La dame à la Licorne
A Vanessa Droz
A dama se faz acompanhar do unicórnio
em todas as telas
– ele passeia pelos sentidos dela.
Faz gosto vê-lo assim,
doméstico,
mimoso animal de estimação
indeciso entre cão e gato.
Dela,
a vista se espraia
pelo corno branco de lua
enquanto tateia na pluma que o recobre
a ave de cascos suspensa
sobre o espírito da tapeçaria.
Dele,
o focinho inspira flores ao derredor,
ramagens, maçã, perfumes:
o meigo bichinho ensina à dama o regime do sol.
Sua voz indivisa é guia
e a dama apanha as cifras:
são raízes, fósseis que se desprendem das pedras,
ocultas nascentes reclamando o ouvido.
Ele passa-lhe tudo o que sabe.
Mas é o amor dela que lhe dá sentido.
Desabitação
Penso que a gente morre
tal qual o frango no prato que destrinçamos
(alheadamente)
em prosa com os convivas.
Às vezes sem ruído, outras esmagados
sob o pecado, a falta não redimida –
como um trem que atravessasse as vísceras.
Levantamos a cabeça por cima dos talheres
e fisgamos no ar a ideia
com que debicar o vinho –
mas o odor da marmita
faz quase vomitar.
Somos os habitantes e os visitantes
dessa casa que dá para o caos.
Artes
Evito rimas, recuso acrobacias
apenas do frugal me ocupo inteira:
tomo como medida o arame do varal
e entremeio nele (sensual, promíscua)
toalha de mesa com lençol.
A casa deságua no quintal,
alta se amolda aos ramos das mangueiras.
De quando em vez faz rumo, sai pra rua
(sem pelo) presa pela lua cheia
ou terna atrás de longe realejo.
Fica tudo quarando enquanto
cozinho ou vasculho a cumeeira
(esteio onde é mais vivo o espírito do meu pai)
e escapa das molduras uma aura, um certo enleio
com que apanho luz para as candeias,
com que canto funcionando este tear.
A violinita
O silêncio enxuga
a arcada do violino
quando o rosto dela ao instrumento se arqueja.
Ruído que age nas veias
na boca
cujos dentes vibram
na contorção das cordas.
Um braço arrebata a madeira
pelo dorso mais oculto
(suas tripas de animal)
enquanto o outro (pernas de gafanhoto)
fricciona o metal subjugado à candura
das unhas.
Só então a música se torna audível:
quando o corpo a sanciona.
Herança
Para Zeba e Acê Dal Farra
Ouço ao longe o chocalho da burra-madrinha:
é o nono que se avizinha,
cometa que chega do confim das terras,
de encurvadas léguas que o retiveram.
Já se fez (como de hábito) a visita ao cemitério.
Pulou (há pouco) o muro das almas.
Saltou na noite (capote colonial ao vento)
para dentro das lendas que o povo conta
sobre secreta aparição local.
Foi tomar bênção à mãe
levar-lhe as flores que colhe
pelas picadas afora
– solta móvel onde cultiva
Rebentos íntimos da memória.
Beijo as mãos geladas da pedra em que demorou.
Não tenho medo nem frio, na ampla capa me aninhou.
Devolvo-lhe sua sanfona (saudade a mais amargada)
repara nos botões gastos – esquece que papai a herdou.
Ouço do fole remoto da noite um acorde!
É o nono-cometa que se apeia do tempo
e vem partilhar com a neta (que não conheceu)
velhas tarantelas de legadas gestas.
Loucura
A órbita da loucura é imensa.
Aviso às incautas criaturas
tanto quanto
aos navegantes sem rumo.
Nela se movem constelações superiores
ilimitadas águas
e as mãos com que Deus nos acena
(segundo a segundo)
com a sua graça.
Consolos prontos a redimir o mundo
palavras ausentes de escrita
ali se asilam
e mais
o risco do iminente abissal.
É tão amplo o rosto da loucura
que podem caber nele
quaisquer
das nossas muitas faces
– inclusive esta com que agora me empenho
em apreendê-lo.
Natureza-morta vivente
Culpa do delicado voo da andorinha,
o desequilíbrio da mesa
mete tremor nas fruteiras
arremessa maçãs para o Éden
faz cometa das cerejas.
Flutua o brócolis em regime de nave-mãe
enquanto põe embaraço
no impecável da toalha de almoço
– já um tanto alvoroçada e picotada
pela iminente imaginação
da faca.
É verdade que nesse terraço
(onde se perscruta o limite entre mortos e vivos)
nada perturba o mar que flui à deriva.
Tudo está plácido à tona d’água
– e o mesmo se diz daquilo que
(como o céu)
não sofre ranhuras
– ainda que abalado pela alada imagem inicial.
Há uma pera no ar.
E duas azeitonas que colho ao léu
mas com as quais mal posso preparar o drique:
álcool volatizado na direção
do arremesso.
Abóbora
Despojo-me de tudo quanto tenho
para a tua boca salgada ou doce:
cambuquira, massa, semente, fruto.
Até outro acolho em mim,
ramo duplo das artes.
Bandolim? Violão?
Para meu desconcerto,
abelhas afinam-se no fundo diapasão da minha flor,
na zona mais erógena;
e então, ah, com que cócegas me torço em vivos contornos,
e cresço, esculpindo curvas,
a cor exalando túrgida a úmida temperatura
do meu mistério gozoso:
íntimo encontro do delgado pescoço com quadris –
coito.
Concórdia de contrários,
senhora das duas naturezas
(andrógina)
Ainda assim rastejo
– menina que sou! –
a entregar-me ao gosto da lagarta-rosca
e das brocas.
Vida cava
Velho sofá de taquara da casa da Curuzu,
em cujas varas circula antiga emoção!
Lugar de aguardar o obscuro,
de acolhê-lo
nos túneis e nas veias.
Passeia nos seus ocos de bambu
(trafega em mim ainda)
a vida subterrânea,
a da saia de godê –
vincada de afagos do namoro vigiado,
engomada de pudor.
Ah que saudades desse assento
onde conheci
o meu primeiro prazer de baixo!
Soneto enclausurado
Se deu-me Amor a dor e tal sufoco,
do fino cravo a história e a vida breve,
secou a flor e a mim mantém-me em febre
sem fim que me sustenha por suposto.
Detém-me o passo, obscurece o rosto
desta que teve (em tempos) olhar leve!
De tudo que irradia a alma despede
pairando na vigília do sol posto.
O que me espreita? Só ranço e desgosto!
Fechada nesta cela que a luz despe,
a voz confusa, o sentimento tonto,
fixo a memória que não desvanece,
percorro o dom inebriado e solto
que (mesmo morto) ainda não falece.