Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Renato Rezende
O Sorriso
-- Mostre os dentes,
sorria
(eu digo a ela)
e ela sorri.
Estudo nos seus lábios
esse delicado,
sublime mecanismo:
(entre músculos e dentes
devagar,
novamente)
-- o sorriso.
Turim, maio 1991
sorria
(eu digo a ela)
e ela sorri.
Estudo nos seus lábios
esse delicado,
sublime mecanismo:
(entre músculos e dentes
devagar,
novamente)
-- o sorriso.
Turim, maio 1991
1 095
Renato Rezende
Espera
Uma conversa que hoje escutei
me fez refletir
se sou realmente feliz.
Um moço disse à outro:
Eu realmente, realmente, realmente
quero....
Quando foi a última vez
que eu quis?
Deito-me dentro de mim mesmo
e espero.
Nova York, 8 de março 1996
me fez refletir
se sou realmente feliz.
Um moço disse à outro:
Eu realmente, realmente, realmente
quero....
Quando foi a última vez
que eu quis?
Deito-me dentro de mim mesmo
e espero.
Nova York, 8 de março 1996
1 129
Renato Rezende
Asas de Papel
Subir aos céus em asas de cristal
Subir aos céus
Subir aos céus em escadas de papel
Subir aos céus
Subir aos céus no elevador panorâmico
do Shopping Iguatemi
Não importa como:
Subir
São Paulo, março 1996
Subir aos céus
Subir aos céus em escadas de papel
Subir aos céus
Subir aos céus no elevador panorâmico
do Shopping Iguatemi
Não importa como:
Subir
São Paulo, março 1996
1 051
Renato Rezende
Os Anjos
Um anjo desce e estende
o pequeno braço branco para mim:
--- Venha comigo
passar dez minutos no paraíso.
--- Não, eu digo,
não sou desses que têm tempo
para passear no paraíso.
Mas o anjo é misericordioso.
Sem perceber cochilo,
e por dez minutos sonho
com todas as cores do paraíso.
Boston, maio 1991
o pequeno braço branco para mim:
--- Venha comigo
passar dez minutos no paraíso.
--- Não, eu digo,
não sou desses que têm tempo
para passear no paraíso.
Mas o anjo é misericordioso.
Sem perceber cochilo,
e por dez minutos sonho
com todas as cores do paraíso.
Boston, maio 1991
1 083
Renato Rezende
Os Anjos
Um anjo desce e estende
o pequeno braço branco para mim:
--- Venha comigo
passar dez minutos no paraíso.
--- Não, eu digo,
não sou desses que têm tempo
para passear no paraíso.
Mas o anjo é misericordioso.
Sem perceber cochilo,
e por dez minutos sonho
com todas as cores do paraíso.
Boston, maio 1991
o pequeno braço branco para mim:
--- Venha comigo
passar dez minutos no paraíso.
--- Não, eu digo,
não sou desses que têm tempo
para passear no paraíso.
Mas o anjo é misericordioso.
Sem perceber cochilo,
e por dez minutos sonho
com todas as cores do paraíso.
Boston, maio 1991
1 083
Renato Rezende
New York City, Meio-Dia
Vestido num saco de lixo
negro, um menino negro
pede esmola -- e é bonito.
Uma jovem de patins passa
por mim e esbarra sua mão na minha.
Um homem me olha
e quando o surpreendo com meu olho
sustenta o olhar, sem vergonha ou medo.
Durante todo o dia quis-se revelar
uma alegria nova, mas familiar
que finalmente agora compreendo.
A de estar entre os que estão
aqui
vivendo.
Nova York, setembro 1996
negro, um menino negro
pede esmola -- e é bonito.
Uma jovem de patins passa
por mim e esbarra sua mão na minha.
Um homem me olha
e quando o surpreendo com meu olho
sustenta o olhar, sem vergonha ou medo.
Durante todo o dia quis-se revelar
uma alegria nova, mas familiar
que finalmente agora compreendo.
A de estar entre os que estão
aqui
vivendo.
Nova York, setembro 1996
934
Renato Rezende
Irene Encarnada
Le con d'Irene
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene
Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos
A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos
e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)
Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua
(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)
Nova York, outubro 1996
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene
Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos
A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos
e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)
Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua
(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)
Nova York, outubro 1996
954
Renato Rezende
Ao Menos
Houve um tempo
em que comia nos melhores restaurantes
de São Paulo, Paris e Nova York.
Houve um tempo
que retirava grande prazer da leitura
e tinha orgulho da minha biblioteca.
Hoje os pratos estão quebrados,
os livros ao vento.
-- O coração cada vez mais pleno.
Rio de Janeiro, fevereiro 1998
em que comia nos melhores restaurantes
de São Paulo, Paris e Nova York.
Houve um tempo
que retirava grande prazer da leitura
e tinha orgulho da minha biblioteca.
Hoje os pratos estão quebrados,
os livros ao vento.
-- O coração cada vez mais pleno.
Rio de Janeiro, fevereiro 1998
1 050
Renato Rezende
Fine Art
O menino de 17 anos
caminhou até mim
e conversou comigo um pouco.
Bonito, puro, doce
como eu também era doce
aos 17, e não sabia.
Amo-o
como se fosse uma pintura,
uma fotografia em preto e branco
(me seduz
uma coreografia que já não danço).
Sorrio,
enquanto ele me empurra para morte.
Nova York, maio 1996
caminhou até mim
e conversou comigo um pouco.
Bonito, puro, doce
como eu também era doce
aos 17, e não sabia.
Amo-o
como se fosse uma pintura,
uma fotografia em preto e branco
(me seduz
uma coreografia que já não danço).
Sorrio,
enquanto ele me empurra para morte.
Nova York, maio 1996
733
Marília Garcia
antes do encontro
procurar uma escada de madeira
dando para o abismo
é uma ação que só pode acontecer nesta língua
estranha e numa cidade cortada por um rio
que fique no meio dos dois
(quando um precisa ir embora
para sempre)
mas um dia ela chega
com a pergunta:
— o que vem à sua cabeça
quando digo a palavra
amor?
um dia desce no meio do dia
e vê. e um dia vê a peça lilás sobre a quina da mesa
quando volta. ele diz saltar. saltar para fora.
e atravessa na esquina
procurando a escada. depois diz que quer saltar
para fora desta canção.
mas um dia chega com
a pergunta:
— o que vem à sua cabeça quando
digo a palavra amor?
e ela responde
que amor em japonês
se diz /ai/.
e, de repente, um branco.
as linhas se tornam cada vez mais
quebradiças. um banco parado no meio da cena,
um quadrado iluminado e a frase mais longa
que ele me disse nos últimos
seis meses.
o que significa um cachecol vermelho
pinicando sozinho?
uma abelha, pensa, mas o cachecol pinicando,
voando como uma abelha, talvez um inseto
estridente, incidente para ouvir quando ele
chegar e vir.
agora sobrou apenas a estática
tremendo e você a leva de volta até o barco:
— a estática?, pergunta, você lembra
daquela vez? e ela fica parada na chuva
com o colete salva-vidas esperando
alguma coisa acontecer.
[aqui o telefone
vibra na bolsa e um parêntese
para dizer que não sabe onde está mas é longe
não sabe onde está mas é frio
não sabe onde está mas é quase.
ao ouvir a voz,
parece de verdade,
e então ele levanta e me diz algo
sobre o fim
ou sobre o sim
e toca na tela uma imagem
do filme]
dando para o abismo
é uma ação que só pode acontecer nesta língua
estranha e numa cidade cortada por um rio
que fique no meio dos dois
(quando um precisa ir embora
para sempre)
mas um dia ela chega
com a pergunta:
— o que vem à sua cabeça
quando digo a palavra
amor?
um dia desce no meio do dia
e vê. e um dia vê a peça lilás sobre a quina da mesa
quando volta. ele diz saltar. saltar para fora.
e atravessa na esquina
procurando a escada. depois diz que quer saltar
para fora desta canção.
mas um dia chega com
a pergunta:
— o que vem à sua cabeça quando
digo a palavra amor?
e ela responde
que amor em japonês
se diz /ai/.
e, de repente, um branco.
as linhas se tornam cada vez mais
quebradiças. um banco parado no meio da cena,
um quadrado iluminado e a frase mais longa
que ele me disse nos últimos
seis meses.
o que significa um cachecol vermelho
pinicando sozinho?
uma abelha, pensa, mas o cachecol pinicando,
voando como uma abelha, talvez um inseto
estridente, incidente para ouvir quando ele
chegar e vir.
agora sobrou apenas a estática
tremendo e você a leva de volta até o barco:
— a estática?, pergunta, você lembra
daquela vez? e ela fica parada na chuva
com o colete salva-vidas esperando
alguma coisa acontecer.
[aqui o telefone
vibra na bolsa e um parêntese
para dizer que não sabe onde está mas é longe
não sabe onde está mas é frio
não sabe onde está mas é quase.
ao ouvir a voz,
parece de verdade,
e então ele levanta e me diz algo
sobre o fim
ou sobre o sim
e toca na tela uma imagem
do filme]
551
Renato Rezende
Poema Mudo
Quero escrever uma poesia calada.
Que cada palavra exista em si, um corpo.
Que cada palavra seja tempo, pedra, rosto.
Que, principalmente, a poesia seja amor, e cada palavra
o amor feito palavra. Quero um poema
que tenha o significado da vida.
(A palavra esboçada e jamais dita;
o corpo, frágil, refletido no espelho).
Quero um verso forte e passageiro.
(Um rosto amado, e nunca mais visto;
o filho que sonhamos, e que não velo).
Que cada palavra exista em si, um corpo.
Que cada palavra seja tempo, pedra, rosto.
Que, principalmente, a poesia seja amor, e cada palavra
o amor feito palavra. Quero um poema
que tenha o significado da vida.
(A palavra esboçada e jamais dita;
o corpo, frágil, refletido no espelho).
Quero um verso forte e passageiro.
(Um rosto amado, e nunca mais visto;
o filho que sonhamos, e que não velo).
1 171
Renato Rezende
Recordo
Cada desejo do teu coração
Eu quero responder.
Te levo à Ibéria,
Te faço bela.
Te beijo por dentro e por fora.
(Teu corpo não tem nome)
És uma massa esparramada
Doce amor perdido.
Eu quero responder.
Te levo à Ibéria,
Te faço bela.
Te beijo por dentro e por fora.
(Teu corpo não tem nome)
És uma massa esparramada
Doce amor perdido.
1 007
Ricardo Aleixo
Alheio
escolho ouvir,
sei muito bem que o risco não é pequeno, meio
adormecido no banco do
ônibus, a não ser que ela voltasse a cabeça, não
pensamos palavras,
mas a cada novo
ângulo descortinado, sempre a ponto
de cair, é
quando o sujeito retorna, escolho
não falar, não
considero prudente
falar, ela insiste,
a imagem fixa na retina,
rastros na areia, chega
um momento em que já não se pode
recuar, um garoto sonha e ri muito
alto, guardar sigilo,
uma página em branco,
o pensamento um corte,
animais de corpos cilíndricos,
imaginar o que há
dentro de uma árvore,
escolho olhar o fogo, ainda ontem, o todo inacabado,
dois seixos na beira do lago, falava alheio,
uma sequência de desvios, ouvia sem entender,
estou só, aqui, escrito
sei muito bem que o risco não é pequeno, meio
adormecido no banco do
ônibus, a não ser que ela voltasse a cabeça, não
pensamos palavras,
mas a cada novo
ângulo descortinado, sempre a ponto
de cair, é
quando o sujeito retorna, escolho
não falar, não
considero prudente
falar, ela insiste,
a imagem fixa na retina,
rastros na areia, chega
um momento em que já não se pode
recuar, um garoto sonha e ri muito
alto, guardar sigilo,
uma página em branco,
o pensamento um corte,
animais de corpos cilíndricos,
imaginar o que há
dentro de uma árvore,
escolho olhar o fogo, ainda ontem, o todo inacabado,
dois seixos na beira do lago, falava alheio,
uma sequência de desvios, ouvia sem entender,
estou só, aqui, escrito
771
Marília Garcia
plano b
hola, spleen, disse. nos cruzamos em
uma lagoa de atol. sentada no banco de trás
olhava pelo vidro azul cobalto
a 3000 quilômetros do ponto em
que o deixara.
hola, spleen, disse. você ainda vai me ver
três vezes antes do fim. uma linha esconde
outra linha, a voz esconde o que pré-
existe entre os dois. pensava na carta sem remetente
em alguma maneira de dizer pensava nas
esculturas sonoras (não havia
um plano c? para onde
seguia)
era como descobrir o sulco
fechado de um disco e ficar
rodando no loop daquela melodia
circular. precisa de uma língua
que defina isso
hola, spleen, disse.
mas não falava da latitude
no mapa, eram peixes
no fundo do oceano com a cartilagem
luminosa derretendo nos olhos
e a única preocupação quando
entrou era o som por detrás da voz dela:
saber se está triste há um ano
ou há 24 horas.
(na volta, passa a colecionar
objetos. a vingança começa num
aquário:
é como furar a realidade
com a realidade, ele dizia, ficar no quarto
medindo o nível do mar
para descobrir onde pôr
os peixes)
uma lagoa de atol. sentada no banco de trás
olhava pelo vidro azul cobalto
a 3000 quilômetros do ponto em
que o deixara.
hola, spleen, disse. você ainda vai me ver
três vezes antes do fim. uma linha esconde
outra linha, a voz esconde o que pré-
existe entre os dois. pensava na carta sem remetente
em alguma maneira de dizer pensava nas
esculturas sonoras (não havia
um plano c? para onde
seguia)
era como descobrir o sulco
fechado de um disco e ficar
rodando no loop daquela melodia
circular. precisa de uma língua
que defina isso
hola, spleen, disse.
mas não falava da latitude
no mapa, eram peixes
no fundo do oceano com a cartilagem
luminosa derretendo nos olhos
e a única preocupação quando
entrou era o som por detrás da voz dela:
saber se está triste há um ano
ou há 24 horas.
(na volta, passa a colecionar
objetos. a vingança começa num
aquário:
é como furar a realidade
com a realidade, ele dizia, ficar no quarto
medindo o nível do mar
para descobrir onde pôr
os peixes)
638
Luci Collin
NAQUELE MAIO
as certezas chegavam oficialmente pelo correio
você guardara as máscaras numa maleta
e a maleta num baú antigo
e o baú fora enterrado a metros e metros
ou jogado no fundo do fundo do oceano índico
junto com as chaves
com os segredos do cofre
com o zoológico de cristal
Isto não se sabe
E eu seguira regando os gerânios
as prímulas e os telegramas vindos de longe
afofando a forragem no cocho
desenterrando ossuários
ocupada não fora ao baile
cuidara dos detalhes da brotação
cerzira albores e antefaces
Isto se sabe
você guardara as máscaras numa maleta
e a maleta num baú antigo
e o baú fora enterrado a metros e metros
ou jogado no fundo do fundo do oceano índico
junto com as chaves
com os segredos do cofre
com o zoológico de cristal
Isto não se sabe
E eu seguira regando os gerânios
as prímulas e os telegramas vindos de longe
afofando a forragem no cocho
desenterrando ossuários
ocupada não fora ao baile
cuidara dos detalhes da brotação
cerzira albores e antefaces
Isto se sabe
692
Luci Collin
declaração
que disparate tentar falar de amor
num poema______neste poema
não se conserva do outono
o adágio do pássaro
não se leva para além da memória
o delírio que a boca conheceu da fruta
sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade
sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci
num poema______neste poema
não se conserva do outono
o adágio do pássaro
não se leva para além da memória
o delírio que a boca conheceu da fruta
sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade
sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci
704
Luci Collin
declaração
que disparate tentar falar de amor
num poema______neste poema
não se conserva do outono
o adágio do pássaro
não se leva para além da memória
o delírio que a boca conheceu da fruta
sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade
sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci
num poema______neste poema
não se conserva do outono
o adágio do pássaro
não se leva para além da memória
o delírio que a boca conheceu da fruta
sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade
sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci
704
Ricardo Aleixo
TREVA
vazio até o
fundo
crispado na
treva
mais um
día des
liza para
dentro
de um
dos tres
caminhos
sem volta
fundo
crispado na
treva
mais um
día des
liza para
dentro
de um
dos tres
caminhos
sem volta
470
Ricardo Aleixo
TREVA
vazio até o
fundo
crispado na
treva
mais um
día des
liza para
dentro
de um
dos tres
caminhos
sem volta
fundo
crispado na
treva
mais um
día des
liza para
dentro
de um
dos tres
caminhos
sem volta
470
Ricardo Aleixo
TREVA
vazio até o
fundo
crispado na
treva
mais um
día des
liza para
dentro
de um
dos tres
caminhos
sem volta
fundo
crispado na
treva
mais um
día des
liza para
dentro
de um
dos tres
caminhos
sem volta
470
Ricardo Aleixo
Estrondo para Maria Esther Maciel
Naquele entrecho
mais lento dos
dias, aqui, onde,
não importa o
modo como os pés
pisem as folhas
ao caminhar, o
barulho quebradiço
da sombra deles
(espraiada entre
a calçada e as
pedras-escombros
da casa) bem poderia,
se ouvido por
uma detalhista
como você, ser
chamado de troar,
estouro, estrondo.
mais lento dos
dias, aqui, onde,
não importa o
modo como os pés
pisem as folhas
ao caminhar, o
barulho quebradiço
da sombra deles
(espraiada entre
a calçada e as
pedras-escombros
da casa) bem poderia,
se ouvido por
uma detalhista
como você, ser
chamado de troar,
estouro, estrondo.
693
Luci Collin
aos pés da letra
não sei você
mas eu por dentro estou quase num
nem existo______quase na lona no limbo
na face escura da lua
na rua a ver navios
quase imprevisto
não sei você mas eu
por dentro estou com um estrepe um engasgo
parece indeferimento
por dentro é rés movimento
é sem balanço___sem serventia
por dentro um estrago
não fosse o colibri aqui faz pouco
tinha me abstido dessa cena
tinha desistido desse filme
— espelho bissexto e algo turvo —
não fora o sol que entendi esplêndido
passava batido o entardecer vermelho
pela natureza desse ofício
pelo oficioso desse esforço
não sei você mas eu por dentro
sou só
_________texto
mas eu por dentro estou quase num
nem existo______quase na lona no limbo
na face escura da lua
na rua a ver navios
quase imprevisto
não sei você mas eu
por dentro estou com um estrepe um engasgo
parece indeferimento
por dentro é rés movimento
é sem balanço___sem serventia
por dentro um estrago
não fosse o colibri aqui faz pouco
tinha me abstido dessa cena
tinha desistido desse filme
— espelho bissexto e algo turvo —
não fora o sol que entendi esplêndido
passava batido o entardecer vermelho
pela natureza desse ofício
pelo oficioso desse esforço
não sei você mas eu por dentro
sou só
_________texto
764
Luci Collin
aos pés da letra
não sei você
mas eu por dentro estou quase num
nem existo______quase na lona no limbo
na face escura da lua
na rua a ver navios
quase imprevisto
não sei você mas eu
por dentro estou com um estrepe um engasgo
parece indeferimento
por dentro é rés movimento
é sem balanço___sem serventia
por dentro um estrago
não fosse o colibri aqui faz pouco
tinha me abstido dessa cena
tinha desistido desse filme
— espelho bissexto e algo turvo —
não fora o sol que entendi esplêndido
passava batido o entardecer vermelho
pela natureza desse ofício
pelo oficioso desse esforço
não sei você mas eu por dentro
sou só
_________texto
mas eu por dentro estou quase num
nem existo______quase na lona no limbo
na face escura da lua
na rua a ver navios
quase imprevisto
não sei você mas eu
por dentro estou com um estrepe um engasgo
parece indeferimento
por dentro é rés movimento
é sem balanço___sem serventia
por dentro um estrago
não fosse o colibri aqui faz pouco
tinha me abstido dessa cena
tinha desistido desse filme
— espelho bissexto e algo turvo —
não fora o sol que entendi esplêndido
passava batido o entardecer vermelho
pela natureza desse ofício
pelo oficioso desse esforço
não sei você mas eu por dentro
sou só
_________texto
764
Ricardo Aleixo
Cabeça de serpente
a serpente morde a própria cauda. a serpente pensa que morde a própria cauda. a serpente apenas pensa que morde a própria cauda. a serpente morde a própria cauda que pensa. a serpente morde a própria cauda suspensa. a serpente pensa que a própria cauda morde. a serpente pensa com a própria cabeça. a serpente sonha que simula o próprio silvo. a serpente sonha ser outra serpente que simula o próprio sonho e silva. a serpente pensa e silva selva adentro. a serpente sonha que pensa e no sonho pensa que as serpentes sonham. a serpente pensa que sonha e no sonho pensa o que as serpentes pensam. a serpente morde sem pensar no que pode. a serpente pensa que morde a própria causa. a serpente pensa e morde em causa própria. a serpente pensa e morde apenas o que pensa. a serpente pensa que pensa e morde o que pensa. a serpente morde o que pensa e o que morde. a serpente pensa o que pensa a serpente. a serpente se pensa enquanto serpente. a serpente se pensa enquanto ser que pensa. a serpente pensa o que pensam as serpentes. a serpente morde o que pensa a serpente. a serpente morde o que mordem as serpentes. a serpente morde o que pode. a serpente pensa em se morder. a serpente morde sem pensar o que pode. a serpente morde sem pensar o que morde o que pode. a serpente morde o que morde. a serpente morde enquanto pode. a serpente pensa sem palavras. a serpente só não pensa a palavra serpente. a serpente só não morde a palavra serpente. a serpente pode o que pode sem palavras. a serpente morde o que pode sem medir palavras. a serpente mede de cabo a rabo a própria cabeça. a serpente emite a própria sentença. a serpente morde a própria cabeça.
848