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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

PRESSA DE VIVER

para o Zé, que nunca lerá este poema
Negro, trinta e dois anos,
dealer. Pensava que a guerra
no Kosovo tinha por motivo único
a resistência à conversão em euros
- e talvez nisso tivesse, afinal, uma obscura
razão. Noutra noite, vi-me obrigado
a explicar-lhe o melhor que pude
o que era o FMI - que ele decerto
interpretou como um partido de ‘tugas’
vagamente hermético. De facto, é outra
a sua economia: contos de xamon, pastilhas,
piropos de esquina, os dois ou três filhos
de que apenas bêbedo se lembra.
Mas não é bem disso que eu hoje
queria falar. Passámos a noite
lado a lado, no mesmo balcão.
Demorei algum tempo a cumprimentá-lo
– “tá-se?”. Pediu logo grandes, imensas
desculpas por não me ter visto.
Que era “pressa de viver”, garantiu-me,
aquilo que nos torna tão cegos é
às evidências, ao rosto desse próximo
que só por bíblico acaso amamos
– quando o ódio, mais discreto,
dá nome e sentido às ruas. 

Fingi acreditar, procurei não
desmentir o seu olhar verde
vindo de outro qualquer planeta.
Seria difícil explicar-lhe àquela hora
a compulsiva demora de morrer
que me faz sair de casa e procurar,
entre ninguém, a pior das companhias: eu.
Acabou por levar para a rua
uma imperial de plástico, lembrado
talvez dos possíveis clientes
a quem ajudará a esquecer um emprego,
o desamor, o calor sinistro deste Verão.
Na verdade, pouco mais haveria
a dizer sobre este corpo brando que
há vários anos se encosta às minhas noites.
Serve-me de escudo para os bárbaros mais novos
– e protege-se, o melhor que pode,
da rusga sem objecto a que chamamos vida
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Jaime Rocha

Jaime Rocha

RUÍNAS

É um espaço de morte onde vai um corvo
comer todas as manhãs. Poisa junto
ao amontoado de pedras e procura no meio
da vegetação algumas larvas e o cheiro
de outros corvos. É um cheiro novo, azeitado,
que consegue surpreender quem pára um carro
junto a uma montanha.

Nessas ruínas passa um rio que está sujo
e que mostra ao longo das margens mais
de duzentos peixes mortos. É um rio esverdeado
sem vegetação, apenas com uma baba, onde
os corvos vão beber. Tem sons que desaparecem
de repente. Dentro dessas ruínas existem vários
objectos de ferro, outros de plástico.

Tudo está ordenado conforme o seu tempo de uso
e o espaço que ocupam. A um canto que é o canto
mais antigo das ruínas existe já uma grande
quantidade de musgo e cogumelos castanhos
dispersos subindo por uma árvore. É a árvore
dos corvos e é dali que se vê o horizonte,
umas vezes deserto outras com um vento
acinzentado. Os objectos de plástico mudam
de sítio e de cor durante a noite. Quase sempre
são levados pelos ratos para um esconderijo
escavado na terra, sem saída.

É um rio podre, embora nas palavras se possa
inventar uma lenda com um monge de branco
e uma estátua enfeitada de organdi, cheirando
a tabaco. Quando está cheio, ele reflecte
as ruínas com exactidão, as cores, os volumes,
os ácidos, uma temperatura quase quente,
como se as pedras e o barro fervessem para dentro.
Quando seca, as crostas aparecem circulares,
levantadas pelos bichos. E toda a força da terra
então resplandece chamando os lenhadores
e os machados. Os corvos fogem no chão do rio.
Uma cobra de água rodopia da nascente para a foz,
amaciando as ruínas. Todo o espaço está morto
sem barcos, um corpo que é um osso apenas
e que aguarda a chuva.

Esse rio existe nas ruínas, não está desenhado
num livro. Os corvos que lá vão também existem
porque bebem a água todas as manhãs. E isso
é um alimento sedutor. Alguém escreveu a tinta
junto à árvore do canto mais antigo das ruínas.
É onde antes íam mulheres lavar a roupa
e se banhavam mergulhando com os corvos,
quase sempre para nunca mais voltar
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