Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Simone Brantes
Vingança
Os poetas giram em torno das raparigas
em flor.
Mas eles são pesados e elas
tão leves: já não há chão sob seus pés delicados.
Lá em cima transfiguradas, elas gozam, gozam, gozam
(deles ou esquecidas deles?)
Eles estão rubros, estão roxos
(de raiva, de vergonha?).
Os poetas estão dando as costas,
os poetas estão voltando para casa,
estão arquitetando em silêncio o seu plano
de vingança:
querem gozar sem as moças,
querem florir em seus versos
como raparigas em flor.
em flor.
Mas eles são pesados e elas
tão leves: já não há chão sob seus pés delicados.
Lá em cima transfiguradas, elas gozam, gozam, gozam
(deles ou esquecidas deles?)
Eles estão rubros, estão roxos
(de raiva, de vergonha?).
Os poetas estão dando as costas,
os poetas estão voltando para casa,
estão arquitetando em silêncio o seu plano
de vingança:
querem gozar sem as moças,
querem florir em seus versos
como raparigas em flor.
766
António Carlos Cortez
Poética
Como pedra lançada ao mar da infância quando a mãe abria a porta de casa e trazia o vento e o gelo Mar agitado nos seus círculos pétreos Quem dera eu encontrasse a repercussão das formas antigas e perfeitas até ao ponto em que das margens avistasse o epicentro da dor e da alegria.
621
António Carlos Cortez
Resposta a Drummond
É sempre no meu sempre aquele nunca
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada
No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta
e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito
e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal
se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito
e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro
onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida
a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale
e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos
para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos
esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero
este ódio ao mundo que é amor eterno
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada
No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta
e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito
e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal
se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito
e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro
onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida
a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale
e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos
para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos
esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero
este ódio ao mundo que é amor eterno
1 114
António Carlos Cortez
Resposta a Drummond
É sempre no meu sempre aquele nunca
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada
No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta
e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito
e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal
se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito
e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro
onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida
a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale
e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos
para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos
esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero
este ódio ao mundo que é amor eterno
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada
No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta
e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito
e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal
se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito
e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro
onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida
a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale
e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos
para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos
esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero
este ódio ao mundo que é amor eterno
1 114
Simone Brantes
Die Aufgabe
Chegar em casa um pouco mais
do que cansada e puxar ainda assim
e aos poucos o fio longo da mortalha
até fazer da noite sair enfim um dia
dentre todos os dias a morrer na praia
do que cansada e puxar ainda assim
e aos poucos o fio longo da mortalha
até fazer da noite sair enfim um dia
dentre todos os dias a morrer na praia
711
Mailson Furtado Viana
no teatro tudo é presente
no teatro tudo é presente
700 anos a 10 metros
e qual o quê velocidade da luz
piada. piada.
a cortina a guilhotinar o tempo
a vida toda a caber naquele oco de mundo
e nós
a 10 metros de tudo
_____por trás num bar
_____num quarto de apartamento
_____numa parada de ônibus
_____ou mesmo assistindo a gente
estamos
nem coubemos na vista
_____deve ser coxia
____________camarim
____________qualquer canto sem luz
____________qualquer canto sem nome
a vida ali toda cabe
não se sabe do tempo
(nem se vê, parece)
não se sabe muita coisa
700 anos a 10 metros
e qual o quê velocidade da luz
piada. piada.
a cortina a guilhotinar o tempo
a vida toda a caber naquele oco de mundo
e nós
a 10 metros de tudo
_____por trás num bar
_____num quarto de apartamento
_____numa parada de ônibus
_____ou mesmo assistindo a gente
estamos
nem coubemos na vista
_____deve ser coxia
____________camarim
____________qualquer canto sem luz
____________qualquer canto sem nome
a vida ali toda cabe
não se sabe do tempo
(nem se vê, parece)
não se sabe muita coisa
677
Mailson Furtado Viana
a estante deslocou a sala
a estante deslocou a sala
pro canto
tudo de importante
lá está
de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio
são só vistos
pela estante
que ali não pisou
na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)
dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar
pro canto
tudo de importante
lá está
de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio
são só vistos
pela estante
que ali não pisou
na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)
dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar
669
António Carlos Cortez
Argila do sono
A mesma «argila do sono»
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos
Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos
Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)
675
António Carlos Cortez
A sombra
a sombra (o tigre de blake) a lira breve
a sombra horizonte da música
o revolver das mãos por dentro da pele
a voz na envolvente superfície do instante
a sombra no limite é o corpo a palavra
isto é o mármore da memória a fala
a cadeia de saliva em espessa floração
a sinuosa areia do deserto o sentido
perseguido na linha de sombra
a linha invisível a invasão antiga
a fonte grega a alegria súbita do êxtase
o poema é o rosto de alguém connosco
habitante como nós da imensa solidão
da sombra levada ao limite do signo
isto é do tecido rítmico
a sombra horizonte da música
o revolver das mãos por dentro da pele
a voz na envolvente superfície do instante
a sombra no limite é o corpo a palavra
isto é o mármore da memória a fala
a cadeia de saliva em espessa floração
a sinuosa areia do deserto o sentido
perseguido na linha de sombra
a linha invisível a invasão antiga
a fonte grega a alegria súbita do êxtase
o poema é o rosto de alguém connosco
habitante como nós da imensa solidão
da sombra levada ao limite do signo
isto é do tecido rítmico
810
António Carlos Cortez
Ecos
Errar todo o discurso de teus anos
É errar de má sorte amor ausente
Erraste todo o discurso de teus anos
e és agora pedra para sempre
e o amor ausente já presente um dia
acabou por ser a rede do destino
A mão sinistra a mão mais fria
tece as malhas do naufrágio (gume fino)
Perguntas com razão o que fazer
Como ter de novo o verão antigo
Onde o casaco quente no Inverno…
Nem o vento te responde Resta escrever
os erros que trazes só contigo
na certeza de seres teu próprio inferno
É errar de má sorte amor ausente
Erraste todo o discurso de teus anos
e és agora pedra para sempre
e o amor ausente já presente um dia
acabou por ser a rede do destino
A mão sinistra a mão mais fria
tece as malhas do naufrágio (gume fino)
Perguntas com razão o que fazer
Como ter de novo o verão antigo
Onde o casaco quente no Inverno…
Nem o vento te responde Resta escrever
os erros que trazes só contigo
na certeza de seres teu próprio inferno
733
António Carlos Cortez
Ecos
Errar todo o discurso de teus anos
É errar de má sorte amor ausente
Erraste todo o discurso de teus anos
e és agora pedra para sempre
e o amor ausente já presente um dia
acabou por ser a rede do destino
A mão sinistra a mão mais fria
tece as malhas do naufrágio (gume fino)
Perguntas com razão o que fazer
Como ter de novo o verão antigo
Onde o casaco quente no Inverno…
Nem o vento te responde Resta escrever
os erros que trazes só contigo
na certeza de seres teu próprio inferno
É errar de má sorte amor ausente
Erraste todo o discurso de teus anos
e és agora pedra para sempre
e o amor ausente já presente um dia
acabou por ser a rede do destino
A mão sinistra a mão mais fria
tece as malhas do naufrágio (gume fino)
Perguntas com razão o que fazer
Como ter de novo o verão antigo
Onde o casaco quente no Inverno…
Nem o vento te responde Resta escrever
os erros que trazes só contigo
na certeza de seres teu próprio inferno
733
António Carlos Cortez
Ecos
Errar todo o discurso de teus anos
É errar de má sorte amor ausente
Erraste todo o discurso de teus anos
e és agora pedra para sempre
e o amor ausente já presente um dia
acabou por ser a rede do destino
A mão sinistra a mão mais fria
tece as malhas do naufrágio (gume fino)
Perguntas com razão o que fazer
Como ter de novo o verão antigo
Onde o casaco quente no Inverno…
Nem o vento te responde Resta escrever
os erros que trazes só contigo
na certeza de seres teu próprio inferno
É errar de má sorte amor ausente
Erraste todo o discurso de teus anos
e és agora pedra para sempre
e o amor ausente já presente um dia
acabou por ser a rede do destino
A mão sinistra a mão mais fria
tece as malhas do naufrágio (gume fino)
Perguntas com razão o que fazer
Como ter de novo o verão antigo
Onde o casaco quente no Inverno…
Nem o vento te responde Resta escrever
os erros que trazes só contigo
na certeza de seres teu próprio inferno
733
Maria Lúcia Dal Farra
Vida cava
Velho sofá de taquara da casa da Curuzu,
em cujas varas circula antiga emoção!
Lugar de aguardar o obscuro,
de acolhê-lo
nos túneis e nas veias.
Passeia nos seus ocos de bambu
(trafega em mim ainda)
a vida subterrânea,
a da saia de godê –
vincada de afagos do namoro vigiado,
engomada de pudor.
Ah que saudades desse assento
onde conheci
o meu primeiro prazer de baixo!
em cujas varas circula antiga emoção!
Lugar de aguardar o obscuro,
de acolhê-lo
nos túneis e nas veias.
Passeia nos seus ocos de bambu
(trafega em mim ainda)
a vida subterrânea,
a da saia de godê –
vincada de afagos do namoro vigiado,
engomada de pudor.
Ah que saudades desse assento
onde conheci
o meu primeiro prazer de baixo!
662
Simone Brantes
Queen Primer
Você me dava aulas de inglês na biblioteca da Maison
as aulas de inglês tinham passado a ser
a única chance de ver você
foi você mesma que decidiu e se propôs a ser
a minha professora de inglês
eu fazia todas as lições
eu era muito dedicada
à língua inglesa
vocabulário entonação sintaxe
eu fazia de tudo para que em algum lugar
a perfeição de alguma prática revogasse
a imperfeição do amor
que tinha acabado
e doía pra valer
eu buscava ali alguma santidade
alguma paixão de mártir
e então do nada
você me escreveu uma carta
na qual cancelava todas as aulas
entre nós você disse
não pode haver nada nem amor
nem aulas de inglês
§
É hora de dormir
a testa pesa os olhos
ardem
O dia foi movimento
entre bairros
no seu carro
que se deteriorou tanto
desde
a última vez
que andei nele
como o seu coração
desde a última vez
Acho que em ambos
as peças estão bambas
E me inquieto
alguma vai
se soltar
e cair
irrecuperável
entre os galhos que depois da
ventania
vamos vendo tombados
pela estrada
as aulas de inglês tinham passado a ser
a única chance de ver você
foi você mesma que decidiu e se propôs a ser
a minha professora de inglês
eu fazia todas as lições
eu era muito dedicada
à língua inglesa
vocabulário entonação sintaxe
eu fazia de tudo para que em algum lugar
a perfeição de alguma prática revogasse
a imperfeição do amor
que tinha acabado
e doía pra valer
eu buscava ali alguma santidade
alguma paixão de mártir
e então do nada
você me escreveu uma carta
na qual cancelava todas as aulas
entre nós você disse
não pode haver nada nem amor
nem aulas de inglês
§
É hora de dormir
a testa pesa os olhos
ardem
O dia foi movimento
entre bairros
no seu carro
que se deteriorou tanto
desde
a última vez
que andei nele
como o seu coração
desde a última vez
Acho que em ambos
as peças estão bambas
E me inquieto
alguma vai
se soltar
e cair
irrecuperável
entre os galhos que depois da
ventania
vamos vendo tombados
pela estrada
941
Simone Brantes
Queen Primer
Você me dava aulas de inglês na biblioteca da Maison
as aulas de inglês tinham passado a ser
a única chance de ver você
foi você mesma que decidiu e se propôs a ser
a minha professora de inglês
eu fazia todas as lições
eu era muito dedicada
à língua inglesa
vocabulário entonação sintaxe
eu fazia de tudo para que em algum lugar
a perfeição de alguma prática revogasse
a imperfeição do amor
que tinha acabado
e doía pra valer
eu buscava ali alguma santidade
alguma paixão de mártir
e então do nada
você me escreveu uma carta
na qual cancelava todas as aulas
entre nós você disse
não pode haver nada nem amor
nem aulas de inglês
§
É hora de dormir
a testa pesa os olhos
ardem
O dia foi movimento
entre bairros
no seu carro
que se deteriorou tanto
desde
a última vez
que andei nele
como o seu coração
desde a última vez
Acho que em ambos
as peças estão bambas
E me inquieto
alguma vai
se soltar
e cair
irrecuperável
entre os galhos que depois da
ventania
vamos vendo tombados
pela estrada
as aulas de inglês tinham passado a ser
a única chance de ver você
foi você mesma que decidiu e se propôs a ser
a minha professora de inglês
eu fazia todas as lições
eu era muito dedicada
à língua inglesa
vocabulário entonação sintaxe
eu fazia de tudo para que em algum lugar
a perfeição de alguma prática revogasse
a imperfeição do amor
que tinha acabado
e doía pra valer
eu buscava ali alguma santidade
alguma paixão de mártir
e então do nada
você me escreveu uma carta
na qual cancelava todas as aulas
entre nós você disse
não pode haver nada nem amor
nem aulas de inglês
§
É hora de dormir
a testa pesa os olhos
ardem
O dia foi movimento
entre bairros
no seu carro
que se deteriorou tanto
desde
a última vez
que andei nele
como o seu coração
desde a última vez
Acho que em ambos
as peças estão bambas
E me inquieto
alguma vai
se soltar
e cair
irrecuperável
entre os galhos que depois da
ventania
vamos vendo tombados
pela estrada
941
António Carlos Cortez
Este é o canto mais perfeito da noite
este é o canto mais perfeito da noite.
a esta hora espera-se o milagre na canção
do último Leonard Cohen
(waiting for the miracle, dizias)
eu apunhalava os astros mais secretos
coisa para ti fora do tempo e sem sentido
mas para mim o canto mais perfeito da noite servia
para recuperar as palavras de prosa (a poesia
tinha-a deixado nos lugares obscuros
da cidade). das palavras eu fazia a matéria
vermelha do sangue onde singravam os barcos
a nossa imaginação de contemporâneos secamente urbanos.
este é o canto mais perfeito da noite mas nenhum de nós
sabe se o milagre vive ainda nas velozes canções
nos corpos de granito que nós agora somos.
se escrevemos as perdas e o desastre depomos palavras
Waiting for the miracle to come
a esta hora espera-se o milagre na canção
do último Leonard Cohen
(waiting for the miracle, dizias)
eu apunhalava os astros mais secretos
coisa para ti fora do tempo e sem sentido
mas para mim o canto mais perfeito da noite servia
para recuperar as palavras de prosa (a poesia
tinha-a deixado nos lugares obscuros
da cidade). das palavras eu fazia a matéria
vermelha do sangue onde singravam os barcos
a nossa imaginação de contemporâneos secamente urbanos.
este é o canto mais perfeito da noite mas nenhum de nós
sabe se o milagre vive ainda nas velozes canções
nos corpos de granito que nós agora somos.
se escrevemos as perdas e o desastre depomos palavras
Waiting for the miracle to come
716
Carlos Soulié do Amaral
Tragédia da monja
Incendiou-se a virilha da monja
a santa monja piedosa e pura.
O hábito que usava ela despiu
e do que era sem saber saiu
imaculada, ainda que em fervura.
Então, correndo pela capela
barroca e bela,
a monja atônita esculpiu pavor
na face de todos os santos
que não sentiam sua dor.
Em seu transe transbordado
ganhou o espaço do paço.
Nem mesmo invocou a Virgem,
nem mesmo invocou Jesus.
No ardente e pânico terror
das brasas que jamais imaginara,
a monja foi correndo, quase alada,
tombar, sem lérias e sem leros,
nos braços do poeta que sonhara
o pecado de tê-la como amada.
Deslumbrado, o poeta deslumbrou
a monja com os ímpetos mais feros,
cobrindo-a de calafrios
nas aras do altar de Eros.
Apagou-se então o incêndio
num susto de duplo mistério:
santa e vate se perderam
num embate de virilhas
entre ardores e arrepios
no paço do monastério:
santa e vate se encontraram
na história de maravilhas
de um conto que me contaram.
a santa monja piedosa e pura.
O hábito que usava ela despiu
e do que era sem saber saiu
imaculada, ainda que em fervura.
Então, correndo pela capela
barroca e bela,
a monja atônita esculpiu pavor
na face de todos os santos
que não sentiam sua dor.
Em seu transe transbordado
ganhou o espaço do paço.
Nem mesmo invocou a Virgem,
nem mesmo invocou Jesus.
No ardente e pânico terror
das brasas que jamais imaginara,
a monja foi correndo, quase alada,
tombar, sem lérias e sem leros,
nos braços do poeta que sonhara
o pecado de tê-la como amada.
Deslumbrado, o poeta deslumbrou
a monja com os ímpetos mais feros,
cobrindo-a de calafrios
nas aras do altar de Eros.
Apagou-se então o incêndio
num susto de duplo mistério:
santa e vate se perderam
num embate de virilhas
entre ardores e arrepios
no paço do monastério:
santa e vate se encontraram
na história de maravilhas
de um conto que me contaram.
678
Carlos Soulié do Amaral
Tragédia da monja
Incendiou-se a virilha da monja
a santa monja piedosa e pura.
O hábito que usava ela despiu
e do que era sem saber saiu
imaculada, ainda que em fervura.
Então, correndo pela capela
barroca e bela,
a monja atônita esculpiu pavor
na face de todos os santos
que não sentiam sua dor.
Em seu transe transbordado
ganhou o espaço do paço.
Nem mesmo invocou a Virgem,
nem mesmo invocou Jesus.
No ardente e pânico terror
das brasas que jamais imaginara,
a monja foi correndo, quase alada,
tombar, sem lérias e sem leros,
nos braços do poeta que sonhara
o pecado de tê-la como amada.
Deslumbrado, o poeta deslumbrou
a monja com os ímpetos mais feros,
cobrindo-a de calafrios
nas aras do altar de Eros.
Apagou-se então o incêndio
num susto de duplo mistério:
santa e vate se perderam
num embate de virilhas
entre ardores e arrepios
no paço do monastério:
santa e vate se encontraram
na história de maravilhas
de um conto que me contaram.
a santa monja piedosa e pura.
O hábito que usava ela despiu
e do que era sem saber saiu
imaculada, ainda que em fervura.
Então, correndo pela capela
barroca e bela,
a monja atônita esculpiu pavor
na face de todos os santos
que não sentiam sua dor.
Em seu transe transbordado
ganhou o espaço do paço.
Nem mesmo invocou a Virgem,
nem mesmo invocou Jesus.
No ardente e pânico terror
das brasas que jamais imaginara,
a monja foi correndo, quase alada,
tombar, sem lérias e sem leros,
nos braços do poeta que sonhara
o pecado de tê-la como amada.
Deslumbrado, o poeta deslumbrou
a monja com os ímpetos mais feros,
cobrindo-a de calafrios
nas aras do altar de Eros.
Apagou-se então o incêndio
num susto de duplo mistério:
santa e vate se perderam
num embate de virilhas
entre ardores e arrepios
no paço do monastério:
santa e vate se encontraram
na história de maravilhas
de um conto que me contaram.
678
Maria Lúcia Dal Farra
Fruto proibido
Com suas nádegas lascivas de mulher
a maçã se deita de costas
na cesta sobre a mesa.
Já de batom está pintada,
armadilha edênica no seu poço
– no ponto da voragem,
caverna de pevides.
Drácula, penetro
no seu espírito interdito,
no jardim de delícias.
Cometo (insensato)
a grande virtude capital.
a maçã se deita de costas
na cesta sobre a mesa.
Já de batom está pintada,
armadilha edênica no seu poço
– no ponto da voragem,
caverna de pevides.
Drácula, penetro
no seu espírito interdito,
no jardim de delícias.
Cometo (insensato)
a grande virtude capital.
739
Carlos Soulié do Amaral
Soneto da Alegria
De nada, ou quase nada, uma alegria
Criar e permitir que nos aqueça
E acenda o vôo* e a voz da fantasia
Provando-se à exaustão adversa e avessa.
Uma alegria que dê fogo à fria
E brumosa jornada e não se esqueça
De transbordar, cravando-se travessa
E incontida, no coração do dia.
E que por ela os nossos corações
Se deixem, sem constrangimento, ser
E fluir, como fluem as canções,
Como fluem os rios, sem saber
Nem indagar as mil ou mais razões
De tudo quanto vive e vai morrer.
Criar e permitir que nos aqueça
E acenda o vôo* e a voz da fantasia
Provando-se à exaustão adversa e avessa.
Uma alegria que dê fogo à fria
E brumosa jornada e não se esqueça
De transbordar, cravando-se travessa
E incontida, no coração do dia.
E que por ela os nossos corações
Se deixem, sem constrangimento, ser
E fluir, como fluem as canções,
Como fluem os rios, sem saber
Nem indagar as mil ou mais razões
De tudo quanto vive e vai morrer.
853
Maria Lúcia Dal Farra
Desabitação
Penso que a gente morre
tal qual o frango no prato que destrinçamos
(alheadamente)
em prosa com os convivas.
Às vezes sem ruído, outras esmagados
sob o pecado, a falta não redimida –
como um trem que atravessasse as vísceras.
Levantamos a cabeça por cima dos talheres
e fisgamos no ar a ideia
com que debicar o vinho –
mas o odor da marmita
faz quase vomitar.
Somos os habitantes e os visitantes
dessa casa que dá para o caos.
tal qual o frango no prato que destrinçamos
(alheadamente)
em prosa com os convivas.
Às vezes sem ruído, outras esmagados
sob o pecado, a falta não redimida –
como um trem que atravessasse as vísceras.
Levantamos a cabeça por cima dos talheres
e fisgamos no ar a ideia
com que debicar o vinho –
mas o odor da marmita
faz quase vomitar.
Somos os habitantes e os visitantes
dessa casa que dá para o caos.
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Maria Lúcia Dal Farra
Soneto enclausurado
Se deu-me Amor a dor e tal sufoco,
do fino cravo a história e a vida breve,
secou a flor e a mim mantém-me em febre
sem fim que me sustenha por suposto.
Detém-me o passo, obscurece o rosto
desta que teve (em tempos) olhar leve!
De tudo que irradia a alma despede
pairando na vigília do sol posto.
O que me espreita? Só ranço e desgosto!
Fechada nesta cela que a luz despe,
a voz confusa, o sentimento tonto,
fixo a memória que não desvanece,
percorro o dom inebriado e solto
que (mesmo morto) ainda não falece.
do fino cravo a história e a vida breve,
secou a flor e a mim mantém-me em febre
sem fim que me sustenha por suposto.
Detém-me o passo, obscurece o rosto
desta que teve (em tempos) olhar leve!
De tudo que irradia a alma despede
pairando na vigília do sol posto.
O que me espreita? Só ranço e desgosto!
Fechada nesta cela que a luz despe,
a voz confusa, o sentimento tonto,
fixo a memória que não desvanece,
percorro o dom inebriado e solto
que (mesmo morto) ainda não falece.
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Maria Lúcia Dal Farra
Soneto enclausurado
Se deu-me Amor a dor e tal sufoco,
do fino cravo a história e a vida breve,
secou a flor e a mim mantém-me em febre
sem fim que me sustenha por suposto.
Detém-me o passo, obscurece o rosto
desta que teve (em tempos) olhar leve!
De tudo que irradia a alma despede
pairando na vigília do sol posto.
O que me espreita? Só ranço e desgosto!
Fechada nesta cela que a luz despe,
a voz confusa, o sentimento tonto,
fixo a memória que não desvanece,
percorro o dom inebriado e solto
que (mesmo morto) ainda não falece.
do fino cravo a história e a vida breve,
secou a flor e a mim mantém-me em febre
sem fim que me sustenha por suposto.
Detém-me o passo, obscurece o rosto
desta que teve (em tempos) olhar leve!
De tudo que irradia a alma despede
pairando na vigília do sol posto.
O que me espreita? Só ranço e desgosto!
Fechada nesta cela que a luz despe,
a voz confusa, o sentimento tonto,
fixo a memória que não desvanece,
percorro o dom inebriado e solto
que (mesmo morto) ainda não falece.
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Maria Lúcia Dal Farra
Abóbora
Despojo-me de tudo quanto tenho
para a tua boca salgada ou doce:
cambuquira, massa, semente, fruto.
Até outro acolho em mim,
ramo duplo das artes.
Bandolim? Violão?
Para meu desconcerto,
abelhas afinam-se no fundo diapasão da minha flor,
na zona mais erógena;
e então, ah, com que cócegas me torço em vivos contornos,
e cresço, esculpindo curvas,
a cor exalando túrgida a úmida temperatura
do meu mistério gozoso:
íntimo encontro do delgado pescoço com quadris –
coito.
Concórdia de contrários,
senhora das duas naturezas
(andrógina)
Ainda assim rastejo
– menina que sou! –
a entregar-me ao gosto da lagarta-rosca
e das brocas.
para a tua boca salgada ou doce:
cambuquira, massa, semente, fruto.
Até outro acolho em mim,
ramo duplo das artes.
Bandolim? Violão?
Para meu desconcerto,
abelhas afinam-se no fundo diapasão da minha flor,
na zona mais erógena;
e então, ah, com que cócegas me torço em vivos contornos,
e cresço, esculpindo curvas,
a cor exalando túrgida a úmida temperatura
do meu mistério gozoso:
íntimo encontro do delgado pescoço com quadris –
coito.
Concórdia de contrários,
senhora das duas naturezas
(andrógina)
Ainda assim rastejo
– menina que sou! –
a entregar-me ao gosto da lagarta-rosca
e das brocas.
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