Lista de Poemas

Resiliente

Resiliente.
Assim me chamou nas dobras
A antiga amiga.

No corpo que torceu e retorceu
Ao seu centro noturno
E desigual.

M espantalho sem biografia
Aguando as quimeras de si.

A ruminação como defesa
Ou como certeza.

As brasas que ardem
No tempo da espera.

O quase dono de si.

O vaqueiro cego
Buscando um cão
Brincando com os espinhos.

Capaz de um destino lógico
De amarrar narcisos
Aos vasos inconclusos
Do jardim devastado.

De cerzir o passado
Sem álbuns, sem a matéria dos homens.

Como quem escreve segredos
Com aspas imaginárias.
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O Coração Sobre a Mesa

O coração sobre a mesa
não diz uma palavra.
Não pede, não cansa, não revela.
Observo, como um legista
o objeto alheio
a pulsação antiga que mantém
órgãos, intentos, entranhas, reflexos.

E súbito, em suas paredes
em carnosidades avermelhadas
surge desenhos, talhos, remendos.

Toco o peito vazio.
O coração respira, na mesa
movido por um moto-perpétuo.

Não há sístole ou diástole.

Sou eu, com medo de dormir sozinho
em alguma noite antiga.

É o telegrama com a morte
do tio Ademar.

São as lágrimas de minha mãe
na noite de Pentecostes.

É o dia em que cheguei ao Recife
com uma caixa de livros.

Na rodoviária, sentia frio
não sabia o que sentir
não sabia meu nome.

Meu coração ainda não era meu.
630

Heranças

Herdei de mais:
Agora me compete a febre do excesso.

Febres sazonais
palavras que não eram minhas
quebra ossos, janelas
arranham paredes
ruínas.

O relento
passeia em minha alegria.

Me torno o filho adotivo
que cria um sangue novo
próximo ao veneno.

Me torno
o que recebe mais
do que lhe foi dado.

O esplendor, cabisbaixo, me espreita.

A cada manhã estendo as mãos
como quem pede desculpas
à própria palmatória.
669

Intenção

Esta dificuldade terna e antiga
De dizer adeus
De batizar as coisas simples
Com nome e sobrenome.

A intenção de morrer calado
De desfazer os pactos antigos
Dos que vieram antes.

A saudade morna e calma
Arrebenta os dias.

Desvãos sazonais entre os ossos
Em qualquer primavera
O mais triste nas privações do inverno.

A intenção de catalogar uma por uma
As folhas que caem
Como partes da família.

A certeza de que o chão descobre
Sua chance de amanhã.

Na esquina distante
Que sempre chega.
608

Formas do dia

Às vezes, ao escolher os sapatos
Erramos o dia.

E a cor, a forma,
Nos levam ao ponto primordial:
Como saímos de casa.

Às vezes, a falta de uma bênção
Nos leva ao segundo erro:
Saímos de casa desassistidos
E nos perdemos do próprio dia.

Às vezes, a falta de um aviso
De um recado
De um aceno
Nos faz seguir sem os pequenos gestos
Que nos salvam o dia.

Quase sempre
Voltamos para casa
Tão vivos
E nem sabemos
Que sapatos, bênçãos, avisos
Nos salvam a vida.
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Um nome à minha sombra

Eu poderia jogar as mãos no mar
E endurecer porque há o infinito
E me completa.

E poderia recolher
O que disseram ser meu
E baixar os olhos em súplica
Como uma intenção desabitada.

Nada disso me levaria
A pontos extremos
(E sinto a respiração
Dos mesmos pássaros que sonhei).

Acedo. Aquieto.
A imensa ternura, engolfada pelas ondas
Murmura qualquer coisa indecifrável
Que julgava minha.

Elaboro a espera.
Mancho de branco o que restou
(As espumas diriam)
E sei que há um nome à minha sombra.

É quando o mar percebe a súplica.
E tudo devolve.
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Identificação e contexto básico

Samarone Lima de Oliveira é um poeta brasileiro. Sua produção literária se insere no contexto da poesia contemporânea do Brasil, marcada pela diversidade de estilos e temáticas. O contexto histórico em que vive e produz é o de um Brasil em constante transformação, com desafios sociais e culturais que frequentemente ressoam em sua obra.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação de Samarone Lima de Oliveira são escassas na esfera pública. Presume-se que, como muitos poetas, tenha tido uma relação precoce com a leitura e a escrita, desenvolvendo um apreço pela arte literária ao longo de sua vida. A formação, provavelmente, envolveu um processo de autodidatismo e imersão na obra de outros autores.

Percurso literário

O percurso literário de Samarone Lima de Oliveira é caracterizado pela publicação de seus poemas em plataformas diversas, incluindo coletâneas e eventos literários. Sua obra tem evoluído com o tempo, explorando diferentes nuances de sua visão poética. A participação em antologias e a circulação de seus versos em meios literários indicam um engajamento ativo no cenário poético brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Samarone Lima de Oliveira abrange temas como a identidade pessoal e coletiva, a memória, a vida urbana e as complexidades das relações humanas. Seu estilo poético é marcado por uma linguagem clara e expressiva, com uma forte capacidade de construir imagens sensoriais e emocionais. O lirismo é um componente central de sua poesia, muitas vezes entrelaçado com uma crítica sutil ao cotidiano e às estruturas sociais. Utiliza, predominantemente, o verso livre, adaptando a forma à sua expressão. A influência de outros poetas contemporâneos e a absorção de elementos da tradição poética brasileira podem ser percebidas em sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Samarone Lima de Oliveira atua no cenário literário brasileiro contemporâneo, um período de grande efervescência cultural e de rápidas mudanças sociais. Sua poesia dialoga com as experiências e os desafios do Brasil atual, refletindo sobre a vida em sociedade, as individualidades e as marcas do tempo. A interação com outros escritores e a participação em eventos culturais são parte de seu engajamento com a comunidade literária.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Samarone Lima de Oliveira não são amplamente divulgados. Presume-se que suas experiências e observações do cotidiano sejam fontes de inspiração para sua produção poética. A dedicação à escrita e a busca por expressar suas visões de mundo de forma artística são aspetos centrais de sua trajetória.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Samarone Lima de Oliveira tem se dado, principalmente, através da sua participação em antologias e da circulação de seus poemas em meios literários e digitais. A receção de sua obra é marcada pela apreciação de sua sensibilidade lírica e pela pertinência de suas reflexões sobre temas atuais. O reconhecimento acadêmico e institucional ainda pode estar em desenvolvimento, mas sua voz poética já encontra um público que valoriza sua originalidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A influência de outros poetas, tanto da tradição brasileira quanto de autores contemporâneos, é notável em sua obra. O legado de Samarone Lima de Oliveira se constrói na sua contribuição para a poesia contemporânea, com versos que tocam o leitor pela sua sinceridade e pela beleza de suas imagens. Sua poesia busca inspirar reflexão e sensibilidade em quem a lê.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Samarone Lima de Oliveira oferece múltiplas possibilidades de interpretação, convidando o leitor a mergulhar nas suas reflexões sobre a existência humana. Os temas abordados em seus poemas, como a busca por sentido, a efemeridade e a beleza do cotidiano, proporcionam um campo fértil para a análise crítica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por ser um autor contemporâneo cuja obra circula em meios diversos, alguns aspetos de sua personalidade e de seus hábitos de escrita podem ser menos conhecidos pelo grande público. Aprofundar-se em suas entrevistas ou em relatos sobre seu processo criativo poderia revelar curiosidades sobre sua trajetória.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Por ser um autor em plena atividade, não há informações sobre morte ou publicações póstumas. Sua memória é construída a cada novo poema publicado e a cada leitura que sua obra inspira.