Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Moacyr Felix
Sentimento Clássico
Pisados, os olhos com que pisaste
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.
Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.
Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.
Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.
Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.
Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.
Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.
1 317
Moacyr Felix
Sentimento Clássico
Pisados, os olhos com que pisaste
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.
Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.
Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.
Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.
Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.
Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.
Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.
1 317
Moacyr Felix
Sentimento Clássico
Pisados, os olhos com que pisaste
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.
Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.
Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.
Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.
Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.
Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.
Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.
1 317
Flávio Sátiro Fernandes
Toilette
1. Quem garante
que ao escovar os dentes
eu não esteja
escovando a alma?
Não sinto
o sabor de menta
ou de clorofila.
Muito menos
o hexaclorofeno.
Na boca,
apenas,
o gosto dos sonhos
da noite insone.
2. Uma mão
lava a outra
e as duas
(em concha)
lavam o desgosto.
3. O pincel,
o creme,
a espuma a se espalhar
na face descoberta.
O gesto ritual
de retirar
da têmporas
a espuma.
A lâmina afiada
a deslizar
em meu disfarce oculto.
4. O pente põe
bem comportados
os fantasmas
negros e brancos
do pesadelo de ontem.
Até que a noite
volte a confundi-los.
que ao escovar os dentes
eu não esteja
escovando a alma?
Não sinto
o sabor de menta
ou de clorofila.
Muito menos
o hexaclorofeno.
Na boca,
apenas,
o gosto dos sonhos
da noite insone.
2. Uma mão
lava a outra
e as duas
(em concha)
lavam o desgosto.
3. O pincel,
o creme,
a espuma a se espalhar
na face descoberta.
O gesto ritual
de retirar
da têmporas
a espuma.
A lâmina afiada
a deslizar
em meu disfarce oculto.
4. O pente põe
bem comportados
os fantasmas
negros e brancos
do pesadelo de ontem.
Até que a noite
volte a confundi-los.
925
Flávio Sátiro Fernandes
Paisagem de Guima
O pássaro,
em vôo sereno,
conquista, do alto,
o quanto existe
de luz e de esperança
nesse verd’água sublime.
em vôo sereno,
conquista, do alto,
o quanto existe
de luz e de esperança
nesse verd’água sublime.
885
Fernando José dos Santos Oliveira
Despedida
Despedida
Prometi separar
lápis do papel
mas, derradeiro,
fui fel.
No meu traço
usei feia cor.
Permita deixar
este canto,
este hino:
sou homem,
menino,
e se desafino...
é coisas do amor.
Um dia te pego
te arrasto prum canto
(não venhas com pranto
de medo ou de dor).
Te encosto à parede,
aplaco esta sede,
e, em lágrimas, confesso
o apaixonado que sou.
Amigos só?! Não
(se bem que assim
retorno à paz)
Mas pensa, concede,
um tantinho assim,
um pouquinho só,
ser só um pouquinho mais.
Prometi separar
lápis do papel
mas, derradeiro,
fui fel.
No meu traço
usei feia cor.
Permita deixar
este canto,
este hino:
sou homem,
menino,
e se desafino...
é coisas do amor.
Um dia te pego
te arrasto prum canto
(não venhas com pranto
de medo ou de dor).
Te encosto à parede,
aplaco esta sede,
e, em lágrimas, confesso
o apaixonado que sou.
Amigos só?! Não
(se bem que assim
retorno à paz)
Mas pensa, concede,
um tantinho assim,
um pouquinho só,
ser só um pouquinho mais.
916
Felipe d’Oliveira
O Epitáfio que Não Foi Gravado
Todos sentiram quando a morte entrou
com um frêmito apressado de retardatária.
A que tinha de morrer, — a que a esperava, —
fechou os olhos
fatigados de assistirem ao mal-entendido da vida.
Os que a choravam sabiam-na sem pecado,
consoladora dos aflitos,
boca de perdão e de indulgência,
corpo sem desejo,
voz sem amargor.
A que tinha de morrer fechou os olhos fatigados,
mas tranqüilos...
Porque os que a choravam nunca saberiam
o rancor sem perdão de sua boca,
o desejo saciado de seu corpo,
o amargor de sua voz,
a sua angústia de arrastar até o fim a alma postiça que lhe fizeram,
o seu cansaço imenso de abafar, secretos, na carne ansiosa,
a perfeição e o orgulho de pecar.
A que tinha de morrer fechou os olhos para sempre
e os que a choravam
nunca souberam de alguém que foi de todos junto ao leito à hora do exausto coração parar
o mais distante,
o mais imóvel,
o que não soluçou
o que não pôde erguer as pálpebras pesadas,
o que sentiu clamar no sangue o desespero de sobreviver,
o que estrangulou na garganta o grito dilacerado do solitário,
o que depôs, sobre a serenidade da morte purificadora,
a redenção do silêncio,
como uma pedra votiva de sepulcro.
com um frêmito apressado de retardatária.
A que tinha de morrer, — a que a esperava, —
fechou os olhos
fatigados de assistirem ao mal-entendido da vida.
Os que a choravam sabiam-na sem pecado,
consoladora dos aflitos,
boca de perdão e de indulgência,
corpo sem desejo,
voz sem amargor.
A que tinha de morrer fechou os olhos fatigados,
mas tranqüilos...
Porque os que a choravam nunca saberiam
o rancor sem perdão de sua boca,
o desejo saciado de seu corpo,
o amargor de sua voz,
a sua angústia de arrastar até o fim a alma postiça que lhe fizeram,
o seu cansaço imenso de abafar, secretos, na carne ansiosa,
a perfeição e o orgulho de pecar.
A que tinha de morrer fechou os olhos para sempre
e os que a choravam
nunca souberam de alguém que foi de todos junto ao leito à hora do exausto coração parar
o mais distante,
o mais imóvel,
o que não soluçou
o que não pôde erguer as pálpebras pesadas,
o que sentiu clamar no sangue o desespero de sobreviver,
o que estrangulou na garganta o grito dilacerado do solitário,
o que depôs, sobre a serenidade da morte purificadora,
a redenção do silêncio,
como uma pedra votiva de sepulcro.
1 521
Moacyr Felix
Poema quase Explicação
Luzes cortam a noite básica
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.
E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.
Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.
Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.
E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.
Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.
Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
1 313
Fernando José dos Santos Oliveira
Porque será que não sou o que quero?
Porque será que não sou o que quero?
Porque será que não sou o que quero e não consigo mostrar o que sou?
Permito que ouçam, no máximo, barulhos de um apartamento vizinho.
Quero dar mais e não con-
sigo e sigo recebendo - mais e mais.
Quero ser sério e não con-
sigo e sigo disfarçando.
Quero falar - olhos nos olhos - e não con-
sigo e sigo escrevendo.
Quero aceitar as frases feitas e não con-
sigo e sigo duvidando.
Quero ter ânimo para mudar o mundo e não con-
sigo e sigo obedecendo.
Quero não perder o chão e não con-
sigo e sigo tropeçando.
Quero ser importante e não con-
sigo e sigo me importando.
Quero ter coragem e não con-
sigo e sigo me escondendo.
Quero ser digno e não con-
sigo e sigo me indignando.
Quero viver e não con-
sigo e sigo me matando.
Quero ficar à toa e não con-
sigo e sigo me esforçando.
Quero produzir e não con-
sigo e sigo consumindo.
Quero ser um pouquinho só da sua beleza e não con-
sigo e sigo, boquiaberto, admirando.
Quero me libertar e não con-
sigo e sigo Fernando.
Porque será que não sou o que quero e não consigo mostrar o que sou?
Permito que ouçam, no máximo, barulhos de um apartamento vizinho.
Quero dar mais e não con-
sigo e sigo recebendo - mais e mais.
Quero ser sério e não con-
sigo e sigo disfarçando.
Quero falar - olhos nos olhos - e não con-
sigo e sigo escrevendo.
Quero aceitar as frases feitas e não con-
sigo e sigo duvidando.
Quero ter ânimo para mudar o mundo e não con-
sigo e sigo obedecendo.
Quero não perder o chão e não con-
sigo e sigo tropeçando.
Quero ser importante e não con-
sigo e sigo me importando.
Quero ter coragem e não con-
sigo e sigo me escondendo.
Quero ser digno e não con-
sigo e sigo me indignando.
Quero viver e não con-
sigo e sigo me matando.
Quero ficar à toa e não con-
sigo e sigo me esforçando.
Quero produzir e não con-
sigo e sigo consumindo.
Quero ser um pouquinho só da sua beleza e não con-
sigo e sigo, boquiaberto, admirando.
Quero me libertar e não con-
sigo e sigo Fernando.
948
Fernando Fábio Fiorese Furtado
Mulher Dormindo
apenas a alma dorme
o corpo insone
trabalha
os minérios do sono
sustenta o pânico
o naufrágio
na penumbra
fogo e relva
os músculos dançam
debruçados sobre o nada
os olhos não
os olhos sonham
à sombra da alma
- e sobrevivem
ao dilúvio
o corpo insone
trabalha
os minérios do sono
sustenta o pânico
o naufrágio
na penumbra
fogo e relva
os músculos dançam
debruçados sobre o nada
os olhos não
os olhos sonham
à sombra da alma
- e sobrevivem
ao dilúvio
1 018
Fernando Fábio Fiorese Furtado
Mulher Dormindo
apenas a alma dorme
o corpo insone
trabalha
os minérios do sono
sustenta o pânico
o naufrágio
na penumbra
fogo e relva
os músculos dançam
debruçados sobre o nada
os olhos não
os olhos sonham
à sombra da alma
- e sobrevivem
ao dilúvio
o corpo insone
trabalha
os minérios do sono
sustenta o pânico
o naufrágio
na penumbra
fogo e relva
os músculos dançam
debruçados sobre o nada
os olhos não
os olhos sonham
à sombra da alma
- e sobrevivem
ao dilúvio
1 018
Fernando Fábio Fiorese Furtado
Mulher Dormindo
apenas a alma dorme
o corpo insone
trabalha
os minérios do sono
sustenta o pânico
o naufrágio
na penumbra
fogo e relva
os músculos dançam
debruçados sobre o nada
os olhos não
os olhos sonham
à sombra da alma
- e sobrevivem
ao dilúvio
o corpo insone
trabalha
os minérios do sono
sustenta o pânico
o naufrágio
na penumbra
fogo e relva
os músculos dançam
debruçados sobre o nada
os olhos não
os olhos sonham
à sombra da alma
- e sobrevivem
ao dilúvio
1 018
Félix Aires
Porto de São Luís
De momento a momento, amuado, o mar esmurra,
bruto, esbaqueia, esbate, esbraveja, esbarronda!
Os mais fortes murais o seu chicote surra
e atrevido intromete, estruge, atroa, estronda!
Enche, transborda e vaza, encharca, estoira, esturra,
inquieto, a retesar seus pulsos de onda em onda!
Hércules que protesta e incrivelmente empurra
enormes vagalhões, sem ter quem lhe responda!
Gigante intempestivo, intrépido, arruaceiro,
que de rosto fechado ameaça o mundo inteiro,
espragueja a cuspir os portos das cidades!
— Mar que amedronta a terra em doudos temporais
o ódio, pior que tu, de arremessos fatais,
incha, resmunga e explode em negras tempestades!
bruto, esbaqueia, esbate, esbraveja, esbarronda!
Os mais fortes murais o seu chicote surra
e atrevido intromete, estruge, atroa, estronda!
Enche, transborda e vaza, encharca, estoira, esturra,
inquieto, a retesar seus pulsos de onda em onda!
Hércules que protesta e incrivelmente empurra
enormes vagalhões, sem ter quem lhe responda!
Gigante intempestivo, intrépido, arruaceiro,
que de rosto fechado ameaça o mundo inteiro,
espragueja a cuspir os portos das cidades!
— Mar que amedronta a terra em doudos temporais
o ódio, pior que tu, de arremessos fatais,
incha, resmunga e explode em negras tempestades!
900
Fernando Batinga de Mendonça
Poema do Homem Latino-Americano
Para Diego de Rivera,
em cima dos ombros
tens uma pedra:
pedra sem rosto
enorme incerta.
teu corpo de fome
de ossos de pele
trabalha na mina
na lavra da terra.
estendes as mãos
sem forma incertas
nos calos nos cortes
nos dedos nos ferros.
um corpo de fome
vestido de pele
carregas as mãos
um rosto de pedra.
em cima dos ombros
tens uma pedra:
pedra sem rosto
enorme incerta.
teu corpo de fome
de ossos de pele
trabalha na mina
na lavra da terra.
estendes as mãos
sem forma incertas
nos calos nos cortes
nos dedos nos ferros.
um corpo de fome
vestido de pele
carregas as mãos
um rosto de pedra.
1 165
Fábio Afonso de Almeida
Minutos
Espaços Vivenciados amesquinham
Em torno de sólidos egocentrismos
E excrecências pontiagudas de realidade
Desnudam-se ante o revoluteio incessante
Da possibilidade dos atos e fatos,
Mesmo que as circunstâncias pareçam sempre
Uma concreta e coerente parede.
Oh! Minha alma rude e insensata
Sangra-se ante a dureza branca e Iógica
Do limite incontestável deste muro!
Embora sinta a liquidez mágica
E probabilística destes interiores,
Pensa como pode e bate inutilmente
No fatalismo justo das perspectivas,
Enrolando, passo a passo, os minutos
De um tempo próprio e sem tempo.
Em torno de sólidos egocentrismos
E excrecências pontiagudas de realidade
Desnudam-se ante o revoluteio incessante
Da possibilidade dos atos e fatos,
Mesmo que as circunstâncias pareçam sempre
Uma concreta e coerente parede.
Oh! Minha alma rude e insensata
Sangra-se ante a dureza branca e Iógica
Do limite incontestável deste muro!
Embora sinta a liquidez mágica
E probabilística destes interiores,
Pensa como pode e bate inutilmente
No fatalismo justo das perspectivas,
Enrolando, passo a passo, os minutos
De um tempo próprio e sem tempo.
934
Fernanda Botelho
Esplanada
É o processo da forma seca e pobre
na calma aceitação de mais torpor:
nada que persista ou que demore
mais que o minuto calmo em que descobre
que, se o cenário mudou, a forma
continua.
E não transtorna,
nem ousa (ronceirosa)
mudar a cor da lua
ou por ordem no caos.
Esta é a fábula da lesma preguiçosa
à temperatura de 35 graus.
na calma aceitação de mais torpor:
nada que persista ou que demore
mais que o minuto calmo em que descobre
que, se o cenário mudou, a forma
continua.
E não transtorna,
nem ousa (ronceirosa)
mudar a cor da lua
ou por ordem no caos.
Esta é a fábula da lesma preguiçosa
à temperatura de 35 graus.
1 442
Francisco Bernardino Ribeiro
Ode
(Ao Algoz de 24 de maio de 1833 - S. Paulo)
Eu vi um homem?... ou me ilude a mente!
Que horror que eu sinto!... Homem! não, não eras,
Tranqüilo fratricida.
Como pudeste, ó monstro,
Áridos olhos atentar na vítima
Desfalecida, exangue?
Como pudeste impávido roubar-lhe
Miseranda existência com os redobres
De angústias repetidas,
Sem o brado ouvires,
Que dentro da alma rompe, e clama: "É homem,
E homem desgraçado?!"
Como o pudeste sem arrepiar-te
As carnes frio horror? Sem ver diante
Esquálido fantasma
Habitador dos túmulos,
Com a mirrada mão prender-te os braços,
"É teu irmão!" — chamar-te?
Que é desse coração, que o ser te alenta?
Ainda palpita? Não. Quente de crimes
O sangue infeccionado
Dispara só arrancos.
E cada arranco ordena um atentado.
Deixaste de ser homem!
És aborto do inferno, ente perverso,
Nasceste apenas para ser vergonha,
Opróbrio da existência.
É mais que tu ditoso
Aquele que arrojaste à sepultura
Que tuas mãos cavaram.
Esse ostentou furores desastrosos;
Mas não mostrou à face do Universo,
Que surdo à natureza,
Já saciado tigre,
Em paz — com as garras meneava a morte
Para extinguir humanos!
Eu vi um homem?... ou me ilude a mente!
Que horror que eu sinto!... Homem! não, não eras,
Tranqüilo fratricida.
Como pudeste, ó monstro,
Áridos olhos atentar na vítima
Desfalecida, exangue?
Como pudeste impávido roubar-lhe
Miseranda existência com os redobres
De angústias repetidas,
Sem o brado ouvires,
Que dentro da alma rompe, e clama: "É homem,
E homem desgraçado?!"
Como o pudeste sem arrepiar-te
As carnes frio horror? Sem ver diante
Esquálido fantasma
Habitador dos túmulos,
Com a mirrada mão prender-te os braços,
"É teu irmão!" — chamar-te?
Que é desse coração, que o ser te alenta?
Ainda palpita? Não. Quente de crimes
O sangue infeccionado
Dispara só arrancos.
E cada arranco ordena um atentado.
Deixaste de ser homem!
És aborto do inferno, ente perverso,
Nasceste apenas para ser vergonha,
Opróbrio da existência.
É mais que tu ditoso
Aquele que arrojaste à sepultura
Que tuas mãos cavaram.
Esse ostentou furores desastrosos;
Mas não mostrou à face do Universo,
Que surdo à natureza,
Já saciado tigre,
Em paz — com as garras meneava a morte
Para extinguir humanos!
669
Fernando Batinga de Mendonça
Dois Momentos da Infância
1.
pesquisam o sangue
dentro do seu ventre
remexem a carne
pele nervo e osso.
arrancam o filho
do fundo colo escuro
trazido pelo fio
na ponta das agulhas.
— e em resto os meninos
são pedaços
para quem o silêncio
não rompeu.
2.
no centro das paredes
do ventre vão exato
momentos de pesquisa
meninos que se calam.
instalam serpentina
no leito colo escuro
paredes que se fecham
nas portas de platina.
— e nos muros os meninos
se procuram
nas paredes que se fecham
de metal.
pesquisam o sangue
dentro do seu ventre
remexem a carne
pele nervo e osso.
arrancam o filho
do fundo colo escuro
trazido pelo fio
na ponta das agulhas.
— e em resto os meninos
são pedaços
para quem o silêncio
não rompeu.
2.
no centro das paredes
do ventre vão exato
momentos de pesquisa
meninos que se calam.
instalam serpentina
no leito colo escuro
paredes que se fecham
nas portas de platina.
— e nos muros os meninos
se procuram
nas paredes que se fecham
de metal.
992
Fernando Batinga de Mendonça
Tempo
é difícil
definir
o meu tempo:
desenhos
de fome
nas paredes
velhos meninos,
de manhã
poetas
à noite
nos quartéis.
é difícil
definir
o meu tempo:
homens
contidos
nas marmitas,
e esperança
no subúrbio
dos quintais
definir
o meu tempo:
desenhos
de fome
nas paredes
velhos meninos,
de manhã
poetas
à noite
nos quartéis.
é difícil
definir
o meu tempo:
homens
contidos
nas marmitas,
e esperança
no subúrbio
dos quintais
985
Fernando Batinga de Mendonça
Tempo
é difícil
definir
o meu tempo:
desenhos
de fome
nas paredes
velhos meninos,
de manhã
poetas
à noite
nos quartéis.
é difícil
definir
o meu tempo:
homens
contidos
nas marmitas,
e esperança
no subúrbio
dos quintais
definir
o meu tempo:
desenhos
de fome
nas paredes
velhos meninos,
de manhã
poetas
à noite
nos quartéis.
é difícil
definir
o meu tempo:
homens
contidos
nas marmitas,
e esperança
no subúrbio
dos quintais
985
Fernanda Botelho
Amnésia
Posso pedir, em vão, a luz de mil estrelas:
penas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.
Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).
E peço, em vão, uma palavra exata,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.
E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.
penas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.
Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).
E peço, em vão, uma palavra exata,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.
E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.
1 760
Fernanda Botelho
Amnésia
Posso pedir, em vão, a luz de mil estrelas:
penas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.
Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).
E peço, em vão, uma palavra exata,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.
E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.
penas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.
Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).
E peço, em vão, uma palavra exata,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.
E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.
1 760