.
A areia, o sol, o mar e a profundidade extenuante do céu embriagavam-no.
Tinha extrema consciência da sua nudez, e isso também o embriagava.
Ia com um projecto, ou uma missão, estava carregado disso, mas tratava-se de uma coisa inominável.
Na praia havia gente, gente — parece — com aquela disponibilidade sem expectativa de gente na praia.
Estavam em fato de banho, ociosos e alheios, e quando ele passou pelo meio dessa gente, a nudez que tinha ainda o embriagou mais.
Depois encontrou três degraus de pedra, e subiu-os.
Continuou a correr, mas — segundo contou — o céu, a água e a areia, agora perdidos, haviam deixado nele um espaço vazio onde a ideia de missão se pôs a crescer, de modo que ele se encontrava como que louco da pressa e densidade da missão.
Corria por um labirinto de pedra negra, e nos corredores estreitos havia casas baixas, também de pedra, sem telhado e sem portas e janelas.
Eram cubos negros abertos em cima e com buracos rectangulares a diversos níveis.
Correndo pelos labirintos, cheio da sua pressa e com a espessa ansiedade daquela mensagem tão obscura, viu de súbito que tinha dois longos pénis brancos, delgados e longos como duas serpentes, e que se contorciam e enroscavam um no outro.
Não sentiu medo, sequer espanto, pois imaginava que isso também fazia parte da missão.
Mas quando avistou uma mulher que vinha em sentido contrário ao dele, procurou tapar com as mãos aqueles pénis-serpentes nascidos da mesma sombria raiz, quando corria pelos labirintos.
As serpentes, no entanto, escapavam-se por entre os dedos, desciam-lhe pelas pernas, subiam pelo ventre até ao peito, avançavam em todas as direcções, com as suas pequenas cabeças cruéis, sagazes e esfaimadas.
Cheio de terror, parou em frente de uma daquelas casas.
Quando entrou — contou ele — havia já perdido a sua força e leveza de mensageiro, e apenas sentia medo.
A casa estava vazia como todas as outras e, como elas, sem tecto e sem portas e janelas.
Naquele cubo negro e devassado, onde adivinhava excrementos e restos podres de comida, através de uma luz sinistra, pensou que viera de longe, percorrendo com a sua nudez os caminhos do dia e estes labirintos tenebrosos, apenas para se encontrar vazio, cercado pela podridão.
As duas serpentes brancas continuavam a fremir entre as suas pernas abertas.
1 080
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 2

Por acidente: fui ter ao inferno.
Eu passeava à hora mais movimentada, na parte baixa da cidade.
Era a minha cidade, a cidade onde vivo, de que tão bem conheço as ruas e casas, os labirintos, os nomes, a secreta matemática dos fluxos e refluxos, as temperaturas.
Não é preciso ser estrangeiro — tomar comboios ou aviões, atravessar as águas.
O inferno é o último segredo do nosso conhecimento quotidiano.
A multidão andava de um lado para outro, era primavera.
A luz varria o ar.
Eu olhava as pessoas envolvidas exaltantemente por essa luz pura.
Pensava no corpo das pessoas, a alegria fervia dentro dos corpos — via-se isso.
A alegria passava de dentro dos corpos para fora, para os vestidos e fatos — e as ruas e prédios pareciam levitar.
Eu procurava palavras, para oferecer às alegrias das coisas, e uma palavra para a geral alegria do mundo.
Estava a olhar uma mulher, segui-a um pouco pela rua principal da cidade, vi-a desaparecer numa tabacaria.
Hesitei, parei à porta, estive a examinar as revistas expostas na entrada.
Via a mancha branca da mulher, lá dentro, junto ao balcão.
Pensava nos nomes.
Ocorriam-me: Corpo — Idade do Ouro — Liberdade.
De repente, eu recuperara a inocência.
Pensei: o saber doloroso dos anos, as mortes dia a dia, a profundeza das noites onde se acumularam todos os silêncios desembocam aqui, quase inexplicavelmente, nesta inocência que me faz tremer.
Nas capas das revistas havia cores explosivas, primitivas.
As letras saltavam como pequenos animais cheios de respiração e circulações de sangue.
Entrei na tabacaria e surpreendi-me por lá não ver a mulher.
Pensei: saiu sem que eu desse por isso.
Mas eu já perdera a inocência.
É assim: por uma distracção, por querer olhar para todos os lados da inocência, a gente perde a inocência.
Comprei cigarros, saí.
Mas as capas das revistas já não eram as mesmas.
Estavam mortas e sobre elas respirava agora ferozmente um alfabeto sombrio e indecifrável.
Salvação, pensei, preciso salvar-me, preciso ressuscitar no meio desta cidade branca, elevar-me aos nomes justos, ao conhecimento dos corpos ambulatórios.
Mas aquela rua não era já a rua principal da cidade de que eu conhecia a matemática e a meteorologia, as imagens e os altos sons vivos.
Andei pela rua, olhando os rostos desconhecidos, e as vozes diziam palavras de uma língua estrangeira.
Em que cidade de que país deambulava um homem perdido, de súbito órfão dos seres e das coisas, dos vocabulários e gestos — órfão do seu contexto diário?
E voltei atrás, procurando a mesma tabacaria, uma referência no caos — um ponto sólido neste espaço inimigo.
Mas já nada reconhecia, e a tabacaria em que entrei era diferente da outra.
Ao fundo havia uma porta onde me pareceu ver escrita, na minha língua, a palavra: ENTRE.
E então entrei.
Atravessei um corredor, desci escadas, percorri novos corredores, e uma exaltação maligna obrigava-me a um enredamento cada vez mais desesperado em escadas e corredores.
Sim, os labirintos sempre me fascinaram.
E de novo a alegria, mas agora uma espécie de alegria negra, brotava não sei de que obscuros lugares da minha já grande idade.
Porque, pensando, eu era velho, velho, os meus anos acumulavam-se num tempo indeciso, e estavam cheios de coisas monstruosas.
Encontrava-me eu então num subterrâneo de pedra, cercado de prateleiras onde se alinhavam muitos recipientes de forma rectangular.
Nesse instante revelou-se-me o verdadeiro silêncio.
Não aquela pausa feita para se reconhecer o valor da voz que parou ou que se erguerá, mas um silêncio sem vozes antes ou depois: o silêncio.
Contudo, alguma coisa riscava esse silêncio.
Parecia-me o ruído de pequenas rodas metálicas no chão de pedra.
Uma enfermeira empurrava um carrinho de criança e, quando se aproximou de mim, vi que sobre o carrinho estava colocado um recipiente igual aos que se encontravam nas prateleiras.
Um ser inqualificável metido em gelo, ele próprio uma vaga forma azulada, congelada, com escamas, uma espécie de peixe.
Estava na caixa rectangular.
Apenas a cabeça fora relativamente salvaguardada.
Tinha guelras, sim, e a boca era uma boca de peixe desesperado — uma boca que quisesse falar, não pudesse falar.
A boca abria-se e fechava-se, sim, como a de um peixe fora de água, as guelras batiam.
Procuravam o idioma, a água.
Alguma coisa fora salvaguardada.
Era uma cabeça quase humana.
Havia o cabelo, os olhos aterrorizados, a testa nobre dos homens.
E então gritei: não — gritei: não, não.
Porque eu sabia: aquilo era a loucura.
Com uma facilidade extraordinária, a mulher levantou o recipiente do carrinho e arrumou-o numa prateleira.
Agora chegavam enfermeiras de todos os lados, empurrando carrinhos.
Ouvia-se o bater das bocas e das guelras dos peixes.
Eu procurava fugir, mas estava cercado pelos muros de pedra, não havia portas.
Via aqueles paralelepípedos de gelo em que seres fusiformes batiam a boca sem voz.
Não, não.
Mas uma das enfermeiras solicitava-me doce e energicamente.
Era persuasiva, a enfermeira.
E eu meti-me dentro do recipiente onde a água principiava a gelar.
O meu corpo transformava-se no de um peixe, sentia escamas nascerem na carne, formarem-se dentro de mim e rebentarem para fora, duras, frias, azuladas, insensíveis.
A intensidade do corpo diminuía, diminuía.
Mal o sentia, agora.
Não, pensava ainda, mas a carne mergulhara no gelo, e eu não tinha braços e pernas, nem tinha coxas, nem pénis, nem ventre, nem peito.
Só a cabeça saía do pescoço de gelo, a boca batia desalmadamente, sem linguagem.
Eu estava morto, e toda a antiga intensidade das mãos, dos pés, do sexo e do coração — todo o fogo dos órgãos trepidantes subira à cabeça.
Eu estava morto, mas atrozmente vivo pela cabeça — pensando a uma velocidade terrível, com força, com muita força.
Encerrado num subterrâneo, numa caixa de gelo, batendo a boca de peixe, sem um só nome para a louca e brutal multiplicidade dos pensamentos, com toda a minha delirante inteligência, sob o doce sorriso de uma enfermeira antisséptica.
1 052
Matilde Campilho

Matilde Campilho

Golpe de 7 Graus

Há aquele poema que fala de renas
e do filho gigantesco
que nos atravessa as cabeças geladas
Fala de uma astrolírica saudade
que levanta a nave até ao nome
Mas olha esse nome nem é meu
porque ao meu nome lhe falta uma letra
É um poema mais ou menos de exílio
mais ou menos não
Não sei se fala do amor por alguém
e isso não me importa nem um pouco
O amor desenhado à luz das flores velhas
não me interessa mais
Não agora, não depois disto
Esta manhã a persiana do meu quarto
partiu ao meio
não deu para ver o mar da varanda
Uma porta entreaberta
não deixa ver o real
Esta manhã não sei se existiram os melros
depenicando a relva do vizinho
Não sei se vieram os cavalos
para estrumar a terra úmida
de quase dezembro
Não sei se vieram as ruas
da cidade onde já morei
Sim as ruas estiveram neste quarto
isso é mais que certo
Mas eu não sei se vieram antes
ou depois do princípio da manhã
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade sem renas
Passeava na avenida onde uma vez
um colibri se embrenhou em minha testa
na época pensei que era o sinal do amor
Fui a ver e não era sinal de nada
era só a simpatia do passarinho
e isso foi mais que suficiente
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade
onde o filho até já pariu irmãoes
onde Carlos me ofereceu três papéis de Zbigniew
onde o cachorro andava meio adoentado
e onde precisei fazer de spiderman
para fugir ao feitiço da umbanda
Hoje durante o sono
eu me perdi nas sete estradas
ao volante de um opel Vectra
Mas rapidamente me achei
porque casa da gente a gente acha
Depois acordei
para o poema
Para o urro doloroso
da palavra Fidelidade
Para o contorno trêmulo
da letra que me falta
Para o país do azevinho
e da excitação coletiva
costurada a verde e a vermelho
Para o tom neutro do cansaço
que acontece principalmente aos domingos
quando a rena ainda não se transformou em cervo
Quando o bicho ainda não veio
comer das folhas de minhas mãos
Nem soprar seu bafo quente
para formar as folhas
que devem crescer-me nos pulmões
Acordei para o som do rádio
que não tocava triste nem fútil
não falava da morte nem dos carretos
Que só acertava os pontos
com o planeta
repetindo aquela frase
que sempre vem exatamente antes
da frase que diz
It’s lonely out in space.
Saudade, astrolírica saudade
teu nome perdeu o agá.
1 266
Matilde Campilho

Matilde Campilho

Golpe de 7 Graus

Há aquele poema que fala de renas
e do filho gigantesco
que nos atravessa as cabeças geladas
Fala de uma astrolírica saudade
que levanta a nave até ao nome
Mas olha esse nome nem é meu
porque ao meu nome lhe falta uma letra
É um poema mais ou menos de exílio
mais ou menos não
Não sei se fala do amor por alguém
e isso não me importa nem um pouco
O amor desenhado à luz das flores velhas
não me interessa mais
Não agora, não depois disto
Esta manhã a persiana do meu quarto
partiu ao meio
não deu para ver o mar da varanda
Uma porta entreaberta
não deixa ver o real
Esta manhã não sei se existiram os melros
depenicando a relva do vizinho
Não sei se vieram os cavalos
para estrumar a terra úmida
de quase dezembro
Não sei se vieram as ruas
da cidade onde já morei
Sim as ruas estiveram neste quarto
isso é mais que certo
Mas eu não sei se vieram antes
ou depois do princípio da manhã
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade sem renas
Passeava na avenida onde uma vez
um colibri se embrenhou em minha testa
na época pensei que era o sinal do amor
Fui a ver e não era sinal de nada
era só a simpatia do passarinho
e isso foi mais que suficiente
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade
onde o filho até já pariu irmãoes
onde Carlos me ofereceu três papéis de Zbigniew
onde o cachorro andava meio adoentado
e onde precisei fazer de spiderman
para fugir ao feitiço da umbanda
Hoje durante o sono
eu me perdi nas sete estradas
ao volante de um opel Vectra
Mas rapidamente me achei
porque casa da gente a gente acha
Depois acordei
para o poema
Para o urro doloroso
da palavra Fidelidade
Para o contorno trêmulo
da letra que me falta
Para o país do azevinho
e da excitação coletiva
costurada a verde e a vermelho
Para o tom neutro do cansaço
que acontece principalmente aos domingos
quando a rena ainda não se transformou em cervo
Quando o bicho ainda não veio
comer das folhas de minhas mãos
Nem soprar seu bafo quente
para formar as folhas
que devem crescer-me nos pulmões
Acordei para o som do rádio
que não tocava triste nem fútil
não falava da morte nem dos carretos
Que só acertava os pontos
com o planeta
repetindo aquela frase
que sempre vem exatamente antes
da frase que diz
It’s lonely out in space.
Saudade, astrolírica saudade
teu nome perdeu o agá.
1 266