Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Pablo Neruda
Os oferecimentos
Desde hoje te proclamo estival, filha de ouro, tristeza,
o que queira teu ser diminuto do amplo universo.
Bem-amada, te dou ou te nego, na copa do mundo:
ainda o que explora a larva em seu túnel estreito
ou o que decifra o astrônomo na paz parabólica
ou aquela república de tristes estátuas que choram ao lado do mar
ou o peso nupcial da abelha carregada de ouro cheiroso
ou a coleção das folhas de todo o outono nos bosques
ou um fio da água na pedra que há em meu país natalício
ou um saco de trigo arrastado por quatro ladrões famintos
ou um trono de vime tecido pelas elegantes aranhas de Angol
ou um par de sapatos cortados em pedra de lua
ou um ovo nascido de condor das cordilheiras do Chile
ou sete sementes de erva fragrante crescida à beira do rio Ralún
ou a flor especial que se abre nas nuvens por causa da fumaça
ou o rito dos araucanos com um cavalinho de pau na selva
ou aquele trem que perdi na Califórnia e encontrei no deserto de Gobi
ou a asa da ave-relâmpago em cuja ancestral caçada
andei perdido no Sul e esquecido por todo um inverno
ou o lápis marinho capaz de escrever nas ondas
e o que tu queiras e o que não queiras te dou e te nego
porque as palavras estalam abrindo o castelo, e fechamos os olhos.
o que queira teu ser diminuto do amplo universo.
Bem-amada, te dou ou te nego, na copa do mundo:
ainda o que explora a larva em seu túnel estreito
ou o que decifra o astrônomo na paz parabólica
ou aquela república de tristes estátuas que choram ao lado do mar
ou o peso nupcial da abelha carregada de ouro cheiroso
ou a coleção das folhas de todo o outono nos bosques
ou um fio da água na pedra que há em meu país natalício
ou um saco de trigo arrastado por quatro ladrões famintos
ou um trono de vime tecido pelas elegantes aranhas de Angol
ou um par de sapatos cortados em pedra de lua
ou um ovo nascido de condor das cordilheiras do Chile
ou sete sementes de erva fragrante crescida à beira do rio Ralún
ou a flor especial que se abre nas nuvens por causa da fumaça
ou o rito dos araucanos com um cavalinho de pau na selva
ou aquele trem que perdi na Califórnia e encontrei no deserto de Gobi
ou a asa da ave-relâmpago em cuja ancestral caçada
andei perdido no Sul e esquecido por todo um inverno
ou o lápis marinho capaz de escrever nas ondas
e o que tu queiras e o que não queiras te dou e te nego
porque as palavras estalam abrindo o castelo, e fechamos os olhos.
968
Pablo Neruda
Contigo Pelas Ruas
Quero contar e cantar as coisas
da larga terra russa.
Só algumas poucas coisas,
porque não cabem todas em meu canto.
Humildes fatos, plantas,
pessoas,
pássaros,
empresas dos homens.
Muitas sempre existiram,
outras
estão nascendo,
porque aquela é a terra
do nascimento infinito.
E assim começo, andando
contigo pelas ruas,
pelos campos,
perto do mar no inverno.
Es meu amigo, vem,
vamos andando.
1 141
Pablo Neruda
I - Só o Homem
Eu atravessei as hostis
cordilheiras,
entre as árvores passei a cavalo.
O húmus deixou
no chão
sua alfombra de mil anos.
As árvores se tocam na altura,
na unidade trêmula.
Embaixo, escura é a selva.
Um vôo curto, um grito
a atravessam,
os pássaros do frio,
os zorros de elétrica cauda,
uma grande folha que tomba,
e meu cavalo pisa o brando
leito da árvore dormida,
mas sob a terra
as árvores de novo
se entendem e se tocam.
A selva é uma só,
um só grande punhado de perfume,
uma só raiz sob a terra.
As puas me mordiam,
as duras pedras feriam meu cavalo,
o gelo ia buscando sob minha roupa rasgada
meu coração para cantá-lo e adormecê-lo.
Os rios que nasciam
diante de meus olhos desciam velozes
e queriam matar-me.
De repente uma árvore ocupava o caminho
como se tivesse
andado e então
a houvesse derrubado
a selva, e ali estava
grande como mil homens,
cheia de cabeleiras,
pululada de insetos,
apodrecida pela chuva,
mas do fundo da morte
queria deter-me.
Eu saltei a árvore,
quebrei-a com o machado,
acariciei suas folhas formosas como mãos,
toquei as poderosas
raízes que muito mais que eu
conheciam a terra.
Eu passei sobre a árvore,
cruzei todos os rios,
a espuma me levava,
as pedras me enganavam,
o ar verde que criava
joias a cada minuto
atacava minha fronte,
queimava minhas pestanas.
Atravessei as altas cordilheiras
porque comigo um homem,
outro homem, um homem
ia comigo.
Não vinham as árvores,
não ia comigo a água
vertiginosa que quis matar-me,
nem a terra espinhosa.
Só o homem,
só o homem estava comigo.
Não as mãos da árvore,
formosas como rostos, nem as graves
raízes que conhecem a terra
me ajudaram.
Só o homem.
Não sei como se chama.
Era tão pobre como eu, tinha
olhos como os meus e com eles
descobria o caminho
para que outro homem passasse.
E aqui estou.
Por isso existo.
Creio
que não nos juntaremos na altura.
Creio
que sob a terra nada nos espera,
mas sobre a terra
vamos juntos.
Nossa unidade está sobre a terra.
cordilheiras,
entre as árvores passei a cavalo.
O húmus deixou
no chão
sua alfombra de mil anos.
As árvores se tocam na altura,
na unidade trêmula.
Embaixo, escura é a selva.
Um vôo curto, um grito
a atravessam,
os pássaros do frio,
os zorros de elétrica cauda,
uma grande folha que tomba,
e meu cavalo pisa o brando
leito da árvore dormida,
mas sob a terra
as árvores de novo
se entendem e se tocam.
A selva é uma só,
um só grande punhado de perfume,
uma só raiz sob a terra.
As puas me mordiam,
as duras pedras feriam meu cavalo,
o gelo ia buscando sob minha roupa rasgada
meu coração para cantá-lo e adormecê-lo.
Os rios que nasciam
diante de meus olhos desciam velozes
e queriam matar-me.
De repente uma árvore ocupava o caminho
como se tivesse
andado e então
a houvesse derrubado
a selva, e ali estava
grande como mil homens,
cheia de cabeleiras,
pululada de insetos,
apodrecida pela chuva,
mas do fundo da morte
queria deter-me.
Eu saltei a árvore,
quebrei-a com o machado,
acariciei suas folhas formosas como mãos,
toquei as poderosas
raízes que muito mais que eu
conheciam a terra.
Eu passei sobre a árvore,
cruzei todos os rios,
a espuma me levava,
as pedras me enganavam,
o ar verde que criava
joias a cada minuto
atacava minha fronte,
queimava minhas pestanas.
Atravessei as altas cordilheiras
porque comigo um homem,
outro homem, um homem
ia comigo.
Não vinham as árvores,
não ia comigo a água
vertiginosa que quis matar-me,
nem a terra espinhosa.
Só o homem,
só o homem estava comigo.
Não as mãos da árvore,
formosas como rostos, nem as graves
raízes que conhecem a terra
me ajudaram.
Só o homem.
Não sei como se chama.
Era tão pobre como eu, tinha
olhos como os meus e com eles
descobria o caminho
para que outro homem passasse.
E aqui estou.
Por isso existo.
Creio
que não nos juntaremos na altura.
Creio
que sob a terra nada nos espera,
mas sobre a terra
vamos juntos.
Nossa unidade está sobre a terra.
1 261
Pablo Neruda
Tarde - LX
A ti fere aquele que quis fazer-me dano,
e o golpe do veneno contra mim dirigido
como por uma rede passa entre meus trabalhos
e em ti deixa uma mancha de óxido e desvelo.
Não quero ver, amor, na lua florescida
de tua fronte cruzar o ódio que me espreita.
Não quero que em teu sonho deixe o rancor alheio
esquecida sua inútil coroa de facas.
Onde vou vão atrás de meus passos amargos,
onde rio um trejeito de horror copia minha cara,
onde canto a inveja maldiz, ri e rói.
E é essa, amor, a sombra que a vida me tem dado:
é um traje vazio que me segue coxeando
como um espantalho de sorriso sangrento.
e o golpe do veneno contra mim dirigido
como por uma rede passa entre meus trabalhos
e em ti deixa uma mancha de óxido e desvelo.
Não quero ver, amor, na lua florescida
de tua fronte cruzar o ódio que me espreita.
Não quero que em teu sonho deixe o rancor alheio
esquecida sua inútil coroa de facas.
Onde vou vão atrás de meus passos amargos,
onde rio um trejeito de horror copia minha cara,
onde canto a inveja maldiz, ri e rói.
E é essa, amor, a sombra que a vida me tem dado:
é um traje vazio que me segue coxeando
como um espantalho de sorriso sangrento.
1 046
Pablo Neruda
Perdão Se Pelos Meus Olhos
Perdão se pelos meus olhos não chegou
mais claridade que a espuma marinha,
perdão porque meu espaço
se estende sem amparo
e não termina:
— monótono é meu canto,
minha palavra é um pássaro sombrio,
fauna de pedra e mar, o desconsolo
de um planeta invernal, incorruptível.
Perdão por esta sucessão de água,
da rocha, a espuma, o delírio da maré
— assim é minha solidão —
saltos bruscos de sal contra os muros
de meu ser secreto, de tal maneira
que eu sou uma parte do inverno,
da mesma extensão que se repete
de sino em sino em tantas ondas
e de um silêncio como cabeleira,
silêncio de alga, canto submergido.
mais claridade que a espuma marinha,
perdão porque meu espaço
se estende sem amparo
e não termina:
— monótono é meu canto,
minha palavra é um pássaro sombrio,
fauna de pedra e mar, o desconsolo
de um planeta invernal, incorruptível.
Perdão por esta sucessão de água,
da rocha, a espuma, o delírio da maré
— assim é minha solidão —
saltos bruscos de sal contra os muros
de meu ser secreto, de tal maneira
que eu sou uma parte do inverno,
da mesma extensão que se repete
de sino em sino em tantas ondas
e de um silêncio como cabeleira,
silêncio de alga, canto submergido.
1 281
Pablo Neruda
Perdão Se Pelos Meus Olhos
Perdão se pelos meus olhos não chegou
mais claridade que a espuma marinha,
perdão porque meu espaço
se estende sem amparo
e não termina:
— monótono é meu canto,
minha palavra é um pássaro sombrio,
fauna de pedra e mar, o desconsolo
de um planeta invernal, incorruptível.
Perdão por esta sucessão de água,
da rocha, a espuma, o delírio da maré
— assim é minha solidão —
saltos bruscos de sal contra os muros
de meu ser secreto, de tal maneira
que eu sou uma parte do inverno,
da mesma extensão que se repete
de sino em sino em tantas ondas
e de um silêncio como cabeleira,
silêncio de alga, canto submergido.
mais claridade que a espuma marinha,
perdão porque meu espaço
se estende sem amparo
e não termina:
— monótono é meu canto,
minha palavra é um pássaro sombrio,
fauna de pedra e mar, o desconsolo
de um planeta invernal, incorruptível.
Perdão por esta sucessão de água,
da rocha, a espuma, o delírio da maré
— assim é minha solidão —
saltos bruscos de sal contra os muros
de meu ser secreto, de tal maneira
que eu sou uma parte do inverno,
da mesma extensão que se repete
de sino em sino em tantas ondas
e de um silêncio como cabeleira,
silêncio de alga, canto submergido.
1 281
Pablo Neruda
I - Em Berlim a Manhã
Despertei. Era Berlim. Pela janela
vi o coração desdentado,
a doida sepultura,
a cinza,
as ruínas mais pesadas,
com florões e frisos
malferidos,
sacadas arrancadas por uma negra mandíbula,
paredes que já perderam, que não encontram
suas janelas, suas portas,
seus homens, suas mulheres,
e uma montanha adentro
de escombros amontoados,
sofrimento e soberba confundidos
na farinha final, no moinho
da morte.
Oh cidadela, oh sangue
inutilmente desaparecido,
talvez é esta, é esta
tua primeira vitória,
ainda entre escombros negros
a paz que conheceste,
limpando as cinzas e elevando
tua cidadela para todos os homens,
tirando de tuas ruínas
não os mortos,
mas o homem comum,
o novo homem,
o que edificará as estruturas
do amor e a paz e a vida.
vi o coração desdentado,
a doida sepultura,
a cinza,
as ruínas mais pesadas,
com florões e frisos
malferidos,
sacadas arrancadas por uma negra mandíbula,
paredes que já perderam, que não encontram
suas janelas, suas portas,
seus homens, suas mulheres,
e uma montanha adentro
de escombros amontoados,
sofrimento e soberba confundidos
na farinha final, no moinho
da morte.
Oh cidadela, oh sangue
inutilmente desaparecido,
talvez é esta, é esta
tua primeira vitória,
ainda entre escombros negros
a paz que conheceste,
limpando as cinzas e elevando
tua cidadela para todos os homens,
tirando de tuas ruínas
não os mortos,
mas o homem comum,
o novo homem,
o que edificará as estruturas
do amor e a paz e a vida.
1 100
Pablo Neruda
Ii - Jovens Alemães
Como um ramo vermelho
numa árvore queimada
aparece e nela
a flor do tempo brilha.
Assim, Alemanha, em teu rosto
queimado pela guerra,
tua nova juventude ilumina
as queimaduras e as cicatrizes
do inferno passado.
Eu recebi junto à Elba,
junto à transparência
de seu antigo transcurso,
quando partindo da Boêmia
o trem chegou à Alemanha,
à florida juventude de agora
com seus firmes sorrisos
e as mãos
cheias de flores que me davam
rapazes e moças
carregados de lilases.
Mas não eram as flores somente
as que davam luz sobre a água,
era o novo brotar humano,
o sorriso arrancado às cerejeiras,
o direto olhar,
as firmes mãos que apertavam as tuas,
e os olhos diretamente azuis.
Ali tremeu a terra
com toda a crueldade e o castigo,
e agora,
jovens
da água e da terra renascidos,
com flores na boca,
levantando o amor sobre a terra,
com a palavra Stalin
em milhões de lábios,
florescendo.
Oh prodígio,
aqui de novo a vida,
árvore de luz, colmeia,
celeiro inacabável,
a paz e a vida,
ramo e ramo,
água e água,
cacho com cacho,
lá das cicatrizes derrotadas
rumo à nova
madureza da aurora.
E eu esqueci as ruínas,
o alfabeto de pedra queimada,
a lição do fogo,
esqueci a guerra,
esqueci o ódio,
porque vi a vida.
Oh jovens,
jovens alemães,
novos preservadores de vossa primavera,
firmes e francos jovens da nova Alemanha,
olhai para o Este,
olhai para a vasta União
das Repúblicas amadas.
Vede como também de suas ruínas
amanhece na Polônia
um sorriso firme.
China, a gigantesca, sacudiu
suas cadeias cheias de sangue
e agora é nossa imensa irmã.
Diante de vós
está o tesouro do mundo,
não o antigo tesouro do saque,
mas o novo tesouro,
o largo espaço cheio
de seres fraternais,
a paz, vento de espigas, o encontro
com o homem remoto
que não vem para roubar-nos.
Vai passando e crescendo
por todas as terras um fio
de aço que cuidamos,
o mar cantando junto ao homem
seu eterno hino de espuma,
e como um telegrama diário o ar
deixando-nos notícias.
Quantas usinas novas nasceram,
quantas escolas apagaram a sombra,
quantos rapazes sabem a partir de hoje
o idioma secreto
dos metais e das estrelas,
como tiraremos pão do planeta
para todos
e daremos frescor à terra,
velha mãe de todos os homens.
Inventaremos água nova,
arroz celeste,
motores de cristal.
Estenderemos
mais além das ilhas o espaço.
Nos desertos de fogo e areia
veremos como dança
a primavera em nossos braços, porque
nada será esquecido,
nem a terra,
nem o homem.
O homem não será esquecido
e é este o tesouro.
Jovens que do fundo
da guerra
trazeis um sorriso
que não será afogado,
este é o tesouro:
não esquecer o homem.
Porque assim é maior a terra
que todos os astros reunidos.
Assim crescemos cada dia e cada
dia somos mais ricos de homens,
temos mais irmãos,
no ar, nas minas,
nas altas planícies
da Mongólia metálica.
O homem,
ao Este, ao Norte, ao Sul,
ao Oeste, para cima,
onde caminha o vento,
o homem.
Olha, rapaz, como te saúdam,
olha como cresceu tua família,
grande é a terra e tua,
grande é a terra e minha,
é de todos,
saúda,
saúda o mundo,
o novo mundo que nasceu
e que contigo crescerá
porque tu és semente.
Crescerás, cresceremos.
Já ninguém pode derrubar a árvore
nem cortar suas raízes
porque em teu coração estão crescendo
e a árvore encherá toda a terra
de flores e cantos e frutos.
numa árvore queimada
aparece e nela
a flor do tempo brilha.
Assim, Alemanha, em teu rosto
queimado pela guerra,
tua nova juventude ilumina
as queimaduras e as cicatrizes
do inferno passado.
Eu recebi junto à Elba,
junto à transparência
de seu antigo transcurso,
quando partindo da Boêmia
o trem chegou à Alemanha,
à florida juventude de agora
com seus firmes sorrisos
e as mãos
cheias de flores que me davam
rapazes e moças
carregados de lilases.
Mas não eram as flores somente
as que davam luz sobre a água,
era o novo brotar humano,
o sorriso arrancado às cerejeiras,
o direto olhar,
as firmes mãos que apertavam as tuas,
e os olhos diretamente azuis.
Ali tremeu a terra
com toda a crueldade e o castigo,
e agora,
jovens
da água e da terra renascidos,
com flores na boca,
levantando o amor sobre a terra,
com a palavra Stalin
em milhões de lábios,
florescendo.
Oh prodígio,
aqui de novo a vida,
árvore de luz, colmeia,
celeiro inacabável,
a paz e a vida,
ramo e ramo,
água e água,
cacho com cacho,
lá das cicatrizes derrotadas
rumo à nova
madureza da aurora.
E eu esqueci as ruínas,
o alfabeto de pedra queimada,
a lição do fogo,
esqueci a guerra,
esqueci o ódio,
porque vi a vida.
Oh jovens,
jovens alemães,
novos preservadores de vossa primavera,
firmes e francos jovens da nova Alemanha,
olhai para o Este,
olhai para a vasta União
das Repúblicas amadas.
Vede como também de suas ruínas
amanhece na Polônia
um sorriso firme.
China, a gigantesca, sacudiu
suas cadeias cheias de sangue
e agora é nossa imensa irmã.
Diante de vós
está o tesouro do mundo,
não o antigo tesouro do saque,
mas o novo tesouro,
o largo espaço cheio
de seres fraternais,
a paz, vento de espigas, o encontro
com o homem remoto
que não vem para roubar-nos.
Vai passando e crescendo
por todas as terras um fio
de aço que cuidamos,
o mar cantando junto ao homem
seu eterno hino de espuma,
e como um telegrama diário o ar
deixando-nos notícias.
Quantas usinas novas nasceram,
quantas escolas apagaram a sombra,
quantos rapazes sabem a partir de hoje
o idioma secreto
dos metais e das estrelas,
como tiraremos pão do planeta
para todos
e daremos frescor à terra,
velha mãe de todos os homens.
Inventaremos água nova,
arroz celeste,
motores de cristal.
Estenderemos
mais além das ilhas o espaço.
Nos desertos de fogo e areia
veremos como dança
a primavera em nossos braços, porque
nada será esquecido,
nem a terra,
nem o homem.
O homem não será esquecido
e é este o tesouro.
Jovens que do fundo
da guerra
trazeis um sorriso
que não será afogado,
este é o tesouro:
não esquecer o homem.
Porque assim é maior a terra
que todos os astros reunidos.
Assim crescemos cada dia e cada
dia somos mais ricos de homens,
temos mais irmãos,
no ar, nas minas,
nas altas planícies
da Mongólia metálica.
O homem,
ao Este, ao Norte, ao Sul,
ao Oeste, para cima,
onde caminha o vento,
o homem.
Olha, rapaz, como te saúdam,
olha como cresceu tua família,
grande é a terra e tua,
grande é a terra e minha,
é de todos,
saúda,
saúda o mundo,
o novo mundo que nasceu
e que contigo crescerá
porque tu és semente.
Crescerás, cresceremos.
Já ninguém pode derrubar a árvore
nem cortar suas raízes
porque em teu coração estão crescendo
e a árvore encherá toda a terra
de flores e cantos e frutos.
1 230
Pablo Neruda
Iii - Contemplada a Grécia
Oh lágrimas, não é tempo
de acudir a meus olhos,
não é hora
de acudir aos olhos dos homens,
pálpebras, levantai-vos
do fundo da escuridão do sonho, claras
ou sombrias pupilas,
olhos sem lágrimas, olhai a Grécia
crucificada em seu madeiro.
Olhai-a toda
a noite, o ano, o dia,
vertendo o sangue de seu povo,
batendo as faces
em seu terrível capitel de espinhos.
Olhai, olhos do mundo,
o que a Grécia, a pura,
suporta, o açoite
do mercador de escravos,
e assim de noite e ano e mês e dia
vê como se levanta a cabeça
de seu povo orgulhoso.
De cada gota
caída do martírio
cresce de novo o homem,
o pensamento cresce suas bandeiras,
a ação confirma pedra a pedra
e mão a mão
a altura do castelo.
Oh Grécia clara,
se em ti rodou a escuridão seu saco
de estrelas negras, sabes
que em ti mesma
está a claridade, que recolhes
a noite inteira em teu regaço
até que de tuas mãos
se levanta a aurora,
vôo branco molhado de orvalho.
Em sua luz te veremos,
antiga e clara mãe dos homens,
sorrir, vitoriosa,
mostrando-nos de novo tua brancura
de estátua, entre os montes
de acudir a meus olhos,
não é hora
de acudir aos olhos dos homens,
pálpebras, levantai-vos
do fundo da escuridão do sonho, claras
ou sombrias pupilas,
olhos sem lágrimas, olhai a Grécia
crucificada em seu madeiro.
Olhai-a toda
a noite, o ano, o dia,
vertendo o sangue de seu povo,
batendo as faces
em seu terrível capitel de espinhos.
Olhai, olhos do mundo,
o que a Grécia, a pura,
suporta, o açoite
do mercador de escravos,
e assim de noite e ano e mês e dia
vê como se levanta a cabeça
de seu povo orgulhoso.
De cada gota
caída do martírio
cresce de novo o homem,
o pensamento cresce suas bandeiras,
a ação confirma pedra a pedra
e mão a mão
a altura do castelo.
Oh Grécia clara,
se em ti rodou a escuridão seu saco
de estrelas negras, sabes
que em ti mesma
está a claridade, que recolhes
a noite inteira em teu regaço
até que de tuas mãos
se levanta a aurora,
vôo branco molhado de orvalho.
Em sua luz te veremos,
antiga e clara mãe dos homens,
sorrir, vitoriosa,
mostrando-nos de novo tua brancura
de estátua, entre os montes
1 186
Pablo Neruda
I - a Túnica Verde
Eu nos caminhos,
nos montes andei.
As vinhas me cobriram com sua túnica verde,
provei o vinho e a água.
Em minhas mãos
voou a farinha, resvalou o azeite,
mas
é o povo da Itália
a produção mais fina da terra.
Andei pelas fábricas,
conversei com os homens,
conheço o sorriso
branco dos enegrecidos rostos,
e é como farinha dura este sorriso:
a áspera terra é seu moinho.
Vaguei
entre os pescadores nas ilhas,
conheço o canto
de um homem só,
só nas solidões pedregosas,
subi as redes do pescado,
vi nas ladeiras calcinadas
do sul, rasgar a entranha
da terra mais pobre.
Vi o lugar
em que meu amigo o guerrilheiro Benedetti
imóvel com seu explosivo na mão
deixou ali para sempre
o rosto mas não o sorriso.
Por toda a parte
toquei
a matéria humana
e este contato
foi para mim como terra nutriz.
Eu havia andado muito
conversando com trajes,
saudando chapéus,
dando a mão a luvas.
Andei muito
entre homens sem homem,
mulheres sem mulher,
casas sem portas.
Itália, a medida
do homem simples elevas
como o celeiro ao trigo,
acumulando grãos,
caudal, tesouro puro,
germinação profunda
da delicadeza e a esperança.
Nas manhãs
a mais antiga
das mulheres, cinza cor de oliva,
me trazia
flores de rocha, rosas arrancadas
ao difícil perfil das lombas.
Rosas e azeite verde eram os dons
que eu recolhi, mas
sobretudo
sabedoria e canto
aprendi de tuas ilhas.
Aonde vá levarei em minhas mãos
como se fosse o tato
de uma madeira pura,
musical e fragrante
que guardassem meus dedos,
o passo dos seres,
a voz e a substância,
a luta e o sorriso,
as rosas e o azeite,
a terra, a água, o vinho
de tua terra e teu povo.
Eu não vivi com as estátuas quebradas
nem com os templos cuja dentadura
caiu com suas antigas hierarquias.
Eu não vivi tampouco
só de azul e aroma,
recebi as fundas sacudidas
do oceano
humano:
na maior miséria
dos desmantelados arrabaldes
meti meu coração
como uma rede noturna,
e conheço as lágrimas e a fome
dos meninos,
mas
também conheço o passo
da organização e a vitória.
Eu não deixei meu peito
como uma lira imóvel
desfazer-se em doçura,
mas também caminhei pelas usinas
e sei que o rosto
da Itália mudará. Toquei no fundo
a germinação incessante
do amanhã, e espero.
Eu me banhei nas águas
de um manancial eterno.
nos montes andei.
As vinhas me cobriram com sua túnica verde,
provei o vinho e a água.
Em minhas mãos
voou a farinha, resvalou o azeite,
mas
é o povo da Itália
a produção mais fina da terra.
Andei pelas fábricas,
conversei com os homens,
conheço o sorriso
branco dos enegrecidos rostos,
e é como farinha dura este sorriso:
a áspera terra é seu moinho.
Vaguei
entre os pescadores nas ilhas,
conheço o canto
de um homem só,
só nas solidões pedregosas,
subi as redes do pescado,
vi nas ladeiras calcinadas
do sul, rasgar a entranha
da terra mais pobre.
Vi o lugar
em que meu amigo o guerrilheiro Benedetti
imóvel com seu explosivo na mão
deixou ali para sempre
o rosto mas não o sorriso.
Por toda a parte
toquei
a matéria humana
e este contato
foi para mim como terra nutriz.
Eu havia andado muito
conversando com trajes,
saudando chapéus,
dando a mão a luvas.
Andei muito
entre homens sem homem,
mulheres sem mulher,
casas sem portas.
Itália, a medida
do homem simples elevas
como o celeiro ao trigo,
acumulando grãos,
caudal, tesouro puro,
germinação profunda
da delicadeza e a esperança.
Nas manhãs
a mais antiga
das mulheres, cinza cor de oliva,
me trazia
flores de rocha, rosas arrancadas
ao difícil perfil das lombas.
Rosas e azeite verde eram os dons
que eu recolhi, mas
sobretudo
sabedoria e canto
aprendi de tuas ilhas.
Aonde vá levarei em minhas mãos
como se fosse o tato
de uma madeira pura,
musical e fragrante
que guardassem meus dedos,
o passo dos seres,
a voz e a substância,
a luta e o sorriso,
as rosas e o azeite,
a terra, a água, o vinho
de tua terra e teu povo.
Eu não vivi com as estátuas quebradas
nem com os templos cuja dentadura
caiu com suas antigas hierarquias.
Eu não vivi tampouco
só de azul e aroma,
recebi as fundas sacudidas
do oceano
humano:
na maior miséria
dos desmantelados arrabaldes
meti meu coração
como uma rede noturna,
e conheço as lágrimas e a fome
dos meninos,
mas
também conheço o passo
da organização e a vitória.
Eu não deixei meu peito
como uma lira imóvel
desfazer-se em doçura,
mas também caminhei pelas usinas
e sei que o rosto
da Itália mudará. Toquei no fundo
a germinação incessante
do amanhã, e espero.
Eu me banhei nas águas
de um manancial eterno.
1 242
Pablo Neruda
Ii - a Passageira de Capri
De onde, planta ou raio,
de onde, raio negro ou planta dura,
vinhas e vieste
até o rincão marinho?
Sombra do continente mais longínquo
há nos teus olhos, lua aberta
em tua boca selvagem,
e teu rosto é a pálpebra de uma fruta adormecida.
O pé acetinado de uma estrela é tua forma,
sangue e fogo de antigas lanças há em teus lábios.
De onde recolheste
pétalas transparentes
de manancial, de onde
trouxeste a semente
que reconheço? E depois
o mar de Capri em ti, mar estrangeiro,
por trás de ti as rochas, o azeite,
a reta claridade bem construída,
mas tu, eu conheço,
conheço essa rosa,
conheço o sangue dessa rosa,
sei que a conheço,
sei de onde vem,
e piso o ar livre de rios e cavalos
que tua presença traz à minha memória.
Tua cabeleira é uma carta vermelha
cheia de bruscos beijos e notícias,
tua afirmação, tua investidura clara
falam-me no meio-dia,
na meia-noite chamam à minha porta
como se adivinhassem
aonde querem regressar meus passos.
Talvez, desconhecida,
o sal de Maracaibo
ressoa em tua voz enchendo-a de sonho,
ou o frio vento de Valparaiso
sacudiu tua razão quando crescias.
O certo é que hoje, olhando-te ao passar
entre as aves de peito rosado
dos farelhões de Capri,
a labareda de teus olhos, algo
que vi voar lá de teu peito, o ar
que rodeia tua pele, a luz noturna
que de teu coração sem dúvida sai,
algo chegou à minha boca
com um sabor de flor que conhecia,
algo tingiu meus lábios com o licor escuro
das plantas silvestres de minha infância,
e eu pensei: esta dama,
ainda que o clássico azul derrame todos
os cachos do céu em sua garganta,
ainda que por trás dela os templos
nimbem com sua brancura coroada
tanta formosura,
ela não é, ela é outra,
algo crepita nela que me chama:
toda á terra que me deu a vida
está neste olhar, e estas mãos
sutis
recolheram a água na vertente
e estes mínimos pés foram medindo
as vulcânicas ilhas de minha pátria.
Oh tu, desconhecida, doce e dura,
quando já teu passo
desceu até perder-se,
e só as colunas
do templo roído e a safira verde
do mar que canta em meu desterro
ficaram sós, sós
comigo e com tua sombra,
meu coração deu um grande latejo,
como se uma enorme pedra sustentada
na invisível altura
caísse de repente
sobre a água e saltassem as espumas.
E despertei de tua presença então
com o rosto regado
pelo teu borrifo,
água e aroma e sonho,
distância e terra e onda!
de onde, raio negro ou planta dura,
vinhas e vieste
até o rincão marinho?
Sombra do continente mais longínquo
há nos teus olhos, lua aberta
em tua boca selvagem,
e teu rosto é a pálpebra de uma fruta adormecida.
O pé acetinado de uma estrela é tua forma,
sangue e fogo de antigas lanças há em teus lábios.
De onde recolheste
pétalas transparentes
de manancial, de onde
trouxeste a semente
que reconheço? E depois
o mar de Capri em ti, mar estrangeiro,
por trás de ti as rochas, o azeite,
a reta claridade bem construída,
mas tu, eu conheço,
conheço essa rosa,
conheço o sangue dessa rosa,
sei que a conheço,
sei de onde vem,
e piso o ar livre de rios e cavalos
que tua presença traz à minha memória.
Tua cabeleira é uma carta vermelha
cheia de bruscos beijos e notícias,
tua afirmação, tua investidura clara
falam-me no meio-dia,
na meia-noite chamam à minha porta
como se adivinhassem
aonde querem regressar meus passos.
Talvez, desconhecida,
o sal de Maracaibo
ressoa em tua voz enchendo-a de sonho,
ou o frio vento de Valparaiso
sacudiu tua razão quando crescias.
O certo é que hoje, olhando-te ao passar
entre as aves de peito rosado
dos farelhões de Capri,
a labareda de teus olhos, algo
que vi voar lá de teu peito, o ar
que rodeia tua pele, a luz noturna
que de teu coração sem dúvida sai,
algo chegou à minha boca
com um sabor de flor que conhecia,
algo tingiu meus lábios com o licor escuro
das plantas silvestres de minha infância,
e eu pensei: esta dama,
ainda que o clássico azul derrame todos
os cachos do céu em sua garganta,
ainda que por trás dela os templos
nimbem com sua brancura coroada
tanta formosura,
ela não é, ela é outra,
algo crepita nela que me chama:
toda á terra que me deu a vida
está neste olhar, e estas mãos
sutis
recolheram a água na vertente
e estes mínimos pés foram medindo
as vulcânicas ilhas de minha pátria.
Oh tu, desconhecida, doce e dura,
quando já teu passo
desceu até perder-se,
e só as colunas
do templo roído e a safira verde
do mar que canta em meu desterro
ficaram sós, sós
comigo e com tua sombra,
meu coração deu um grande latejo,
como se uma enorme pedra sustentada
na invisível altura
caísse de repente
sobre a água e saltassem as espumas.
E despertei de tua presença então
com o rosto regado
pelo teu borrifo,
água e aroma e sonho,
distância e terra e onda!
1 235
Pablo Neruda
Ii - a Passageira de Capri
De onde, planta ou raio,
de onde, raio negro ou planta dura,
vinhas e vieste
até o rincão marinho?
Sombra do continente mais longínquo
há nos teus olhos, lua aberta
em tua boca selvagem,
e teu rosto é a pálpebra de uma fruta adormecida.
O pé acetinado de uma estrela é tua forma,
sangue e fogo de antigas lanças há em teus lábios.
De onde recolheste
pétalas transparentes
de manancial, de onde
trouxeste a semente
que reconheço? E depois
o mar de Capri em ti, mar estrangeiro,
por trás de ti as rochas, o azeite,
a reta claridade bem construída,
mas tu, eu conheço,
conheço essa rosa,
conheço o sangue dessa rosa,
sei que a conheço,
sei de onde vem,
e piso o ar livre de rios e cavalos
que tua presença traz à minha memória.
Tua cabeleira é uma carta vermelha
cheia de bruscos beijos e notícias,
tua afirmação, tua investidura clara
falam-me no meio-dia,
na meia-noite chamam à minha porta
como se adivinhassem
aonde querem regressar meus passos.
Talvez, desconhecida,
o sal de Maracaibo
ressoa em tua voz enchendo-a de sonho,
ou o frio vento de Valparaiso
sacudiu tua razão quando crescias.
O certo é que hoje, olhando-te ao passar
entre as aves de peito rosado
dos farelhões de Capri,
a labareda de teus olhos, algo
que vi voar lá de teu peito, o ar
que rodeia tua pele, a luz noturna
que de teu coração sem dúvida sai,
algo chegou à minha boca
com um sabor de flor que conhecia,
algo tingiu meus lábios com o licor escuro
das plantas silvestres de minha infância,
e eu pensei: esta dama,
ainda que o clássico azul derrame todos
os cachos do céu em sua garganta,
ainda que por trás dela os templos
nimbem com sua brancura coroada
tanta formosura,
ela não é, ela é outra,
algo crepita nela que me chama:
toda á terra que me deu a vida
está neste olhar, e estas mãos
sutis
recolheram a água na vertente
e estes mínimos pés foram medindo
as vulcânicas ilhas de minha pátria.
Oh tu, desconhecida, doce e dura,
quando já teu passo
desceu até perder-se,
e só as colunas
do templo roído e a safira verde
do mar que canta em meu desterro
ficaram sós, sós
comigo e com tua sombra,
meu coração deu um grande latejo,
como se uma enorme pedra sustentada
na invisível altura
caísse de repente
sobre a água e saltassem as espumas.
E despertei de tua presença então
com o rosto regado
pelo teu borrifo,
água e aroma e sonho,
distância e terra e onda!
de onde, raio negro ou planta dura,
vinhas e vieste
até o rincão marinho?
Sombra do continente mais longínquo
há nos teus olhos, lua aberta
em tua boca selvagem,
e teu rosto é a pálpebra de uma fruta adormecida.
O pé acetinado de uma estrela é tua forma,
sangue e fogo de antigas lanças há em teus lábios.
De onde recolheste
pétalas transparentes
de manancial, de onde
trouxeste a semente
que reconheço? E depois
o mar de Capri em ti, mar estrangeiro,
por trás de ti as rochas, o azeite,
a reta claridade bem construída,
mas tu, eu conheço,
conheço essa rosa,
conheço o sangue dessa rosa,
sei que a conheço,
sei de onde vem,
e piso o ar livre de rios e cavalos
que tua presença traz à minha memória.
Tua cabeleira é uma carta vermelha
cheia de bruscos beijos e notícias,
tua afirmação, tua investidura clara
falam-me no meio-dia,
na meia-noite chamam à minha porta
como se adivinhassem
aonde querem regressar meus passos.
Talvez, desconhecida,
o sal de Maracaibo
ressoa em tua voz enchendo-a de sonho,
ou o frio vento de Valparaiso
sacudiu tua razão quando crescias.
O certo é que hoje, olhando-te ao passar
entre as aves de peito rosado
dos farelhões de Capri,
a labareda de teus olhos, algo
que vi voar lá de teu peito, o ar
que rodeia tua pele, a luz noturna
que de teu coração sem dúvida sai,
algo chegou à minha boca
com um sabor de flor que conhecia,
algo tingiu meus lábios com o licor escuro
das plantas silvestres de minha infância,
e eu pensei: esta dama,
ainda que o clássico azul derrame todos
os cachos do céu em sua garganta,
ainda que por trás dela os templos
nimbem com sua brancura coroada
tanta formosura,
ela não é, ela é outra,
algo crepita nela que me chama:
toda á terra que me deu a vida
está neste olhar, e estas mãos
sutis
recolheram a água na vertente
e estes mínimos pés foram medindo
as vulcânicas ilhas de minha pátria.
Oh tu, desconhecida, doce e dura,
quando já teu passo
desceu até perder-se,
e só as colunas
do templo roído e a safira verde
do mar que canta em meu desterro
ficaram sós, sós
comigo e com tua sombra,
meu coração deu um grande latejo,
como se uma enorme pedra sustentada
na invisível altura
caísse de repente
sobre a água e saltassem as espumas.
E despertei de tua presença então
com o rosto regado
pelo teu borrifo,
água e aroma e sonho,
distância e terra e onda!
1 235
Pablo Neruda
Vi - Eu Te Construí Cantando
Eu te acreditei, te inventei na Itália.
Estava só.
O mar entre as gredas
desatava violento
sua seminal espuma.
Assim se preparava
a abrupta primavera.
Os germes adormecidos entreabriam
seus caules molhados,
secreta sede e sangue
feriam minha cabeça.
Eu de mar e de terra
te reconstruí cantando.
Necessitei de tua boca, do arco puro
de teu pequeno pé, de tua cabeleira
de cereal queimado.
Eu te chamei e vieste da noite,
e na luz entreaberta da aurora
descobri que existias
e que de mim como do mar a espuma
nasceste, pequena deusa minha.
Foste primeiro um germe deitado
que esperava
sob a terra escura
o crescimento da primavera,
e adormecido então
senti que me tocavas
debaixo da terra,
porque ias nascer, e eu te havia
semeado
dentro de minha existência. Depois o tempo
e o esquecimento vieram
e eu esqueci que estavas comigo
crescendo solitária
dentro de mim, e de repente
descobri que tua boca
se havia levantado da terra
como uma flor gigante.
Eras tu que existias.
Eu te havia criado.
Meu coração então
tremeu reconhecendo-te
e quis afastar-te.
Porém já não pudemos.
A terra estava cheia
de cachos sagrados.
Mar e terra em tuas mãos
rebentavam
com os dons maduros.
E assim foi tua doçura derramando-se
em minha respiração e nos sentidos
porque por mim foste criada
para que me ajudasses
a viver a alegria.
E assim, a terra,
a flor e o fruto, foste,
assim do mar vinhas
submersa esperando
e te estendeste junto a mim no sonho
do que não despertamos.
Estava só.
O mar entre as gredas
desatava violento
sua seminal espuma.
Assim se preparava
a abrupta primavera.
Os germes adormecidos entreabriam
seus caules molhados,
secreta sede e sangue
feriam minha cabeça.
Eu de mar e de terra
te reconstruí cantando.
Necessitei de tua boca, do arco puro
de teu pequeno pé, de tua cabeleira
de cereal queimado.
Eu te chamei e vieste da noite,
e na luz entreaberta da aurora
descobri que existias
e que de mim como do mar a espuma
nasceste, pequena deusa minha.
Foste primeiro um germe deitado
que esperava
sob a terra escura
o crescimento da primavera,
e adormecido então
senti que me tocavas
debaixo da terra,
porque ias nascer, e eu te havia
semeado
dentro de minha existência. Depois o tempo
e o esquecimento vieram
e eu esqueci que estavas comigo
crescendo solitária
dentro de mim, e de repente
descobri que tua boca
se havia levantado da terra
como uma flor gigante.
Eras tu que existias.
Eu te havia criado.
Meu coração então
tremeu reconhecendo-te
e quis afastar-te.
Porém já não pudemos.
A terra estava cheia
de cachos sagrados.
Mar e terra em tuas mãos
rebentavam
com os dons maduros.
E assim foi tua doçura derramando-se
em minha respiração e nos sentidos
porque por mim foste criada
para que me ajudasses
a viver a alegria.
E assim, a terra,
a flor e o fruto, foste,
assim do mar vinhas
submersa esperando
e te estendeste junto a mim no sonho
do que não despertamos.
1 303
Pablo Neruda
I - Se Eu Te Recordasse
Espanha, não há lembranças
tuas, não és memória.
Se quero recordar
os acasos
ou o mercado amarelo
ou as ácidas sombras de Valencia,
fecho a testa,
abro os olhos
e mordo a boca.
Não, não tenho lembranças.
Não quero nada com tua forma seca
nem com tua generosa cabeleira,
não quero tuas espigas,
não quero ir recolhê-las
na melancolia de um caminho.
Te quero intacta, inteira,
a mim restituída
com feitos e palavras,
com todos teus sentidos,
desenlaçada e livre,
metálica e aberta!
Granada vermelha e dura,
topázio negro, Espanha,
amor meu, anca
e esqueleto do mundo,
guitarra incandescente,
fogo sem mutilar, oh dolorosa
pedra amada,
se eu te recordasse
o coração me sangraria
e necessito de sangue
para reconquistar tuas belezas,
para que teu silêncio
de repente se ajoelhe
vencido, terminado,
e se ouça a voz de teus povoados
no coro novo do mundo.
tuas, não és memória.
Se quero recordar
os acasos
ou o mercado amarelo
ou as ácidas sombras de Valencia,
fecho a testa,
abro os olhos
e mordo a boca.
Não, não tenho lembranças.
Não quero nada com tua forma seca
nem com tua generosa cabeleira,
não quero tuas espigas,
não quero ir recolhê-las
na melancolia de um caminho.
Te quero intacta, inteira,
a mim restituída
com feitos e palavras,
com todos teus sentidos,
desenlaçada e livre,
metálica e aberta!
Granada vermelha e dura,
topázio negro, Espanha,
amor meu, anca
e esqueleto do mundo,
guitarra incandescente,
fogo sem mutilar, oh dolorosa
pedra amada,
se eu te recordasse
o coração me sangraria
e necessito de sangue
para reconquistar tuas belezas,
para que teu silêncio
de repente se ajoelhe
vencido, terminado,
e se ouça a voz de teus povoados
no coro novo do mundo.
1 169
Pablo Neruda
Volta Espanha
Espanha, Espanha coração violeta,
me faltaste ao peito, tu me faltas
não como falta o sol na cintura
mas como o sal na garganta,
como o pão nos dentes, como o ódio
na colmeia negra, como o dia
em cima dos sobressaltos da aurora,
mas não é isso ainda, como o tecido
do elemento visceral, profunda
pálpebra que não fita e que não cede,
terreno mineral, rosa de osso
aberta em minha razão como um castelo.
A quem posso chamar senão à tua boca?
Tenho outros lábios que me representem?
Estás abandonada ou estou mudo?
Que significa tua calada esfera?
Aonde vou sem tua voz, areia mãe?
Que sou sem teu fanal crucificado?
Onde estou sem a água de tua rocha?
Que és tu se não me deste sangue?
Oh tormento! Recobra-me, recebe-me
antes que meu nome e minhas espigas
desapareçam na primavera.
Porque a tuas solidões iradas
vai meu destino acorrentado, ao peso
de tua vitória. A ti vou conduzido.
Espanha, és mais grave que uma data,
que uma adivinhação, que uma tormenta,
e não importa a torre desapiedada
de tua perdida voz, mas a dura
resistência, a pedra que sustenta.
Mas por que, se sou areia tua,
água em tuas águas, sangue em tuas feridas,
hoje me recusas a boca que me chama,
tua voz, a construção dê minha existência?
Peço ao que em teu ser é minha substância,
a teu dilaceramento de facas,
que se abram hoje, sobre a desventura,
as iluminações de teu rosto,
e te levantes, perfurando o céu,
rompendo as trevas e os sinais,
até surgir, farinha e alvorada,
lua acesa sobre os ossários.
Matarás. Mata, Espanha, santa virgem,
levanta-te empunhando a ternura
como uma cega rosa desatada
sobre as pedrarias infernais.
Vem a mim, devolve-me a torre
que me roubaram,
devolve-me a língua
e o povo que me esperam, espanta-me
com a unidade final de tua formosura.
Levanta-te em teu sangue e em teu fogo
o sangue que deste, o primeiro,
e o fogo, ninho de tua luz sagrada.
1 327
Pablo Neruda
Eu Vinha de Longe
Eu trazia às costas
um saco
de negros sofrimentos,
a noite das minas
de minha pátria.
Quando o carvão
de Lota
na locomotiva
arde,
se põe rubro
e queima
não é fogo,
é sangue,
sangue dos mineiros de minha pátria,
escuro sangue que acusa.
E assim
dobrado
sob meu saco negro
de sangue e de carvão fui transgredindo
os caminhos da Europa,
a lua de prata gasta
pelos olhos humanos,
as velhas pontes quebradas
pela guerra,
as cidades vazias
com suas janelas ocas
e seus escombros onde o pasto cresce,
as urtigas,
o triste saramago,
com medo,
sem raízes.
Assim vaguei pelas ruas bombardeadas
buscando a verde esperança,
até que a encontrei
vestida de água e de ouro
nas margens duplas
de Budapeste um dia.
um saco
de negros sofrimentos,
a noite das minas
de minha pátria.
Quando o carvão
de Lota
na locomotiva
arde,
se põe rubro
e queima
não é fogo,
é sangue,
sangue dos mineiros de minha pátria,
escuro sangue que acusa.
E assim
dobrado
sob meu saco negro
de sangue e de carvão fui transgredindo
os caminhos da Europa,
a lua de prata gasta
pelos olhos humanos,
as velhas pontes quebradas
pela guerra,
as cidades vazias
com suas janelas ocas
e seus escombros onde o pasto cresce,
as urtigas,
o triste saramago,
com medo,
sem raízes.
Assim vaguei pelas ruas bombardeadas
buscando a verde esperança,
até que a encontrei
vestida de água e de ouro
nas margens duplas
de Budapeste um dia.
1 213
Pablo Neruda
Eu Vinha de Longe
Eu trazia às costas
um saco
de negros sofrimentos,
a noite das minas
de minha pátria.
Quando o carvão
de Lota
na locomotiva
arde,
se põe rubro
e queima
não é fogo,
é sangue,
sangue dos mineiros de minha pátria,
escuro sangue que acusa.
E assim
dobrado
sob meu saco negro
de sangue e de carvão fui transgredindo
os caminhos da Europa,
a lua de prata gasta
pelos olhos humanos,
as velhas pontes quebradas
pela guerra,
as cidades vazias
com suas janelas ocas
e seus escombros onde o pasto cresce,
as urtigas,
o triste saramago,
com medo,
sem raízes.
Assim vaguei pelas ruas bombardeadas
buscando a verde esperança,
até que a encontrei
vestida de água e de ouro
nas margens duplas
de Budapeste um dia.
um saco
de negros sofrimentos,
a noite das minas
de minha pátria.
Quando o carvão
de Lota
na locomotiva
arde,
se põe rubro
e queima
não é fogo,
é sangue,
sangue dos mineiros de minha pátria,
escuro sangue que acusa.
E assim
dobrado
sob meu saco negro
de sangue e de carvão fui transgredindo
os caminhos da Europa,
a lua de prata gasta
pelos olhos humanos,
as velhas pontes quebradas
pela guerra,
as cidades vazias
com suas janelas ocas
e seus escombros onde o pasto cresce,
as urtigas,
o triste saramago,
com medo,
sem raízes.
Assim vaguei pelas ruas bombardeadas
buscando a verde esperança,
até que a encontrei
vestida de água e de ouro
nas margens duplas
de Budapeste um dia.
1 213
Pablo Neruda
XIV - Os homens
Longe, longe, longe continuamos,
nos afastamos das duras máscaras
erigidas em pleno silêncio e iremos
envoltos em seu orgulho, em sua distância.
E para que viemos até a ilha?
Não será o sorriso dos homens floridos,
nem as crepitantes cadeiras de Ataroa, a bela,
nem os rapazes a cavalo, de olhos impertinentes,
o que levaremos conosco regressando
mas sim um vazio oceânico, uma pobre pergunta
com mil contestações de lábios desdenhosos.
nos afastamos das duras máscaras
erigidas em pleno silêncio e iremos
envoltos em seu orgulho, em sua distância.
E para que viemos até a ilha?
Não será o sorriso dos homens floridos,
nem as crepitantes cadeiras de Ataroa, a bela,
nem os rapazes a cavalo, de olhos impertinentes,
o que levaremos conosco regressando
mas sim um vazio oceânico, uma pobre pergunta
com mil contestações de lábios desdenhosos.
1 217
Pablo Neruda
Outro
De tanto andar uma região
que não figurava nos livros
acostumei-me às terras tenazes
em que ninguém me perguntava
se me agradavam as alfaces
ou se preferia a menta
que devoram os elefantes.
E de tanto não responder
tenho o coração amarelo.
que não figurava nos livros
acostumei-me às terras tenazes
em que ninguém me perguntava
se me agradavam as alfaces
ou se preferia a menta
que devoram os elefantes.
E de tanto não responder
tenho o coração amarelo.
1 433
Pablo Neruda
Outro
De tanto andar uma região
que não figurava nos livros
acostumei-me às terras tenazes
em que ninguém me perguntava
se me agradavam as alfaces
ou se preferia a menta
que devoram os elefantes.
E de tanto não responder
tenho o coração amarelo.
que não figurava nos livros
acostumei-me às terras tenazes
em que ninguém me perguntava
se me agradavam as alfaces
ou se preferia a menta
que devoram os elefantes.
E de tanto não responder
tenho o coração amarelo.
1 433
Pablo Neruda
Vi - Regressou a Sirena
Amor, como se um dia
morresses,
e eu cavasse
e eu cavasse
noite e dia
em teu sepulcro
e te recompusesse,
levantasse teus seios desde o pó,
a boca que adorei, de suas cinzas,
construísse de novo
teus braços e tuas pernas e teus olhos,
tua cabeleira de metal torcido,
e te desse a vida
com o amor que te ama,
te fizesse andar de novo,
palpitar outra vez em tua cintura,
assim, amor, levantaram de novo
a cidade de Varsóvia.
Eu chegaria cego em tuas cinzas
mas te buscaria,
e pouco a pouco irias elevando
os edifícios doces de teu corpo,
e assim encontraram eles
na cidade amada
só vento e cinza,
fragmentos arrasados,
carvões que choravam na chuva,
sorrisos de mulher sob a neve.
Morta estava a formosa,
não existiam janelas,
a noite se encostava sobre a branca morta,
o dia iluminava a campina vazia.
E assim a levantaram,
com amor, e chegaram
cegos e soluçantes,
mas cavaram fundo,
limparam a cinza.
Era tarde, a noite,
o cansaço, a neve
detinham a pá,
e eles cavando acharam
primeiro a cabeça,
os alvos seios da doce morta,
seu traje de sirena,
e por fim o coração sob a terra,
enterrado e queimado mas vivo,
e hoje pulsa vivo, palpitando no meio
da reconstrução de sua beleza.
Agora compreendes como
o amor construiu as avenidas,
fez cantar a lua nos jardins.
Hoje quando
pétala a pétala tomba a neve
sobre os telhados e as pontes
e o inverno bate
as portas de Varsóvia,
o fogo, o canto
vivem de novo nos lares
que edificou o amor sobre a morte.
Ai daqueles que fugiram e creram
escapar com a poesia:
não sabem que o amor está em Varsóvia,
e que quando a morte
ali foi derrotada,
e quando o rio passa,
reconhecendo seres e destinos,
como duas flores de perfume e prata,
cidade e poesia,
em suas cúpulas claras
guardam a luz, o fogo e o pão de seu destino.
Varsóvia milagrosa,
coração enterrado
de novo vivo e livre,
cidade em que se prova
como o homem é maior
que toda a desventura,
Varsóvia, deixa-me
tocar teus muros.
Não estão feitos de pedra ou de madeira,
de esperança estão feitos,
e o que tocar queira a esperança,
matéria firme e dura,
terra tenaz que canta,
metal que reconstrói,
areia indestrutível,
cereal infinito,
mel para todos os séculos,
martelo eterno,
estrela vencedora,
ferramenta invencível,
cimento da vida,
a esperança,
que aqui a toquem,
que aqui sintam nela como sobe
a vida e o sangue de novo,
porque o amor, Varsóvia,
levantou tua estátua de sirena
e se toco teus muros,
tua pele sagrada,
compreendo
que és a vida e que nos teus muros
morreu, por fim, a morte.
morresses,
e eu cavasse
e eu cavasse
noite e dia
em teu sepulcro
e te recompusesse,
levantasse teus seios desde o pó,
a boca que adorei, de suas cinzas,
construísse de novo
teus braços e tuas pernas e teus olhos,
tua cabeleira de metal torcido,
e te desse a vida
com o amor que te ama,
te fizesse andar de novo,
palpitar outra vez em tua cintura,
assim, amor, levantaram de novo
a cidade de Varsóvia.
Eu chegaria cego em tuas cinzas
mas te buscaria,
e pouco a pouco irias elevando
os edifícios doces de teu corpo,
e assim encontraram eles
na cidade amada
só vento e cinza,
fragmentos arrasados,
carvões que choravam na chuva,
sorrisos de mulher sob a neve.
Morta estava a formosa,
não existiam janelas,
a noite se encostava sobre a branca morta,
o dia iluminava a campina vazia.
E assim a levantaram,
com amor, e chegaram
cegos e soluçantes,
mas cavaram fundo,
limparam a cinza.
Era tarde, a noite,
o cansaço, a neve
detinham a pá,
e eles cavando acharam
primeiro a cabeça,
os alvos seios da doce morta,
seu traje de sirena,
e por fim o coração sob a terra,
enterrado e queimado mas vivo,
e hoje pulsa vivo, palpitando no meio
da reconstrução de sua beleza.
Agora compreendes como
o amor construiu as avenidas,
fez cantar a lua nos jardins.
Hoje quando
pétala a pétala tomba a neve
sobre os telhados e as pontes
e o inverno bate
as portas de Varsóvia,
o fogo, o canto
vivem de novo nos lares
que edificou o amor sobre a morte.
Ai daqueles que fugiram e creram
escapar com a poesia:
não sabem que o amor está em Varsóvia,
e que quando a morte
ali foi derrotada,
e quando o rio passa,
reconhecendo seres e destinos,
como duas flores de perfume e prata,
cidade e poesia,
em suas cúpulas claras
guardam a luz, o fogo e o pão de seu destino.
Varsóvia milagrosa,
coração enterrado
de novo vivo e livre,
cidade em que se prova
como o homem é maior
que toda a desventura,
Varsóvia, deixa-me
tocar teus muros.
Não estão feitos de pedra ou de madeira,
de esperança estão feitos,
e o que tocar queira a esperança,
matéria firme e dura,
terra tenaz que canta,
metal que reconstrói,
areia indestrutível,
cereal infinito,
mel para todos os séculos,
martelo eterno,
estrela vencedora,
ferramenta invencível,
cimento da vida,
a esperança,
que aqui a toquem,
que aqui sintam nela como sobe
a vida e o sangue de novo,
porque o amor, Varsóvia,
levantou tua estátua de sirena
e se toco teus muros,
tua pele sagrada,
compreendo
que és a vida e que nos teus muros
morreu, por fim, a morte.
1 194
Pablo Neruda
Noite - LXXXV
Do mar para as ruas corre a vaga névoa
como o bafo de um boi enterrado no frio,
e longas línguas de água se acumulam cobrindo
o mês que a nossas vidas prometeu ser celeste.
Adiantado outono, favo silvante de folhas,
quando sobre os povoados palpita teu estandarte
cantam mulheres loucas despedindo os rios,
os cavalos relincham para a Patagônia.
Há uma trepadeira vespertina em teu rosto
que cresce silenciosa pelo amor transportada
até as ferraduras crepitantes do céu.
Me inclino sobre o fogo de teu corpo noturno
e não apenas teus seios amo mas o outono
que esparge pela névoa seu sangue ultramarino.
como o bafo de um boi enterrado no frio,
e longas línguas de água se acumulam cobrindo
o mês que a nossas vidas prometeu ser celeste.
Adiantado outono, favo silvante de folhas,
quando sobre os povoados palpita teu estandarte
cantam mulheres loucas despedindo os rios,
os cavalos relincham para a Patagônia.
Há uma trepadeira vespertina em teu rosto
que cresce silenciosa pelo amor transportada
até as ferraduras crepitantes do céu.
Me inclino sobre o fogo de teu corpo noturno
e não apenas teus seios amo mas o outono
que esparge pela névoa seu sangue ultramarino.
1 102
Pablo Neruda
Noite - LXXIX
De noite, amada, amarra teu coração ao meu
e que eles no sonho derrotem as trevas
como um duplo tambor combatendo no bosque
contra o espesso muro das folhas molhadas.
Noturna travessia, brasa negra do sonho
interceptando o fio das uvas terrestres
com a pontualidade de um trem descabelado
que sombra e pedras frias sem cessar arrastasse.
Por isso, amor, amarra-me ao movimento puro,
à tenacidade que em teu peito bate
com as asas de um cisne submergido,
para que às perguntas estreladas do céu
responda nosso sonho com uma só chave,
com uma só porta fechada pela sombra.
e que eles no sonho derrotem as trevas
como um duplo tambor combatendo no bosque
contra o espesso muro das folhas molhadas.
Noturna travessia, brasa negra do sonho
interceptando o fio das uvas terrestres
com a pontualidade de um trem descabelado
que sombra e pedras frias sem cessar arrastasse.
Por isso, amor, amarra-me ao movimento puro,
à tenacidade que em teu peito bate
com as asas de um cisne submergido,
para que às perguntas estreladas do céu
responda nosso sonho com uma só chave,
com uma só porta fechada pela sombra.
1 340
Pablo Neruda
Iv - o Cinturão
Carlos Augusto me mandou
um cinturão de couro de Orinoco.
Agora na cintura
levo um rio,
aves nupciais que em seu vôo levantam
as pétalas da espessura,
o longo trovão que perdi na infância
hoje o levo amarrado,
cosido com relâmpagos e chuva,
subjugando minhas velhas calças.
Couro de litoral, couro de rio,
te amo e toco,
és flor e madeira, sáurio e lodo,
és argila extensa.
Passo minha mão sobre tuas rugas
como sobre minha pátria. Tens lábios
de um beijo que me busca.
Mas não só amor, oh terra, tens,
sei que também me guardas
a dentada, o fio, o extermínio
que perguntam por mim todos os dias,
porque tua costa, América, não tem apenas plumas
de um leque incendiário,
não tem só açúcar luminoso,
frutas que pestanejam,
mas o venenoso sussurro
da facada secreta.
Aqui só
me provou o rio:
não fica mal em minha cintura.
O Orinoco
é como um nome que me falta.
Eu me chamo Orinoco,
devo ir com a água na cintura,
e desde agora
esta linha de couro
crescerá com a lua,
abrirá seus estuários na aurora,
caminhará as ruas
comigo e entrará nas reuniões
recordando-me
de onde sou: das terras abruptas
de Sinaloa e de Magallanes,
das pontas de ferro andino,
das ilhas de furacão,
porém mais que todos os lugares,
do rio caimão verde,
do Orinoco, envolto
pelas suas respirações,
que entre suas duas margens sempre recém-bordadas
vai estendendo seu canto pela terra.
Carlos Augusto, obrigado,
jovem irmão, porque no meu exílio
a água pátria me mandaste. Um dia
verás aparecer na corrente
do rio
que desatada corre e nos reúne,
um rosto, nosso povo,
alto e feliz cantando com as águas.
E quando esse rosto nos fitar
pensaremos “fizemos nossa parte”
e cantaremos com nossos rios,
com nossos povos cantaremos.
um cinturão de couro de Orinoco.
Agora na cintura
levo um rio,
aves nupciais que em seu vôo levantam
as pétalas da espessura,
o longo trovão que perdi na infância
hoje o levo amarrado,
cosido com relâmpagos e chuva,
subjugando minhas velhas calças.
Couro de litoral, couro de rio,
te amo e toco,
és flor e madeira, sáurio e lodo,
és argila extensa.
Passo minha mão sobre tuas rugas
como sobre minha pátria. Tens lábios
de um beijo que me busca.
Mas não só amor, oh terra, tens,
sei que também me guardas
a dentada, o fio, o extermínio
que perguntam por mim todos os dias,
porque tua costa, América, não tem apenas plumas
de um leque incendiário,
não tem só açúcar luminoso,
frutas que pestanejam,
mas o venenoso sussurro
da facada secreta.
Aqui só
me provou o rio:
não fica mal em minha cintura.
O Orinoco
é como um nome que me falta.
Eu me chamo Orinoco,
devo ir com a água na cintura,
e desde agora
esta linha de couro
crescerá com a lua,
abrirá seus estuários na aurora,
caminhará as ruas
comigo e entrará nas reuniões
recordando-me
de onde sou: das terras abruptas
de Sinaloa e de Magallanes,
das pontas de ferro andino,
das ilhas de furacão,
porém mais que todos os lugares,
do rio caimão verde,
do Orinoco, envolto
pelas suas respirações,
que entre suas duas margens sempre recém-bordadas
vai estendendo seu canto pela terra.
Carlos Augusto, obrigado,
jovem irmão, porque no meu exílio
a água pátria me mandaste. Um dia
verás aparecer na corrente
do rio
que desatada corre e nos reúne,
um rosto, nosso povo,
alto e feliz cantando com as águas.
E quando esse rosto nos fitar
pensaremos “fizemos nossa parte”
e cantaremos com nossos rios,
com nossos povos cantaremos.
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