Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Matilde Campilho
Rio de Janeiro — Lisboa
um dia você
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
1 056
Matilde Campilho
Learning To Make Fire
Let’s go back into writing, Ed. No more broken bones and thrown out arrows. Quit, you and I, the wounded driving, the electric wet lanes, the shame of beards. There is no greater prince than the prince of solidity. I’ve been eating two apples a day: one at dawn and one in bed, as I watch the boats cast out the nets. Brilliant night visions, all made of fruit and fish. Flashlights make perfect compasses, kid. Rage doesn’t. I still keep your tapestry underneath the wooded bed, whenever the structure is moved the rug is taken with it. Sorry about the word rug, sorry about the misspelling of lessons, sorry for not telling you about the rain or the effects of rain and yells all mixed together. No greater doom. Get your stuff, Ed. Nature is distressingly perfect around here.
810
Pero da Ponte
Pois [Que] Vos Vós Cavidar Nom Sabedes
Pois [que] vos vós cavidar nom sabedes
deste marido com que vós seedes,
mostrar-vos quer'eu como vos vinguedes
del, que vos faz com mal dia viver:
maa noite vos mando que lhi dedes,
pois que vos el mal dia faz haver.
Pois vos Deus deu tamanha valentia
de vos vingar, se [me] creverdes, tia,
deste marido, que vos dá mal dia,
mostrar-vos-ei gram dereit'a prender:
maa noite lhi dade todavia,
pois que vos el mal dia faz haver.
Direi-vos eu a negra da verdade,
se mi a creverdes; e, se nom, leixad'e
del, que vos dá mal dia, vos vingade;
pois vos en Deus deu tamanho poder,
oimais, tia, negra noite lhi dade,
pois que vos el mal dia faz haver.
Por Deus, tia, que vos fez seer nada,
nom se ria pois de vós na pousada
este marido que vos tem coitada;
porque vos faz mal dia padecer,
negra noite lhi dade e escurada,
pois que vos el mal dia fez haver.
deste marido com que vós seedes,
mostrar-vos quer'eu como vos vinguedes
del, que vos faz com mal dia viver:
maa noite vos mando que lhi dedes,
pois que vos el mal dia faz haver.
Pois vos Deus deu tamanha valentia
de vos vingar, se [me] creverdes, tia,
deste marido, que vos dá mal dia,
mostrar-vos-ei gram dereit'a prender:
maa noite lhi dade todavia,
pois que vos el mal dia faz haver.
Direi-vos eu a negra da verdade,
se mi a creverdes; e, se nom, leixad'e
del, que vos dá mal dia, vos vingade;
pois vos en Deus deu tamanho poder,
oimais, tia, negra noite lhi dade,
pois que vos el mal dia faz haver.
Por Deus, tia, que vos fez seer nada,
nom se ria pois de vós na pousada
este marido que vos tem coitada;
porque vos faz mal dia padecer,
negra noite lhi dade e escurada,
pois que vos el mal dia fez haver.
566
Matilde Campilho
Explicação do Sopro
Século XXI. Certos homens se fecham em quartos de hotel porque nos lugares anônimos é muito possível ficar encostado numa parede branca vendo a água correr no chão do chu veiro. Dois rapazinhos pegam as bicicletas e pedalam quatro centos e vinte quilômetros até achar a costa. Ao alcançá-la, tiram suas roupas e não mergulham: só encostam a zona lombar na areia e repetem até ao infinito a ladainha da tabuada do sete. Um bombeiro termina seu turno de vinte e quatro horas e entra no boteco junto à estátua de São Tarso. Pede um conjunto de sete pães de queijo e nos espaços entre cada um dos pães ele fica procurando por algum pedaço da túnica de Deus. O motorista do ônibus sabe perfeitamente que dentro da mala da senhora de rosto limpo tem uma caixa de joias que contém uma caixa de medicamentos que contém uma caixa de anel que contém uma bala. O tocador de kalimba está muito consciente de que hoje o mantra nasce da mistura de um cântico de procissão com o latir do cachorro, e está consciente também de que todo o desenho acha sua acústica perfeita nas pequenas eremitas. Aquele que pinta a natureza, o ladrão de ossos, sabe que deve empreender seu trabalho em posição horizontal, de corpo muito junto ao chão. E se por acaso o observarmos no processo por mais de sete minutos, podemos reparar que sua caixa torácica constantemente toca a tela, sempre na mesma cadência. A moça de vinte e sete anos ainda está sentada ao toucador, de frente para o próprio rosto, absolutamente indecisa sobre qual dos objetos escolher. Entre o batom alaranjado, a carabina calibre 12, o pó de arroz e o crucifixo em miniatura vai uma distância de dois passos a galope.
1 349
Matilde Campilho
I´Ll Have What She´S Having
nunca vou ser bom para ti
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
992
Matilde Campilho
I´Ll Have What She´S Having
nunca vou ser bom para ti
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
992
Daniel Gonçalves
a poesia veio ter comigo
a poesia veio ter comigo num dia de chuva
tinha o corpo molhado até à palavra mais ínfima
diria que era um dia triste
um dia para se morrer contra a janela do esquecimento
olhei para a poesia como quem fita o âmago de uma candeia acesa
mas no lugar da luz estava uma canção
no lugar da chama estava um bicho da seda
e dali saía o manto branco com que me vesti
aos poucos fui perdendo o frio
o sangue coagulado com a tristeza de haver apenas silêncio
comecei a acreditar no mistério do meu nome
na estrela que faz a noite parecer mais azul do que o mar
e com ele fui-me chamando para junto das flores e das pedras
como uma palavra acabada de caiar
enrolei-me na minha sombra
e esse casulo criou um verso para eu falar aos anjos
a partir desse dia nunca mais fiquei sozinho
e os anjos esses
apareceram com mais frequência à janela da minha casa
tinha o corpo molhado até à palavra mais ínfima
diria que era um dia triste
um dia para se morrer contra a janela do esquecimento
olhei para a poesia como quem fita o âmago de uma candeia acesa
mas no lugar da luz estava uma canção
no lugar da chama estava um bicho da seda
e dali saía o manto branco com que me vesti
aos poucos fui perdendo o frio
o sangue coagulado com a tristeza de haver apenas silêncio
comecei a acreditar no mistério do meu nome
na estrela que faz a noite parecer mais azul do que o mar
e com ele fui-me chamando para junto das flores e das pedras
como uma palavra acabada de caiar
enrolei-me na minha sombra
e esse casulo criou um verso para eu falar aos anjos
a partir desse dia nunca mais fiquei sozinho
e os anjos esses
apareceram com mais frequência à janela da minha casa
765
Matilde Campilho
Obituário de J. Anderson Pritt, Pela Mão da Viúva
um pedaço de aço?
- vai lá e rouba.
a entrada da barcaça no Ganges?
- vai lá e rouba.
os dentes do jaguar japonês?
- vai lá e rouba.
corações? pele, pelo, retina?
- vai lá e rouba.
o efeito supralunar de janeiro?
- vai lá e leva.
a receita mágica do refrigerante ou
o mecanismo do relógio de corda?
- vai lá e rouba.
a hora do despertar do monge?
- vai e usa.
anel de ouro?
- todo seu.
setenta e oito braçadas do salmão
que agora já sabe onde é a foz?
- vai lá e rouba.
a canção tradicional da ilha
entalada entre meridianos?
- vai lá e rouba.
o farolim do carro armado?
- leva, para o que der e vier.
o desenho fosforescente suspenso
na parede colombiana?
- vai lá e toma.
o fantoche que João o carpinteiro
levou anos para esculpir?
- vai lá e rouba.
constelações desmanteladas
fora da orbita terrestre?
- vai lá e abusa.
a cautela previsivelmente
vencedora, loteria de Natal?
- vai lá e rouba.
pulseira de palha do discípulo
natural?
- vai lá e rouba.
Morreu sozinho e pobre
raspando farpa por farpa
a lasca presa no coração
de Dimas, o santo a quem
no céu chamaram Rakh.
- vai lá e rouba.
a entrada da barcaça no Ganges?
- vai lá e rouba.
os dentes do jaguar japonês?
- vai lá e rouba.
corações? pele, pelo, retina?
- vai lá e rouba.
o efeito supralunar de janeiro?
- vai lá e leva.
a receita mágica do refrigerante ou
o mecanismo do relógio de corda?
- vai lá e rouba.
a hora do despertar do monge?
- vai e usa.
anel de ouro?
- todo seu.
setenta e oito braçadas do salmão
que agora já sabe onde é a foz?
- vai lá e rouba.
a canção tradicional da ilha
entalada entre meridianos?
- vai lá e rouba.
o farolim do carro armado?
- leva, para o que der e vier.
o desenho fosforescente suspenso
na parede colombiana?
- vai lá e toma.
o fantoche que João o carpinteiro
levou anos para esculpir?
- vai lá e rouba.
constelações desmanteladas
fora da orbita terrestre?
- vai lá e abusa.
a cautela previsivelmente
vencedora, loteria de Natal?
- vai lá e rouba.
pulseira de palha do discípulo
natural?
- vai lá e rouba.
Morreu sozinho e pobre
raspando farpa por farpa
a lasca presa no coração
de Dimas, o santo a quem
no céu chamaram Rakh.
926
Pero da Ponte
D'um Tal Ric'home Vos Quero Contar
D'um tal ric'home vos quero contar
que noutro dia a Segóvia chegou,
de como foi a vila refeçar,
pois o ric'home na vila entrou:
ca o manjar que ante davam i
por dez soldos ou por maravedi,
log'esse dia cinc soldos tornou.
Ric'home foi que nos Deus enviou,
que nos nom quis assi desamparar,
que nos a vila assi refeçou,
poilo ric'home veo no logar;
ca nunca eu tam gram miragre vi:
polo açougue refeçar assi,
mentr'o ric'home mandara comprar.
E a Deus devemos graças a dar
deste ric'home que nos presentou,
de mais em ano que era tam car'
com'este foi que ogano passou;
ca, pois este ric'hom'entrou aqui,
nunca maa careza entrou i,
mentr'o ric'home na corte morou.
que noutro dia a Segóvia chegou,
de como foi a vila refeçar,
pois o ric'home na vila entrou:
ca o manjar que ante davam i
por dez soldos ou por maravedi,
log'esse dia cinc soldos tornou.
Ric'home foi que nos Deus enviou,
que nos nom quis assi desamparar,
que nos a vila assi refeçou,
poilo ric'home veo no logar;
ca nunca eu tam gram miragre vi:
polo açougue refeçar assi,
mentr'o ric'home mandara comprar.
E a Deus devemos graças a dar
deste ric'home que nos presentou,
de mais em ano que era tam car'
com'este foi que ogano passou;
ca, pois este ric'hom'entrou aqui,
nunca maa careza entrou i,
mentr'o ric'home na corte morou.
671
Pero da Ponte
Mia Madre, Pois Se Foi Daqui
Mia madre, pois se foi daqui
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
519
Pero da Ponte
Mia Madre, Pois Se Foi Daqui
Mia madre, pois se foi daqui
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
519
Pero da Ponte
Senhor do Corpo Delgado
Senhor do corpo delgado,
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
678
Pero da Ponte
Senhor do Corpo Delgado
Senhor do corpo delgado,
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
678
Pero da Ponte
Sueir'eanes, Este Trobador
Sueir'Eanes, este trobador,
foi por jantar a cas d'um infançom
e jantou mal; mais el vingou-s'entom,
que ar hajam os outros del pavor,
e nom quis el a vendita tardar:
e, tanto que se partiu do jantar,
trobou-lhi mal, nunca vistes peior.
E no mundo nom sei eu trobador
de que s'home mais devesse temer
de x'el mui maas três cobras fazer,
ou quatro, a quem lhi maa barva for;
ca, des que vo-lh'el cae na razom,
maas três cobras, ou quatr'e o som,
de as fazer muit'é el sabedor.
E por esto nom sei no mundo tal
home que a el devess'a dizer
de nom, por lhi dar mui bem seu haver;
e a Sueir'Eanes nunca lhi fal
razom de quem el despagado vai,
em que lhi troba tam mal e tam lai,
per que o outro sempre lhi quer mal.
foi por jantar a cas d'um infançom
e jantou mal; mais el vingou-s'entom,
que ar hajam os outros del pavor,
e nom quis el a vendita tardar:
e, tanto que se partiu do jantar,
trobou-lhi mal, nunca vistes peior.
E no mundo nom sei eu trobador
de que s'home mais devesse temer
de x'el mui maas três cobras fazer,
ou quatro, a quem lhi maa barva for;
ca, des que vo-lh'el cae na razom,
maas três cobras, ou quatr'e o som,
de as fazer muit'é el sabedor.
E por esto nom sei no mundo tal
home que a el devess'a dizer
de nom, por lhi dar mui bem seu haver;
e a Sueir'Eanes nunca lhi fal
razom de quem el despagado vai,
em que lhi troba tam mal e tam lai,
per que o outro sempre lhi quer mal.
606
Pero da Ponte
Eu Digo Mal, Com'home Fodimalho
Eu digo mal, com'home fodimalho,
quanto mais posso daquestes fodidos
e trob'a eles e a seus maridos;
e um deles mi pôs mui grand'espanto:
topou comig'e sobraçou o manto
e quis em mi achantar o caralho.
Ando-lhes fazendo cobras e sões
quanto mais poss', e and'escarnecendo
daquestes putos que s'andam fodendo;
e um deles de noit[e] asseitou-me
e quis-me dar do caralh'[e] errou-me
e lançou, depós mim, os colhões.
quanto mais posso daquestes fodidos
e trob'a eles e a seus maridos;
e um deles mi pôs mui grand'espanto:
topou comig'e sobraçou o manto
e quis em mi achantar o caralho.
Ando-lhes fazendo cobras e sões
quanto mais poss', e and'escarnecendo
daquestes putos que s'andam fodendo;
e um deles de noit[e] asseitou-me
e quis-me dar do caralh'[e] errou-me
e lançou, depós mim, os colhões.
793
Pero da Ponte
Noutro Dia, Em Carrion
Noutro dia, em Carrion,
queria[m] um salmom vender,
e chegou i um infançom;
e, tanto que o foi veer,
creceu-lhi del tal coraçom
que diss'a um seu hom'entom:
- Peixota quer'hoj'eu comer.
Ca muit'há já que nom comi
salmom, que sempre desejei;
mais, pois que o ach'ora aqui,
já custa nom recearei,
que hoj'eu nom cômia, de pram,
bem da peixota e do pam,
que muit'há que bem nom ceei.
Mais, pois aqui salmom achei,
querrei hoj'eu mui bem cear,
ca nom sei u mi o acharei,
des que me for deste logar;
e do salmom que ora vi,
ante que x'o levem dali,
vai-m'ũa peixota comprar.
Nom quer'eu custa recear,
pois salmom fresco acho, Sinher!
Mais quero ir bem del assũar
por enviar a mia molher
(que morre por el outrossi)
da balea que vej'aqui;
e depois quite quem poder!
queria[m] um salmom vender,
e chegou i um infançom;
e, tanto que o foi veer,
creceu-lhi del tal coraçom
que diss'a um seu hom'entom:
- Peixota quer'hoj'eu comer.
Ca muit'há já que nom comi
salmom, que sempre desejei;
mais, pois que o ach'ora aqui,
já custa nom recearei,
que hoj'eu nom cômia, de pram,
bem da peixota e do pam,
que muit'há que bem nom ceei.
Mais, pois aqui salmom achei,
querrei hoj'eu mui bem cear,
ca nom sei u mi o acharei,
des que me for deste logar;
e do salmom que ora vi,
ante que x'o levem dali,
vai-m'ũa peixota comprar.
Nom quer'eu custa recear,
pois salmom fresco acho, Sinher!
Mais quero ir bem del assũar
por enviar a mia molher
(que morre por el outrossi)
da balea que vej'aqui;
e depois quite quem poder!
626
Pero da Ponte
Tam Muito Vos Am'eu, Senhor
Tam muito vos am'eu, senhor,
que nunca tant'amou senhor
home que fosse nado;
pero, des que fui nado,
nom pud'haver de vós, senhor,
por que dissess': ai, mia senhor,
em bom pont'eu fui nado!
Mais quem de vós fosse, senhor,
bom dia fôra nado!
E o dia que vos eu vi,
senhor, em tal hora vos vi
que nunca dormi nada,
nem desejei al nada
senom vosso bem, pois vos vi!
E dig'a mi: por que vos vi,
pois que mi nom val nada?
Mal dia nad', eu que vos vi,
e vós bom dia nada!
Que se vos eu nom viss'entom
quando vos vi, podera entom
seer d'afã guardado;
mais nunc'ar fui guardado
de mui gram coita, des entom;
e entendi-m'eu des entom
que aquel é guardado
que Deus guarda; ca, des entom,
é tod'home guardado.
que nunca tant'amou senhor
home que fosse nado;
pero, des que fui nado,
nom pud'haver de vós, senhor,
por que dissess': ai, mia senhor,
em bom pont'eu fui nado!
Mais quem de vós fosse, senhor,
bom dia fôra nado!
E o dia que vos eu vi,
senhor, em tal hora vos vi
que nunca dormi nada,
nem desejei al nada
senom vosso bem, pois vos vi!
E dig'a mi: por que vos vi,
pois que mi nom val nada?
Mal dia nad', eu que vos vi,
e vós bom dia nada!
Que se vos eu nom viss'entom
quando vos vi, podera entom
seer d'afã guardado;
mais nunc'ar fui guardado
de mui gram coita, des entom;
e entendi-m'eu des entom
que aquel é guardado
que Deus guarda; ca, des entom,
é tod'home guardado.
708
Pero da Ponte
Pois Me Tanto Mal Fazedes
Pois me tanto mal fazedes,
senhor, se mi nom valedes,
sei ca mia mort'oiredes
a mui pouca [de] sazom.
Senhor, se mi nom valedes,
nom mi valrá se Deus nom!
Gram pecado per fazedes
senhor, se mi nom valedes,
ca vós sodes e seredes
coita do meu coraçom.
Senhor, se mi nom valedes,
nom mi valrá se Deus nom!
Pois m'em tal poder teendes,
senhor, se mi nom valedes,
prasmada vos en veeredes,
se moiro em vossa prijom.
Senhor, se mi nom valedes,
nom mi valrá se Deus nom!
senhor, se mi nom valedes,
sei ca mia mort'oiredes
a mui pouca [de] sazom.
Senhor, se mi nom valedes,
nom mi valrá se Deus nom!
Gram pecado per fazedes
senhor, se mi nom valedes,
ca vós sodes e seredes
coita do meu coraçom.
Senhor, se mi nom valedes,
nom mi valrá se Deus nom!
Pois m'em tal poder teendes,
senhor, se mi nom valedes,
prasmada vos en veeredes,
se moiro em vossa prijom.
Senhor, se mi nom valedes,
nom mi valrá se Deus nom!
716
Pero da Ponte
D'um Tal Ric'home Ouç'eu Dizer
D'um tal ric'home ouç'eu dizer
que est mui ric'hom'assaz,
de quant'em gram requeza jaz;
mais esto nom poss'eu creer,
mais creo-mi al, per boa fé:
quem d'amigos mui prob[e] é
nom pode mui rico seer.
De mais, quem há mui gram poder
de fazer alg'e o nom faz,
mais de viver porque lhi praz?
Pois que nom val nem quer valer
[c]om grand'estança, que prol lh'há?
Ca, pois d'amigos mal está,
nom pode bõa estanç'haver.
Ca, pois hom'é de tal convém
por que todos lhi querem mal,
o Demo lev'o que lhi val
sa requeza! De mais a quem
nom presta a outrem nem a si,
de mal conhocer per est i
quem tal home por rico tem.
E direi-vos del outra rem
e nom acharedes end'al:
pois el diz que lhi nom en chal
de dizerem del mal nem bem,
jamais del nom atenderei
bom feit[o], e sempr'o terrei
por cousa que nom vai nem vem.
Mas, pero lh'eu grand'haver sei,
que há el mais do que eu hei,
pois s'end'el nom ajuda rem?
que est mui ric'hom'assaz,
de quant'em gram requeza jaz;
mais esto nom poss'eu creer,
mais creo-mi al, per boa fé:
quem d'amigos mui prob[e] é
nom pode mui rico seer.
De mais, quem há mui gram poder
de fazer alg'e o nom faz,
mais de viver porque lhi praz?
Pois que nom val nem quer valer
[c]om grand'estança, que prol lh'há?
Ca, pois d'amigos mal está,
nom pode bõa estanç'haver.
Ca, pois hom'é de tal convém
por que todos lhi querem mal,
o Demo lev'o que lhi val
sa requeza! De mais a quem
nom presta a outrem nem a si,
de mal conhocer per est i
quem tal home por rico tem.
E direi-vos del outra rem
e nom acharedes end'al:
pois el diz que lhi nom en chal
de dizerem del mal nem bem,
jamais del nom atenderei
bom feit[o], e sempr'o terrei
por cousa que nom vai nem vem.
Mas, pero lh'eu grand'haver sei,
que há el mais do que eu hei,
pois s'end'el nom ajuda rem?
753
Pero da Ponte
Vistes, Madr', o Escudeiro Que M'houver'a Levar Sigo?
- Vistes, madr', o escudeiro que m'houver'a levar sigo?
Menti-lh'e vai-mi sanhudo, mia madre, bem vo-lo digo.
Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Madre, vós que me mandastes que mentiss'a meu amigo,
que conselho mi daredes ora, poilo nom hei migo?
Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Filha, dou-vos por conselho que, tanto que vos el veja,
que toda rem lhi façades que vosso pagado seja.
- Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Pois escusar nom podedes, mia filha, seu gasalhado,
des oimais eu vos castigo que lh'andedes a mandado.
- Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
Menti-lh'e vai-mi sanhudo, mia madre, bem vo-lo digo.
Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Madre, vós que me mandastes que mentiss'a meu amigo,
que conselho mi daredes ora, poilo nom hei migo?
Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Filha, dou-vos por conselho que, tanto que vos el veja,
que toda rem lhi façades que vosso pagado seja.
- Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Pois escusar nom podedes, mia filha, seu gasalhado,
des oimais eu vos castigo que lh'andedes a mandado.
- Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
621
Pero da Ponte
Vistes, Madr', o Escudeiro Que M'houver'a Levar Sigo?
- Vistes, madr', o escudeiro que m'houver'a levar sigo?
Menti-lh'e vai-mi sanhudo, mia madre, bem vo-lo digo.
Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Madre, vós que me mandastes que mentiss'a meu amigo,
que conselho mi daredes ora, poilo nom hei migo?
Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Filha, dou-vos por conselho que, tanto que vos el veja,
que toda rem lhi façades que vosso pagado seja.
- Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Pois escusar nom podedes, mia filha, seu gasalhado,
des oimais eu vos castigo que lh'andedes a mandado.
- Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
Menti-lh'e vai-mi sanhudo, mia madre, bem vo-lo digo.
Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Madre, vós que me mandastes que mentiss'a meu amigo,
que conselho mi daredes ora, poilo nom hei migo?
Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Filha, dou-vos por conselho que, tanto que vos el veja,
que toda rem lhi façades que vosso pagado seja.
- Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Pois escusar nom podedes, mia filha, seu gasalhado,
des oimais eu vos castigo que lh'andedes a mandado.
- Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
621
Pero da Ponte
D'ua Cousa Sõo Maravilhado
D'ũa cousa sõo maravilhado:
porque se quer home desembargar
por posfaçar muit'e deostar,
e nulh'home nom seer seu pagado.
Eu, por aquesto, bem vos jurarei
que tam mal torpe no mundo nom sei
com'é o torpe mui desembargado.
E quem [nom] se tem por desvergonhado
por dizer sempr'a quantos vir pesar
e pelo mundo nom poder achar
nẽum home que seja seu pagado,
por desembargado nom lhi contarei;
mais, se o vir, vedes que lhi direi:
- Confonda Deus atal desembargado!
Ca o torpe que sempr'anda calado
non'o devem por torpe a razõar,
pois que é torp'e leixa de falar;
e d'atal torpe sõo eu pagado;
mais o mal torpe eu vo-lo mostrarei:
quem diz mal dos que som em cas d'el-rei,
por se meter por mais desembargado.
porque se quer home desembargar
por posfaçar muit'e deostar,
e nulh'home nom seer seu pagado.
Eu, por aquesto, bem vos jurarei
que tam mal torpe no mundo nom sei
com'é o torpe mui desembargado.
E quem [nom] se tem por desvergonhado
por dizer sempr'a quantos vir pesar
e pelo mundo nom poder achar
nẽum home que seja seu pagado,
por desembargado nom lhi contarei;
mais, se o vir, vedes que lhi direi:
- Confonda Deus atal desembargado!
Ca o torpe que sempr'anda calado
non'o devem por torpe a razõar,
pois que é torp'e leixa de falar;
e d'atal torpe sõo eu pagado;
mais o mal torpe eu vo-lo mostrarei:
quem diz mal dos que som em cas d'el-rei,
por se meter por mais desembargado.
604
Pero da Ponte
Dom Garcia Martiins, Saber
- Dom Garcia Martĩins, saber
queria de vós ũa rem:
de quem dona quer m[u]i gram bem
e lhi rem nom ousa dizer
com medo que lhi pesará
e non'o possa mais sofrer,
dizede-mi se lho dirá,
ou que mandades i fazer.
- Pero de Ponte, responder
vos quer'eu e dizer meu sem:
se ela pode, per alguém,
o bem que lh'el quer, aprender,
sol nom lho diga; mais se já
por al non'o pod'entender,
este pesar dizer-lho-á,
e pois servir e atender.
- Dom Garcia, como direi,
a quem sempr'[a]mei e servi,
atal pesar, por que des i
perça quanto bem no mund'hei:
de a veer e de lhi falar?
Ca sol viver nom poderei,
pois m'ela de si alongar.
E desto julgue-nos el-rei.
- Pero de Ponte, julgar-m'-ei
ant'el-rei vosc'e dig'assi:
pois que per outrem, nem per mi,
mia coita nom sabe, querrei
dizê-la; e se s'en queixar,
atam muito a servirei;
que, per servir, cuid'acabar
quanto bem sempre desejei.
- Dom Garcia, nom poss'osmar
com'o diga, nen'o direi;
a que[m] servi sempr'e amei,
como direi tam gram pesar?
- Pero de Ponte, se m'ampar
Deus, praz-mi que nos julgu'el-rei.
queria de vós ũa rem:
de quem dona quer m[u]i gram bem
e lhi rem nom ousa dizer
com medo que lhi pesará
e non'o possa mais sofrer,
dizede-mi se lho dirá,
ou que mandades i fazer.
- Pero de Ponte, responder
vos quer'eu e dizer meu sem:
se ela pode, per alguém,
o bem que lh'el quer, aprender,
sol nom lho diga; mais se já
por al non'o pod'entender,
este pesar dizer-lho-á,
e pois servir e atender.
- Dom Garcia, como direi,
a quem sempr'[a]mei e servi,
atal pesar, por que des i
perça quanto bem no mund'hei:
de a veer e de lhi falar?
Ca sol viver nom poderei,
pois m'ela de si alongar.
E desto julgue-nos el-rei.
- Pero de Ponte, julgar-m'-ei
ant'el-rei vosc'e dig'assi:
pois que per outrem, nem per mi,
mia coita nom sabe, querrei
dizê-la; e se s'en queixar,
atam muito a servirei;
que, per servir, cuid'acabar
quanto bem sempre desejei.
- Dom Garcia, nom poss'osmar
com'o diga, nen'o direi;
a que[m] servi sempr'e amei,
como direi tam gram pesar?
- Pero de Ponte, se m'ampar
Deus, praz-mi que nos julgu'el-rei.
721
Pero da Ponte
Dom Garcia Martiins, Saber
- Dom Garcia Martĩins, saber
queria de vós ũa rem:
de quem dona quer m[u]i gram bem
e lhi rem nom ousa dizer
com medo que lhi pesará
e non'o possa mais sofrer,
dizede-mi se lho dirá,
ou que mandades i fazer.
- Pero de Ponte, responder
vos quer'eu e dizer meu sem:
se ela pode, per alguém,
o bem que lh'el quer, aprender,
sol nom lho diga; mais se já
por al non'o pod'entender,
este pesar dizer-lho-á,
e pois servir e atender.
- Dom Garcia, como direi,
a quem sempr'[a]mei e servi,
atal pesar, por que des i
perça quanto bem no mund'hei:
de a veer e de lhi falar?
Ca sol viver nom poderei,
pois m'ela de si alongar.
E desto julgue-nos el-rei.
- Pero de Ponte, julgar-m'-ei
ant'el-rei vosc'e dig'assi:
pois que per outrem, nem per mi,
mia coita nom sabe, querrei
dizê-la; e se s'en queixar,
atam muito a servirei;
que, per servir, cuid'acabar
quanto bem sempre desejei.
- Dom Garcia, nom poss'osmar
com'o diga, nen'o direi;
a que[m] servi sempr'e amei,
como direi tam gram pesar?
- Pero de Ponte, se m'ampar
Deus, praz-mi que nos julgu'el-rei.
queria de vós ũa rem:
de quem dona quer m[u]i gram bem
e lhi rem nom ousa dizer
com medo que lhi pesará
e non'o possa mais sofrer,
dizede-mi se lho dirá,
ou que mandades i fazer.
- Pero de Ponte, responder
vos quer'eu e dizer meu sem:
se ela pode, per alguém,
o bem que lh'el quer, aprender,
sol nom lho diga; mais se já
por al non'o pod'entender,
este pesar dizer-lho-á,
e pois servir e atender.
- Dom Garcia, como direi,
a quem sempr'[a]mei e servi,
atal pesar, por que des i
perça quanto bem no mund'hei:
de a veer e de lhi falar?
Ca sol viver nom poderei,
pois m'ela de si alongar.
E desto julgue-nos el-rei.
- Pero de Ponte, julgar-m'-ei
ant'el-rei vosc'e dig'assi:
pois que per outrem, nem per mi,
mia coita nom sabe, querrei
dizê-la; e se s'en queixar,
atam muito a servirei;
que, per servir, cuid'acabar
quanto bem sempre desejei.
- Dom Garcia, nom poss'osmar
com'o diga, nen'o direi;
a que[m] servi sempr'e amei,
como direi tam gram pesar?
- Pero de Ponte, se m'ampar
Deus, praz-mi que nos julgu'el-rei.
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