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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Renato Rezende

Renato Rezende

[Santo]

—é essa a humanidade que pulsa agora.

Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.

Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.

Minha querida devoradora de corações,

Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.

Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.

A palavra do erotismo é o espírito! O salto.

(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).

Tigre,

Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida

Então posso ser o homem

da sua morte?

E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?

Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.

Sim, a matéria salva.

É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.

Eu não estou escrevendo isso.

Eu não estou sentado nessa sala.

Eu estou aqui

(para vocês),
mas eu não estou aqui.

O coração é meu órgão sexual.

Quero gozar o tempo todo.

Amor divino: castidade absoluta.

Eu sou o homem e eu sou a mulher.

Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.

Quanto mais santo mais no mundo?
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Hosana]

Meu sexo se tornou uma rosa amarela
ereta e desabrochada

o seu uma vermelha?

Podemos viver sem o corpo
apenas mente

e sua matéria rara?

Qual a distância correta?

euforia e desamparo

Amamos melhor quando amamos em Presença?

Asa-palavra

Esse é um poema fora de órbita

Stella do Patrocínio:

Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo

Eu quero sempre, em suspenso

—Poucos meses de namoro. Para mim, não era sério; nunca era. Eu gostava dela, mas... para mim era um rolo. Ela sabia que eu já havia estado com homens. Não tinha se importado. Daí ela propôs.

—Eu sou de escorpião. Não nego: tenho inveja do pau. Sempre quis ser homem. Sou feminina, me cuido, me visto. Tenho vaidade. Mas sou decidida, sei o que quero.

—Eu nunca soube o que quero. Numa noite, depois de uma festa, ela propôs. Tive medo. Achei que depois ela ia sentir nojo de mim. Perguntei.

—Claro que não sentiria. Não; pelo contrário. Meu coração bateu forte. Ele estava se oferecendo para mim. Me senti grata.

—Foi improvisado. Demorou. Foi ótimo. A gente ama quem nos dá prazer, não é mesmo? Sentimos muito amor mesmo.

—Dormimos abraçados. Ela como se fosse homem.

—Depois mandamos fazer um consolo preso num cinto. Sob medida. Perdi a vergonha, e daí? Sempre soube o que quero. Tem vez que ando com isso o dia inteiro.

—Já anos de casados. Duas filhas. Feitas com prazer, a gente varia.

—A gente vai levando. Negociando. Dando um jeito. A vida é assim.

Quem quer se casar comigo?

Deus, quer se casar comigo?

Estrela
Eu-sou
Eu-posso

Flamirromper
Florchamejar
Borboleta-girassol
Luz-delírio

Oh, Goethe!
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Bússola]

De vez em quando, é bom andar na corda bamba.

Viver é passar por um intestino.

As luzes douradas.
Fogaréu azul.

Não dá para fazer mais nada.

Tenho certeza que algo existe em mim. Só não sei se esse algo sou eu.

Sou em essência alguém ou sou apenas um lugar, um ponto de confluência de palavras e corpos?

Meu carro parado no acostamento da estrada movimentada me provoca uma angustiante sensação de movimento.

Passo pelas coisas ou são as coisas que passam por mim, me atravessam? Atravesso?

O que em mim é?

Imagine a Mariana, por exemplo. Ela está lá, agora, sendo a Mariana. Para mim, ela só existe de vez em quando, quando por alguma razão me lembro dela. Para ela, ela existe o tempo todo. Para mim, eu existo o tempo todo. Mas e se eu conseguir existir para mim como a Mariana existe para mim, ou como eu existo para a Mariana: de vez em quando? Então, quando sair da sala, por exemplo, onde sou eu para os outros, e for ao banheiro, no banheiro serei apenas nada, um ser mijante. E se eu fizer desses intervalos minha vida? E se eu alternar sempre sendo e não-sendo? E se eu carregasse o rosto no bolso?

O desejo é minha bússola
Nosso único norte. O desejo:

Lá onde menos temos controle
é que somos mais o que somos.

O que em mim prefere
na cama uma mulher a um homem
Quando fica com fome, come
coisas cozidas, digere. O que em mim
quando corre sente tremer o corpo?

O maior problema da minha vida é que eu desenvolvi o hábito de abrir janelas à tarde.

Sempre de olho no extraordinário, sempre caindo pelas brechas do calendário, sempre olhando para longe

Eu pareço um balão que está sempre querendo se soltar do chão

Pensei em ir à praia

pensei seriamente em ir à praia

capaz ainda de ir á praia no final da tarde

(não por prazer,
mas por amor):

O mar eternamente batendo na praia

—isso sim é liberdade!:

Na areia, parecia um animal morto,

uma carcaça
mas era uma jaca podre.

O coração aberto como uma concha.
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Renato Rezende

Renato Rezende

[O Dia]

Somos todos iguais, é preciso ter compaixão pelas limitações dos outros e pelas minhas também. Preciso de mais compaixão por mim mesmo. Vou deixar rolar o que está acontecendo. Por que essa agonia? Está tudo bem. Sim, existe um grande esforço interno para chegar ao ponto de encontro entre o Ser e o não-Ser, e me sinto confuso.
Tentar colocar o mínimo de estresse possível nesse esforço, nessa confusão.

Eu, que sempre levanto tarde, acordei mais cedo (é sempre bom ver as pessoas na rua, saindo de casa, começando o dia, no frescor da manhã, isso deve acontecer todos os dias, enquanto eu durmo) para buscar um cheque derradeiro. Depois pensei em dar uma volta na cidade, no bairro, visitar uma exposição... mas voltei para casa. Já não sou o flanêur que era. Já não vejo sentido em caminhar a esmo.
Já não quero ver mais nada. Mas tampouco logro ficar parado dentro de mim mesmo.

Tranquila/ No centro de sua maravilha.

Ontem à noite, antes de dormir, senti nitidamente a pulsação, o limite entre o êxtase e um esvaziamento depressivo—era uma questão de um pequeno esforço para fixar-me no êxtase. Mas ambos não
pareciam estar em mim.

Se é para morrer, melhor morrer logo.

Começo a trabalhar sem ânimo numa pequena tradução—sintome encurralado, pressionado, com tudo atrasado. Mesmo com quase nada para fazer.

Não quero fazer nada.

Dai-me um corpo, uma voz, uma função.

O que fazer com meu desejo? Onde está o meu desejo? Eu que não soube escolher entre ser homem ou mulher. De tanto não saber o que fazer com o desejo, perdi-o de vista.

Mais uma vez, deixo o trabalho e deito-me na cama, no meio do dia.

Felicidade. Angústia.

Fique tranqüila/ No centro de sua maravilha.
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Irisar]

É como se o chão tivesse se aberto sob os meus pés, como se estivesse tudo no ar, tudo sem sentido, sem nexo—o que me faz sentir-me desencontrado, confuso. No entanto, quando olho à volta, vejo que está tudo aí, no lugar, como sempre esteve, e nada está sendo ameaçado, tudo dentro da normalidade. Para tentar escapar desse sentimento de desconforto, às vezes me entusiasmo por uma ou outra coisa, mas nenhum desses ânimos se sustenta, e eu logo caio novamente no vazio. Da mesma forma, tenho as reações mais chãs, na tentativa de reconhecerme. Percebo, no entanto, que essas identidades já não estão funcionando mais para mim, já não me reconheço nelas. O desafio é aprender a ocupar todo o espaço que se abriu dentro de mim, a me ver desde um outro ponto de vista, a ganhar uma nova identidade. Não sou mais homem nem poeta, sou Deus, com todos os seus atributos. Mas como se faz isso? Coragem—

Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.

Constante crepitar

Areia que se desloca

A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.

Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.

É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.

Há anos que venho morrendo.

Há anos caminho nesse deserto.

Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.

Areia e céu se fundem.

Não está na hora de chegar?

Não é aqui a chegada?

Disse luminoso? E essas sombras

que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?

Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?

A vida é o aceno da morte.

É pela vida que a morte se revela.

Irisar

É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.

Quando começarei a desmontar o circo?

Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.

Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.

O Amor é
Amor

Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.

Nuvens:

Essa umidade toda mais parece uma mulher.

Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.

essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue

escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada

Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.

Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.

E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda

essa entrada no corpo.

E essa entrada, sou eu ou sou o outro?

Estou prenhe de morte.

Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?

Estou cansada da morte.

Estou com medo da morte.

E essas luzes douradas, o que são?

Esta vida estabanada. Como se vive?

Como se vive a vida de um homem? Como

Se morre?

A questão é que nunca me sei suficientemente morto.

Esta é a vida que pedi a Deus.
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Re-Nato]

O poder da respiração—entrando e saindo do corpo

e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo

Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.

(Às vezes me sinto sem pé, submerso).

Saia para uma caminhada pelo bairro

(Como entendo essa língua em que me falam?)

Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.

Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.

Deus veio tocar Rachmaninoff

e tocou pior que Rachmaninoff

(era eu)

A perfeição não é fazer tudo perfeito

Tudo acontece para o melhor

Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.

Esse ato de violência inaugurou nova vida,

o caminho de volta.

Hoje amo o assassino sinceramente.

Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.

O amor está na respiração profunda.

Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!

Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.

Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.

No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias

A vida humana é longa
Se cada instante é doce

aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço

(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania

(que importância um nome tem?)

Sou todo mundo,
agora você sou eu

(Uma mente sem fantasias):

Abra-te Coração.
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Filtros]

Eu criei uma ilusão, um véu, há muitas camadas de tecido,
muito filtro, entre eu e a vida.
Mas uma vida humana não é justamente a experiência desses
filtros?
A vida—experiência absurda—não é sempre necessariamente
mediada?
A vida humana só é se mediada.

Somos todos vazios,
Sem existência fixa.

A gente vai sempre virando

apenas mais uma vida,
perdida

ARRISCAR TUDO

Todos os recursos

Concentrar todos os esforços

Lançar tudo fora

Um homem deve dedicar sua vida àquilo pelo qual se esquece

se perde

diante do abismo

pisa

no vazio

Nada tem sentido

Tudo é um fim em si mesmo.
Derreter no coração todos os sentidos.

Nesta terra não há jardim que não tenha sido construído sobre os quintos dos infernos.

A pessoa nunca é em termos absolutos. Nenhum de nós é.

Somos sempre em termos relativos. Em relação ao outro: espelhos uns dos outros. Poderíamos ser qualquer um de nós.

Isso é ser livre?

Toda pessoa que se preze é uma fracassada.

Na Noruega há um Joe Doe que passa os dias olhando pela janela a neve cair, sem vontade de sair de casa. Ele teria coisas para fazer, responder emails e telefonemas, o trabalho se acumulando. Eu não me importo com isso, não o julgo, não o condeno. Acho que ele tem todo o tempo do mundo, o direito a todo esse tempo: não sinto ansiedade, nem culpa, não me envolvo. Agora eu sou esse Joe Doe no Rio de Janeiro:

No meio da tarde, levanto e saio: nada realmente para fazer, apenas a atração pela luz e pelo abismo. Apenas o descaso pelo falatório.
[Essa é a imagem da minha vida].
Mas não saio com a experiência de um vazio interno, um oco. Não é para o exílio que saio, e sim para a VIDA. Agora, quando saio, carrego o mundo comigo: sou eu o vivo, são eles os mortos.
[Não. O Amor nos une a todos: somos todos vivos e mortos: homo caritas est].
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Beija-Flor]

Ele viu um beija-flor todo enroscado numa teia de aranha. O beijaflor estava praticamente mumificado e, se ainda vivia, não seria por muito tempo. Ele ficou um tempão observando aquilo, surpreso, sem entender como um pássaro podia ficar preso em algo tão frágil quanto uma teia de aranha. Ele achava que isso só acontecia com insetos. Como é que o beija-flor, que era muito mais forte, não havia simplesmente rompido a teia? Então lhe ocorreu que a gente pode se enroscar na própria fragilidade, até chegar ao ponto de perder as forças. Por algum motivo o beija-flor se enroscou, e se debateu em vez de apenas ir embora, entrou em pânico, perdeu o caminho, exauriu-se. E aí foi fácil para a aranha tecer mais e mais teia em volta dele.

Estou carregando um cadáver.

É preciso vencer de uma vez por todas essa zona magnética de dor que me evita chegar em mim mesmo.

Apesar de ainda manter fortes resquícios de um véu doloroso e sentimentos de confusão e incerteza, sinto que estou reagindo bem e vencendo o caos sem deixar que ele se expanda.

Invoquei a Deusa—a deusa é uma realidade. Senti-me a deusa. É preciso fazer todos os esforços para manter a experiência do amor divino, a chama acesa dentro do corpo brilhando alto. Invoquei Durga, e vi seu pé gigantesco, seu dedão do pé direito gigantesco, seu corpo que subia até os céus e seu rosto que era o rosto de Deus.

Disse à deusa: corte minha cabeça. E me inclinei.

Não se enrosque na fragilidade.

Homens ou mulheres; somos todos mulheres.

Corte minha cabeça
e beba meu sangue.

Eu não sou eu; eu sou uma coisa muito diferente de mim mesmo.
Não. Somos todos iguais, sim. Em cada um de nós existe a luz e a escuridão. Eu preciso tomar posse de todo meu território. E direcionar minha vida. Pois o direcionamento acontece no tempo, e o tempo é a dimensão humana. O que eu vou fazer com esta vida que me foi dada,
assim, de repente? Estou nervosa. Muito nervosa. Vou sangrar. Rôo unhas.
Tenho unhas. Vou sair andando como se fosse de fato uma pessoa, e vou fazer coisas que uma pessoa faz. Vou gastar meu tempo escrevendo.

Dianóia

Posso ser enquanto falo?
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Oceano]

Círculos de luz opaca, em vibrações, como se saíssem de mim, da região entre os olhos: a sensação de levantar-me dentro de mim mesmo, e ascender, ao ver um objeto caindo, caindo, caindo sem fim e se espatifando junto a uma grande encosta murada, uma muralha que parecia erguer-se indefinidamente, e de repente, eu vendo, lá de cima, o infinito vale muito embaixo, onde corre o rio que era eu o objeto espatifado.

—Então me mata?

[Ela está pedindo para você matá-la]

Não Posso.

—Então me carrega no colo, em silêncio.

Sou uma pepita de ouro no seu ventre.

No fim de todos os caminhos, de todos os atalhos, de todas as vielas, de todos os declives, de todos os abismos, de todas as picadas e veredas está o mar.

O oceano iluminado.

Sonhei com você. A gente estava num bar do aeroporto, se despedindo, você ia viajar para algum lugar e usava umas roupas meio estranhas, tipo assim, roupas de peregrino. Aí você me disse que quando voltasse ia se casar com alguém do seu passado, você disse: “essa pessoa sempre esteve lá, acho que no fundo sempre soube que era ela”.

Uma voz agora:
Que me diga que eu existo, que eu estou vivo.

O sentimento de desamparo, no tudo estar de pernas para o ar, é facilmente sanado pelo Amor. Não o que vem de fora, mas o Amor que vem de dentro: substituir essa sensação por Amor: e tudo volta ao seu lugar, sobre esta terra, ao rés do chão: tudo volta a ter sentido.

Ser como um cão farejador de Amor.

Eu não quero ir a lugar algum.

—se for preciso, cavo.

Escorrer a vida e gozar de suas dádivas, sem cobiçar nada.

O Amor transforma o Tempo num oceano.

Cruzam monstros marinhos, disformes, horrorosos,
escuros
e eu os amo

a todos

Lá vou eu
choramingando de ternura pelos cantos.

Sou muito grata por existir.

Tudo é a Verdade.

Sou
partícula de fogo que retorna ao Sol

Esse corpo nunca mais.

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Renato Rezende

Renato Rezende

[Oceano]

Círculos de luz opaca, em vibrações, como se saíssem de mim, da região entre os olhos: a sensação de levantar-me dentro de mim mesmo, e ascender, ao ver um objeto caindo, caindo, caindo sem fim e se espatifando junto a uma grande encosta murada, uma muralha que parecia erguer-se indefinidamente, e de repente, eu vendo, lá de cima, o infinito vale muito embaixo, onde corre o rio que era eu o objeto espatifado.

—Então me mata?

[Ela está pedindo para você matá-la]

Não Posso.

—Então me carrega no colo, em silêncio.

Sou uma pepita de ouro no seu ventre.

No fim de todos os caminhos, de todos os atalhos, de todas as vielas, de todos os declives, de todos os abismos, de todas as picadas e veredas está o mar.

O oceano iluminado.

Sonhei com você. A gente estava num bar do aeroporto, se despedindo, você ia viajar para algum lugar e usava umas roupas meio estranhas, tipo assim, roupas de peregrino. Aí você me disse que quando voltasse ia se casar com alguém do seu passado, você disse: “essa pessoa sempre esteve lá, acho que no fundo sempre soube que era ela”.

Uma voz agora:
Que me diga que eu existo, que eu estou vivo.

O sentimento de desamparo, no tudo estar de pernas para o ar, é facilmente sanado pelo Amor. Não o que vem de fora, mas o Amor que vem de dentro: substituir essa sensação por Amor: e tudo volta ao seu lugar, sobre esta terra, ao rés do chão: tudo volta a ter sentido.

Ser como um cão farejador de Amor.

Eu não quero ir a lugar algum.

—se for preciso, cavo.

Escorrer a vida e gozar de suas dádivas, sem cobiçar nada.

O Amor transforma o Tempo num oceano.

Cruzam monstros marinhos, disformes, horrorosos,
escuros
e eu os amo

a todos

Lá vou eu
choramingando de ternura pelos cantos.

Sou muito grata por existir.

Tudo é a Verdade.

Sou
partícula de fogo que retorna ao Sol

Esse corpo nunca mais.

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Renato Rezende

Renato Rezende

[O Outro]

Se todas as pessoas que estão nesses prédios descessem à rua agora seria uma grande confusão, as ruas ficariam entupidas de gente veríamos quantos somos, olharíamos um a um nos olhos

Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento

(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)

Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver

o seio...

Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.

E às vezes viver é um mar de doçura.

Vontade de vadiar o dia todo

Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim

(mulher)

Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?

Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.

Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.

Uma voz tentando dizer alguma coisa.

Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.

Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.

Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...

Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.

A poesia serve para desmascarar.
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Renato Rezende

Renato Rezende

Odysseus

One day, taking a coffee break, he noticed a book someone had forgotten on a table.
Surprised, he saw the book was written on his native language. He brought it to the kitchen and
tried to read while working. But he didn't have a chance. At the end of the day he took the book
home. He was excited.
It was the story of Odysseus and during the night, reading it in his room, he felt his heart
being overwhelmed by beauty. He read all night long and the next day he didn't show up for work.
Instead, he went for a walk with no directions. It was the beginning of spring and everything was
beautiful, everyone looked happy. He was surprised he hadn't really noticed the spring before. He
walked to a park in the top of a hill and sat down.
He stayed there for a long time. From there he could see the whole city and the suburbs. He
remembered some passages of the book; the beauty of it had remained with him. He had a strange
feeling; he felt his heart was so big he could fit the whole world in it. Suddenly he stood up and
shouted: I'm Odysseus!


Poderia ser em sueco: En dag under en kaffepaus lade han marke till en bok som någon hade glömt på ett bord. Till
sin förvåning såg han att boken var skriven på hans eget modersmål. Han tog den med sig till köket och försökte läsa
medan han arbetade. Men det gick inte alls. När dagen var slut tog han med sig boken hem. Han var entusiastisk. Det
var berättelsen om Odysseus och under natten medan han läste boken i sitt rum, kände han att hans hjärta var
överväldigat av dess skönhet. Han läste hela natten och nästa dag gick han inte till sitt arbete. Istället tog han en
promenad utan mål. Våren hade just börjat och allt var väckert, alla såg lyckliga ut. Det förvånade honom att han inte
lagt märke till våren tidigare. Han gick till en park på en kulle och satte sig ned. Han stannade där länge. Därifrån
kunde han se hela staden och förstäderna. Han erinrade sig några avsnitt ur boken, dess skönhet hade förblivit hos
honom. Han hade en underlig känsla, han kände att hans hjärta var så stort att det rymde hela världen. Plötsligt reste
han sig upp och skrek: Jag är Odysseus!
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