Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Mafalda Veiga
Grito
Meu Deus, se nos velas
diz-nos o que é que nos separa
e porque é que o sol demora
atrás da colina escura
anda dar luz ao caminho
que a gente assim desespera
É como sonhar sozinho
como se o mar fosse raso
e o céu não tivesse altura
Sempre no silêncio
dá gozo a voz deste chão
mas inda me dói a alma
na dor do corpo e das mãos
tenho medo deste frio
que à noite sinto no peito
como se andasem cavando
como se andassem fechando
buracos de solidão
Agente não sabe
o que há depois do horizonte
a gente é um vulto curvado
com uma sombra defronte
a ouvir rumores na distância
a sentir dentro um segredo
feito de sonhos calados
feito de braços fechados
num poço fundo de medo
Anda dar luz ao caminho
que já nos dói a demora
É como sonhar sozinho
um sonho que nunca vinga
num grito que nunca chora
diz-nos o que é que nos separa
e porque é que o sol demora
atrás da colina escura
anda dar luz ao caminho
que a gente assim desespera
É como sonhar sozinho
como se o mar fosse raso
e o céu não tivesse altura
Sempre no silêncio
dá gozo a voz deste chão
mas inda me dói a alma
na dor do corpo e das mãos
tenho medo deste frio
que à noite sinto no peito
como se andasem cavando
como se andassem fechando
buracos de solidão
Agente não sabe
o que há depois do horizonte
a gente é um vulto curvado
com uma sombra defronte
a ouvir rumores na distância
a sentir dentro um segredo
feito de sonhos calados
feito de braços fechados
num poço fundo de medo
Anda dar luz ao caminho
que já nos dói a demora
É como sonhar sozinho
um sonho que nunca vinga
num grito que nunca chora
1 147
Mafalda Veiga
O Lume
Vai caminhando desamarrado
Dos nós e laços que o mundo faz
Vai abraçando desenleado
De outros abraços que a vida dá
Vai-te encontrando na água e no lume
Na terra quente até perder
O medo, o medo levanta muros
E ergue bandeiras pra nos deter
Não percas tempo
O tempo corre
Só quando doi é devagar
E dá-te ao vento
Como um veleiro
Solto no mais alto mar
Liberta o grito que trazes dentro
E a coragem e o amor
Mesmo que seja só um momento
Mesmo que traga alguma dor
Só isso faz brilhar o lume
Que hás-de levar até ao fim
E esse lume já ninguém pode
Nunca apagar dentro de ti
Não percas tempo
O tempo corre
Só quando doi é devagar
E dá-te ao vento
Como um veleiro
Solto no mais alto mar
Dos nós e laços que o mundo faz
Vai abraçando desenleado
De outros abraços que a vida dá
Vai-te encontrando na água e no lume
Na terra quente até perder
O medo, o medo levanta muros
E ergue bandeiras pra nos deter
Não percas tempo
O tempo corre
Só quando doi é devagar
E dá-te ao vento
Como um veleiro
Solto no mais alto mar
Liberta o grito que trazes dentro
E a coragem e o amor
Mesmo que seja só um momento
Mesmo que traga alguma dor
Só isso faz brilhar o lume
Que hás-de levar até ao fim
E esse lume já ninguém pode
Nunca apagar dentro de ti
Não percas tempo
O tempo corre
Só quando doi é devagar
E dá-te ao vento
Como um veleiro
Solto no mais alto mar
1 275
Mafalda Veiga
Cúmplices (para o clube de fãs)
A noite vem às vezes tão perdida
E quase nada parece bater certo
Há qualquer coisa em nós inquieta e ferida
E tudo o que era fundo fica perto
Nem sempre o chão da alma é seguro
Nem sempre o tempo cura qualquer dor
E o sabor a fim do mar que vem do escuro
E tantas vezes o que resta do calor
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
Trocamos as palavras mais escondidas
Que só a noite arranca sem doer
Seremos cúmplices o resto da vida
Ou talvez só até amanhecer
Fica tão fácil entregar a alma
A quem nos traga um sopro do deserto
O olhar onde a distância nunca acalma
Esperando o que vier de peito aberto
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
E quase nada parece bater certo
Há qualquer coisa em nós inquieta e ferida
E tudo o que era fundo fica perto
Nem sempre o chão da alma é seguro
Nem sempre o tempo cura qualquer dor
E o sabor a fim do mar que vem do escuro
E tantas vezes o que resta do calor
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
Trocamos as palavras mais escondidas
Que só a noite arranca sem doer
Seremos cúmplices o resto da vida
Ou talvez só até amanhecer
Fica tão fácil entregar a alma
A quem nos traga um sopro do deserto
O olhar onde a distância nunca acalma
Esperando o que vier de peito aberto
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
1 269
Mafalda Veiga
Cúmplices (para o clube de fãs)
A noite vem às vezes tão perdida
E quase nada parece bater certo
Há qualquer coisa em nós inquieta e ferida
E tudo o que era fundo fica perto
Nem sempre o chão da alma é seguro
Nem sempre o tempo cura qualquer dor
E o sabor a fim do mar que vem do escuro
E tantas vezes o que resta do calor
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
Trocamos as palavras mais escondidas
Que só a noite arranca sem doer
Seremos cúmplices o resto da vida
Ou talvez só até amanhecer
Fica tão fácil entregar a alma
A quem nos traga um sopro do deserto
O olhar onde a distância nunca acalma
Esperando o que vier de peito aberto
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
E quase nada parece bater certo
Há qualquer coisa em nós inquieta e ferida
E tudo o que era fundo fica perto
Nem sempre o chão da alma é seguro
Nem sempre o tempo cura qualquer dor
E o sabor a fim do mar que vem do escuro
E tantas vezes o que resta do calor
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
Trocamos as palavras mais escondidas
Que só a noite arranca sem doer
Seremos cúmplices o resto da vida
Ou talvez só até amanhecer
Fica tão fácil entregar a alma
A quem nos traga um sopro do deserto
O olhar onde a distância nunca acalma
Esperando o que vier de peito aberto
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
1 269
Machado de Assis
Pálida Elvira
A Francisco Paz
Ulysse, jeté sur les rives d'Ithaque, ne les
reconnait pas et pleure sa patrie. Ainsi
l'homme dans le bonheur possédé ne reconnait
pas son rêve et soupire
DANIEL STERN
I
Quando, leitora amiga, no ocidente
Surge a tarde esmaiada e pensativa;
E entre a verde folhagem recendente
Lânguida geme viração lasciva;
E já das tênues sombras do oriente
Vem apontando a noite, e a casta diva
Subindo lentamente pelo espaço,
Do céu, da terra observa o estreito abraço;
II
Nessa hora de amor e de tristeza,
Se acaso não amaste e acaso esperas
Ver coroar-te a juvenil beleza
Casto sonho das tuas primaveras;
Não sentes escapar tua alma acesa
Para voar às lúcidas esferas?
Não sentes nessa mágoa e nesse enleio
Vir morrer-te uma lágrima no seio?
III
Sente-lo? Então entenderás, Elvira,
Que assentada à janela, erguendo o rosto,
O vôo solta à alma que delira
E mergulha no azul de um céu de agosto;
Entenderás então por que suspira,
Vítima já de um íntimo desgosto,
A meiga virgem, pálida e calada,
Sonhadora, ansiosa e namorada.
(...)
VI
Era uma jóia a alcova em que sonhava
Elvira, alma de amor. Tapete fino
De apurado lavor o chão forrava.
De um lado oval espelho cristalino
Pendia. Ao fundo, à sombra, se ocultava
Elegante, engraçado, pequenino
Leito em que, repousando a face bela,
De amor sonhava a pálida donzela.
VII
Não me censure o crítico exigente
O ser pálida a moça é meu costume
Obedecer à lei de toda a gente
Que uma obra compõe de algum volume.
Ora, no nosso caso, é lei vigente
Que um descorado rosto o amor resume.
Não tinha Miss Smolen outras cores;
Não as possui quem sonha com amores.
VIII
Sobre uma mesa havia um livro aberto;
Lamartine, o cantor aéreo e vago,
Que enche de amor um coração deserto;
Tinha-o lido; era a página do Lago.
Amava-o; tinha-o sempre ali bem perto,
Era-lhe o anjo bom, o deus, o orago;
Chorava aos cantos da divina lira...
É que o grande poeta amava Elvira!
IX
Elvira! o mesmo nome! A moça os lia,
Com lágrimas de amor, os versos santos,
Aquela eterna e lânguida harmonia
Formada com suspiros e com prantos;
Quando escutava a musa da elegia
Cantar de Elvira os mágicos encantos,
Entrava-lhe a voar a alma inquieta,
E com o amor sonhava de um poeta.
Imagem - 00010005
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Pálida Elvira.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.69-71. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira).
NOTA: Poema composto de 97 oitavas
Ulysse, jeté sur les rives d'Ithaque, ne les
reconnait pas et pleure sa patrie. Ainsi
l'homme dans le bonheur possédé ne reconnait
pas son rêve et soupire
DANIEL STERN
I
Quando, leitora amiga, no ocidente
Surge a tarde esmaiada e pensativa;
E entre a verde folhagem recendente
Lânguida geme viração lasciva;
E já das tênues sombras do oriente
Vem apontando a noite, e a casta diva
Subindo lentamente pelo espaço,
Do céu, da terra observa o estreito abraço;
II
Nessa hora de amor e de tristeza,
Se acaso não amaste e acaso esperas
Ver coroar-te a juvenil beleza
Casto sonho das tuas primaveras;
Não sentes escapar tua alma acesa
Para voar às lúcidas esferas?
Não sentes nessa mágoa e nesse enleio
Vir morrer-te uma lágrima no seio?
III
Sente-lo? Então entenderás, Elvira,
Que assentada à janela, erguendo o rosto,
O vôo solta à alma que delira
E mergulha no azul de um céu de agosto;
Entenderás então por que suspira,
Vítima já de um íntimo desgosto,
A meiga virgem, pálida e calada,
Sonhadora, ansiosa e namorada.
(...)
VI
Era uma jóia a alcova em que sonhava
Elvira, alma de amor. Tapete fino
De apurado lavor o chão forrava.
De um lado oval espelho cristalino
Pendia. Ao fundo, à sombra, se ocultava
Elegante, engraçado, pequenino
Leito em que, repousando a face bela,
De amor sonhava a pálida donzela.
VII
Não me censure o crítico exigente
O ser pálida a moça é meu costume
Obedecer à lei de toda a gente
Que uma obra compõe de algum volume.
Ora, no nosso caso, é lei vigente
Que um descorado rosto o amor resume.
Não tinha Miss Smolen outras cores;
Não as possui quem sonha com amores.
VIII
Sobre uma mesa havia um livro aberto;
Lamartine, o cantor aéreo e vago,
Que enche de amor um coração deserto;
Tinha-o lido; era a página do Lago.
Amava-o; tinha-o sempre ali bem perto,
Era-lhe o anjo bom, o deus, o orago;
Chorava aos cantos da divina lira...
É que o grande poeta amava Elvira!
IX
Elvira! o mesmo nome! A moça os lia,
Com lágrimas de amor, os versos santos,
Aquela eterna e lânguida harmonia
Formada com suspiros e com prantos;
Quando escutava a musa da elegia
Cantar de Elvira os mágicos encantos,
Entrava-lhe a voar a alma inquieta,
E com o amor sonhava de um poeta.
Imagem - 00010005
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Pálida Elvira.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.69-71. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira).
NOTA: Poema composto de 97 oitavas
2 145
Mafalda Veiga
Em toda a parte
A distância é um fogo
Onde vou chegar
Num abraço fechado
Para te levar
Por campos abertos
Por onde puder
Levar-te por dentro
Pra não te perder
Nem com mil tormentas
Que arrasem o mundo
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
Hei-de lembrar-me de ti
Por outros caminhos
Hei-de vaguear
Num abraço fechado
Para te levar
E há uma canção
Que um dia aprendi
Eu hei-de cantá-la
A pensar em ti
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
hei-de lembrar-me de ti
Onde vou chegar
Num abraço fechado
Para te levar
Por campos abertos
Por onde puder
Levar-te por dentro
Pra não te perder
Nem com mil tormentas
Que arrasem o mundo
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
Hei-de lembrar-me de ti
Por outros caminhos
Hei-de vaguear
Num abraço fechado
Para te levar
E há uma canção
Que um dia aprendi
Eu hei-de cantá-la
A pensar em ti
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
hei-de lembrar-me de ti
1 137
Mafalda Veiga
Em toda a parte
A distância é um fogo
Onde vou chegar
Num abraço fechado
Para te levar
Por campos abertos
Por onde puder
Levar-te por dentro
Pra não te perder
Nem com mil tormentas
Que arrasem o mundo
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
Hei-de lembrar-me de ti
Por outros caminhos
Hei-de vaguear
Num abraço fechado
Para te levar
E há uma canção
Que um dia aprendi
Eu hei-de cantá-la
A pensar em ti
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
hei-de lembrar-me de ti
Onde vou chegar
Num abraço fechado
Para te levar
Por campos abertos
Por onde puder
Levar-te por dentro
Pra não te perder
Nem com mil tormentas
Que arrasem o mundo
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
Hei-de lembrar-me de ti
Por outros caminhos
Hei-de vaguear
Num abraço fechado
Para te levar
E há uma canção
Que um dia aprendi
Eu hei-de cantá-la
A pensar em ti
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
hei-de lembrar-me de ti
1 137
Mafalda Veiga
Lado (a lado)
Há gente que espera de olhar vazio
Na chuva, no frio, encostada ao mundo
A quem nada espanta
Nenhum gesto
Nem raiva ou protesto
Nem que o sol se vá perdendo lá ao fundo
Há restos de amor e de solidão
Na pele, no chão, na rua inquieta
Os dias são iguais já sem saudade
Nem vontade
Aprendendo a não querer mais do que o que resta
E a sonhar de olhos abertos
Nas paragens, nos desertos
A esperar de olhos fechados
Sem imahens de outros lados
A sonhar de olhos abertos
Sem viagens e regressos
Outro dia lado a lado
Há gente nas ruas que adormece
Que se esquece enquanto a noite vem
É gente que aprendeu que nada urge
Nada surge
Porque os dias são viagens de nínguém
A sonhar de olhos abertos
Nas paragens, nos desertos
A esperar de olhos fechados
Sem imagens de outros lados
A sonhar de olhos abertos
Sem viagens e regressos
A esperar de olhos fechados
Outro dia lado a lado
Aprende-se a calar a dor
A tremura, o rubor
O que sobra de paixão
Aprende-se a conter o gesto
A raiva, o protesto
E há um dia em que a alma
Nos rebenta nas mãos
Na chuva, no frio, encostada ao mundo
A quem nada espanta
Nenhum gesto
Nem raiva ou protesto
Nem que o sol se vá perdendo lá ao fundo
Há restos de amor e de solidão
Na pele, no chão, na rua inquieta
Os dias são iguais já sem saudade
Nem vontade
Aprendendo a não querer mais do que o que resta
E a sonhar de olhos abertos
Nas paragens, nos desertos
A esperar de olhos fechados
Sem imahens de outros lados
A sonhar de olhos abertos
Sem viagens e regressos
Outro dia lado a lado
Há gente nas ruas que adormece
Que se esquece enquanto a noite vem
É gente que aprendeu que nada urge
Nada surge
Porque os dias são viagens de nínguém
A sonhar de olhos abertos
Nas paragens, nos desertos
A esperar de olhos fechados
Sem imagens de outros lados
A sonhar de olhos abertos
Sem viagens e regressos
A esperar de olhos fechados
Outro dia lado a lado
Aprende-se a calar a dor
A tremura, o rubor
O que sobra de paixão
Aprende-se a conter o gesto
A raiva, o protesto
E há um dia em que a alma
Nos rebenta nas mãos
1 669
Mafalda Veiga
Lado (a lado)
Há gente que espera de olhar vazio
Na chuva, no frio, encostada ao mundo
A quem nada espanta
Nenhum gesto
Nem raiva ou protesto
Nem que o sol se vá perdendo lá ao fundo
Há restos de amor e de solidão
Na pele, no chão, na rua inquieta
Os dias são iguais já sem saudade
Nem vontade
Aprendendo a não querer mais do que o que resta
E a sonhar de olhos abertos
Nas paragens, nos desertos
A esperar de olhos fechados
Sem imahens de outros lados
A sonhar de olhos abertos
Sem viagens e regressos
Outro dia lado a lado
Há gente nas ruas que adormece
Que se esquece enquanto a noite vem
É gente que aprendeu que nada urge
Nada surge
Porque os dias são viagens de nínguém
A sonhar de olhos abertos
Nas paragens, nos desertos
A esperar de olhos fechados
Sem imagens de outros lados
A sonhar de olhos abertos
Sem viagens e regressos
A esperar de olhos fechados
Outro dia lado a lado
Aprende-se a calar a dor
A tremura, o rubor
O que sobra de paixão
Aprende-se a conter o gesto
A raiva, o protesto
E há um dia em que a alma
Nos rebenta nas mãos
Na chuva, no frio, encostada ao mundo
A quem nada espanta
Nenhum gesto
Nem raiva ou protesto
Nem que o sol se vá perdendo lá ao fundo
Há restos de amor e de solidão
Na pele, no chão, na rua inquieta
Os dias são iguais já sem saudade
Nem vontade
Aprendendo a não querer mais do que o que resta
E a sonhar de olhos abertos
Nas paragens, nos desertos
A esperar de olhos fechados
Sem imahens de outros lados
A sonhar de olhos abertos
Sem viagens e regressos
Outro dia lado a lado
Há gente nas ruas que adormece
Que se esquece enquanto a noite vem
É gente que aprendeu que nada urge
Nada surge
Porque os dias são viagens de nínguém
A sonhar de olhos abertos
Nas paragens, nos desertos
A esperar de olhos fechados
Sem imagens de outros lados
A sonhar de olhos abertos
Sem viagens e regressos
A esperar de olhos fechados
Outro dia lado a lado
Aprende-se a calar a dor
A tremura, o rubor
O que sobra de paixão
Aprende-se a conter o gesto
A raiva, o protesto
E há um dia em que a alma
Nos rebenta nas mãos
1 669
Mafalda Veiga
Fim do dia (no lado quente da saudade)
Esperei-te no fim de um dia cansado
À mesa do café de sempre
O fumo, o calor e o mesmo quadro
Na parede já azul poente
Alguém me sorri do balcão corrido
Alguém que me faz sentir
Que há lugares que são pequenos abrigos
Para onde podemos sempre fugir
Da tarde tão fria há gente que chega
E toma um café apressado
E há os que entram com o olhar perdido
À procura do futuro no avesso do passado
O tempo endurece qualquer armadura
E às vezes custa arrancar
Muralhas erguidas à volta do peito
Que não deixam partir nem deixam chegar
O escuro lá fora incendeia as estrelas
As janelas, os olhares, as ruas
Cá dentro o calor conforta os sentidos
Num pequeno reflexo da lua
Enquanto espero percorro os sinais
Do que fomos que ainda resiste
As marcas deixadas na alma e na pele
Do que foi feliz e do que foi triste
Sabe bem voltar-te a ver
Sabe bem quando estás ao meu lado
Quando o tempo me esvazia
Sabe bem o teu braço fechado
E tudo o que me dás quando és
Guarida junto à tempestade
Os rumos para caminhar
No lado quente da saudade
À mesa do café de sempre
O fumo, o calor e o mesmo quadro
Na parede já azul poente
Alguém me sorri do balcão corrido
Alguém que me faz sentir
Que há lugares que são pequenos abrigos
Para onde podemos sempre fugir
Da tarde tão fria há gente que chega
E toma um café apressado
E há os que entram com o olhar perdido
À procura do futuro no avesso do passado
O tempo endurece qualquer armadura
E às vezes custa arrancar
Muralhas erguidas à volta do peito
Que não deixam partir nem deixam chegar
O escuro lá fora incendeia as estrelas
As janelas, os olhares, as ruas
Cá dentro o calor conforta os sentidos
Num pequeno reflexo da lua
Enquanto espero percorro os sinais
Do que fomos que ainda resiste
As marcas deixadas na alma e na pele
Do que foi feliz e do que foi triste
Sabe bem voltar-te a ver
Sabe bem quando estás ao meu lado
Quando o tempo me esvazia
Sabe bem o teu braço fechado
E tudo o que me dás quando és
Guarida junto à tempestade
Os rumos para caminhar
No lado quente da saudade
1 268
Álvares de Azevedo
Tenho um seio que delira
I
Tenho um seio que delira
Como as tuas harmonias!
Que treme quando suspira,
Que geme como gemias!
II
Tenho músicas ardentes,
Ais do meu amor insano,
Que palpitam mais dormentes
Do que os sons do teu piano!
III
Tenho cordas argentinas
Que a noite faz acordar,
Como as nuvens peregrinas
Das gaivotas do alto mar!
IV
Como a teus dedos lindinhos
O teu piano gemeu,
Vibra-me o seio aos dedinhos
Dos anjos loiros do céu!
V
Vibra à noite do mistério,
Se o banha o frouxo luar,
Se passa teu rosto aéreo
No vaporoso sonhar!
VI
Como tremem teus dedinhos
O saudoso piano teu,
Vibram-me n'alma os anjinhos,
Os anjos loiros do céu!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Tenho um seio que delira
Como as tuas harmonias!
Que treme quando suspira,
Que geme como gemias!
II
Tenho músicas ardentes,
Ais do meu amor insano,
Que palpitam mais dormentes
Do que os sons do teu piano!
III
Tenho cordas argentinas
Que a noite faz acordar,
Como as nuvens peregrinas
Das gaivotas do alto mar!
IV
Como a teus dedos lindinhos
O teu piano gemeu,
Vibra-me o seio aos dedinhos
Dos anjos loiros do céu!
V
Vibra à noite do mistério,
Se o banha o frouxo luar,
Se passa teu rosto aéreo
No vaporoso sonhar!
VI
Como tremem teus dedinhos
O saudoso piano teu,
Vibram-me n'alma os anjinhos,
Os anjos loiros do céu!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
3 033
Mafalda Veiga
Pedras e Flores
Hoje a vida passa como um barco
Ilha de náufragos esquecida no mar
E o tempo é nada haver sentido tudo
O que por nada ser nos faz mudar
Hoje o mundo é o revés de um sonho
Que um sono mais profundo fez esquecer
Para quê querer das coisas a razão
Se quase nada tem razão de ser
O luar traz silêncios e disparos
E carícias fugazes e horrores
E morre-se num canto de um poema
Por isso e outras coisa dão-se flores
Bebe-se vinho e dorme-se ao relento
E liberta-se o grito que vier
Pra se ouvir longe e perto, e dentro
Conserva-se o silêncio, o que se puder
E alguma vez ainda se acredita
Na força da montanha céu adentro
E na canção do mar por ser bonita
E nas asas que inventa, cores ao vento
Mas hoje voam pássaros sem asas
Na terra desabrocham cores de guerra
E hoje as flores rolam pelo chão
Como se fossem pedras
Ilha de náufragos esquecida no mar
E o tempo é nada haver sentido tudo
O que por nada ser nos faz mudar
Hoje o mundo é o revés de um sonho
Que um sono mais profundo fez esquecer
Para quê querer das coisas a razão
Se quase nada tem razão de ser
O luar traz silêncios e disparos
E carícias fugazes e horrores
E morre-se num canto de um poema
Por isso e outras coisa dão-se flores
Bebe-se vinho e dorme-se ao relento
E liberta-se o grito que vier
Pra se ouvir longe e perto, e dentro
Conserva-se o silêncio, o que se puder
E alguma vez ainda se acredita
Na força da montanha céu adentro
E na canção do mar por ser bonita
E nas asas que inventa, cores ao vento
Mas hoje voam pássaros sem asas
Na terra desabrocham cores de guerra
E hoje as flores rolam pelo chão
Como se fossem pedras
1 391
Mafalda Veiga
A fantasia (tem brilhos como as estrelas)
Vais pela rua
E finges que navegas
Desancorado até à alma
Percorres os mares do mundo
Hoje és um rei
E finges que te entregas
Ao vento e à tempestade
Como se fosses um vagabundo
A aventura, sente
A maresia e a madrugada
Corre, deixa-te levar
Pelo vento quente
Que se cola ao teu corpo
E te embala sempre
Até quereres voltar
A fantasia
Tem brilhos como as estrelas
E morna e doce e apetece
Soltá-la a voar no mundo
Hoje és um rei
Na tua caravela
A navegar
Num sopro de magia
E finges que navegas
Desancorado até à alma
Percorres os mares do mundo
Hoje és um rei
E finges que te entregas
Ao vento e à tempestade
Como se fosses um vagabundo
A aventura, sente
A maresia e a madrugada
Corre, deixa-te levar
Pelo vento quente
Que se cola ao teu corpo
E te embala sempre
Até quereres voltar
A fantasia
Tem brilhos como as estrelas
E morna e doce e apetece
Soltá-la a voar no mundo
Hoje és um rei
Na tua caravela
A navegar
Num sopro de magia
1 207
Mafalda Veiga
Nazaré
Ainda hoje dormi na praia
Na acalmia da maré
E a lua inundou-me os olhos
E o mar despido afundou-me a fé
E hoje de que serve a jura
Se ele à praia não vai voltar
Esperei na noite mais escura
Até ver na água o azul clarear
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
E o sal no brilho dos olhos
Sabe a tristeza sem fim
Que hoje o mar abraça e leva
O que Deus quis e arrancou de mim
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
Ainda hoje acordei na praia
Nada ao longe se avistou
Só mais uma noite escura
Sob o azul e sob a lua
Esconde o que o mar me roubou
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
Na acalmia da maré
E a lua inundou-me os olhos
E o mar despido afundou-me a fé
E hoje de que serve a jura
Se ele à praia não vai voltar
Esperei na noite mais escura
Até ver na água o azul clarear
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
E o sal no brilho dos olhos
Sabe a tristeza sem fim
Que hoje o mar abraça e leva
O que Deus quis e arrancou de mim
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
Ainda hoje acordei na praia
Nada ao longe se avistou
Só mais uma noite escura
Sob o azul e sob a lua
Esconde o que o mar me roubou
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
2 533
Mafalda Veiga
Nazaré
Ainda hoje dormi na praia
Na acalmia da maré
E a lua inundou-me os olhos
E o mar despido afundou-me a fé
E hoje de que serve a jura
Se ele à praia não vai voltar
Esperei na noite mais escura
Até ver na água o azul clarear
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
E o sal no brilho dos olhos
Sabe a tristeza sem fim
Que hoje o mar abraça e leva
O que Deus quis e arrancou de mim
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
Ainda hoje acordei na praia
Nada ao longe se avistou
Só mais uma noite escura
Sob o azul e sob a lua
Esconde o que o mar me roubou
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
Na acalmia da maré
E a lua inundou-me os olhos
E o mar despido afundou-me a fé
E hoje de que serve a jura
Se ele à praia não vai voltar
Esperei na noite mais escura
Até ver na água o azul clarear
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
E o sal no brilho dos olhos
Sabe a tristeza sem fim
Que hoje o mar abraça e leva
O que Deus quis e arrancou de mim
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
Ainda hoje acordei na praia
Nada ao longe se avistou
Só mais uma noite escura
Sob o azul e sob a lua
Esconde o que o mar me roubou
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
Ai Nazaré
Deixa-me embalar o mar
Deixa-me embalar o mar
2 533
Mafalda Veiga
Gente Perdida
Eu fui devagarinho
Com medo de falhar
Não fosse esse o caminho certo
Para te encontrar
Fui descobrindo devagar
Cada sorriso teu
Fui aprendendo a procurar
Por entre sonhos meus
Eu fui assim chegando
Sem entender porquê
Já foram tantas vezes tantas
Assim como esta vez
Mas é mais fundo o teu olhar
Mais do que eu sei dizer
É um abrigo pra voltar
Ou um mar para me perder
Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
A gente finge
Mas sabe o que não é verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E sinto tanto, tanto a tua falta
Eu fui entrando pouco a pouco
Abri a porta e vi
Que havia lume aceso
E um lugar pra mim
Quase me assusta descobrir
Que foi este sabor
Que a vida inteira procurei
Entra a paixão e a dor
Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
Gente perdida
Balança entre o sonho e a verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E sinto tanto, tanto a tua falta
Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
Gente perdida
Balança entre o sonho e a verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E guardo este abraço só para ti
Com medo de falhar
Não fosse esse o caminho certo
Para te encontrar
Fui descobrindo devagar
Cada sorriso teu
Fui aprendendo a procurar
Por entre sonhos meus
Eu fui assim chegando
Sem entender porquê
Já foram tantas vezes tantas
Assim como esta vez
Mas é mais fundo o teu olhar
Mais do que eu sei dizer
É um abrigo pra voltar
Ou um mar para me perder
Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
A gente finge
Mas sabe o que não é verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E sinto tanto, tanto a tua falta
Eu fui entrando pouco a pouco
Abri a porta e vi
Que havia lume aceso
E um lugar pra mim
Quase me assusta descobrir
Que foi este sabor
Que a vida inteira procurei
Entra a paixão e a dor
Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
Gente perdida
Balança entre o sonho e a verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E sinto tanto, tanto a tua falta
Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
Gente perdida
Balança entre o sonho e a verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E guardo este abraço só para ti
1 542
Mafalda Veiga
Gente Perdida
Eu fui devagarinho
Com medo de falhar
Não fosse esse o caminho certo
Para te encontrar
Fui descobrindo devagar
Cada sorriso teu
Fui aprendendo a procurar
Por entre sonhos meus
Eu fui assim chegando
Sem entender porquê
Já foram tantas vezes tantas
Assim como esta vez
Mas é mais fundo o teu olhar
Mais do que eu sei dizer
É um abrigo pra voltar
Ou um mar para me perder
Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
A gente finge
Mas sabe o que não é verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E sinto tanto, tanto a tua falta
Eu fui entrando pouco a pouco
Abri a porta e vi
Que havia lume aceso
E um lugar pra mim
Quase me assusta descobrir
Que foi este sabor
Que a vida inteira procurei
Entra a paixão e a dor
Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
Gente perdida
Balança entre o sonho e a verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E sinto tanto, tanto a tua falta
Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
Gente perdida
Balança entre o sonho e a verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E guardo este abraço só para ti
Com medo de falhar
Não fosse esse o caminho certo
Para te encontrar
Fui descobrindo devagar
Cada sorriso teu
Fui aprendendo a procurar
Por entre sonhos meus
Eu fui assim chegando
Sem entender porquê
Já foram tantas vezes tantas
Assim como esta vez
Mas é mais fundo o teu olhar
Mais do que eu sei dizer
É um abrigo pra voltar
Ou um mar para me perder
Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
A gente finge
Mas sabe o que não é verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E sinto tanto, tanto a tua falta
Eu fui entrando pouco a pouco
Abri a porta e vi
Que havia lume aceso
E um lugar pra mim
Quase me assusta descobrir
Que foi este sabor
Que a vida inteira procurei
Entra a paixão e a dor
Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
Gente perdida
Balança entre o sonho e a verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E sinto tanto, tanto a tua falta
Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
Gente perdida
Balança entre o sonho e a verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E guardo este abraço só para ti
1 542
Mafalda Veiga
Outro dia que amanhece
São braços, abraços estreitos
Gente que vai e que vem
Gente parada a ver passar
São as imagens das viagens
De quem foi pra muito longe
De quem só sonhou um dia lá chegar
São navegantes em terra
Com a alma a velejar
São soldados sem guerra
Que atiram contra fantasmas
Que não podem alcançar
Que não vão poder matar
Nas ruas ficam as marcas
Da coragem e do medo
Nas sombras da madrugada
Há quem fuja ao seu degredo
E grite a negro nas paredes
São braços, abraços estreitos
Que se dão ou que se vendem
Nos atalhos da má sorte
É a vida a contorcer-se
Ao sabor da multidão
É a falta de coragem
Que mata mais do que a morte
Mata antes de se morrer
São navegantes rio acima
Rua abaixo sem um norte
É gente de pouca idade
Que aprendeu cedo a saudade
Do amor e de outra sorte
Nas ruas ficam as marcas
Do que alegra ou entristece
O grito de quem se cala
Quando outro dia amanhece
Outro dia que amanhece nas ruas
Gente que vai e que vem
Gente parada a ver passar
São as imagens das viagens
De quem foi pra muito longe
De quem só sonhou um dia lá chegar
São navegantes em terra
Com a alma a velejar
São soldados sem guerra
Que atiram contra fantasmas
Que não podem alcançar
Que não vão poder matar
Nas ruas ficam as marcas
Da coragem e do medo
Nas sombras da madrugada
Há quem fuja ao seu degredo
E grite a negro nas paredes
São braços, abraços estreitos
Que se dão ou que se vendem
Nos atalhos da má sorte
É a vida a contorcer-se
Ao sabor da multidão
É a falta de coragem
Que mata mais do que a morte
Mata antes de se morrer
São navegantes rio acima
Rua abaixo sem um norte
É gente de pouca idade
Que aprendeu cedo a saudade
Do amor e de outra sorte
Nas ruas ficam as marcas
Do que alegra ou entristece
O grito de quem se cala
Quando outro dia amanhece
Outro dia que amanhece nas ruas
884
Mafalda Veiga
Um Filme
O quarto amanhece
A luz quase rasga
Há um plano da cama
Um livro no chão
A roupa espalhada
Os olhos fechados
A imagem sem som
Da televisão
Dois copos deixados
No vão da janela
Que filtram a luz
Azul do abandono
Um plano fechado
Do rosto e das mãos
E o movimento lento
E leve do sono
E, no que resta do escuro
Tudo o que se deu
E, colada ao tecto,
A imensidão do céu
Na mesa um cigarro
Que ficou esquecido
O sol desenhado
Na nudez da pele
Uma brisa leve
Um luar escondido
E o plano infinito
De qualquer gesto breve
E. no que resta do escuro,
Tudo o que se deu
E, colada ao tecto,
A imensidão do céu
Ao lado da cama.
No chão, um papel
Ardente na sombra
De quem foi embora
Talvez diga apenas "adeus"
A luz quase rasga
Há um plano da cama
Um livro no chão
A roupa espalhada
Os olhos fechados
A imagem sem som
Da televisão
Dois copos deixados
No vão da janela
Que filtram a luz
Azul do abandono
Um plano fechado
Do rosto e das mãos
E o movimento lento
E leve do sono
E, no que resta do escuro
Tudo o que se deu
E, colada ao tecto,
A imensidão do céu
Na mesa um cigarro
Que ficou esquecido
O sol desenhado
Na nudez da pele
Uma brisa leve
Um luar escondido
E o plano infinito
De qualquer gesto breve
E. no que resta do escuro,
Tudo o que se deu
E, colada ao tecto,
A imensidão do céu
Ao lado da cama.
No chão, um papel
Ardente na sombra
De quem foi embora
Talvez diga apenas "adeus"
1 070
Mafalda Veiga
O Bêbado Pintor
Encostado ao balcão da taberna
o bêbado pintor
espera a noite de sombras vazias
e quem vende o amor assim
Louco e ébrio num circo deserto
cambaleando e só
um palhaço triste
inventa um pouco de alegria
e dança num palco gasto
afastando o pó
Hoje eu sou rei do mundo
pintor de todo o lugar
um coração de vagabundo
sabe voar
Ela entra nas noites sem rumo
com o olhar vazio
e traz nos cabelos
a brisa leve do Outono
que ele quis pintar
e lhe fugiu
Só e ébrio num carrossel louco
sem mastro nem chão
diz-lhe: vem ver um palhaço triste
descobrir a poesia
em noites de amor
e solidão
Hoje eu sou o rei do mundo
pintor de todo o lugar
um coração de vagabundo
sabe voar
o bêbado pintor
espera a noite de sombras vazias
e quem vende o amor assim
Louco e ébrio num circo deserto
cambaleando e só
um palhaço triste
inventa um pouco de alegria
e dança num palco gasto
afastando o pó
Hoje eu sou rei do mundo
pintor de todo o lugar
um coração de vagabundo
sabe voar
Ela entra nas noites sem rumo
com o olhar vazio
e traz nos cabelos
a brisa leve do Outono
que ele quis pintar
e lhe fugiu
Só e ébrio num carrossel louco
sem mastro nem chão
diz-lhe: vem ver um palhaço triste
descobrir a poesia
em noites de amor
e solidão
Hoje eu sou o rei do mundo
pintor de todo o lugar
um coração de vagabundo
sabe voar
1 188
Mafalda Veiga
O Bêbado Pintor
Encostado ao balcão da taberna
o bêbado pintor
espera a noite de sombras vazias
e quem vende o amor assim
Louco e ébrio num circo deserto
cambaleando e só
um palhaço triste
inventa um pouco de alegria
e dança num palco gasto
afastando o pó
Hoje eu sou rei do mundo
pintor de todo o lugar
um coração de vagabundo
sabe voar
Ela entra nas noites sem rumo
com o olhar vazio
e traz nos cabelos
a brisa leve do Outono
que ele quis pintar
e lhe fugiu
Só e ébrio num carrossel louco
sem mastro nem chão
diz-lhe: vem ver um palhaço triste
descobrir a poesia
em noites de amor
e solidão
Hoje eu sou o rei do mundo
pintor de todo o lugar
um coração de vagabundo
sabe voar
o bêbado pintor
espera a noite de sombras vazias
e quem vende o amor assim
Louco e ébrio num circo deserto
cambaleando e só
um palhaço triste
inventa um pouco de alegria
e dança num palco gasto
afastando o pó
Hoje eu sou rei do mundo
pintor de todo o lugar
um coração de vagabundo
sabe voar
Ela entra nas noites sem rumo
com o olhar vazio
e traz nos cabelos
a brisa leve do Outono
que ele quis pintar
e lhe fugiu
Só e ébrio num carrossel louco
sem mastro nem chão
diz-lhe: vem ver um palhaço triste
descobrir a poesia
em noites de amor
e solidão
Hoje eu sou o rei do mundo
pintor de todo o lugar
um coração de vagabundo
sabe voar
1 188
Edgar Allan Poe
Untitled - The happiest day — the happiest hour
The happiest day — the happiest hour
My sear'd and blighted heart hath known,
The highest hope of pride, and power,
I feel hath flown.
Of power! said I? yes! such I ween
But they have vanish'd long alas!
The visions of my youth have been —
But let them pass.
And, pride, what have I now with thee?
Another brow may ev'n inherit
The venom thou hast pour'd on me —
Be still my spirit.
The happiest day — the happiest hour
Mine eyes shall see — have ever seen
The brightest glance of pride and power
I feel — have been:
But were that hope of pride and power
Now offer'd, with the pain
Ev'n then I felt — that brightest hour
I would not live again:
For on its wing wall dark alloy
And as it flutter'd — fell
An essence — powerful to destroy
A soul that knew it well.
1827
My sear'd and blighted heart hath known,
The highest hope of pride, and power,
I feel hath flown.
Of power! said I? yes! such I ween
But they have vanish'd long alas!
The visions of my youth have been —
But let them pass.
And, pride, what have I now with thee?
Another brow may ev'n inherit
The venom thou hast pour'd on me —
Be still my spirit.
The happiest day — the happiest hour
Mine eyes shall see — have ever seen
The brightest glance of pride and power
I feel — have been:
But were that hope of pride and power
Now offer'd, with the pain
Ev'n then I felt — that brightest hour
I would not live again:
For on its wing wall dark alloy
And as it flutter'd — fell
An essence — powerful to destroy
A soul that knew it well.
1827
1 128
Edgar Allan Poe
Untitled - The happiest day — the happiest hour
The happiest day — the happiest hour
My sear'd and blighted heart hath known,
The highest hope of pride, and power,
I feel hath flown.
Of power! said I? yes! such I ween
But they have vanish'd long alas!
The visions of my youth have been —
But let them pass.
And, pride, what have I now with thee?
Another brow may ev'n inherit
The venom thou hast pour'd on me —
Be still my spirit.
The happiest day — the happiest hour
Mine eyes shall see — have ever seen
The brightest glance of pride and power
I feel — have been:
But were that hope of pride and power
Now offer'd, with the pain
Ev'n then I felt — that brightest hour
I would not live again:
For on its wing wall dark alloy
And as it flutter'd — fell
An essence — powerful to destroy
A soul that knew it well.
1827
My sear'd and blighted heart hath known,
The highest hope of pride, and power,
I feel hath flown.
Of power! said I? yes! such I ween
But they have vanish'd long alas!
The visions of my youth have been —
But let them pass.
And, pride, what have I now with thee?
Another brow may ev'n inherit
The venom thou hast pour'd on me —
Be still my spirit.
The happiest day — the happiest hour
Mine eyes shall see — have ever seen
The brightest glance of pride and power
I feel — have been:
But were that hope of pride and power
Now offer'd, with the pain
Ev'n then I felt — that brightest hour
I would not live again:
For on its wing wall dark alloy
And as it flutter'd — fell
An essence — powerful to destroy
A soul that knew it well.
1827
1 128
Edgar Allan Poe
Fairy-Land
Dim vales— and shadowy floods—
And cloudy—looking woods,
Whose forms we can't discover
For the tears that drip all over!
Huge moons there wax and wane—
Again— again— again—
Every moment of the night—
Forever changing places—
And they put out the star—light
With the breath from their pale faces.
About twelve by the moon—dial,
One more filmy than the rest
(A kind which, upon trial,
They have found to be the best)
Comes down— still down— and down,
With its centre on the crown
Of a mountain's eminence,
While its wide circumference
In easy drapery falls
Over hamlets, over halls,
Wherever they may be—
O'er the strange woods— o'er the sea—
Over spirits on the wing—
Over every drowsy thing—
And buries them up quite
In a labyrinth of light—
And then, how deep!— O, deep!
Is the passion of their sleep.
In the morning they arise,
And their moony covering
Is soaring in the skies,
With the tempests as they toss,
Like— almost anything—
Or a yellow Albatross.
They use that moon no more
For the same end as before—
Videlicet, a tent—
Which I think extravagant:
Its atomies, however,
Into a shower dissever,
Of which those butterflies
Of Earth, who seek the skies,
And so come down again,
(Never—contented things!)
Have brought a specimen
Upon their quivering wings.
1829
And cloudy—looking woods,
Whose forms we can't discover
For the tears that drip all over!
Huge moons there wax and wane—
Again— again— again—
Every moment of the night—
Forever changing places—
And they put out the star—light
With the breath from their pale faces.
About twelve by the moon—dial,
One more filmy than the rest
(A kind which, upon trial,
They have found to be the best)
Comes down— still down— and down,
With its centre on the crown
Of a mountain's eminence,
While its wide circumference
In easy drapery falls
Over hamlets, over halls,
Wherever they may be—
O'er the strange woods— o'er the sea—
Over spirits on the wing—
Over every drowsy thing—
And buries them up quite
In a labyrinth of light—
And then, how deep!— O, deep!
Is the passion of their sleep.
In the morning they arise,
And their moony covering
Is soaring in the skies,
With the tempests as they toss,
Like— almost anything—
Or a yellow Albatross.
They use that moon no more
For the same end as before—
Videlicet, a tent—
Which I think extravagant:
Its atomies, however,
Into a shower dissever,
Of which those butterflies
Of Earth, who seek the skies,
And so come down again,
(Never—contented things!)
Have brought a specimen
Upon their quivering wings.
1829
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