Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Afonso Lopes de Baião
Disserom-Mi Uas Novas de Que M'é Mui Gram Bem
Disserom-mi ũas novas de que m'é mui gram bem:
ca chegou meu amigo, e, se el ali vem,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram sabor:
ca chegou meu amigo, e, se el ali for,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram prazer:
ca chegou meu amigo, mais eu, polo veer,
a Santa Maria das Leiras irei velida,
se i vem meu amigo.
Nunca com taes novas tam leda foi molher
com'eu sõo com estas, e, se [el] i veer,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
ca chegou meu amigo, e, se el ali vem,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram sabor:
ca chegou meu amigo, e, se el ali for,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram prazer:
ca chegou meu amigo, mais eu, polo veer,
a Santa Maria das Leiras irei velida,
se i vem meu amigo.
Nunca com taes novas tam leda foi molher
com'eu sõo com estas, e, se [el] i veer,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
657
Antônio Olinto
O crime da máquina
A máquina rodou só
nos trilhos limpos,
foi matar a menina de vermelho.
Bastou um grito para o espanto
fixar-se na tarde.
Desceu gente de longe,
homens pisaram pedras,
mulheres jogaram noites na pressa,
os pais surgiram de súbito.
Um sangue ungia rodas e trilhos,
pedaço de vestido repousava em dormente.
Lanternas acesas na lida em vôo,
foram examinar a máquina,
o freio intacto,
as peças nuas,
a chaminé parada em pânico.
Rodara só
nos trilhos limpos.
Em desvio de falas,
colheram saudades da menina,
assistiram ao desfile das pausas,
contaram casos de nascimento.
A manhã parou na máquina,
os homens trouxeram cadeiras,
fizeram um círculo de vozes,
ergueram pedaços do crime.
Depois, tomaram café,
deram seus votos
e fitaram, em rápida apreensão,
a máquina condenada.
Levaram-na para um desvio,
destruíram os trilhos de um lado e de outro,
fundaram cerca de arame ao redor,
deixaram placa de madeira
com letras em quase cruz.
Quando as outras máquinas passam
nos trilhos mais longe
apitam avisos,
rodam mandadas,
contemplam a cela tênue,
plantas agora buscando as fendas
da quieta locomotiva.
nos trilhos limpos,
foi matar a menina de vermelho.
Bastou um grito para o espanto
fixar-se na tarde.
Desceu gente de longe,
homens pisaram pedras,
mulheres jogaram noites na pressa,
os pais surgiram de súbito.
Um sangue ungia rodas e trilhos,
pedaço de vestido repousava em dormente.
Lanternas acesas na lida em vôo,
foram examinar a máquina,
o freio intacto,
as peças nuas,
a chaminé parada em pânico.
Rodara só
nos trilhos limpos.
Em desvio de falas,
colheram saudades da menina,
assistiram ao desfile das pausas,
contaram casos de nascimento.
A manhã parou na máquina,
os homens trouxeram cadeiras,
fizeram um círculo de vozes,
ergueram pedaços do crime.
Depois, tomaram café,
deram seus votos
e fitaram, em rápida apreensão,
a máquina condenada.
Levaram-na para um desvio,
destruíram os trilhos de um lado e de outro,
fundaram cerca de arame ao redor,
deixaram placa de madeira
com letras em quase cruz.
Quando as outras máquinas passam
nos trilhos mais longe
apitam avisos,
rodam mandadas,
contemplam a cela tênue,
plantas agora buscando as fendas
da quieta locomotiva.
580
Antônio Olinto
O crime da máquina
A máquina rodou só
nos trilhos limpos,
foi matar a menina de vermelho.
Bastou um grito para o espanto
fixar-se na tarde.
Desceu gente de longe,
homens pisaram pedras,
mulheres jogaram noites na pressa,
os pais surgiram de súbito.
Um sangue ungia rodas e trilhos,
pedaço de vestido repousava em dormente.
Lanternas acesas na lida em vôo,
foram examinar a máquina,
o freio intacto,
as peças nuas,
a chaminé parada em pânico.
Rodara só
nos trilhos limpos.
Em desvio de falas,
colheram saudades da menina,
assistiram ao desfile das pausas,
contaram casos de nascimento.
A manhã parou na máquina,
os homens trouxeram cadeiras,
fizeram um círculo de vozes,
ergueram pedaços do crime.
Depois, tomaram café,
deram seus votos
e fitaram, em rápida apreensão,
a máquina condenada.
Levaram-na para um desvio,
destruíram os trilhos de um lado e de outro,
fundaram cerca de arame ao redor,
deixaram placa de madeira
com letras em quase cruz.
Quando as outras máquinas passam
nos trilhos mais longe
apitam avisos,
rodam mandadas,
contemplam a cela tênue,
plantas agora buscando as fendas
da quieta locomotiva.
nos trilhos limpos,
foi matar a menina de vermelho.
Bastou um grito para o espanto
fixar-se na tarde.
Desceu gente de longe,
homens pisaram pedras,
mulheres jogaram noites na pressa,
os pais surgiram de súbito.
Um sangue ungia rodas e trilhos,
pedaço de vestido repousava em dormente.
Lanternas acesas na lida em vôo,
foram examinar a máquina,
o freio intacto,
as peças nuas,
a chaminé parada em pânico.
Rodara só
nos trilhos limpos.
Em desvio de falas,
colheram saudades da menina,
assistiram ao desfile das pausas,
contaram casos de nascimento.
A manhã parou na máquina,
os homens trouxeram cadeiras,
fizeram um círculo de vozes,
ergueram pedaços do crime.
Depois, tomaram café,
deram seus votos
e fitaram, em rápida apreensão,
a máquina condenada.
Levaram-na para um desvio,
destruíram os trilhos de um lado e de outro,
fundaram cerca de arame ao redor,
deixaram placa de madeira
com letras em quase cruz.
Quando as outras máquinas passam
nos trilhos mais longe
apitam avisos,
rodam mandadas,
contemplam a cela tênue,
plantas agora buscando as fendas
da quieta locomotiva.
580
Mário-Henrique Leiria
Eu vos afirmo
Eu vos afirmo
Eu sou o maldito
o único que conhece
a maldição de não existir
existindo
o único único
que é acompanhado
por outro que conhece a maldição
que é também maldito
que é também o único
eu sou
eu sou
porque somos
o único vários só
solitário de ser acompanhado
solitários de sermos verdadeiros
talvez sabendo
talvez conhecendo
a solidão que formo
formamos
só único
sós únicos.
Eu sou o maldito
o único que conhece
a maldição de não existir
existindo
o único único
que é acompanhado
por outro que conhece a maldição
que é também maldito
que é também o único
eu sou
eu sou
porque somos
o único vários só
solitário de ser acompanhado
solitários de sermos verdadeiros
talvez sabendo
talvez conhecendo
a solidão que formo
formamos
só único
sós únicos.
702
Antônio Olinto
Infância
Num retrospecto
de que vale?
O menino soltava papagaio
no morro transformado em nova imagem
tão nítida que vai além retângulo,
termina no prelúdio de uma nuvem
e o grito batia longe
na tarde dos bambuais
de que vale?
Sousa já era mas sorria,
tinha o fascínio dos começos,
a fixidez dos olhos sendo
nada e flor.
A voz que subia aflita
(só podia ser da mãe)
talava da noite próxima
e de bichos escondidos
pelo pasto,
no regato,
no caminho,
pela sombra deslizada de repente
de que vale?
Na descida tudo vinha
em gesto nem sempre visto
de papagaio vermelho,
papel de seda rasgado
na maciez do paiol.
Súbito
era noite e um cão latia
alto.
de que vale?
O menino soltava papagaio
no morro transformado em nova imagem
tão nítida que vai além retângulo,
termina no prelúdio de uma nuvem
e o grito batia longe
na tarde dos bambuais
de que vale?
Sousa já era mas sorria,
tinha o fascínio dos começos,
a fixidez dos olhos sendo
nada e flor.
A voz que subia aflita
(só podia ser da mãe)
talava da noite próxima
e de bichos escondidos
pelo pasto,
no regato,
no caminho,
pela sombra deslizada de repente
de que vale?
Na descida tudo vinha
em gesto nem sempre visto
de papagaio vermelho,
papel de seda rasgado
na maciez do paiol.
Súbito
era noite e um cão latia
alto.
622
Mário-Henrique Leiria
Cinegética
Um caçador
perdeu a cedilha
e por isso
sua mulher
nunca mais
quis ir à caça
com ele
sem cedilha
perdeu a cedilha
e por isso
sua mulher
nunca mais
quis ir à caça
com ele
sem cedilha
818
José Manuel Mendes
não voltarás
não voltarás
olhando as ruas
na vidraça nua os zimbros
da terra ocre
moras secreta nestes barros
tua flauta canta nas montanhas
pedras e trepadeiras se enroscam
perto do teu rosto
e são de
água
sabes plantar o odor
dos frutos
tangerina limão
pássaras orvalho
a nervura das manhãs
e o lume dos poemas
quente metalurgia
das palavras
como ontem (tu eras morta)
prolonga-te nestas mãos
no maio das rotas
de abril
tecidas
olhando as ruas
na vidraça nua os zimbros
da terra ocre
moras secreta nestes barros
tua flauta canta nas montanhas
pedras e trepadeiras se enroscam
perto do teu rosto
e são de
água
sabes plantar o odor
dos frutos
tangerina limão
pássaras orvalho
a nervura das manhãs
e o lume dos poemas
quente metalurgia
das palavras
como ontem (tu eras morta)
prolonga-te nestas mãos
no maio das rotas
de abril
tecidas
534
Mário-Henrique Leiria
Não me chamem senhor
Não me chamem senhor
foi o que eu disse
quando cheguei
ao caminho entre os teus seios
não sabiam
que eu possuía a tua língua
e falaram-me com extrema precaução
como se fala a um estrangeiro
não sou senhor de nada
apenas conheço a terra
líquida vegetal colorida quente
que desce dos rios que tu és
até ao teu umbigo
Yaffa
civilizações redondas e macias
antigas e cruéis
reunidas na estranha planície
que nunca me entregaste
estendendo-se entre amoras
até se encontrar
num tempo primeiro e decisivo
fundo único exacto
em colinas ondulantes
onde nascem cantantes vales
de laranjas
que se repetem pelo horizonte
até junto à orla do teu mar
deslizando entre cidades enterradas
a recordar vestígios de paisagens
como trombetas de ruído e sal
em caminhos de água e de memória
Yaffa
o teu sexo de repouso límpido
ao som da flauta do tof e dos figos
bei n’har Prat un’har Chideke!
foi o que eu disse
quando cheguei
ao caminho entre os teus seios
não sabiam
que eu possuía a tua língua
e falaram-me com extrema precaução
como se fala a um estrangeiro
não sou senhor de nada
apenas conheço a terra
líquida vegetal colorida quente
que desce dos rios que tu és
até ao teu umbigo
Yaffa
civilizações redondas e macias
antigas e cruéis
reunidas na estranha planície
que nunca me entregaste
estendendo-se entre amoras
até se encontrar
num tempo primeiro e decisivo
fundo único exacto
em colinas ondulantes
onde nascem cantantes vales
de laranjas
que se repetem pelo horizonte
até junto à orla do teu mar
deslizando entre cidades enterradas
a recordar vestígios de paisagens
como trombetas de ruído e sal
em caminhos de água e de memória
Yaffa
o teu sexo de repouso límpido
ao som da flauta do tof e dos figos
bei n’har Prat un’har Chideke!
646
Mário-Henrique Leiria
W
tudo o que existiu
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
720
Mário-Henrique Leiria
W
tudo o que existiu
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
720
Mário-Henrique Leiria
W
tudo o que existiu
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
720
Mário-Henrique Leiria
W
tudo o que existiu
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
720
Mário-Henrique Leiria
W
tudo o que existiu
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
720
Mário-Henrique Leiria
A Estratégia
Vejamos
perguntou o capitão
como vai indo
essa instrução?
vai muito bem
um caso lindo
disse o sargento
falando a contento
ao capitão
e veio a guerra
então a instrução
pôs o boné
e entrou
logo em acção
como vai indo
essa função?
perguntou o general
ao capitão
vejamos
expôs o capitão
o importante
sempre tenho dito
e repito
é levar a instrução
avante
e foi assim
que acabada a guerra
o capitão ficou
Napoleão
perguntou o capitão
como vai indo
essa instrução?
vai muito bem
um caso lindo
disse o sargento
falando a contento
ao capitão
e veio a guerra
então a instrução
pôs o boné
e entrou
logo em acção
como vai indo
essa função?
perguntou o general
ao capitão
vejamos
expôs o capitão
o importante
sempre tenho dito
e repito
é levar a instrução
avante
e foi assim
que acabada a guerra
o capitão ficou
Napoleão
651
Mário-Henrique Leiria
Um poeta
Um poeta
cara amiga
é como uma noite escura
com olheiras
Tem cuidado querida
tem cuidado quando abrires a janela
olha que os poetas
como certos pássaros e mosquitos
entram logo por ela
aos bandos aos molhos
às mãos cheias
como uma recordação de infância
como um sinal de perigo
em curva deslizante
Olha querida
o melhor será não fazeres isso
tranca-te bem fecha-te à chave
respira numa bolha
que te isole
vê bem
protege a tua paz o teu sossego
Um poeta
não é coisa aceitável
é obviamente como já se sabe
uma catástrofe tão arrepelante
que até pode
que tragédia minha querida
fazer cair dignidades
comprometer consciências repousantes
envenenar a água tão solenemente calma
da paz quotidiana
um desastre irreparável
Mas olha amiga minha
ai que desgosto
terás p’ra toda a vida
que saudade desesperante
de não teres encontrado um dia algum
Mas antes isso
do que vê-los
… isso nunca…
cara amiga
é como uma noite escura
com olheiras
Tem cuidado querida
tem cuidado quando abrires a janela
olha que os poetas
como certos pássaros e mosquitos
entram logo por ela
aos bandos aos molhos
às mãos cheias
como uma recordação de infância
como um sinal de perigo
em curva deslizante
Olha querida
o melhor será não fazeres isso
tranca-te bem fecha-te à chave
respira numa bolha
que te isole
vê bem
protege a tua paz o teu sossego
Um poeta
não é coisa aceitável
é obviamente como já se sabe
uma catástrofe tão arrepelante
que até pode
que tragédia minha querida
fazer cair dignidades
comprometer consciências repousantes
envenenar a água tão solenemente calma
da paz quotidiana
um desastre irreparável
Mas olha amiga minha
ai que desgosto
terás p’ra toda a vida
que saudade desesperante
de não teres encontrado um dia algum
Mas antes isso
do que vê-los
… isso nunca…
939
Mário-Henrique Leiria
Um poeta
Um poeta
cara amiga
é como uma noite escura
com olheiras
Tem cuidado querida
tem cuidado quando abrires a janela
olha que os poetas
como certos pássaros e mosquitos
entram logo por ela
aos bandos aos molhos
às mãos cheias
como uma recordação de infância
como um sinal de perigo
em curva deslizante
Olha querida
o melhor será não fazeres isso
tranca-te bem fecha-te à chave
respira numa bolha
que te isole
vê bem
protege a tua paz o teu sossego
Um poeta
não é coisa aceitável
é obviamente como já se sabe
uma catástrofe tão arrepelante
que até pode
que tragédia minha querida
fazer cair dignidades
comprometer consciências repousantes
envenenar a água tão solenemente calma
da paz quotidiana
um desastre irreparável
Mas olha amiga minha
ai que desgosto
terás p’ra toda a vida
que saudade desesperante
de não teres encontrado um dia algum
Mas antes isso
do que vê-los
… isso nunca…
cara amiga
é como uma noite escura
com olheiras
Tem cuidado querida
tem cuidado quando abrires a janela
olha que os poetas
como certos pássaros e mosquitos
entram logo por ela
aos bandos aos molhos
às mãos cheias
como uma recordação de infância
como um sinal de perigo
em curva deslizante
Olha querida
o melhor será não fazeres isso
tranca-te bem fecha-te à chave
respira numa bolha
que te isole
vê bem
protege a tua paz o teu sossego
Um poeta
não é coisa aceitável
é obviamente como já se sabe
uma catástrofe tão arrepelante
que até pode
que tragédia minha querida
fazer cair dignidades
comprometer consciências repousantes
envenenar a água tão solenemente calma
da paz quotidiana
um desastre irreparável
Mas olha amiga minha
ai que desgosto
terás p’ra toda a vida
que saudade desesperante
de não teres encontrado um dia algum
Mas antes isso
do que vê-los
… isso nunca…
939
Mário-Henrique Leiria
Um poeta
Um poeta
cara amiga
é como uma noite escura
com olheiras
Tem cuidado querida
tem cuidado quando abrires a janela
olha que os poetas
como certos pássaros e mosquitos
entram logo por ela
aos bandos aos molhos
às mãos cheias
como uma recordação de infância
como um sinal de perigo
em curva deslizante
Olha querida
o melhor será não fazeres isso
tranca-te bem fecha-te à chave
respira numa bolha
que te isole
vê bem
protege a tua paz o teu sossego
Um poeta
não é coisa aceitável
é obviamente como já se sabe
uma catástrofe tão arrepelante
que até pode
que tragédia minha querida
fazer cair dignidades
comprometer consciências repousantes
envenenar a água tão solenemente calma
da paz quotidiana
um desastre irreparável
Mas olha amiga minha
ai que desgosto
terás p’ra toda a vida
que saudade desesperante
de não teres encontrado um dia algum
Mas antes isso
do que vê-los
… isso nunca…
cara amiga
é como uma noite escura
com olheiras
Tem cuidado querida
tem cuidado quando abrires a janela
olha que os poetas
como certos pássaros e mosquitos
entram logo por ela
aos bandos aos molhos
às mãos cheias
como uma recordação de infância
como um sinal de perigo
em curva deslizante
Olha querida
o melhor será não fazeres isso
tranca-te bem fecha-te à chave
respira numa bolha
que te isole
vê bem
protege a tua paz o teu sossego
Um poeta
não é coisa aceitável
é obviamente como já se sabe
uma catástrofe tão arrepelante
que até pode
que tragédia minha querida
fazer cair dignidades
comprometer consciências repousantes
envenenar a água tão solenemente calma
da paz quotidiana
um desastre irreparável
Mas olha amiga minha
ai que desgosto
terás p’ra toda a vida
que saudade desesperante
de não teres encontrado um dia algum
Mas antes isso
do que vê-los
… isso nunca…
939
Sidónio Muralha
Menina fútil
A menina fútil deu um bodo aos pobres;
pela primeira vez pôs avental…
Falou do gesto e seus intuitos nobres,
com palavrinhas brandas, o jornal…
– Os pobres ficaram pobres
e a menina fútil nunca mais pôs avental…
A menina fútil tem um cão de raça
que nunca saiu do quintal
e nunca viu uma cadela …
– Para a menina fútil, o seu cão de raça
deixou de ser um animal
e é um cãozinho de flanela …
… e a menina fútil tem um namorado
e atira-lhe promessas da janela …
Promessas … porque o resto era pecado
e pecar não é com ela …
(Fica sempre na rua, o namorado,
e é tão distante a janela … )
Mas a menina fútil tem um namorado;
tem um cão como feito de flanela;
e anda feliz por dar um bodo aos pobres
e ter descido a pôr um avental…
Lê e relê os seus intuitos nobres;
recorta o seu retrato do jornal;
– e os pobres continuam pobres,
e a menina fútil nunca mais põe avental…
pela primeira vez pôs avental…
Falou do gesto e seus intuitos nobres,
com palavrinhas brandas, o jornal…
– Os pobres ficaram pobres
e a menina fútil nunca mais pôs avental…
A menina fútil tem um cão de raça
que nunca saiu do quintal
e nunca viu uma cadela …
– Para a menina fútil, o seu cão de raça
deixou de ser um animal
e é um cãozinho de flanela …
… e a menina fútil tem um namorado
e atira-lhe promessas da janela …
Promessas … porque o resto era pecado
e pecar não é com ela …
(Fica sempre na rua, o namorado,
e é tão distante a janela … )
Mas a menina fútil tem um namorado;
tem um cão como feito de flanela;
e anda feliz por dar um bodo aos pobres
e ter descido a pôr um avental…
Lê e relê os seus intuitos nobres;
recorta o seu retrato do jornal;
– e os pobres continuam pobres,
e a menina fútil nunca mais põe avental…
697
Mário-Henrique Leiria
Pegada na areia
Pegada na areia
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
606
Mário-Henrique Leiria
Pegada na areia
Pegada na areia
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
606
Mário-Henrique Leiria
Pegada na areia
Pegada na areia
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
606
Manuel da Silva Gaio
Soneto de Amor
Ainda o mundo uma vez lembre, Senhora,
Aquele ermo abandono e sorte escura
Do verme que morreu na vã tortura
De certa Estrela amar - tão alta embora!
Porque desde que sinto, como agora,
Quanto de mim sois longe - Astro da Altura! -
Com sua inconsolável desventura
A minha já comparo, a cada hora.
Maior é, todavia, o meu quinhão
Na mágoa semelhante: se jamais,
De mudo,espalhou ele a próprio dor,
Inutilmente vara a solidão
A queixa que me ouvis, pois duvidais
De que eu também por vós morra de amor.
Aquele ermo abandono e sorte escura
Do verme que morreu na vã tortura
De certa Estrela amar - tão alta embora!
Porque desde que sinto, como agora,
Quanto de mim sois longe - Astro da Altura! -
Com sua inconsolável desventura
A minha já comparo, a cada hora.
Maior é, todavia, o meu quinhão
Na mágoa semelhante: se jamais,
De mudo,espalhou ele a próprio dor,
Inutilmente vara a solidão
A queixa que me ouvis, pois duvidais
De que eu também por vós morra de amor.
889
Mário-Henrique Leiria
CONFRATERNIZAÇÃO
A anca bem tostada
um rim na grelha
e ainda
a bexiga recheada
tudo com arroz
é evidente
e um notável molho
picante e sapiente
foi o que me coube
ah esquecia-me
também um olho
com champignon
ao natural
estava bom
nada de muito excepcional
mas comia-se
a contento
foi um jantar
bem agradável
todos louvámos
aquela sangria tão gelada
era um portento
no fim
após a marmelada
a aguardente
e o cafezinho fumegante
oferecemos
os sapatos o casaco
as calças e o penante
àquele pobrezinho
refugiado búlgaro
fugido à vacina
a camisa foi pró lixo
estava imprestável
suja
com manchas
nada fina
dá-la ao pobre búlgaro
seria imperdoável
um rim na grelha
e ainda
a bexiga recheada
tudo com arroz
é evidente
e um notável molho
picante e sapiente
foi o que me coube
ah esquecia-me
também um olho
com champignon
ao natural
estava bom
nada de muito excepcional
mas comia-se
a contento
foi um jantar
bem agradável
todos louvámos
aquela sangria tão gelada
era um portento
no fim
após a marmelada
a aguardente
e o cafezinho fumegante
oferecemos
os sapatos o casaco
as calças e o penante
àquele pobrezinho
refugiado búlgaro
fugido à vacina
a camisa foi pró lixo
estava imprestável
suja
com manchas
nada fina
dá-la ao pobre búlgaro
seria imperdoável
469
Mário-Henrique Leiria
Origem dos sonhos esquecidos
Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca
Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar
Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado
Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante
Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras
qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente
Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu
Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo
vai a distância de uma camisa branca
Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar
Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado
Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante
Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras
qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente
Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu
Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo
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