Emoções e Sentimentos
José Miguel Silva
O Grande Circo de Montekarl
mais nada e uma pessoa tem de se entreter com alguma
coisa, cá vim. Confesso que me atraiu sobretudo o número
da Grande Conflagração do Capitalismo, anunciado
em letras vermelhas no cartaz. A questão que se põe é:
a que horas começa? Pergunto, ninguém sabe.
Francamente, isto nem parece uma produção americana.
Estamos aqui de pé há sei lá quantas horas e nada sai
do ramerrão: entram palhaços, saem palhaços, uns mais
ricos, outros menos, mas todos iguais, todos sem graça.
Já nem os posso ver. E domadores de caniches,
burricos, cantilenas de latão. Isto põe-me doente.
Agora são os comedores de fogo. Que seca do caralho.
Só nos falta um mágico - pronto, para que é que eu falei.
Mais valia ter ficado em casa. Mas a culpa é minha -
bilhetes tão baratos, devia ter desconfiado. Podia tentar sair,
mas como, se nem consigo ver a porta? E sair para onde?
Para o frio da noite? Estamos bem fodidos.
Nuno Júdice
Poema II
vidrada dos oblíquos idiomas do amor: as cinzas
de um pássaro refractam-te os cristais da
respiração, prendendo-me os olhos no sulco das cores
amargas da voz. Um eco de mar na concha dos lábios
anuncia o crepúsculo dos hemisférios, que uma
súbita dissolução de versos canta - rumor
que se perde no canto dos mapas, onde o rumo do corpo
se sobrepõe ao traçado de um continente sinuoso.
Colho as flores coaguladas dos sexos
abolidos. Misturo-as no fogo dos tampos arredondados
da manhã, quando o avermelhado silêncio das cigarras
se afoga num encrespar de charco. Bebo as
essências de um sonho cartulário, húmidas sombras
cuja mancha se inscreve na obscura alma. - Que
forma reproduzem? Traços da análoga caverna, peitos
marcados pelo chicote das viagens, im-
precações do rum na voz rouca dos faróis...
Só o que ouço subsiste ( - Mas que luzes
vacilam ainda na névoa da eternidade?)
Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", pág. 297 | Quetzal Editores, 1999
José Miguel Silva
Penélope escreve
Fiquei a tarde toda a arrumar os teus papéis,
a reler as cinco cartas que me foste endereçando
na semana que perdemos: tu no Alentejo,
eu debaixo de água. Fui depois regar as rosas
que deixaste no quintal. Sempre só e sem
carpir o meu estado (porque não me fazes falta),
pus o disco da Chavela que me deste no Natal
e comecei a preparar o teu prato preferido.
Cozinhar fez-me perder o apetite; por isso
abri uma garrafa de maduro e não me custa
confessar-te que não sinto a tua falta.
Por volta das dez horas, obriguei-me a recusar
dois convites pra sair (aleguei androfobia)
e estou neste momento a recortar a tua imagem
(não me fazes falta) nas fotos que possuo de nós dois,
de maneira a castigar com o cesto dos papéis
a inábil idiota que deixou que tu te fosses.
José Miguel Silva
Penélope escreve
Fiquei a tarde toda a arrumar os teus papéis,
a reler as cinco cartas que me foste endereçando
na semana que perdemos: tu no Alentejo,
eu debaixo de água. Fui depois regar as rosas
que deixaste no quintal. Sempre só e sem
carpir o meu estado (porque não me fazes falta),
pus o disco da Chavela que me deste no Natal
e comecei a preparar o teu prato preferido.
Cozinhar fez-me perder o apetite; por isso
abri uma garrafa de maduro e não me custa
confessar-te que não sinto a tua falta.
Por volta das dez horas, obriguei-me a recusar
dois convites pra sair (aleguei androfobia)
e estou neste momento a recortar a tua imagem
(não me fazes falta) nas fotos que possuo de nós dois,
de maneira a castigar com o cesto dos papéis
a inábil idiota que deixou que tu te fosses.
José Miguel Silva
Hades
pode amar o colectivo?
São onze da manhã e já a rua
me pergunta:
que te fez sair de casa?
Vagueio pela margem
deste rio sulfuroso, cruzo-me
convosco, dou ouvidos a carteiros,
vendedores de talismãs,
de histórias mal feridas,
de tapetes que ninguém desenrolou.
Acompanham-me os gemidos
emitidos pela tarde.
Contorno os infelizes
automóveis, dou a Lázaro
(que nem se chama Lázaro)
o cigarro do costume, retribuo
a piedade que me olha.
Continuo noite fora, pela borda dos cafés
onde as cartas são batidas por azar
e a morte, triunfante,
convida a novo copo de veneno.
Quando a luz luciferina da manhã
já se comenta nas vielas,
subo a gola do casaco,
procuro uma parede imaculada
e deixo a gotejar esta pergunta:
AQUILES, ONDE ESTÁS?
José Miguel Silva
Hades
pode amar o colectivo?
São onze da manhã e já a rua
me pergunta:
que te fez sair de casa?
Vagueio pela margem
deste rio sulfuroso, cruzo-me
convosco, dou ouvidos a carteiros,
vendedores de talismãs,
de histórias mal feridas,
de tapetes que ninguém desenrolou.
Acompanham-me os gemidos
emitidos pela tarde.
Contorno os infelizes
automóveis, dou a Lázaro
(que nem se chama Lázaro)
o cigarro do costume, retribuo
a piedade que me olha.
Continuo noite fora, pela borda dos cafés
onde as cartas são batidas por azar
e a morte, triunfante,
convida a novo copo de veneno.
Quando a luz luciferina da manhã
já se comenta nas vielas,
subo a gola do casaco,
procuro uma parede imaculada
e deixo a gotejar esta pergunta:
AQUILES, ONDE ESTÁS?
Manuel António Pina
As coisas
fitando-nos como se dissesse: "Sou eu",
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.
Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fôssemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.
Então acorda e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 356 | Assírio & Alvim, 2012
José Miguel Silva
Nocturno
da imperfeição das coisas
que trazemos para casa
com o pó da rua
quando a tarde finda
e não temos água quente
para lavar a cabeça.
Tentamos regular
com açudes de orações
o curso da tristeza
mudamos de cadeira
e levamos a noite
a dizer oxalá
como se a palavra
praticasse anestesia.
Manuel António Pina
Sob escombros
de tão próximo, quase podias ouvir
o silêncio do mundo pulsando
onde também tu eras mundo, coisa pulsante.
Extinguiu-se esse canto
não na morte
mas na vida excluída
da clarividência da infância
e de tudo o que pulsa,
fins e começos,
e corrompida pela estridência
e pela heterogeneidade.
Agora respondes por nomes supostos,
habitante de países hábeis e reais,
e precisas de ajuda para as coisas mais simples,
o pensamento, o sofrimento, a solidão.
A música, só voltarás a escutá-la
numa noite lívida,
uma noite mais vulnerável do que todas
(o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento)
um pouco antes de adormece
sob escombros.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 360 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Sob escombros
de tão próximo, quase podias ouvir
o silêncio do mundo pulsando
onde também tu eras mundo, coisa pulsante.
Extinguiu-se esse canto
não na morte
mas na vida excluída
da clarividência da infância
e de tudo o que pulsa,
fins e começos,
e corrompida pela estridência
e pela heterogeneidade.
Agora respondes por nomes supostos,
habitante de países hábeis e reais,
e precisas de ajuda para as coisas mais simples,
o pensamento, o sofrimento, a solidão.
A música, só voltarás a escutá-la
numa noite lívida,
uma noite mais vulnerável do que todas
(o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento)
um pouco antes de adormece
sob escombros.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 360 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Sob escombros
de tão próximo, quase podias ouvir
o silêncio do mundo pulsando
onde também tu eras mundo, coisa pulsante.
Extinguiu-se esse canto
não na morte
mas na vida excluída
da clarividência da infância
e de tudo o que pulsa,
fins e começos,
e corrompida pela estridência
e pela heterogeneidade.
Agora respondes por nomes supostos,
habitante de países hábeis e reais,
e precisas de ajuda para as coisas mais simples,
o pensamento, o sofrimento, a solidão.
A música, só voltarás a escutá-la
numa noite lívida,
uma noite mais vulnerável do que todas
(o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento)
um pouco antes de adormece
sob escombros.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 360 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Alguém atrás de ti
na mão fechada de Deus o que passou.
É cada vez mais tarde
onde o que eu fui sou.
Que coisa morreu
na minha infância
e está lá a ser eu?
A lâmpada do quarto? A criança?
Em quem tudo isto
a si próprio se sente?
Também aquele que escreve
é escrito para sempre.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 115 | Assirio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Interiores
tu sentada diante da TV
e eu escrevendo isto, não sei o quê,
como outros dois que nós não conhecemos?
Será que alguma coisa permaneceu
do nosso amor com uma inevitabilidade,
uma saudade pousada agora na mão de Deus
existindo para sempre na sua breve eternidade?
Talvez percorramos uma rota circular
através da curvatura do espaço e do tempo
onde haveremos de nos reencontrar;
será que então de alguma forma nos reconheceremos?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 321 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
No rosto da morte
alguém passa numa rua eternamente.
Alguém ficou lá em mim depois,
outro perdeu-o o coração para sempre.
Quem me lembro de isto
dorme um sono alheio
onde em mim existo. -
Coração, sombra de uma sombra,
na pétala mais funda da noite.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 121 | Assirio & Alvim, 2012
José Miguel Silva
Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.
José Miguel Silva
Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.
Nuno Júdice
Deixei contigo o meu amor
música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar,
e o da vida por desapertar,
a flor que secou nas páginas de um livro,
tantas palavras por dizer
e a pressa de chegar,
com o azul do céu à saída.
por entre cafés fechados e um por abrir.
Mas trouxe comigo o teu amor,
os murmúrios que o dizem quando os lembro,
a surpresa de um brilho no olhar,
brinco perdido em secreto campo,
o remorso de partir ao chegar,
e tudo descobrir de cada vez,
mesmo que seja igual ao que vês
neste caminho por encontrar
em que só tu me consegues guiar.
Por isso tenho tudo o que preciso
mesmo que nada nos seja dado;
e basta-me lembrar o teu sorriso
para te sentir ao meu lado.
Al Berto
Se um Dia a Juventude Voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida
sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor
depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo
mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição
(in 'Rumor dos Fogos')
Nuno Júdice
Leio o amor
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.
Al Berto
7 a noite chega-me
paredes do quarto
durmo sobre as águas e tenho medo
encolho-me no leito estreito, no fundo dele, onde o linho já não fulgura
queda a queda, voo
não consigo dormir com esta ferida
as máquinas sussurram, trepam pelas paredes, escancaram portas, invadem a casa, ocupam os sonhos
sirenes, alarmes lancinantes, cremalheiras da noite ressoando no limite do corpo
levanto-me e saio para a rua
caminho na chuva adocicada da manhã, as pedras acendem-se por dentro, reconhecem-me
uma voz líquida arrasta-se no interior dos meus passos, ecoa pelos recantos ainda vivos do teu corpo
em ti acostam os barcos e a sombra dos grandes navios do mundo
vive o peixe, agitam-se algas e medusas de mil desejos
em ti descansam os pássaros chegados doutras rotas
secam as redes, põe-se o sol
em ti se abandona a ressaca das ondas e o sal dos meus olhos
as árvores inclinadas, os frutos e as dunas
em ti pernoita a seiva cansada de palavras, o suco das ervas e o açúcar transparente das camarinhas
em ti cresce o precioso silêncio, as ostras doentes e as pérolas dos mares sem rumo
em ti se perdem os ventos, a solidão do mar e este demorado lamento.
Fernando Pessoa
D. PEDRO V
Longe de má pessoa, com acinto
Ao bem e à verdade se cingia
Assobiou e resmungou «errei
Lá vai este destoar, por ser bom rei,
D'aquela estuporada dinastia
Que eu destinara a exempli[fi]car
Perante o mundo o mal da monarquia
Nada, volva a infâmia ao seu lugar
Se não com este era a obra desfeita
Da infâmia completa de governar
Que nos Bragança ia tão perfeita.»
Matou-o novo pois para não destoar.
Manuel António Pina
Chico
para a felicidade,
nem para o medo.
Olha as pessoas felizes:
ocultam-se na felicidade
como em casa, erguem
muros, fecham as janelas,
o medo
é a sua fortaleza.
O que disputam à morte
é maior que elas,
a morte não lhes basta.
Manuel António Pina
Chico
para a felicidade,
nem para o medo.
Olha as pessoas felizes:
ocultam-se na felicidade
como em casa, erguem
muros, fecham as janelas,
o medo
é a sua fortaleza.
O que disputam à morte
é maior que elas,
a morte não lhes basta.
Nuno Júdice
Carta de outono
consome a energia da alma com um apetite solar; e
porque as tempestades do crepúsculo incendiaram as
palavras com o rápido fogo aéreo. No entanto, eu
ouço aquelas aves que gastaram as asas na travessia
do Espírito, cujos olhos viram o que havia de duvidoso
nas traseiras do invisível, onde um deus culpado
se esconde e se ouvem as vozes sem nexo dos
anjos enlouquecidos. Essas aves deixaram de saber voar;
agarram-se aos ramos dos arbustos e, ao fim da tarde,
gritam em direcção às nuvens com os olhos secos e
sem medo. Abri-lhes o peito: e encontrei as entranhas
verdes como as folhas perenes do norte. Então,
ouço-te bater por dentro de mim, embora estejas morto;
e os teus dedos tenham perdido a força antiga que
desafiava a sombra. Procuro uma entrada no átrio
desabrigado da página; avanço entre sílabas e versos
perdendo-me do silêncio na insistência dos passos.
O passado é todo o dia de ontem; a vida coube-me
neste bolso do infinito onde guardei os últimos cigarros;
o teu amor gastou-se com um breve brilho de
isqueiro. Saio sem desejo dos desertos de outubro
e novembro, arrastando o outono com os pés, nas planícies
provisórias de um esquecimento de estações.
Nuno Júdice | "A Condescendência do Ser", págs. 50 e 51 | Quetzal Editores, 1988