Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Marina Colasanti
TARDE E CASA VAZIA
O pudim amorna
sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja
na cabeça.
No casulo da rede
o corpo
falsamente dormido
arrasta leve a mão para a virilha.
E não há mais silêncio
nem ruídos
somente esse querer
que chama
e que se atende.
sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja
na cabeça.
No casulo da rede
o corpo
falsamente dormido
arrasta leve a mão para a virilha.
E não há mais silêncio
nem ruídos
somente esse querer
que chama
e que se atende.
998
Marina Colasanti
ESOPO
No alto do galho
o corvo canta
Cai o queijo.
Que a raposa abriga
na garganta.
o corvo canta
Cai o queijo.
Que a raposa abriga
na garganta.
1 154
Marina Colasanti
CARNAVAL EM FRIBURGO
Dirigiam trator à tarde
à noite iam dançar
no baile do Euterpe.
Tinham calos nas mãos
palmas molhadas
e aquele cheiro jovem de
banho e brilhantina.
Dançavam com respeito
- não fosse a ereção
denunciar-se nas calças -
e puxavam conversa.
Mas nós, moças que tinham
passado rimel nos cílios,
só pensávamos que havia outro baile depois
no Clube Xadrez.
E que nós íamos.
Nós iamos.
à noite iam dançar
no baile do Euterpe.
Tinham calos nas mãos
palmas molhadas
e aquele cheiro jovem de
banho e brilhantina.
Dançavam com respeito
- não fosse a ereção
denunciar-se nas calças -
e puxavam conversa.
Mas nós, moças que tinham
passado rimel nos cílios,
só pensávamos que havia outro baile depois
no Clube Xadrez.
E que nós íamos.
Nós iamos.
985
Marina Colasanti
CARNE DE LEITE E LUA
Nenhuma mulher foi mais branca
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
1 195
Marina Colasanti
INSTRUMENTO SEM SOM
Tua nuca macha
cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.
cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.
1 270
Marina Colasanti
INSTRUMENTO SEM SOM
Tua nuca macha
cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.
cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.
1 270
Marina Colasanti
POR UMA LUZ
O que foi que te fez
Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apenas
o que foi que te fez
e em que momento
pintar a cabeça
o retrato
a metafórica lembrança de
Madame Pompadour?
O chapéu emplumado
o enviesado rosto
o busto
e ao alto
grafito
inscrito
o nome da Marquesa.
Logo você
que depurava a linha em busca
da pureza.
Terá sido um deboche?
ou a força irresistivel de uma luz
pousada sobre a pele cor de fruta
sobre a pele maçã
obrigando tua mão a retratar
em toda a sua volúpia
a cortesã?
Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apenas
o que foi que te fez
e em que momento
pintar a cabeça
o retrato
a metafórica lembrança de
Madame Pompadour?
O chapéu emplumado
o enviesado rosto
o busto
e ao alto
grafito
inscrito
o nome da Marquesa.
Logo você
que depurava a linha em busca
da pureza.
Terá sido um deboche?
ou a força irresistivel de uma luz
pousada sobre a pele cor de fruta
sobre a pele maçã
obrigando tua mão a retratar
em toda a sua volúpia
a cortesã?
1 093
Marina Colasanti
NUM MESMO CÉU
Neste hotel de aeroporto
não se ouvem aviões.
Nada me chega atrás de triplos vidros.
O único barulho é o respirar suave
do ar condicionado
e um estalar distante
quase inseto
que vem do frigobar
Ninguém me trouxe aqui.
Vim arrastando malas
sobre rodas
armada de uma chave
e direito de posse pela noite.
Só este espaço é meu
o resto desconheço.
Olho os aviões que sobem
e que descem num mesmo céu
cinzento.
E colhendo o silêncio
me pergunto
quantos já se mataram
nesses quartos
de quatrocentos dólares por dia
e tão acarpetado isolamento
Frankfurt 1994
não se ouvem aviões.
Nada me chega atrás de triplos vidros.
O único barulho é o respirar suave
do ar condicionado
e um estalar distante
quase inseto
que vem do frigobar
Ninguém me trouxe aqui.
Vim arrastando malas
sobre rodas
armada de uma chave
e direito de posse pela noite.
Só este espaço é meu
o resto desconheço.
Olho os aviões que sobem
e que descem num mesmo céu
cinzento.
E colhendo o silêncio
me pergunto
quantos já se mataram
nesses quartos
de quatrocentos dólares por dia
e tão acarpetado isolamento
Frankfurt 1994
853
Marina Colasanti
Enquanto o Respirar
O amor morreu
diz quem não sabe amar,
morreu a arte
o romance se foi
o autor está defunto.
Aninham-se os coveiros nas suas frases
enquanto o respirar das coisas mortas
ergue
sereno
o peito do mundo.
diz quem não sabe amar,
morreu a arte
o romance se foi
o autor está defunto.
Aninham-se os coveiros nas suas frases
enquanto o respirar das coisas mortas
ergue
sereno
o peito do mundo.
789
Marina Colasanti
HORA DO EMBARQUE
Respirou fundo
descalçou sapatos
agarrou-se perdida nos metais.
E com olhar viajante
já sem volta
ou perdão
embarcou suspirando
na balança.
descalçou sapatos
agarrou-se perdida nos metais.
E com olhar viajante
já sem volta
ou perdão
embarcou suspirando
na balança.
1 048
Marina Colasanti
HORA DO EMBARQUE
Respirou fundo
descalçou sapatos
agarrou-se perdida nos metais.
E com olhar viajante
já sem volta
ou perdão
embarcou suspirando
na balança.
descalçou sapatos
agarrou-se perdida nos metais.
E com olhar viajante
já sem volta
ou perdão
embarcou suspirando
na balança.
1 048
Marina Colasanti
Sistema solar
No prato oval
três peras
e o friso azul
barrado de dourado.
Quietude posta à mesa.
Lá fora a escuridão
feita de chuva.
Aqui três sóis
servidos no jantar
três peras
e o friso azul
barrado de dourado.
Quietude posta à mesa.
Lá fora a escuridão
feita de chuva.
Aqui três sóis
servidos no jantar
1 092
Marina Colasanti
NOTURNO DE HOPPER
Ninguém na rua
a madrugada oculta suas insônias
mas a luz é uma guilhotina amarela
no bar do Phillies
e um café morno e aguado sairá
das duas máquinas cromadas.
Sou a mulher ruiva vestida de vermelho
sou o homem de chapéu e terno escuro
sentado ao lado dela
e o outro, sozinho, que me volta as costas.
Talvez um dia venha a ser o garçom de roupa branca
mas por enquanto não
porque o garçom trabalha entre suas louças,
não espera
e só os outros sabem
que quando a manhã chegar sobre a cidade
continuarão ali na esquina escura
e ainda será noite atrás dos vidros
atrás dos vidros inexistentes
do bar do Phillies.
a madrugada oculta suas insônias
mas a luz é uma guilhotina amarela
no bar do Phillies
e um café morno e aguado sairá
das duas máquinas cromadas.
Sou a mulher ruiva vestida de vermelho
sou o homem de chapéu e terno escuro
sentado ao lado dela
e o outro, sozinho, que me volta as costas.
Talvez um dia venha a ser o garçom de roupa branca
mas por enquanto não
porque o garçom trabalha entre suas louças,
não espera
e só os outros sabem
que quando a manhã chegar sobre a cidade
continuarão ali na esquina escura
e ainda será noite atrás dos vidros
atrás dos vidros inexistentes
do bar do Phillies.
1 120
Marina Colasanti
NOTURNO DE HOPPER
Ninguém na rua
a madrugada oculta suas insônias
mas a luz é uma guilhotina amarela
no bar do Phillies
e um café morno e aguado sairá
das duas máquinas cromadas.
Sou a mulher ruiva vestida de vermelho
sou o homem de chapéu e terno escuro
sentado ao lado dela
e o outro, sozinho, que me volta as costas.
Talvez um dia venha a ser o garçom de roupa branca
mas por enquanto não
porque o garçom trabalha entre suas louças,
não espera
e só os outros sabem
que quando a manhã chegar sobre a cidade
continuarão ali na esquina escura
e ainda será noite atrás dos vidros
atrás dos vidros inexistentes
do bar do Phillies.
a madrugada oculta suas insônias
mas a luz é uma guilhotina amarela
no bar do Phillies
e um café morno e aguado sairá
das duas máquinas cromadas.
Sou a mulher ruiva vestida de vermelho
sou o homem de chapéu e terno escuro
sentado ao lado dela
e o outro, sozinho, que me volta as costas.
Talvez um dia venha a ser o garçom de roupa branca
mas por enquanto não
porque o garçom trabalha entre suas louças,
não espera
e só os outros sabem
que quando a manhã chegar sobre a cidade
continuarão ali na esquina escura
e ainda será noite atrás dos vidros
atrás dos vidros inexistentes
do bar do Phillies.
1 120
Marina Colasanti
CERIMÔNIA ACADÊMICA
Tédio e lustres de cristal
falsos dourados.
Palavras em caravana cruzam
o zumbir do ar refrigerado
lentamente
as vidraças refletem
as tantas roupas pretas penduradas
no cabide dos corpos.
Da rua nada nos chega
e nós
pomposos
não estamos nela.
falsos dourados.
Palavras em caravana cruzam
o zumbir do ar refrigerado
lentamente
as vidraças refletem
as tantas roupas pretas penduradas
no cabide dos corpos.
Da rua nada nos chega
e nós
pomposos
não estamos nela.
1 063
Marina Colasanti
CERIMÔNIA ACADÊMICA
Tédio e lustres de cristal
falsos dourados.
Palavras em caravana cruzam
o zumbir do ar refrigerado
lentamente
as vidraças refletem
as tantas roupas pretas penduradas
no cabide dos corpos.
Da rua nada nos chega
e nós
pomposos
não estamos nela.
falsos dourados.
Palavras em caravana cruzam
o zumbir do ar refrigerado
lentamente
as vidraças refletem
as tantas roupas pretas penduradas
no cabide dos corpos.
Da rua nada nos chega
e nós
pomposos
não estamos nela.
1 063
Marina Colasanti
AMISH COUNTRY
Neste país em que as roupas
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
1 209
Marina Colasanti
MEU AMIGO AO NÍVEL DO CHÃO
Quando vi meu amigo morto
deitado ao nível do chão
coberto por um pano
- ou teria sido plástico -
temi por ele
temi que baratas pudessem
Por que temer insetos
se em breve ele entraria
terra adentro
noite adentro?
Por que temer
tão pouco
se dos temores
o maior
já não podia temer?
deitado ao nível do chão
coberto por um pano
- ou teria sido plástico -
temi por ele
temi que baratas pudessem
Por que temer insetos
se em breve ele entraria
terra adentro
noite adentro?
Por que temer
tão pouco
se dos temores
o maior
já não podia temer?
1 162
Marina Colasanti
COLEÇÃO ALBERTINA OU A FELICIDADE DE PAPEL
Que serena se põe a minha alma
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem
embora encasacada.
Ecos chegam e passam
sem dar por mim
um tilintar de chaves se entrelaça
com a visão que guardo de um desenho
com o bater de saltos sobre a escada
e sons viajantes vêm de sala em sala
bater de portas
vozes
chamados
abafados relatos que o curador não vê
nem inclui no catálogo
legados que se aninham
na moldura de um quadro
na franja espessa da tapeçaria
esperando o esvaziar-se do museu
para calar-se enfim
ou fazer-se poeira.
Viena 1995
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem
embora encasacada.
Ecos chegam e passam
sem dar por mim
um tilintar de chaves se entrelaça
com a visão que guardo de um desenho
com o bater de saltos sobre a escada
e sons viajantes vêm de sala em sala
bater de portas
vozes
chamados
abafados relatos que o curador não vê
nem inclui no catálogo
legados que se aninham
na moldura de um quadro
na franja espessa da tapeçaria
esperando o esvaziar-se do museu
para calar-se enfim
ou fazer-se poeira.
Viena 1995
1 111
Marina Colasanti
ALI, ONDE
Onde a coxa acaba
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
1 211
Marina Colasanti
AO REDOR
Ao redor, a pele.
Que como a moeda
tem verso e reverso
onde só o verso reconhecemos
e chamamos por nome
pois ao reverso dizemos
carne.
Que como a folha
respira sem orificios
em toda sua lisa forma
incapaz porém
de clorofila e verde.
Que ao contrário do mar
é toda superficie
as suas funduras sendo
superficies secretas
Que como a água
que como o vento
se move sem ruído ou movimento
parada igual
e sempre irredutível.
A pele toma a forma
do corpo que contém?
Ou o corpo
dócil
à pele obedece?
Lisa ao olhar
embora as cicatrizes
a pele abriga o pó
e ao seu peso se entrega
e se desfaz.
Casca sensivel
que a faca fere
que a pedra rasga
que a força esmaga
a pele
não tem ferocidade.
É pele a unha
que da pele sai
ou ser estranho
que a pele abriga
como o areal
abriga a concha?
A pele não se deixa
penetrar por dedos.
A pele não cede à pele
mas com ela se magoa.
A pele
na pele
não deixa marcas.
E no entanto se rompe
para os olhos
o sexo
os orificios.
Se rompe?
Ou abre-se em texturas
e se permite conhecer aquilo
que interno
lhe é tão próximo
e distante?
Que como a moeda
tem verso e reverso
onde só o verso reconhecemos
e chamamos por nome
pois ao reverso dizemos
carne.
Que como a folha
respira sem orificios
em toda sua lisa forma
incapaz porém
de clorofila e verde.
Que ao contrário do mar
é toda superficie
as suas funduras sendo
superficies secretas
Que como a água
que como o vento
se move sem ruído ou movimento
parada igual
e sempre irredutível.
A pele toma a forma
do corpo que contém?
Ou o corpo
dócil
à pele obedece?
Lisa ao olhar
embora as cicatrizes
a pele abriga o pó
e ao seu peso se entrega
e se desfaz.
Casca sensivel
que a faca fere
que a pedra rasga
que a força esmaga
a pele
não tem ferocidade.
É pele a unha
que da pele sai
ou ser estranho
que a pele abriga
como o areal
abriga a concha?
A pele não se deixa
penetrar por dedos.
A pele não cede à pele
mas com ela se magoa.
A pele
na pele
não deixa marcas.
E no entanto se rompe
para os olhos
o sexo
os orificios.
Se rompe?
Ou abre-se em texturas
e se permite conhecer aquilo
que interno
lhe é tão próximo
e distante?
1 165
Allen Ginsberg
Guru
A lua é que desaparece
E as estrelas que se escondem, não Eu
É a Cidade que esvai, Eu fico
calçados esquecidos,
de calções invisíveis
O som um sino que chama
Primrose Hill. Maio, 1965.
E as estrelas que se escondem, não Eu
É a Cidade que esvai, Eu fico
calçados esquecidos,
de calções invisíveis
O som um sino que chama
Primrose Hill. Maio, 1965.
621
Allen Ginsberg
A Kerouac no Hospital
Gentis nos faz a morte; a dor que mata
a besta abate o hostil orgulho do destino
de saúde e desatino
Morta a besta, sua alma está liberta.
Um poeta na companhia de santos,
você deita e esconde o fumo que bafora.
Como num sonho conhecido: você,
exausto do hospital da vida,
conheceu a enfermidade eterna.
Não desejo,
Jack, que você melhore, pois há sempre
uma ferida; cujo corte mais profundo
é a consciência fútil da espera
vaidosa pela sua felicidade
Eu lhe desejo apenas necessidade.
Dezembro, 1945
a besta abate o hostil orgulho do destino
de saúde e desatino
Morta a besta, sua alma está liberta.
Um poeta na companhia de santos,
você deita e esconde o fumo que bafora.
Como num sonho conhecido: você,
exausto do hospital da vida,
conheceu a enfermidade eterna.
Não desejo,
Jack, que você melhore, pois há sempre
uma ferida; cujo corte mais profundo
é a consciência fútil da espera
vaidosa pela sua felicidade
Eu lhe desejo apenas necessidade.
Dezembro, 1945
788
Affonso Romano de Sant'Anna
Estranhamento
Estranho
que depois dos 40
esteja aprendendo
o que é o amor.
Que tolo então eu era
achando
que já sabia tudo de cor
pensando
que nesta matéria
não sentiria mais dor
pois dor e alegria me abalam
e humilde
– reaprendo quem sou.
Talvez pensasse
já ter resolvido a questão
quando na adolescência
morto de amor
vivi a ressurreição.
Mas o amor revém
com seu mistério sobre um homem
que em breve
será velho. Revém
e me humilha. Me humilha
e glorifica
me deixa doce e perplexo
enquanto minha carne
se estremece
– e maravilha.
que depois dos 40
esteja aprendendo
o que é o amor.
Que tolo então eu era
achando
que já sabia tudo de cor
pensando
que nesta matéria
não sentiria mais dor
pois dor e alegria me abalam
e humilde
– reaprendo quem sou.
Talvez pensasse
já ter resolvido a questão
quando na adolescência
morto de amor
vivi a ressurreição.
Mas o amor revém
com seu mistério sobre um homem
que em breve
será velho. Revém
e me humilha. Me humilha
e glorifica
me deixa doce e perplexo
enquanto minha carne
se estremece
– e maravilha.
1 167