Maria Lúcia Dal Farra

Maria Lúcia Dal Farra

n. 1944 BR BR

Maria Lúcia Dal Farra é uma escritora brasileira com uma obra que transita entre a poesia e a prosa, marcada por uma forte carga lírica e uma exploração profunda da subjetividade feminina. A sua escrita aborda temas como a identidade, o corpo, as relações interpessoais e as questões sociais, com uma linguagem sensível e imagética. Dal Farra destaca-se pela sua capacidade de dar voz a experiências muitas vezes silenciadas, promovendo uma reflexão sobre a condição da mulher na sociedade contemporânea.

n. 1944-10-14, Botucatu

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Herança

Para Zeba e Acê Dal Farra


Ouço ao longe o chocalho da burra-madrinha:
é o nono que se avizinha,
cometa que chega do confim das terras,
de encurvadas léguas que o retiveram.


Já se fez (como de hábito) a visita ao cemitério.
Pulou (há pouco) o muro das almas.
Saltou na noite (capote colonial ao vento)
para dentro das lendas que o povo conta
sobre secreta aparição local.
Foi tomar bênção à mãe
levar-lhe as flores que colhe
pelas picadas afora
– solta móvel onde cultiva
Rebentos íntimos da memória.


Beijo as mãos geladas da pedra em que demorou.
Não tenho medo nem frio, na ampla capa me aninhou.
Devolvo-lhe sua sanfona (saudade a mais amargada)
repara nos botões gastos – esquece que papai a herdou.


Ouço do fole remoto da noite um acorde!
É o nono-cometa que se apeia do tempo
e vem partilhar com a neta (que não conheceu)
velhas tarantelas de legadas gestas.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Maria Lúcia Dal Farra é uma escritora, ensaísta e tradutora brasileira, com uma obra multifacetada que atravessa géneros literários e se debruça sobre a complexidade da experiência humana, com especial atenção à condição feminina.

Infância e formação

Nascida no Brasil, Maria Lúcia Dal Farra teve uma formação académica sólida, que lhe permitiu desenvolver um olhar crítico e aprofundado sobre a literatura e a cultura. A sua formação como estudiosa e tradutora de autores de renome internacional moldou significativamente a sua visão literária.

Percurso literário

O percurso literário de Maria Lúcia Dal Farra é marcado por uma produção diversificada, que inclui poesia, prosa e ensaios. A sua entrada no mundo literário deu-se através de uma forte ligação com a linguagem e a expressão artística. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, consolidando uma voz autoral distinta e influente. Participou ativamente em antologias e publicações literárias, e a sua atividade como tradutora de grandes nomes da literatura mundial enriqueceu o panorama cultural brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Maria Lúcia Dal Farra abordam frequentemente temas como a identidade, a memória, as relações humanas, a solidão e a condição feminina, explorando as suas nuances e contradições. O seu estilo é marcado por uma linguagem rica, pela densidade imagética e por uma profunda análise psicológica dos seus personagens e das situações narradas. A sua poesia e prosa revelam um lirismo intrínseco e uma capacidade ímpar de capturar a subjetividade. A sua obra dialoga tanto com a tradição literária quanto com as inquietações da modernidade, demonstrando uma capacidade de renovação e experimentação, sem se prender rigidamente a movimentos literários específicos, mas absorvendo influências diversas. Obras como "A Ponte" e "O Rio" são exemplos do seu talento em transitar entre a poesia e a prosa lírica.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Maria Lúcia Dal Farra insere-se no contexto da literatura brasileira contemporânea, dialogando com outros autores e intelectuais e refletindo as inquietações sociais e culturais do seu tempo. A sua atuação como tradutora também a posiciona como uma ponte entre a literatura brasileira e a produção literária internacional.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Maria Lúcia Dal Farra que possam ter moldado diretamente a sua obra não são amplamente divulgados, mas é notório o seu profundo envolvimento com a reflexão sobre a existência humana e as relações.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Maria Lúcia Dal Farra tem sido reconhecida pela crítica pela sua qualidade literária, profundidade temática e originalidade estilística. A sua posição como tradutora de relevo contribui para o seu prestígio no meio literário.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Maria Lúcia Dal Farra, através da sua obra e do seu trabalho de tradução, influencia a literatura contemporânea brasileira e o debate sobre temas como a identidade e a condição feminina. O seu legado assenta na capacidade de criar obras de arte que ressoam com a experiência humana de forma profunda e universal.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Maria Lúcia Dal Farra oferece um vasto campo para interpretação e análise crítica, especialmente no que diz respeito às suas explorações da psique humana, das dinâmicas relacionais e das questões de género. Os temas filosóficos e existenciais são centrais na sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações específicas sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da vida e obra de Maria Lúcia Dal Farra não são amplamente disponíveis, sugerindo uma presença focada na sua produção literária e académica.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Maria Lúcia Dal Farra encontra-se viva, sendo a sua memória construída e perpetuada através da sua obra literária e do seu trabalho como ensaísta e tradutora.

Poemas

13

Herança

Para Zeba e Acê Dal Farra


Ouço ao longe o chocalho da burra-madrinha:
é o nono que se avizinha,
cometa que chega do confim das terras,
de encurvadas léguas que o retiveram.


Já se fez (como de hábito) a visita ao cemitério.
Pulou (há pouco) o muro das almas.
Saltou na noite (capote colonial ao vento)
para dentro das lendas que o povo conta
sobre secreta aparição local.
Foi tomar bênção à mãe
levar-lhe as flores que colhe
pelas picadas afora
– solta móvel onde cultiva
Rebentos íntimos da memória.


Beijo as mãos geladas da pedra em que demorou.
Não tenho medo nem frio, na ampla capa me aninhou.
Devolvo-lhe sua sanfona (saudade a mais amargada)
repara nos botões gastos – esquece que papai a herdou.


Ouço do fole remoto da noite um acorde!
É o nono-cometa que se apeia do tempo
e vem partilhar com a neta (que não conheceu)
velhas tarantelas de legadas gestas.
704

A música

Flexível como a corda que a tange
ela vibra. O leão aprofundado no instrumento
espera o momento certo para saltar –
que é quando se casa o sopro
com as cordas.

Tudo lhe á de lembrar a floresta
o som do vento
o riacho quebrando-se
a flecha que o espera para segui-lo
sem, contudo, nunca o alcançar.

A música é para ouvir e lembrar
(sobretudo)
o jamais vivido,
o que não teve memória.
Mesmo o monocorde das cores
não impede a passagem do que silva e se alça
– como por encanto.
Daí seu fascínio,
a mágica a perscrutar
(nas nossas fibras)
a ressonância que a funda
– apenas a ela.
677

Natureza-morta vivente

Culpa do delicado voo da andorinha,
o desequilíbrio da mesa
mete tremor nas fruteiras
arremessa maçãs para o Éden
faz cometa das cerejas.

Flutua o brócolis em regime de nave-mãe
enquanto põe embaraço
no impecável da toalha de almoço
– já um tanto alvoroçada e picotada
pela iminente imaginação
da faca.

É verdade que nesse terraço
(onde se perscruta o limite entre mortos e vivos)
nada perturba o mar que flui à deriva.
Tudo está plácido à tona d’água
– e o mesmo se diz daquilo que
(como o céu)
não sofre ranhuras
– ainda que abalado pela alada imagem inicial.

Há uma pera no ar.
E duas azeitonas que colho ao léu
mas com as quais mal posso preparar o drique:

álcool volatizado na direção
do arremesso.
679

Sylvia Plath

Com o planeta da minha mente
vejo negras as árvores. Frias e cinzas
erguidas num sonho mau.
Há vapor do dia em vias de nascer
que (em barreira transparente)
me separa de pra onde quero ir.
Branca de cartilagem (esparadrapo
a cobrir-lhe a ferida)
a lua ainda goza seu pleno direito –
vem chupando o mar, a última de suas tarefas noturnas.
Fundo de panela, alumínio machucado ao alto.
Melhor: tampa redonda de forno a gás.

No quintal as roupas do varal se encontram
em desconforto. Repõem
suas manchas, o sangue menstrual.
Expõem o uso, o amassado do afeto
o invisível gesto que ali se busca
enxugar.
Há manejos de armas brancas
por baixo da planura das palavras.
721

Abóbora

Despojo-me de tudo quanto tenho
para a tua boca salgada ou doce:
cambuquira, massa, semente, fruto.
Até outro acolho em mim,
ramo duplo das artes.

Bandolim? Violão?
Para meu desconcerto,
abelhas afinam-se no fundo diapasão da minha flor,
na zona mais erógena;
e então, ah, com que cócegas me torço em vivos contornos,
e cresço, esculpindo curvas,
a cor exalando túrgida a úmida temperatura
do meu mistério gozoso:
íntimo encontro do delgado pescoço com quadris –
coito.

Concórdia de contrários,
senhora das duas naturezas
(andrógina)
Ainda assim rastejo
– menina que sou! –
a entregar-me ao gosto da lagarta-rosca

e das brocas.
833

Desabitação

Penso que a gente morre
tal qual o frango no prato que destrinçamos
(alheadamente)
em prosa com os convivas.
Às vezes sem ruído, outras esmagados

sob o pecado, a falta não redimida –
como um trem que atravessasse as vísceras.

Levantamos a cabeça por cima dos talheres
e fisgamos no ar a ideia
com que debicar o vinho –
mas o odor da marmita
faz quase vomitar.

Somos os habitantes e os visitantes
dessa casa que dá para o caos.
705

La dame à la Licorne

A Vanessa Droz

A dama se faz acompanhar do unicórnio
em todas as telas
– ele passeia pelos sentidos dela.
Faz gosto vê-lo assim,
doméstico,
mimoso animal de estimação
indeciso entre cão e gato.

Dela,
a vista se espraia
pelo corno branco de lua
enquanto tateia na pluma que o recobre
a ave de cascos suspensa
sobre o espírito da tapeçaria.
Dele,
o focinho inspira flores ao derredor,
ramagens, maçã, perfumes:
o meigo bichinho ensina à dama o regime do sol.
Sua voz indivisa é guia
e a dama apanha as cifras:
são raízes, fósseis que se desprendem das pedras,
ocultas nascentes reclamando o ouvido.

Ele passa-lhe tudo o que sabe.
Mas é o amor dela que lhe dá sentido.
702

Fruto proibido

Com suas nádegas lascivas de mulher
a maçã se deita de costas
na cesta sobre a mesa.
Já de batom está pintada,
armadilha edênica no seu poço
– no ponto da voragem,
caverna de pevides.

Drácula, penetro
no seu espírito interdito,
no jardim de delícias.
Cometo (insensato)
a grande virtude capital.
724

Soneto enclausurado

Se deu-me Amor a dor e tal sufoco,
do fino cravo a história e a vida breve,
secou a flor e a mim mantém-me em febre
sem fim que me sustenha por suposto.

Detém-me o passo, obscurece o rosto
desta que teve (em tempos) olhar leve!
De tudo que irradia a alma despede
pairando na vigília do sol posto.

O que me espreita? Só ranço e desgosto!
Fechada nesta cela que a luz despe,
a voz confusa, o sentimento tonto,

fixo a memória que não desvanece,
percorro o dom inebriado e solto
que (mesmo morto) ainda não falece.
629

Vida cava

Velho sofá de taquara da casa da Curuzu,
em cujas varas circula antiga emoção!
Lugar de aguardar o obscuro,
de acolhê-lo
nos túneis e nas veias.

Passeia nos seus ocos de bambu
(trafega em mim ainda)
a vida subterrânea,
a da saia de godê –
vincada de afagos do namoro vigiado,
engomada de pudor.
Ah que saudades desse assento
onde conheci
o meu primeiro prazer de baixo!
647

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