Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Nuno Júdice
Acordar
Terá chegado a dormir? Os olhos não
o mostram; e as mãos, agarradas
à almofada, debaixo da cabeça, procuram
um apoio para o vazio em que mergulha. No
entanto, a linha paralela dos braços,
que a empurra para fora do quadro, é
contrariada pelo triângulo que se constrói a
partir dos vértices, doces e fundos,
dos mamilos e do umbigo. Algures,
num espaço em que o olhar se perde,
um mar sem fim convida à navegação
do amor, sem rumo nem porto à vista.
E limito-me a desenhar, mentalmente,
o triângulo invisível, hermético,
simétrico desse que o
lençol esconde. Então, peço-lhe
que feche os olhos e entreabra os lábios,
para que o desejo se solte do seu corpo,
como pássaro, e voe para o dia.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 66 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
o mostram; e as mãos, agarradas
à almofada, debaixo da cabeça, procuram
um apoio para o vazio em que mergulha. No
entanto, a linha paralela dos braços,
que a empurra para fora do quadro, é
contrariada pelo triângulo que se constrói a
partir dos vértices, doces e fundos,
dos mamilos e do umbigo. Algures,
num espaço em que o olhar se perde,
um mar sem fim convida à navegação
do amor, sem rumo nem porto à vista.
E limito-me a desenhar, mentalmente,
o triângulo invisível, hermético,
simétrico desse que o
lençol esconde. Então, peço-lhe
que feche os olhos e entreabra os lábios,
para que o desejo se solte do seu corpo,
como pássaro, e voe para o dia.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 66 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 453
Nuno Júdice
Lua
Apaga-se um grito negro quando as
foices
matinais decepam a noite . É o sol
que nasce, mesmo quando o olhar o
não alcança. São as aves que acordam,
em quantos arbustos, em
quantas margens! Mas
não os ouvimos. Nada nos acorda deste
fim de ceifa; e é o sonho
que nos prende, no seu campo
de nuvens, à pele de pérolas
pálidas da deusa
branca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 21 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
foices
matinais decepam a noite . É o sol
que nasce, mesmo quando o olhar o
não alcança. São as aves que acordam,
em quantos arbustos, em
quantas margens! Mas
não os ouvimos. Nada nos acorda deste
fim de ceifa; e é o sonho
que nos prende, no seu campo
de nuvens, à pele de pérolas
pálidas da deusa
branca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 21 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 274
Nuno Júdice
Arrufos
A rosa caída não respira, como um pássaro
morto; e o seu corpo, estendido na cama,
esgota o pranto da tarde, como se todas
as sombras do dia se juntassem à sua
volta. Poderia estender a mão, e apanhar
a flor; mas receia que outra mão se
interponha entre ela e a rosa, e a puxe
para o reino em que nenhum pássaro canta.
Por vezes, um soluço agita-lhe o ombro;
e é o seu único movimento, como
se não tivesse força para se erguer,
puxar os cabelos para trás da cabeça,
e olhar o vazio, onde se esconde
o destino que a assombra. «Pode ser
o destino da rosa», digo-lhe; e cito
Ronsard, para que ela me ouça, e siga
o rumo do pássaro, o que voou junto
à janela, e preferiu subir até ao azul
a entrar no mundo que não lhe pertence.
Mas permanece deitada, e fez desta
cama o seu ninho, como se pudesse nascer
daí para uma outra vida, ou uma outra rosa.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 74 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
morto; e o seu corpo, estendido na cama,
esgota o pranto da tarde, como se todas
as sombras do dia se juntassem à sua
volta. Poderia estender a mão, e apanhar
a flor; mas receia que outra mão se
interponha entre ela e a rosa, e a puxe
para o reino em que nenhum pássaro canta.
Por vezes, um soluço agita-lhe o ombro;
e é o seu único movimento, como
se não tivesse força para se erguer,
puxar os cabelos para trás da cabeça,
e olhar o vazio, onde se esconde
o destino que a assombra. «Pode ser
o destino da rosa», digo-lhe; e cito
Ronsard, para que ela me ouça, e siga
o rumo do pássaro, o que voou junto
à janela, e preferiu subir até ao azul
a entrar no mundo que não lhe pertence.
Mas permanece deitada, e fez desta
cama o seu ninho, como se pudesse nascer
daí para uma outra vida, ou uma outra rosa.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 74 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
987
Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice - 1
Assim os vivos também se tornam fantasmas: Bato-lhes à porta da alma, vagueio num descampado de sentimentos, chamo-os - e vejo-os partir. Construo a solidão com os pedaços das imagens que me deixaram. Ergo edifícios a partir de memórias, de palavras, de gestos que ficaram das nossas conversas, quando o tempo se reduzia ao instante que vivíamos, e nenhum futuro nos impunha a sua sombra. Agora, porém, a que estação te irei buscar? Em que banco de jardim te irei surpreender, olhando essa manhã que marca a separação dos amantes? Limito-me a esperar que esta porta se abra, uma vez mais, e a Primavera entre para este quarto onde a noite se instalou.
No entanto, és tu que eu quero guardar neste canto onde as aves fugiram. Sei que um pressentimento de Outono fez cair todas as folhas, deixando à vista o horizonte seco como esse espelho onde nada se reflecte, com o seu descanso mais negro. Será isso aquilo a que se chama amor? Ouve: os murmúrios que nascem de uma entrega de corpos, por entre os silêncios da casa, ou então sobrepondo-se a um vago ruído de chuva, nos vidros, enquanto o desejo corre pelos teus lábios como a nuvem mais frágil do destino. E ainda: a música quem impões a plenitude de uma recompensa, como se ela pudesse durar mais do que o tempo que nos é imposto? Dizes-me: um dom doloroso. Mas o que é o amor senão esse trabalho de renúncia e entrega, a lenta bebida que nos impregna com o seu veneno, e nos concede a única vida possível?
Então, regressa da tua ausência; ou dá-me ao menos a tua sombra, para que ela me cubra com esse manto de obstinação que só os tristes arrastam.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 49 e 50 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
No entanto, és tu que eu quero guardar neste canto onde as aves fugiram. Sei que um pressentimento de Outono fez cair todas as folhas, deixando à vista o horizonte seco como esse espelho onde nada se reflecte, com o seu descanso mais negro. Será isso aquilo a que se chama amor? Ouve: os murmúrios que nascem de uma entrega de corpos, por entre os silêncios da casa, ou então sobrepondo-se a um vago ruído de chuva, nos vidros, enquanto o desejo corre pelos teus lábios como a nuvem mais frágil do destino. E ainda: a música quem impões a plenitude de uma recompensa, como se ela pudesse durar mais do que o tempo que nos é imposto? Dizes-me: um dom doloroso. Mas o que é o amor senão esse trabalho de renúncia e entrega, a lenta bebida que nos impregna com o seu veneno, e nos concede a única vida possível?
Então, regressa da tua ausência; ou dá-me ao menos a tua sombra, para que ela me cubra com esse manto de obstinação que só os tristes arrastam.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 49 e 50 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 240
Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice - 1
Assim os vivos também se tornam fantasmas: Bato-lhes à porta da alma, vagueio num descampado de sentimentos, chamo-os - e vejo-os partir. Construo a solidão com os pedaços das imagens que me deixaram. Ergo edifícios a partir de memórias, de palavras, de gestos que ficaram das nossas conversas, quando o tempo se reduzia ao instante que vivíamos, e nenhum futuro nos impunha a sua sombra. Agora, porém, a que estação te irei buscar? Em que banco de jardim te irei surpreender, olhando essa manhã que marca a separação dos amantes? Limito-me a esperar que esta porta se abra, uma vez mais, e a Primavera entre para este quarto onde a noite se instalou.
No entanto, és tu que eu quero guardar neste canto onde as aves fugiram. Sei que um pressentimento de Outono fez cair todas as folhas, deixando à vista o horizonte seco como esse espelho onde nada se reflecte, com o seu descanso mais negro. Será isso aquilo a que se chama amor? Ouve: os murmúrios que nascem de uma entrega de corpos, por entre os silêncios da casa, ou então sobrepondo-se a um vago ruído de chuva, nos vidros, enquanto o desejo corre pelos teus lábios como a nuvem mais frágil do destino. E ainda: a música quem impões a plenitude de uma recompensa, como se ela pudesse durar mais do que o tempo que nos é imposto? Dizes-me: um dom doloroso. Mas o que é o amor senão esse trabalho de renúncia e entrega, a lenta bebida que nos impregna com o seu veneno, e nos concede a única vida possível?
Então, regressa da tua ausência; ou dá-me ao menos a tua sombra, para que ela me cubra com esse manto de obstinação que só os tristes arrastam.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 49 e 50 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
No entanto, és tu que eu quero guardar neste canto onde as aves fugiram. Sei que um pressentimento de Outono fez cair todas as folhas, deixando à vista o horizonte seco como esse espelho onde nada se reflecte, com o seu descanso mais negro. Será isso aquilo a que se chama amor? Ouve: os murmúrios que nascem de uma entrega de corpos, por entre os silêncios da casa, ou então sobrepondo-se a um vago ruído de chuva, nos vidros, enquanto o desejo corre pelos teus lábios como a nuvem mais frágil do destino. E ainda: a música quem impões a plenitude de uma recompensa, como se ela pudesse durar mais do que o tempo que nos é imposto? Dizes-me: um dom doloroso. Mas o que é o amor senão esse trabalho de renúncia e entrega, a lenta bebida que nos impregna com o seu veneno, e nos concede a única vida possível?
Então, regressa da tua ausência; ou dá-me ao menos a tua sombra, para que ela me cubra com esse manto de obstinação que só os tristes arrastam.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 49 e 50 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 240
Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice - 1
Assim os vivos também se tornam fantasmas: Bato-lhes à porta da alma, vagueio num descampado de sentimentos, chamo-os - e vejo-os partir. Construo a solidão com os pedaços das imagens que me deixaram. Ergo edifícios a partir de memórias, de palavras, de gestos que ficaram das nossas conversas, quando o tempo se reduzia ao instante que vivíamos, e nenhum futuro nos impunha a sua sombra. Agora, porém, a que estação te irei buscar? Em que banco de jardim te irei surpreender, olhando essa manhã que marca a separação dos amantes? Limito-me a esperar que esta porta se abra, uma vez mais, e a Primavera entre para este quarto onde a noite se instalou.
No entanto, és tu que eu quero guardar neste canto onde as aves fugiram. Sei que um pressentimento de Outono fez cair todas as folhas, deixando à vista o horizonte seco como esse espelho onde nada se reflecte, com o seu descanso mais negro. Será isso aquilo a que se chama amor? Ouve: os murmúrios que nascem de uma entrega de corpos, por entre os silêncios da casa, ou então sobrepondo-se a um vago ruído de chuva, nos vidros, enquanto o desejo corre pelos teus lábios como a nuvem mais frágil do destino. E ainda: a música quem impões a plenitude de uma recompensa, como se ela pudesse durar mais do que o tempo que nos é imposto? Dizes-me: um dom doloroso. Mas o que é o amor senão esse trabalho de renúncia e entrega, a lenta bebida que nos impregna com o seu veneno, e nos concede a única vida possível?
Então, regressa da tua ausência; ou dá-me ao menos a tua sombra, para que ela me cubra com esse manto de obstinação que só os tristes arrastam.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 49 e 50 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
No entanto, és tu que eu quero guardar neste canto onde as aves fugiram. Sei que um pressentimento de Outono fez cair todas as folhas, deixando à vista o horizonte seco como esse espelho onde nada se reflecte, com o seu descanso mais negro. Será isso aquilo a que se chama amor? Ouve: os murmúrios que nascem de uma entrega de corpos, por entre os silêncios da casa, ou então sobrepondo-se a um vago ruído de chuva, nos vidros, enquanto o desejo corre pelos teus lábios como a nuvem mais frágil do destino. E ainda: a música quem impões a plenitude de uma recompensa, como se ela pudesse durar mais do que o tempo que nos é imposto? Dizes-me: um dom doloroso. Mas o que é o amor senão esse trabalho de renúncia e entrega, a lenta bebida que nos impregna com o seu veneno, e nos concede a única vida possível?
Então, regressa da tua ausência; ou dá-me ao menos a tua sombra, para que ela me cubra com esse manto de obstinação que só os tristes arrastam.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 49 e 50 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 240
Ruy Belo
Imaginatio locorum
Era uma vez talvez algum país de sinos
de sons entreouvidos no passado
constantemente renovado de quem morre cada dia
e forra de manhãs o interior dos olhos
pastor de escolhos vários entre os limos e os nimbos
Talvez ainda agora haja crianças
ou venha no inverno saudar-nos o verão
Talvez primeiros passos olhos limpos
escolas jogos coisas novamente novas haja ainda
Sob as pontes do Tibre a mesma água correrá talvez
Talvez na minha tarde tudo caiba ainda
chuva no olhar ou ave núbil sobre a rubra Babilónia
e suba no entulho a derrocada casa cedo percorrida
ou nasçam nas regueiras pela primavera outra vez as rãs
- ah! poder eu molhar os meus actuais pés pela primeira vez
Caíram as maçãs onde nupcial algum rosto ondulava
havia muita gente a proteger-me
e não tinha talvez chovido ainda
Talvez possa chorar à periferia a beira-mar da minha vida
talvez seja cantar o último recurso
Talvez eu espere o mês possível entre abril e maio
o calmo manto sobre a agitação dos homens
a ilha - ó cisne, ó ilha branca de bondade -
a hora-pérola o rosto inabordável mas familiar
frequentes braços sobre penas e cansaços
a voz não conhecida e afinal a prometida
contida numa pedra branca e sempre nova apesar de sem cessar a mesma
Talvez além dos montes haja a única cidade
a do inverno dos pinhais do vento
dos novelos de vida além das evidentes oliveiras
do fim definitivo de semana
de cada um dos dias esmagados contra a mais aguda esquina
das lágrimas das névoas ou do mar
(afinal pouco mais neste país eu quis cantar:
talvez nem mesmo o mar nem uns olhos ocasionais
- todos aqueles por onde tu não vais
nem jamais podes ir)
Talvez nos reste uma janela sobre a madrugada
cingindo o rosto aos mais distantes gestos
Acerquemo-nos mais: talvez possamos ser apenas um
num corpo só uma infância comum
Pela janela o sol e o comboio o sino e mesmo o cão
- nenhuma outra voz que não
a sua entre nós e a proibida aldeia
e os áditos de Deus e o coração da suspirada tarde
e o anónimo assobio perdido na azinhaga
com cheiros e com vozes e com passos de crianças
naquela inquietude que em si mesma se compraz
Como saber de mim? Eu - que diabo! -
apesar de estrangeiro atrás da face pelo tempo atribuída
e de enxertado em oliveira e zambujeiro
talvez ainda tenha algumas tias
Talvez eu reconquiste ainda a minha tão perdida aldeia
e vá colhendo espargos ao longo do muro
senhor de mim como quem sabe as horas certas e notando ingenuamente
como por ser domingo as coisas que se vêem são diferentes
É talvez esse o dia em que recolho os olhos
e molho de maresia a mais vazia dor da minha ausência
Como encontrar-me? É ver-me nesse ou noutro dia
debaixo do olhar da mais jovem mulher
que como um manto branco pelos dias se desdobra
em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela
setenta vezes vista blasfemada e admirada
sempre deserta e sempre povoada
aonde vale a pena o pôr-do-sol
e a palavra é mais que nunca provisória
Não temos o direito à alegria nem talvez
ao próximo rumor do mar ditante
Nas margens do Halis talvez habite ainda
a esperança de que os deuses encham tudo
o cheiro do jornal a tragédia da música na rua
o coração fechado à primeira manhã
as tardes de novembro a dor de folha em folha
Talvez o persistente trigo esconda um pouco da verdade
Talvez seja de Deus o nosso tempo
E a alegria é uma casa demolida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 77 a 79 | Editorial Presença Lda., 1984
de sons entreouvidos no passado
constantemente renovado de quem morre cada dia
e forra de manhãs o interior dos olhos
pastor de escolhos vários entre os limos e os nimbos
Talvez ainda agora haja crianças
ou venha no inverno saudar-nos o verão
Talvez primeiros passos olhos limpos
escolas jogos coisas novamente novas haja ainda
Sob as pontes do Tibre a mesma água correrá talvez
Talvez na minha tarde tudo caiba ainda
chuva no olhar ou ave núbil sobre a rubra Babilónia
e suba no entulho a derrocada casa cedo percorrida
ou nasçam nas regueiras pela primavera outra vez as rãs
- ah! poder eu molhar os meus actuais pés pela primeira vez
Caíram as maçãs onde nupcial algum rosto ondulava
havia muita gente a proteger-me
e não tinha talvez chovido ainda
Talvez possa chorar à periferia a beira-mar da minha vida
talvez seja cantar o último recurso
Talvez eu espere o mês possível entre abril e maio
o calmo manto sobre a agitação dos homens
a ilha - ó cisne, ó ilha branca de bondade -
a hora-pérola o rosto inabordável mas familiar
frequentes braços sobre penas e cansaços
a voz não conhecida e afinal a prometida
contida numa pedra branca e sempre nova apesar de sem cessar a mesma
Talvez além dos montes haja a única cidade
a do inverno dos pinhais do vento
dos novelos de vida além das evidentes oliveiras
do fim definitivo de semana
de cada um dos dias esmagados contra a mais aguda esquina
das lágrimas das névoas ou do mar
(afinal pouco mais neste país eu quis cantar:
talvez nem mesmo o mar nem uns olhos ocasionais
- todos aqueles por onde tu não vais
nem jamais podes ir)
Talvez nos reste uma janela sobre a madrugada
cingindo o rosto aos mais distantes gestos
Acerquemo-nos mais: talvez possamos ser apenas um
num corpo só uma infância comum
Pela janela o sol e o comboio o sino e mesmo o cão
- nenhuma outra voz que não
a sua entre nós e a proibida aldeia
e os áditos de Deus e o coração da suspirada tarde
e o anónimo assobio perdido na azinhaga
com cheiros e com vozes e com passos de crianças
naquela inquietude que em si mesma se compraz
Como saber de mim? Eu - que diabo! -
apesar de estrangeiro atrás da face pelo tempo atribuída
e de enxertado em oliveira e zambujeiro
talvez ainda tenha algumas tias
Talvez eu reconquiste ainda a minha tão perdida aldeia
e vá colhendo espargos ao longo do muro
senhor de mim como quem sabe as horas certas e notando ingenuamente
como por ser domingo as coisas que se vêem são diferentes
É talvez esse o dia em que recolho os olhos
e molho de maresia a mais vazia dor da minha ausência
Como encontrar-me? É ver-me nesse ou noutro dia
debaixo do olhar da mais jovem mulher
que como um manto branco pelos dias se desdobra
em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela
setenta vezes vista blasfemada e admirada
sempre deserta e sempre povoada
aonde vale a pena o pôr-do-sol
e a palavra é mais que nunca provisória
Não temos o direito à alegria nem talvez
ao próximo rumor do mar ditante
Nas margens do Halis talvez habite ainda
a esperança de que os deuses encham tudo
o cheiro do jornal a tragédia da música na rua
o coração fechado à primeira manhã
as tardes de novembro a dor de folha em folha
Talvez o persistente trigo esconda um pouco da verdade
Talvez seja de Deus o nosso tempo
E a alegria é uma casa demolida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 77 a 79 | Editorial Presença Lda., 1984
1 256
Ruy Belo
Imaginatio locorum
Era uma vez talvez algum país de sinos
de sons entreouvidos no passado
constantemente renovado de quem morre cada dia
e forra de manhãs o interior dos olhos
pastor de escolhos vários entre os limos e os nimbos
Talvez ainda agora haja crianças
ou venha no inverno saudar-nos o verão
Talvez primeiros passos olhos limpos
escolas jogos coisas novamente novas haja ainda
Sob as pontes do Tibre a mesma água correrá talvez
Talvez na minha tarde tudo caiba ainda
chuva no olhar ou ave núbil sobre a rubra Babilónia
e suba no entulho a derrocada casa cedo percorrida
ou nasçam nas regueiras pela primavera outra vez as rãs
- ah! poder eu molhar os meus actuais pés pela primeira vez
Caíram as maçãs onde nupcial algum rosto ondulava
havia muita gente a proteger-me
e não tinha talvez chovido ainda
Talvez possa chorar à periferia a beira-mar da minha vida
talvez seja cantar o último recurso
Talvez eu espere o mês possível entre abril e maio
o calmo manto sobre a agitação dos homens
a ilha - ó cisne, ó ilha branca de bondade -
a hora-pérola o rosto inabordável mas familiar
frequentes braços sobre penas e cansaços
a voz não conhecida e afinal a prometida
contida numa pedra branca e sempre nova apesar de sem cessar a mesma
Talvez além dos montes haja a única cidade
a do inverno dos pinhais do vento
dos novelos de vida além das evidentes oliveiras
do fim definitivo de semana
de cada um dos dias esmagados contra a mais aguda esquina
das lágrimas das névoas ou do mar
(afinal pouco mais neste país eu quis cantar:
talvez nem mesmo o mar nem uns olhos ocasionais
- todos aqueles por onde tu não vais
nem jamais podes ir)
Talvez nos reste uma janela sobre a madrugada
cingindo o rosto aos mais distantes gestos
Acerquemo-nos mais: talvez possamos ser apenas um
num corpo só uma infância comum
Pela janela o sol e o comboio o sino e mesmo o cão
- nenhuma outra voz que não
a sua entre nós e a proibida aldeia
e os áditos de Deus e o coração da suspirada tarde
e o anónimo assobio perdido na azinhaga
com cheiros e com vozes e com passos de crianças
naquela inquietude que em si mesma se compraz
Como saber de mim? Eu - que diabo! -
apesar de estrangeiro atrás da face pelo tempo atribuída
e de enxertado em oliveira e zambujeiro
talvez ainda tenha algumas tias
Talvez eu reconquiste ainda a minha tão perdida aldeia
e vá colhendo espargos ao longo do muro
senhor de mim como quem sabe as horas certas e notando ingenuamente
como por ser domingo as coisas que se vêem são diferentes
É talvez esse o dia em que recolho os olhos
e molho de maresia a mais vazia dor da minha ausência
Como encontrar-me? É ver-me nesse ou noutro dia
debaixo do olhar da mais jovem mulher
que como um manto branco pelos dias se desdobra
em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela
setenta vezes vista blasfemada e admirada
sempre deserta e sempre povoada
aonde vale a pena o pôr-do-sol
e a palavra é mais que nunca provisória
Não temos o direito à alegria nem talvez
ao próximo rumor do mar ditante
Nas margens do Halis talvez habite ainda
a esperança de que os deuses encham tudo
o cheiro do jornal a tragédia da música na rua
o coração fechado à primeira manhã
as tardes de novembro a dor de folha em folha
Talvez o persistente trigo esconda um pouco da verdade
Talvez seja de Deus o nosso tempo
E a alegria é uma casa demolida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 77 a 79 | Editorial Presença Lda., 1984
de sons entreouvidos no passado
constantemente renovado de quem morre cada dia
e forra de manhãs o interior dos olhos
pastor de escolhos vários entre os limos e os nimbos
Talvez ainda agora haja crianças
ou venha no inverno saudar-nos o verão
Talvez primeiros passos olhos limpos
escolas jogos coisas novamente novas haja ainda
Sob as pontes do Tibre a mesma água correrá talvez
Talvez na minha tarde tudo caiba ainda
chuva no olhar ou ave núbil sobre a rubra Babilónia
e suba no entulho a derrocada casa cedo percorrida
ou nasçam nas regueiras pela primavera outra vez as rãs
- ah! poder eu molhar os meus actuais pés pela primeira vez
Caíram as maçãs onde nupcial algum rosto ondulava
havia muita gente a proteger-me
e não tinha talvez chovido ainda
Talvez possa chorar à periferia a beira-mar da minha vida
talvez seja cantar o último recurso
Talvez eu espere o mês possível entre abril e maio
o calmo manto sobre a agitação dos homens
a ilha - ó cisne, ó ilha branca de bondade -
a hora-pérola o rosto inabordável mas familiar
frequentes braços sobre penas e cansaços
a voz não conhecida e afinal a prometida
contida numa pedra branca e sempre nova apesar de sem cessar a mesma
Talvez além dos montes haja a única cidade
a do inverno dos pinhais do vento
dos novelos de vida além das evidentes oliveiras
do fim definitivo de semana
de cada um dos dias esmagados contra a mais aguda esquina
das lágrimas das névoas ou do mar
(afinal pouco mais neste país eu quis cantar:
talvez nem mesmo o mar nem uns olhos ocasionais
- todos aqueles por onde tu não vais
nem jamais podes ir)
Talvez nos reste uma janela sobre a madrugada
cingindo o rosto aos mais distantes gestos
Acerquemo-nos mais: talvez possamos ser apenas um
num corpo só uma infância comum
Pela janela o sol e o comboio o sino e mesmo o cão
- nenhuma outra voz que não
a sua entre nós e a proibida aldeia
e os áditos de Deus e o coração da suspirada tarde
e o anónimo assobio perdido na azinhaga
com cheiros e com vozes e com passos de crianças
naquela inquietude que em si mesma se compraz
Como saber de mim? Eu - que diabo! -
apesar de estrangeiro atrás da face pelo tempo atribuída
e de enxertado em oliveira e zambujeiro
talvez ainda tenha algumas tias
Talvez eu reconquiste ainda a minha tão perdida aldeia
e vá colhendo espargos ao longo do muro
senhor de mim como quem sabe as horas certas e notando ingenuamente
como por ser domingo as coisas que se vêem são diferentes
É talvez esse o dia em que recolho os olhos
e molho de maresia a mais vazia dor da minha ausência
Como encontrar-me? É ver-me nesse ou noutro dia
debaixo do olhar da mais jovem mulher
que como um manto branco pelos dias se desdobra
em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela
setenta vezes vista blasfemada e admirada
sempre deserta e sempre povoada
aonde vale a pena o pôr-do-sol
e a palavra é mais que nunca provisória
Não temos o direito à alegria nem talvez
ao próximo rumor do mar ditante
Nas margens do Halis talvez habite ainda
a esperança de que os deuses encham tudo
o cheiro do jornal a tragédia da música na rua
o coração fechado à primeira manhã
as tardes de novembro a dor de folha em folha
Talvez o persistente trigo esconda um pouco da verdade
Talvez seja de Deus o nosso tempo
E a alegria é uma casa demolida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 77 a 79 | Editorial Presença Lda., 1984
1 256
Nuno Júdice
Um retrato de mulher com vestido branco
É o teu rosto que eu destaco sobre a pose
convencional e uma expressão de indiferença
ou cansaço, que as mãos presas uma na outra
sublinham. O cabelo cortado, de onde sobressai
a orelha; e os lábios cor de vida, que
bebem o brilho nascido dos teus olhos. Queria
tirar-te daí, e ver-te rir; ou ouvir o
teu desabafo, libertando-te da figura
de velho que te olha da tela pendurada
na parede. No fundo, já não estás aí;
e o teu pensamento viaja no sentido
oblíquo onde fica uma janela, uma porta,
qualquer saída para a perfeição do teu gesto.
Mas continuas imóvel, obedecendo
ao pintor; e é a tua ausência
que eu vejo, por dentro do vestido branco
onde secaram já todas as flores da primavera.
convencional e uma expressão de indiferença
ou cansaço, que as mãos presas uma na outra
sublinham. O cabelo cortado, de onde sobressai
a orelha; e os lábios cor de vida, que
bebem o brilho nascido dos teus olhos. Queria
tirar-te daí, e ver-te rir; ou ouvir o
teu desabafo, libertando-te da figura
de velho que te olha da tela pendurada
na parede. No fundo, já não estás aí;
e o teu pensamento viaja no sentido
oblíquo onde fica uma janela, uma porta,
qualquer saída para a perfeição do teu gesto.
Mas continuas imóvel, obedecendo
ao pintor; e é a tua ausência
que eu vejo, por dentro do vestido branco
onde secaram já todas as flores da primavera.
1 246
Nuno Júdice
Faço um castelo na areia
Faço um castelo na areia do futuro. Torres
de névoa, ameias de fumo, pontes levadiças
de indecisão. Vejo a areia escoar-se
na ampulheta dos séculos; e um exército
de ondas rompe as linhas do infinito,
derrubando os muros da manhã.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 28 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
de névoa, ameias de fumo, pontes levadiças
de indecisão. Vejo a areia escoar-se
na ampulheta dos séculos; e um exército
de ondas rompe as linhas do infinito,
derrubando os muros da manhã.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 28 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 871
Nuno Júdice
A varanda de Julieta
Uma vez, entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 26 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 26 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 859
Ruy Belo
Meditação magoada
Deixa-me olhar-te pássaro real
A saltitar nesta tarde esquecida
Como uma clara afirmação de vida
Mesmo porque esse teu corpo vale.
Que alguma coisa morre em cada qual
Leio-o nessa cabeça ao alto erguida
Mas tens a alegria extrovertida
De não sentir em ti o nosso mal.
Somos contemporâneos meu amigo
Por isso posso conviver contigo
Compartilhar o orgulho de estar vivo.
Eu penso e tu não pensas é que é certo:
Tu a saltar e eu aqui tão perto
A pensar que da morte não me privo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 164 | Editorial Presença Lda., 1984
A saltitar nesta tarde esquecida
Como uma clara afirmação de vida
Mesmo porque esse teu corpo vale.
Que alguma coisa morre em cada qual
Leio-o nessa cabeça ao alto erguida
Mas tens a alegria extrovertida
De não sentir em ti o nosso mal.
Somos contemporâneos meu amigo
Por isso posso conviver contigo
Compartilhar o orgulho de estar vivo.
Eu penso e tu não pensas é que é certo:
Tu a saltar e eu aqui tão perto
A pensar que da morte não me privo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 164 | Editorial Presença Lda., 1984
1 000
Nuno Júdice
Um lírio no vale
Nua, encosta-se ao que pode ser uma parede
de pano, com erupções líquidas, uma doçura
de musgo, e a cor branca da primavera.
A mão, displicente, apoia-se na anca, numa
impaciência que transparece nos cabelos
soltos de uma noite de amor. A outra
mão, porém, segura um lírio sobre o seio;
e o olhar desce na sua direcção, como
se quisesse saborear o gesto em que uma
falsa timidez se manifesta. Há quanto
tempo está ali? Quem a deixou entregue
ao abandono da sua sombra?
No entanto, com um sorriso irónico,
convida-nos a entrar; e talvez
nos diga o que espera ainda, enquanto
o tempo passa pelo rio do seu corpo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 64 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
de pano, com erupções líquidas, uma doçura
de musgo, e a cor branca da primavera.
A mão, displicente, apoia-se na anca, numa
impaciência que transparece nos cabelos
soltos de uma noite de amor. A outra
mão, porém, segura um lírio sobre o seio;
e o olhar desce na sua direcção, como
se quisesse saborear o gesto em que uma
falsa timidez se manifesta. Há quanto
tempo está ali? Quem a deixou entregue
ao abandono da sua sombra?
No entanto, com um sorriso irónico,
convida-nos a entrar; e talvez
nos diga o que espera ainda, enquanto
o tempo passa pelo rio do seu corpo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 64 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 330
Ruy Belo
Quadras quase populares
Sei tão de cor estes dias
que a única emoção forte
seria ele vir até mim
do fundo da sua morte
Nua a cruz a mesa lisa
Na mínima paisagem
branco e redondo de coragem
quanto couber no tempo agoniza
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 37 | Editorial Presença Lda., 1984
que a única emoção forte
seria ele vir até mim
do fundo da sua morte
Nua a cruz a mesa lisa
Na mínima paisagem
branco e redondo de coragem
quanto couber no tempo agoniza
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 37 | Editorial Presença Lda., 1984
868
Ruy Belo
Quadras quase populares
Sei tão de cor estes dias
que a única emoção forte
seria ele vir até mim
do fundo da sua morte
Nua a cruz a mesa lisa
Na mínima paisagem
branco e redondo de coragem
quanto couber no tempo agoniza
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 37 | Editorial Presença Lda., 1984
que a única emoção forte
seria ele vir até mim
do fundo da sua morte
Nua a cruz a mesa lisa
Na mínima paisagem
branco e redondo de coragem
quanto couber no tempo agoniza
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 37 | Editorial Presença Lda., 1984
868
Ruy Belo
Cinco palavras cinco pedras
Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
E em parte resume o que penso da vida
Passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
E delas vem a música precisa
Para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando OS deuses eram grandes
Eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 148 | Editorial Presença Lda., 1984
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
E em parte resume o que penso da vida
Passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
E delas vem a música precisa
Para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando OS deuses eram grandes
Eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 148 | Editorial Presença Lda., 1984
2 137
Ruy Belo
Cinco palavras cinco pedras
Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
E em parte resume o que penso da vida
Passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
E delas vem a música precisa
Para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando OS deuses eram grandes
Eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 148 | Editorial Presença Lda., 1984
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
E em parte resume o que penso da vida
Passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
E delas vem a música precisa
Para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando OS deuses eram grandes
Eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 148 | Editorial Presença Lda., 1984
2 137
Ruy Belo
Cinco palavras cinco pedras
Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
E em parte resume o que penso da vida
Passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
E delas vem a música precisa
Para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando OS deuses eram grandes
Eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 148 | Editorial Presença Lda., 1984
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
E em parte resume o que penso da vida
Passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
E delas vem a música precisa
Para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando OS deuses eram grandes
Eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 148 | Editorial Presença Lda., 1984
2 137
Ruy Belo
Inscrição
Na face dele havia risos vivos
que lhe escorriam da alma para a boca
Já cá não está já não pisa estes prados
nem sobre ele se desdobra rubro este céu
Não há para ele palavra possível
Ele é como a camélia que morreu
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
que lhe escorriam da alma para a boca
Já cá não está já não pisa estes prados
nem sobre ele se desdobra rubro este céu
Não há para ele palavra possível
Ele é como a camélia que morreu
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
1 032
Ruy Belo
O templo
É onde se não vai directamente e no entanto o espaço vence
Muitos dos gestos para já não dizem nada
e sobretudo há o silêncio e há mãos para tudo
o que sobeja. Eu ia à minha vida
e entro e não sei da minha vida
Eu tinha gente à espera, assuntos sítios onde ir
e um amigo cresce cresce. E saio para a rua
e depressa - ai de mim - há fim em quanto faço
Já fui uma criança e quase sempre esqueço
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 109 | Editorial Presença Lda., 1984
Muitos dos gestos para já não dizem nada
e sobretudo há o silêncio e há mãos para tudo
o que sobeja. Eu ia à minha vida
e entro e não sei da minha vida
Eu tinha gente à espera, assuntos sítios onde ir
e um amigo cresce cresce. E saio para a rua
e depressa - ai de mim - há fim em quanto faço
Já fui uma criança e quase sempre esqueço
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 109 | Editorial Presença Lda., 1984
1 507
Nuno Júdice
Beatitude
No paraíso, na idade de ouro,
ouvindo os anjos tocarem alaúde
e flauta, as nuvens acorrem
como ovelhas
à sua beira. Então, os santos
pegam nas tesouras e começam
a tosquia das nuvens. Lá
em baixo, nos prados onde as almas
se juntam, começa a chover: e como
já não haverá guarda-chuvas,
na idade de ouro,
as almas constipam-se,
amaldiçoando
as ovelhas, as nuvens
e os santos. Só os anjos, continuando
a tocar, se riem, beatíficos, ouvindo
o bater da chuva
por entre o espirrar
das almas.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 16 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
ouvindo os anjos tocarem alaúde
e flauta, as nuvens acorrem
como ovelhas
à sua beira. Então, os santos
pegam nas tesouras e começam
a tosquia das nuvens. Lá
em baixo, nos prados onde as almas
se juntam, começa a chover: e como
já não haverá guarda-chuvas,
na idade de ouro,
as almas constipam-se,
amaldiçoando
as ovelhas, as nuvens
e os santos. Só os anjos, continuando
a tocar, se riem, beatíficos, ouvindo
o bater da chuva
por entre o espirrar
das almas.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 16 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 168
Ruy Belo
Sexta-feira sol dourado
Sexta-feira sol dourado
esperança de solução de todos os problemas
não por à sexta-feira ter morrido cristo
que o poeta aliás comemora a comer bacalhau
ou outro peixe trocado pelos pescadores
que morreram ou morrerão no mar
esse peixe que antes nos chegava directamente
e agora passa pelas mãos do almirante henrique tenreiro
sexta-feira sol dourado
não por à sexta-feira ter morrido cristo
mas por se dispor da semana americana
Agora é que vamos ser felizes
A sexta-feira chega enche-se o peito de ar
a eternidade é não haver papéis
a vida muda vamos contestar
talvez assim se consiga aumentar
a duração média da vida humana
Sexta-feira sol dourado
que alegria ser poeta português
Portugal fica em frente
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 144 e 145 | Editorial Presença Lda., 1984
esperança de solução de todos os problemas
não por à sexta-feira ter morrido cristo
que o poeta aliás comemora a comer bacalhau
ou outro peixe trocado pelos pescadores
que morreram ou morrerão no mar
esse peixe que antes nos chegava directamente
e agora passa pelas mãos do almirante henrique tenreiro
sexta-feira sol dourado
não por à sexta-feira ter morrido cristo
mas por se dispor da semana americana
Agora é que vamos ser felizes
A sexta-feira chega enche-se o peito de ar
a eternidade é não haver papéis
a vida muda vamos contestar
talvez assim se consiga aumentar
a duração média da vida humana
Sexta-feira sol dourado
que alegria ser poeta português
Portugal fica em frente
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 144 e 145 | Editorial Presença Lda., 1984
1 472
Ruy Belo
Sexta-feira sol dourado
Sexta-feira sol dourado
esperança de solução de todos os problemas
não por à sexta-feira ter morrido cristo
que o poeta aliás comemora a comer bacalhau
ou outro peixe trocado pelos pescadores
que morreram ou morrerão no mar
esse peixe que antes nos chegava directamente
e agora passa pelas mãos do almirante henrique tenreiro
sexta-feira sol dourado
não por à sexta-feira ter morrido cristo
mas por se dispor da semana americana
Agora é que vamos ser felizes
A sexta-feira chega enche-se o peito de ar
a eternidade é não haver papéis
a vida muda vamos contestar
talvez assim se consiga aumentar
a duração média da vida humana
Sexta-feira sol dourado
que alegria ser poeta português
Portugal fica em frente
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 144 e 145 | Editorial Presença Lda., 1984
esperança de solução de todos os problemas
não por à sexta-feira ter morrido cristo
que o poeta aliás comemora a comer bacalhau
ou outro peixe trocado pelos pescadores
que morreram ou morrerão no mar
esse peixe que antes nos chegava directamente
e agora passa pelas mãos do almirante henrique tenreiro
sexta-feira sol dourado
não por à sexta-feira ter morrido cristo
mas por se dispor da semana americana
Agora é que vamos ser felizes
A sexta-feira chega enche-se o peito de ar
a eternidade é não haver papéis
a vida muda vamos contestar
talvez assim se consiga aumentar
a duração média da vida humana
Sexta-feira sol dourado
que alegria ser poeta português
Portugal fica em frente
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 144 e 145 | Editorial Presença Lda., 1984
1 472
Ruy Belo
Idola Fori
Eu sei diversas coisas
saber é afinal a minha única ocupação
Sei pouco de manhãs
mas talvez possam dizer de mim que amei o mar
e cada árvore que me viu passar
e insistir na vida como uma canção em voga
Quem mais que eu
quem foi esqueceu?
Estamos mal feitos pronto
Para quê a doçura no olhar
de uma mulher certos dias?
O morno calor do sol rasante pelas tardes
de setembro na senhora da guia
senti-lo em abril numa sala voltada ao poente
de súbito sabendo de todos os papéis
ou outra eternidade que não essa
Talvez ouvir egmont sentindo-me importante de repente
ou então conversar sobre o poeta à beira da água
chegar a mangualde ao pôr-do-sol
ou a duas igrejas na semana santa
ouvir os sinos na matriz vizinha
cheirar madeira nova nas gavetas
fechar a porta sobre todos os cuidados
cantar a triunfante juventude
não mais andar perdido de ano em ano
não mais a morte questão para ociosos
à tarde no café dos reformados
Oh quem me dera ser católico
ou pelo menos morar alguma vez
em lisboa ou nos arredores de lisboa
Não há remédio nenhum
esqueci-me de tanta coisa
Sei que isto não é grande coisa
mas nenhuma outra coisa me é dada
o que é preciso é que não doa muito
Depois que me escondam na terra como uma vergonha
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 176 e 177 | Editorial Presença Lda., 1984
saber é afinal a minha única ocupação
Sei pouco de manhãs
mas talvez possam dizer de mim que amei o mar
e cada árvore que me viu passar
e insistir na vida como uma canção em voga
Quem mais que eu
quem foi esqueceu?
Estamos mal feitos pronto
Para quê a doçura no olhar
de uma mulher certos dias?
O morno calor do sol rasante pelas tardes
de setembro na senhora da guia
senti-lo em abril numa sala voltada ao poente
de súbito sabendo de todos os papéis
ou outra eternidade que não essa
Talvez ouvir egmont sentindo-me importante de repente
ou então conversar sobre o poeta à beira da água
chegar a mangualde ao pôr-do-sol
ou a duas igrejas na semana santa
ouvir os sinos na matriz vizinha
cheirar madeira nova nas gavetas
fechar a porta sobre todos os cuidados
cantar a triunfante juventude
não mais andar perdido de ano em ano
não mais a morte questão para ociosos
à tarde no café dos reformados
Oh quem me dera ser católico
ou pelo menos morar alguma vez
em lisboa ou nos arredores de lisboa
Não há remédio nenhum
esqueci-me de tanta coisa
Sei que isto não é grande coisa
mas nenhuma outra coisa me é dada
o que é preciso é que não doa muito
Depois que me escondam na terra como uma vergonha
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 176 e 177 | Editorial Presença Lda., 1984
1 070