Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Susana Thénon
Círculo
Digo que nenhuma palavra
detém as algemas do tempo,
que nenhuma canção
afoga os estrondos do lamento
que nenhum silêncio
abarca os gritos que se calam.
Digo que o mundo é um imenso pântano
onde submergimos lentamente,
que não nos conhecemos nem nos amamos
como creem os que ainda podem remontar sonhos.
Digo que os poentes se rompem
ao mais leve som,
que as portas se fecham
ao murmúrio mais débil,
que os olhos se apagam
quando algo geme perto.
Digo que o círculo se estreita cada vez mais
E tudo que existe
Caberá num ponto.
detém as algemas do tempo,
que nenhuma canção
afoga os estrondos do lamento
que nenhum silêncio
abarca os gritos que se calam.
Digo que o mundo é um imenso pântano
onde submergimos lentamente,
que não nos conhecemos nem nos amamos
como creem os que ainda podem remontar sonhos.
Digo que os poentes se rompem
ao mais leve som,
que as portas se fecham
ao murmúrio mais débil,
que os olhos se apagam
quando algo geme perto.
Digo que o círculo se estreita cada vez mais
E tudo que existe
Caberá num ponto.
898
Susana Thénon
Círculo
Digo que nenhuma palavra
detém as algemas do tempo,
que nenhuma canção
afoga os estrondos do lamento
que nenhum silêncio
abarca os gritos que se calam.
Digo que o mundo é um imenso pântano
onde submergimos lentamente,
que não nos conhecemos nem nos amamos
como creem os que ainda podem remontar sonhos.
Digo que os poentes se rompem
ao mais leve som,
que as portas se fecham
ao murmúrio mais débil,
que os olhos se apagam
quando algo geme perto.
Digo que o círculo se estreita cada vez mais
E tudo que existe
Caberá num ponto.
detém as algemas do tempo,
que nenhuma canção
afoga os estrondos do lamento
que nenhum silêncio
abarca os gritos que se calam.
Digo que o mundo é um imenso pântano
onde submergimos lentamente,
que não nos conhecemos nem nos amamos
como creem os que ainda podem remontar sonhos.
Digo que os poentes se rompem
ao mais leve som,
que as portas se fecham
ao murmúrio mais débil,
que os olhos se apagam
quando algo geme perto.
Digo que o círculo se estreita cada vez mais
E tudo que existe
Caberá num ponto.
898
Susana Thénon
Um
Te dizer
que eu sou mais 1
dentro do NÃO mundo.
Te dizer
idiomas com espinhos sob as unhas.
Te dizer
nada
para você algo quase nada.
que eu sou mais 1
dentro do NÃO mundo.
Te dizer
idiomas com espinhos sob as unhas.
Te dizer
nada
para você algo quase nada.
965
Susana Thénon
Um
Te dizer
que eu sou mais 1
dentro do NÃO mundo.
Te dizer
idiomas com espinhos sob as unhas.
Te dizer
nada
para você algo quase nada.
que eu sou mais 1
dentro do NÃO mundo.
Te dizer
idiomas com espinhos sob as unhas.
Te dizer
nada
para você algo quase nada.
965
Nuno Júdice
Outono
Criei a alma. A vegetação de países
irrepetíveis. Vastos bosques orlam os caminhos. Os muros
dão para o mar. As aves pontuam o céu. As ondas arremessam-se
sobre o litoral. O poema é cruel,
indeciso.
Preparei a nostalgia violenta da criação. Sentei-me
nos bares marítimos de cidades inglesas, esperando barcos
que não vieram. Invoquei regressos, longas
viagens, percursos espirituais. Cada dia me trouxe
uma diferente sensação.
As folham juncam o chão. O terror
assola o planalto, as populações mórbidas
do poente. Uma voz canta as mulheres obscuras
de Southampton. Chove no poema
há alguns anos. O poeta abre, finalmente,
o chapéu de chuva.
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 30 | Quetzal Editores, 1991
irrepetíveis. Vastos bosques orlam os caminhos. Os muros
dão para o mar. As aves pontuam o céu. As ondas arremessam-se
sobre o litoral. O poema é cruel,
indeciso.
Preparei a nostalgia violenta da criação. Sentei-me
nos bares marítimos de cidades inglesas, esperando barcos
que não vieram. Invoquei regressos, longas
viagens, percursos espirituais. Cada dia me trouxe
uma diferente sensação.
As folham juncam o chão. O terror
assola o planalto, as populações mórbidas
do poente. Uma voz canta as mulheres obscuras
de Southampton. Chove no poema
há alguns anos. O poeta abre, finalmente,
o chapéu de chuva.
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 30 | Quetzal Editores, 1991
1 743
Raquel Nobre Guerra
Bebo uma bica por dia
Bebo uma bica por dia, às vezes bebo-a fria
depois disto bem que podia morrer, diga-se
com as mãos ao redor de um pescoço amigo
quero dizer, de um livro.
Tenho o carácter objectivo de uma incompetência para a vida.
Sapato gordo, pé franzino, amor quase extinto.
Tanto nome derrotado às minhas mãos vazias.
Haverá certamente uma fórmula adequada
uma domesticidade última de perseverar
em ambas as condições: vivo e morto.
Ser imparcial a meia mão estendida
que frase estúpida para quem insiste
fazer de tudo fronteira com o absoluto.
A verdade é que na verdade não quero nada
como qualquer outra coisa que pudesse querer.
Refaço-me e peço a tal bica que me transfere
a atenção para a vocação de mendiga e altiva
no meu separado insulto ao grande cu do mundo.
Há uma mulher a mais aqui que se eu pudesse subia
e que me devolve o soco do anonimato
não há Buda que nos valha, menina, que fazer?
E eu vou ao café ainda assim para assegurar
que, pelo menos enquanto bebo, persisto
ou talvez seja Deus numa versão melhorada de mim.
depois disto bem que podia morrer, diga-se
com as mãos ao redor de um pescoço amigo
quero dizer, de um livro.
Tenho o carácter objectivo de uma incompetência para a vida.
Sapato gordo, pé franzino, amor quase extinto.
Tanto nome derrotado às minhas mãos vazias.
Haverá certamente uma fórmula adequada
uma domesticidade última de perseverar
em ambas as condições: vivo e morto.
Ser imparcial a meia mão estendida
que frase estúpida para quem insiste
fazer de tudo fronteira com o absoluto.
A verdade é que na verdade não quero nada
como qualquer outra coisa que pudesse querer.
Refaço-me e peço a tal bica que me transfere
a atenção para a vocação de mendiga e altiva
no meu separado insulto ao grande cu do mundo.
Há uma mulher a mais aqui que se eu pudesse subia
e que me devolve o soco do anonimato
não há Buda que nos valha, menina, que fazer?
E eu vou ao café ainda assim para assegurar
que, pelo menos enquanto bebo, persisto
ou talvez seja Deus numa versão melhorada de mim.
1 042
Raquel Nobre Guerra
Bebo uma bica por dia
Bebo uma bica por dia, às vezes bebo-a fria
depois disto bem que podia morrer, diga-se
com as mãos ao redor de um pescoço amigo
quero dizer, de um livro.
Tenho o carácter objectivo de uma incompetência para a vida.
Sapato gordo, pé franzino, amor quase extinto.
Tanto nome derrotado às minhas mãos vazias.
Haverá certamente uma fórmula adequada
uma domesticidade última de perseverar
em ambas as condições: vivo e morto.
Ser imparcial a meia mão estendida
que frase estúpida para quem insiste
fazer de tudo fronteira com o absoluto.
A verdade é que na verdade não quero nada
como qualquer outra coisa que pudesse querer.
Refaço-me e peço a tal bica que me transfere
a atenção para a vocação de mendiga e altiva
no meu separado insulto ao grande cu do mundo.
Há uma mulher a mais aqui que se eu pudesse subia
e que me devolve o soco do anonimato
não há Buda que nos valha, menina, que fazer?
E eu vou ao café ainda assim para assegurar
que, pelo menos enquanto bebo, persisto
ou talvez seja Deus numa versão melhorada de mim.
depois disto bem que podia morrer, diga-se
com as mãos ao redor de um pescoço amigo
quero dizer, de um livro.
Tenho o carácter objectivo de uma incompetência para a vida.
Sapato gordo, pé franzino, amor quase extinto.
Tanto nome derrotado às minhas mãos vazias.
Haverá certamente uma fórmula adequada
uma domesticidade última de perseverar
em ambas as condições: vivo e morto.
Ser imparcial a meia mão estendida
que frase estúpida para quem insiste
fazer de tudo fronteira com o absoluto.
A verdade é que na verdade não quero nada
como qualquer outra coisa que pudesse querer.
Refaço-me e peço a tal bica que me transfere
a atenção para a vocação de mendiga e altiva
no meu separado insulto ao grande cu do mundo.
Há uma mulher a mais aqui que se eu pudesse subia
e que me devolve o soco do anonimato
não há Buda que nos valha, menina, que fazer?
E eu vou ao café ainda assim para assegurar
que, pelo menos enquanto bebo, persisto
ou talvez seja Deus numa versão melhorada de mim.
1 042
Susana Thénon
Mundo
Este é o mundo em que vivemos
os mendigos buenos aires século vinte
junto ao fumo descalço
flutuando sem asas sobre os tetos
efêmeros como pedacinhos de chocolate
inúteis como pássaros ocos.
Estes são nossos rostos que caem aos pedaços
enquanto o sol migra cansado de nos olhar
e o frio nos celebra com sua festa de morte.
Mas eu não quero esta sina de espantalho:
meu olfato busca ávido o cheiro da alegria
e minha pele se expande quando digo amor.
os mendigos buenos aires século vinte
junto ao fumo descalço
flutuando sem asas sobre os tetos
efêmeros como pedacinhos de chocolate
inúteis como pássaros ocos.
Estes são nossos rostos que caem aos pedaços
enquanto o sol migra cansado de nos olhar
e o frio nos celebra com sua festa de morte.
Mas eu não quero esta sina de espantalho:
meu olfato busca ávido o cheiro da alegria
e minha pele se expande quando digo amor.
731
Susana Thénon
Mundo
Este é o mundo em que vivemos
os mendigos buenos aires século vinte
junto ao fumo descalço
flutuando sem asas sobre os tetos
efêmeros como pedacinhos de chocolate
inúteis como pássaros ocos.
Estes são nossos rostos que caem aos pedaços
enquanto o sol migra cansado de nos olhar
e o frio nos celebra com sua festa de morte.
Mas eu não quero esta sina de espantalho:
meu olfato busca ávido o cheiro da alegria
e minha pele se expande quando digo amor.
os mendigos buenos aires século vinte
junto ao fumo descalço
flutuando sem asas sobre os tetos
efêmeros como pedacinhos de chocolate
inúteis como pássaros ocos.
Estes são nossos rostos que caem aos pedaços
enquanto o sol migra cansado de nos olhar
e o frio nos celebra com sua festa de morte.
Mas eu não quero esta sina de espantalho:
meu olfato busca ávido o cheiro da alegria
e minha pele se expande quando digo amor.
731
Susana Thénon
Habitante
É o habitante
de meus desejos proibidos.
teu ritmo se levanta
perto de meu lado mais tênue.
Tua credencial
é um gemido.
de meus desejos proibidos.
teu ritmo se levanta
perto de meu lado mais tênue.
Tua credencial
é um gemido.
843
Susana Thénon
Habitante
É o habitante
de meus desejos proibidos.
teu ritmo se levanta
perto de meu lado mais tênue.
Tua credencial
é um gemido.
de meus desejos proibidos.
teu ritmo se levanta
perto de meu lado mais tênue.
Tua credencial
é um gemido.
843
Nuno Júdice
Passeio no campo (variante)
As vedações, os muros, as cercas
que limitam os campos
são mais visíveis no inverno. Para
passar de um campo a outro
as mãos têm de agarrar a pedra,
de prender o arame, de afastar
os ramos; e o frio da manhã
greta os dedos, imobiliza
o gesto, faz vir as lágrimas
aos olhos - apesar do sol.
É assim que me demoro neste
caminho que nos leva de
um ao outro. É possível que
o Inverno não seja mais
do que uma ilusão; e que os campos
estejam livres de obstáculos,
povoados por pássaros
e coelhos. Mas o frio separa-nos;
muros e muros entre um e outro,
vedações entre o que dizemos,
cercas em que as mãos
se arranham-
E se tentássemos
outro caminho?
Nuno Júdice | "Teoria Geral do Sentimento", 1999
que limitam os campos
são mais visíveis no inverno. Para
passar de um campo a outro
as mãos têm de agarrar a pedra,
de prender o arame, de afastar
os ramos; e o frio da manhã
greta os dedos, imobiliza
o gesto, faz vir as lágrimas
aos olhos - apesar do sol.
É assim que me demoro neste
caminho que nos leva de
um ao outro. É possível que
o Inverno não seja mais
do que uma ilusão; e que os campos
estejam livres de obstáculos,
povoados por pássaros
e coelhos. Mas o frio separa-nos;
muros e muros entre um e outro,
vedações entre o que dizemos,
cercas em que as mãos
se arranham-
E se tentássemos
outro caminho?
Nuno Júdice | "Teoria Geral do Sentimento", 1999
1 243
Nuno Júdice
Passeio no campo (variante)
As vedações, os muros, as cercas
que limitam os campos
são mais visíveis no inverno. Para
passar de um campo a outro
as mãos têm de agarrar a pedra,
de prender o arame, de afastar
os ramos; e o frio da manhã
greta os dedos, imobiliza
o gesto, faz vir as lágrimas
aos olhos - apesar do sol.
É assim que me demoro neste
caminho que nos leva de
um ao outro. É possível que
o Inverno não seja mais
do que uma ilusão; e que os campos
estejam livres de obstáculos,
povoados por pássaros
e coelhos. Mas o frio separa-nos;
muros e muros entre um e outro,
vedações entre o que dizemos,
cercas em que as mãos
se arranham-
E se tentássemos
outro caminho?
Nuno Júdice | "Teoria Geral do Sentimento", 1999
que limitam os campos
são mais visíveis no inverno. Para
passar de um campo a outro
as mãos têm de agarrar a pedra,
de prender o arame, de afastar
os ramos; e o frio da manhã
greta os dedos, imobiliza
o gesto, faz vir as lágrimas
aos olhos - apesar do sol.
É assim que me demoro neste
caminho que nos leva de
um ao outro. É possível que
o Inverno não seja mais
do que uma ilusão; e que os campos
estejam livres de obstáculos,
povoados por pássaros
e coelhos. Mas o frio separa-nos;
muros e muros entre um e outro,
vedações entre o que dizemos,
cercas em que as mãos
se arranham-
E se tentássemos
outro caminho?
Nuno Júdice | "Teoria Geral do Sentimento", 1999
1 243
Nuno Júdice
Passeio no campo (variante)
As vedações, os muros, as cercas
que limitam os campos
são mais visíveis no inverno. Para
passar de um campo a outro
as mãos têm de agarrar a pedra,
de prender o arame, de afastar
os ramos; e o frio da manhã
greta os dedos, imobiliza
o gesto, faz vir as lágrimas
aos olhos - apesar do sol.
É assim que me demoro neste
caminho que nos leva de
um ao outro. É possível que
o Inverno não seja mais
do que uma ilusão; e que os campos
estejam livres de obstáculos,
povoados por pássaros
e coelhos. Mas o frio separa-nos;
muros e muros entre um e outro,
vedações entre o que dizemos,
cercas em que as mãos
se arranham-
E se tentássemos
outro caminho?
Nuno Júdice | "Teoria Geral do Sentimento", 1999
que limitam os campos
são mais visíveis no inverno. Para
passar de um campo a outro
as mãos têm de agarrar a pedra,
de prender o arame, de afastar
os ramos; e o frio da manhã
greta os dedos, imobiliza
o gesto, faz vir as lágrimas
aos olhos - apesar do sol.
É assim que me demoro neste
caminho que nos leva de
um ao outro. É possível que
o Inverno não seja mais
do que uma ilusão; e que os campos
estejam livres de obstáculos,
povoados por pássaros
e coelhos. Mas o frio separa-nos;
muros e muros entre um e outro,
vedações entre o que dizemos,
cercas em que as mãos
se arranham-
E se tentássemos
outro caminho?
Nuno Júdice | "Teoria Geral do Sentimento", 1999
1 243
Susana Thénon
O Morto
Seu rosto murmura
minhas fases não são doces,
como um esporte a pele mergulha
e a boca explode em redemoinhos do tempo.
A terra canta
Sobre meu nariz golpeado.
Como uma festa saltam os olhos
embora a morte deva ser quietude.
Como verdes loucos fugitivos da noite
minhas mãos são inflamáveis.
minhas fases não são doces,
como um esporte a pele mergulha
e a boca explode em redemoinhos do tempo.
A terra canta
Sobre meu nariz golpeado.
Como uma festa saltam os olhos
embora a morte deva ser quietude.
Como verdes loucos fugitivos da noite
minhas mãos são inflamáveis.
819
Nuno Júdice
Soneto 4
Conheço mulheres azuis como a morte.
São elas que profetizam a minha sorte
e acredito no que dizem; metade
de mim parte-se num ruído de jade.
Conheço anjos que dizem coisas sem nexo,
ébrios e louros, mostrando-me o sexo.
Eles roçam o peito pelas esquinas
e agarram-se num espasmo à alma em ruínas.
Subitamente tenho vontade de ler o Sade;
deito-me na eternidade e sou um deus sem idade:
- "Cego, mas de olhos abertos, tenho saudade:
de homens que amei, estátuas, vinho, tangerinas,
o exótico som das místicas mandolinas
tocando sonatas para pierrots e colombinas."
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 53 | Na regra do jogo, 1982
São elas que profetizam a minha sorte
e acredito no que dizem; metade
de mim parte-se num ruído de jade.
Conheço anjos que dizem coisas sem nexo,
ébrios e louros, mostrando-me o sexo.
Eles roçam o peito pelas esquinas
e agarram-se num espasmo à alma em ruínas.
Subitamente tenho vontade de ler o Sade;
deito-me na eternidade e sou um deus sem idade:
- "Cego, mas de olhos abertos, tenho saudade:
de homens que amei, estátuas, vinho, tangerinas,
o exótico som das místicas mandolinas
tocando sonatas para pierrots e colombinas."
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 53 | Na regra do jogo, 1982
810
Nuno Júdice
Soneto 4
Conheço mulheres azuis como a morte.
São elas que profetizam a minha sorte
e acredito no que dizem; metade
de mim parte-se num ruído de jade.
Conheço anjos que dizem coisas sem nexo,
ébrios e louros, mostrando-me o sexo.
Eles roçam o peito pelas esquinas
e agarram-se num espasmo à alma em ruínas.
Subitamente tenho vontade de ler o Sade;
deito-me na eternidade e sou um deus sem idade:
- "Cego, mas de olhos abertos, tenho saudade:
de homens que amei, estátuas, vinho, tangerinas,
o exótico som das místicas mandolinas
tocando sonatas para pierrots e colombinas."
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 53 | Na regra do jogo, 1982
São elas que profetizam a minha sorte
e acredito no que dizem; metade
de mim parte-se num ruído de jade.
Conheço anjos que dizem coisas sem nexo,
ébrios e louros, mostrando-me o sexo.
Eles roçam o peito pelas esquinas
e agarram-se num espasmo à alma em ruínas.
Subitamente tenho vontade de ler o Sade;
deito-me na eternidade e sou um deus sem idade:
- "Cego, mas de olhos abertos, tenho saudade:
de homens que amei, estátuas, vinho, tangerinas,
o exótico som das místicas mandolinas
tocando sonatas para pierrots e colombinas."
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 53 | Na regra do jogo, 1982
810
Nuno Júdice
Soneto 4
Conheço mulheres azuis como a morte.
São elas que profetizam a minha sorte
e acredito no que dizem; metade
de mim parte-se num ruído de jade.
Conheço anjos que dizem coisas sem nexo,
ébrios e louros, mostrando-me o sexo.
Eles roçam o peito pelas esquinas
e agarram-se num espasmo à alma em ruínas.
Subitamente tenho vontade de ler o Sade;
deito-me na eternidade e sou um deus sem idade:
- "Cego, mas de olhos abertos, tenho saudade:
de homens que amei, estátuas, vinho, tangerinas,
o exótico som das místicas mandolinas
tocando sonatas para pierrots e colombinas."
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 53 | Na regra do jogo, 1982
São elas que profetizam a minha sorte
e acredito no que dizem; metade
de mim parte-se num ruído de jade.
Conheço anjos que dizem coisas sem nexo,
ébrios e louros, mostrando-me o sexo.
Eles roçam o peito pelas esquinas
e agarram-se num espasmo à alma em ruínas.
Subitamente tenho vontade de ler o Sade;
deito-me na eternidade e sou um deus sem idade:
- "Cego, mas de olhos abertos, tenho saudade:
de homens que amei, estátuas, vinho, tangerinas,
o exótico som das místicas mandolinas
tocando sonatas para pierrots e colombinas."
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 53 | Na regra do jogo, 1982
810
Susana Thénon
Poema
É inútil que a amada se arraste
em busca da mão que desenha sombras
sob sua pele.
É inútil que voe
perseguindo a nuvem de pedra que a feriu.
Em vão saltará de folha em folha
perguntando pelo rosto
que se afogou
no ar.
em busca da mão que desenha sombras
sob sua pele.
É inútil que voe
perseguindo a nuvem de pedra que a feriu.
Em vão saltará de folha em folha
perguntando pelo rosto
que se afogou
no ar.
978
Susana Thénon
Habitante do Nada
Vivo entre pedras
sua forma se parece à minha.
Eu sou uma pedra,
um brinquedo no túmulo de uma criança,
uma medalha escurecida?
Sou antes um espelho gasto
uma superfície que não reflete,
um rosto estranho
um dia que termina.
sua forma se parece à minha.
Eu sou uma pedra,
um brinquedo no túmulo de uma criança,
uma medalha escurecida?
Sou antes um espelho gasto
uma superfície que não reflete,
um rosto estranho
um dia que termina.
738
Raquel Nobre Guerra
Aprendi a tranquilidade
Aprendi a tranquilidade de passar sobre os dias
com o domínio de um coração baixo.
De me perturbar menos a posição astrológica
de certas palavras no coração do verso.
Houve vezes em que me embaracei na musa
e tanto quis largar-me à doçura desse humor
que me cheguei de cara toda à carcaça
julgando que o bife na mesa fosse meu.
Mas a natureza morta da metáfora
não me deu talho para o poema.
Sei que qualquer aragem me atravessará o corpo
e que a mentira da manhã vai folgando entre nós
como um sol mobilizado para a morte.
Sei, porque me chego para a frente com força
que o poeta transporta um saco de luz
com um coração doente que canta
mas não há verdade nesse coração
que não termine com duas senhoras de negro.
Que não me falhe a pontaria na hora de traçar
uma obra futura para nutrimento do espírito
- essa besta furiosa que nunca chega a ser livre
por muito que fulja e se agite no homem
com mais homens dentro. Que isso seja mais
que cair na tentação de durar por escrito.
Minto, porque cedo ao poder das palavras
o que trago no saco são coisas remendadas
que vou deixando cair.
Se ao menos tivesse dois ou três dentes de ouro
e na lei que me confere vencida a ética
fizesse, como tu, felizes tantas bocas.
Mas aprofundei-me na ocupação da violência
um arzinho de filosofia para empernar meninos
um pai matemático e obsessivo como um poço sombrio
um príncipe melancólico com abalos de amor
por mulheres mais tristes que uma mulher
a correr urgências psiquiátricas para arranjar namoradinho.
Reconheço, no meio disto, a cantiga do bandido.
Se ao menos aprendesse a bravura dos recrutas:
Vá - pago um copo / a quem disser que me ama!
Mas não, garanto e mal este pouco verso
para que o leitor avance dobrado sob mim.
Corrijam-me se estiver errada
mas a razão comovida de tudo
podia começar por aqui.
Agradecer aos destroços, abrir lume,
destinar-lhe estas últimas sete palavras.
Ser convicto enfim mesmo sem saber como.
com o domínio de um coração baixo.
De me perturbar menos a posição astrológica
de certas palavras no coração do verso.
Houve vezes em que me embaracei na musa
e tanto quis largar-me à doçura desse humor
que me cheguei de cara toda à carcaça
julgando que o bife na mesa fosse meu.
Mas a natureza morta da metáfora
não me deu talho para o poema.
Sei que qualquer aragem me atravessará o corpo
e que a mentira da manhã vai folgando entre nós
como um sol mobilizado para a morte.
Sei, porque me chego para a frente com força
que o poeta transporta um saco de luz
com um coração doente que canta
mas não há verdade nesse coração
que não termine com duas senhoras de negro.
Que não me falhe a pontaria na hora de traçar
uma obra futura para nutrimento do espírito
- essa besta furiosa que nunca chega a ser livre
por muito que fulja e se agite no homem
com mais homens dentro. Que isso seja mais
que cair na tentação de durar por escrito.
Minto, porque cedo ao poder das palavras
o que trago no saco são coisas remendadas
que vou deixando cair.
Se ao menos tivesse dois ou três dentes de ouro
e na lei que me confere vencida a ética
fizesse, como tu, felizes tantas bocas.
Mas aprofundei-me na ocupação da violência
um arzinho de filosofia para empernar meninos
um pai matemático e obsessivo como um poço sombrio
um príncipe melancólico com abalos de amor
por mulheres mais tristes que uma mulher
a correr urgências psiquiátricas para arranjar namoradinho.
Reconheço, no meio disto, a cantiga do bandido.
Se ao menos aprendesse a bravura dos recrutas:
Vá - pago um copo / a quem disser que me ama!
Mas não, garanto e mal este pouco verso
para que o leitor avance dobrado sob mim.
Corrijam-me se estiver errada
mas a razão comovida de tudo
podia começar por aqui.
Agradecer aos destroços, abrir lume,
destinar-lhe estas últimas sete palavras.
Ser convicto enfim mesmo sem saber como.
1 085
Susana Thénon
Histórias de Magia
Um garoto espera
que o mar o alcance.
Quer ser o garoto
ausente, à hora do passeio.
Se cobre de areia.
É um barco naufragado.
Um administrador para
e pensa, quatro vezes quis demasiado.
(Os números celestes determinam
aos números sujos de terra
em Cannes, nos porões violentos
de Cannes, e em
todos todos os presságios de amor).
Um louco estende a mão
e pede água, é cinza
a água com o cristal, com a parede,
com a tarde
esparramada no relógio de sol.
Um sacerdote pensa, sou um homem
com altura e pele de cepa:
Minha rosa vive ainda,
enlouquece debaixo da túnica.
Sou um sino de luto.
Um homem de sentará e dirá estou cansado
Um homem se estenderá ao sol e dirá por quê
Um homem será o bastante para dizê-lo
Um homem pulará o muro
e dirá não.
que o mar o alcance.
Quer ser o garoto
ausente, à hora do passeio.
Se cobre de areia.
É um barco naufragado.
Um administrador para
e pensa, quatro vezes quis demasiado.
(Os números celestes determinam
aos números sujos de terra
em Cannes, nos porões violentos
de Cannes, e em
todos todos os presságios de amor).
Um louco estende a mão
e pede água, é cinza
a água com o cristal, com a parede,
com a tarde
esparramada no relógio de sol.
Um sacerdote pensa, sou um homem
com altura e pele de cepa:
Minha rosa vive ainda,
enlouquece debaixo da túnica.
Sou um sino de luto.
Um homem de sentará e dirá estou cansado
Um homem se estenderá ao sol e dirá por quê
Um homem será o bastante para dizê-lo
Um homem pulará o muro
e dirá não.
991
Susana Thénon
Eu
Eu vivo o tempo,
recomponho velhos verbos destroçados
nos fornos do frio
e me invento uma palavra para cada lágrima.
Eu saio para passear
e me inclino sobre as fontes vazias
para beijar minha boca inexistente.
Eu tenho o olhar cheio de sal
e corpos como estrelas de areia
e flores vorazes
que me consomem lentamente.
Eu vivo e tremo,
ressuscito e me arrasto pelo ar quente
das florações
e pelo olho sempre aberto do dia.
Eu, lua tíbia
me amando e morrendo.
recomponho velhos verbos destroçados
nos fornos do frio
e me invento uma palavra para cada lágrima.
Eu saio para passear
e me inclino sobre as fontes vazias
para beijar minha boca inexistente.
Eu tenho o olhar cheio de sal
e corpos como estrelas de areia
e flores vorazes
que me consomem lentamente.
Eu vivo e tremo,
ressuscito e me arrasto pelo ar quente
das florações
e pelo olho sempre aberto do dia.
Eu, lua tíbia
me amando e morrendo.
775
Raquel Nobre Guerra
Não foi preciso muito
Não foi preciso muito para que a cidade
começasse a tomar o veneno do milho
e fechasse tudo. A Palmeira, o Estádio,
a Barateira, até os grandes candidatos
à última cadeira ficaram por sua conta.
Lisboa é uma azinhaga tristíssima.
Talvez queiram acabar com a música
as doenças tropicais, os sonhadores.
Fechá-los no foyer servir-lhes faisão
e orquídeas negras, preveni-los de que
no sopé da lixeira haverá sempre lugar
para mais uma mantinha.
Que dias estes em que o amor passou
para um tempo que não mexe.
Vida em troca de indícios
de que apenas depois percebemos
a dimensão furiosa do vazio.
Grandes clássicos da vida para quem acha
que por ter lido a Rayuela foi ao cu ao profeta.
Homem, se tiveres sorte saberás
que nunca foi preciso namorar Platão
para saber que o cocheiro vai louco e num só pé.
É importante esta narrativa agigantada de referências
para que tudo feche literalmente com o porteiro da discoteca.
E que não sejamos menos aqui, que ninguém nos ouve,
contra o jogo de não termos conseguido melhor:
I want to fuck everyone in the world
I want to do something that matters
Ficas a dever-me uma.
começasse a tomar o veneno do milho
e fechasse tudo. A Palmeira, o Estádio,
a Barateira, até os grandes candidatos
à última cadeira ficaram por sua conta.
Lisboa é uma azinhaga tristíssima.
Talvez queiram acabar com a música
as doenças tropicais, os sonhadores.
Fechá-los no foyer servir-lhes faisão
e orquídeas negras, preveni-los de que
no sopé da lixeira haverá sempre lugar
para mais uma mantinha.
Que dias estes em que o amor passou
para um tempo que não mexe.
Vida em troca de indícios
de que apenas depois percebemos
a dimensão furiosa do vazio.
Grandes clássicos da vida para quem acha
que por ter lido a Rayuela foi ao cu ao profeta.
Homem, se tiveres sorte saberás
que nunca foi preciso namorar Platão
para saber que o cocheiro vai louco e num só pé.
É importante esta narrativa agigantada de referências
para que tudo feche literalmente com o porteiro da discoteca.
E que não sejamos menos aqui, que ninguém nos ouve,
contra o jogo de não termos conseguido melhor:
I want to fuck everyone in the world
I want to do something that matters
Ficas a dever-me uma.
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