Poemas neste tema
Vida e Existência
Carlos Figueiredo
Jardins Secretos
A Goya
Além do espaço que o corpo esculpe
existem abismos.
São segredos que vão se consumindo
em silêncio como cera
no calor da vida
são silêncios de uma cor tão clara
são como flores.
Como são pássaros
as almas.
Além do espaço que o corpo esculpe
existem abismos.
São segredos que vão se consumindo
em silêncio como cera
no calor da vida
são silêncios de uma cor tão clara
são como flores.
Como são pássaros
as almas.
1 166
1
João de Jesus Paes Loureiro
O Poeta
Debruçado no poço
salmodia
e a própria voz escuta.
Osso.
atirado a si mesmo
(espelho)
por um cão faminto.
salmodia
e a própria voz escuta.
Osso.
atirado a si mesmo
(espelho)
por um cão faminto.
1 121
1
Alexandre S. Santos
Ao Léu
Como a escoar silente,
o silêncio, fluía
por sobre ele mesmo
ecoando num vazio,
contente, descia
à procura de um largo
selvagem, intocado
no esmo profundo
cravado, no próprio seio.
Discretamente vibrava
pelos contornos, entornos
esquecidos em sono
difuso, profuso, gozoso;
deixando levar sem norte
a agulha emotiva
da bússola do desejo...
o silêncio, fluía
por sobre ele mesmo
ecoando num vazio,
contente, descia
à procura de um largo
selvagem, intocado
no esmo profundo
cravado, no próprio seio.
Discretamente vibrava
pelos contornos, entornos
esquecidos em sono
difuso, profuso, gozoso;
deixando levar sem norte
a agulha emotiva
da bússola do desejo...
957
1
Gilka Machado
O Retrato fiel
O Retrato fiel
Não creias nos meus retratos,
nenhum deles me revela,
ai, não me julgues assim!
Minha cara verdadeira
fugiu às penas do corpo,
ficou isenta da vida.
Toda milnha faceirice
e minha vaidade toda
estão na sonora face;
naquela que não foi vista
e que paira, levitando,
em meio a um mundo de cegos.
Os meus retratos são vários
e neles não terás nunca
o meu rosto de poesia.
Não olhes os meus retratos,
nem me suponhas em mim.
Não creias nos meus retratos,
nenhum deles me revela,
ai, não me julgues assim!
Minha cara verdadeira
fugiu às penas do corpo,
ficou isenta da vida.
Toda milnha faceirice
e minha vaidade toda
estão na sonora face;
naquela que não foi vista
e que paira, levitando,
em meio a um mundo de cegos.
Os meus retratos são vários
e neles não terás nunca
o meu rosto de poesia.
Não olhes os meus retratos,
nem me suponhas em mim.
1 961
1
William Butler Yeats
Versos escritos com desânimo
Quando foi a última vez que reparei
nos redondos olhos verdes e nos longos, vacilantes corpos
Dos leopardos misteriosos da lua?
Todas as feiticeiras dos bosques, senhoras tão nobres,
Partiram por causa das vassouras e das lágrimas,
Das suas lágrimas de ira.
Os centauros sagrados foram expulsos das colinas;
Nada me resta senão o sol frio;
A lua, mãe heróica, desapareceu,
E agora que cheguei aos cinqüenta anos,
tenho de suportar este sol débil.
(Tradução de
Tatiana Leão e Manuel Rodrigues)
nos redondos olhos verdes e nos longos, vacilantes corpos
Dos leopardos misteriosos da lua?
Todas as feiticeiras dos bosques, senhoras tão nobres,
Partiram por causa das vassouras e das lágrimas,
Das suas lágrimas de ira.
Os centauros sagrados foram expulsos das colinas;
Nada me resta senão o sol frio;
A lua, mãe heróica, desapareceu,
E agora que cheguei aos cinqüenta anos,
tenho de suportar este sol débil.
(Tradução de
Tatiana Leão e Manuel Rodrigues)
1 485
1
William Butler Yeats
Versos escritos com desânimo
Quando foi a última vez que reparei
nos redondos olhos verdes e nos longos, vacilantes corpos
Dos leopardos misteriosos da lua?
Todas as feiticeiras dos bosques, senhoras tão nobres,
Partiram por causa das vassouras e das lágrimas,
Das suas lágrimas de ira.
Os centauros sagrados foram expulsos das colinas;
Nada me resta senão o sol frio;
A lua, mãe heróica, desapareceu,
E agora que cheguei aos cinqüenta anos,
tenho de suportar este sol débil.
(Tradução de
Tatiana Leão e Manuel Rodrigues)
nos redondos olhos verdes e nos longos, vacilantes corpos
Dos leopardos misteriosos da lua?
Todas as feiticeiras dos bosques, senhoras tão nobres,
Partiram por causa das vassouras e das lágrimas,
Das suas lágrimas de ira.
Os centauros sagrados foram expulsos das colinas;
Nada me resta senão o sol frio;
A lua, mãe heróica, desapareceu,
E agora que cheguei aos cinqüenta anos,
tenho de suportar este sol débil.
(Tradução de
Tatiana Leão e Manuel Rodrigues)
1 485
1
Judas Isgorogota
Atitudes
A poesia em mim era uma asa andeja
que voava noite e dia
e eu andejava, desde menino,
na asa da poesia.
— "Triste é o destino
dos poetas!" o meu pai dizia.
"Onde há poesia não há pão!"
E minha mãe que, além de sertaneja,
possuia um coração, como todas as mães:
— "Pois que faça poesia!
A poesia é o melhor dos pães".
Quando chegou a hora
de trabalhar, ser gente,
fazer da vida uma linha reta,
ela que até ali fora uma linha curva
espinhosa e difícil... mar em fora
saí, para lutar valentemente.
Acontece que eu era apenas um poeta...
Mas, ao fim, encalhei, como outros muitos barcos
desarvorados,
no acoradouro de um jornal;
vida de sonhos e ordenados parcos,
que, entretanto, me dava o que eu queria:
um pouco de ideal,
de liberdade e poesia.
E um certo dia:
— "Jornal é a sensação do cotidiano!
É a vida terra-a-terra!
Nada de poesia!"
Só agora é que vejo, céus, quanto tempo perdido...
E agora, olhando para trás, eu vejo,
comovido,
que, em meio a tanta desilusão,
ainda assim me ficou a quietude
que me anima e conforta.
Enfim, nem tudo foi em vão:
hoje sei que no mundo, a poesia
está morta...
Aquilo que era a essência da alma humana
não mais existe... Em luta, diária, insana,
tudo se digladia...
O homem, para vencer, precisa odiar
a própria poesia!...
Mas, agora que estou aposentado,
com toda a minha experiência
dos homens, e do mundo atormentado;
dos mistérios da vida e da divina essência;
hoje, que longe vai a juventude;
hoje, que vivo como um pássaro
que pressente chegar, por entre rosas,
a paz idílica das últimas
auroras e dos últimos crepúsculos;
eu, hoje, resolvi tomar uma atitude
definitiva, corajosa,
entre as mais corajosas:
— Vou fazer poesia!
que voava noite e dia
e eu andejava, desde menino,
na asa da poesia.
— "Triste é o destino
dos poetas!" o meu pai dizia.
"Onde há poesia não há pão!"
E minha mãe que, além de sertaneja,
possuia um coração, como todas as mães:
— "Pois que faça poesia!
A poesia é o melhor dos pães".
Quando chegou a hora
de trabalhar, ser gente,
fazer da vida uma linha reta,
ela que até ali fora uma linha curva
espinhosa e difícil... mar em fora
saí, para lutar valentemente.
Acontece que eu era apenas um poeta...
Mas, ao fim, encalhei, como outros muitos barcos
desarvorados,
no acoradouro de um jornal;
vida de sonhos e ordenados parcos,
que, entretanto, me dava o que eu queria:
um pouco de ideal,
de liberdade e poesia.
E um certo dia:
— "Jornal é a sensação do cotidiano!
É a vida terra-a-terra!
Nada de poesia!"
Só agora é que vejo, céus, quanto tempo perdido...
E agora, olhando para trás, eu vejo,
comovido,
que, em meio a tanta desilusão,
ainda assim me ficou a quietude
que me anima e conforta.
Enfim, nem tudo foi em vão:
hoje sei que no mundo, a poesia
está morta...
Aquilo que era a essência da alma humana
não mais existe... Em luta, diária, insana,
tudo se digladia...
O homem, para vencer, precisa odiar
a própria poesia!...
Mas, agora que estou aposentado,
com toda a minha experiência
dos homens, e do mundo atormentado;
dos mistérios da vida e da divina essência;
hoje, que longe vai a juventude;
hoje, que vivo como um pássaro
que pressente chegar, por entre rosas,
a paz idílica das últimas
auroras e dos últimos crepúsculos;
eu, hoje, resolvi tomar uma atitude
definitiva, corajosa,
entre as mais corajosas:
— Vou fazer poesia!
1 372
1
Mário de Sá-Carneiro
Crise Lamentável
Gostava
tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe ...
E não há forma: cada vez mais perdida
Mas a destreza de saber pegar-lhe.
Viver em casa como toda a gente,
Não Ter juízo nos meus livros – mas
Chegar ao fim do mês com as
Despesas pagas religiosamente.
Não Ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas –
À minha torre ebúrnea abrir janelas
Numa palavra, e não fazer mais cenas.
Ter força um dia para quebrar as roscas
Desta engrenagem que emperrando vai.
– Não mandar telegramas ao meu pai
– Não andar por Paris, como ando , às moscas.
Levantar-me e sair – não precisar
De hora e meia antes de vir prá rua.
Pôr termo a isto de viver na lua,
– perder a frousse das correntes de ar.
Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa de amigos que frequento –
Não me embrenhar por histórias duvidosas
Que em fantasia apenas argumento.
Que tudo em mim é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete:
E sempre o oiro em chumbo se derrete
Por meu azar ou minha zoina suada ...
tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe ...
E não há forma: cada vez mais perdida
Mas a destreza de saber pegar-lhe.
Viver em casa como toda a gente,
Não Ter juízo nos meus livros – mas
Chegar ao fim do mês com as
Despesas pagas religiosamente.
Não Ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas –
À minha torre ebúrnea abrir janelas
Numa palavra, e não fazer mais cenas.
Ter força um dia para quebrar as roscas
Desta engrenagem que emperrando vai.
– Não mandar telegramas ao meu pai
– Não andar por Paris, como ando , às moscas.
Levantar-me e sair – não precisar
De hora e meia antes de vir prá rua.
Pôr termo a isto de viver na lua,
– perder a frousse das correntes de ar.
Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa de amigos que frequento –
Não me embrenhar por histórias duvidosas
Que em fantasia apenas argumento.
Que tudo em mim é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete:
E sempre o oiro em chumbo se derrete
Por meu azar ou minha zoina suada ...
5 530
1
Mário de Sá-Carneiro
Crise Lamentável
Gostava
tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe ...
E não há forma: cada vez mais perdida
Mas a destreza de saber pegar-lhe.
Viver em casa como toda a gente,
Não Ter juízo nos meus livros – mas
Chegar ao fim do mês com as
Despesas pagas religiosamente.
Não Ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas –
À minha torre ebúrnea abrir janelas
Numa palavra, e não fazer mais cenas.
Ter força um dia para quebrar as roscas
Desta engrenagem que emperrando vai.
– Não mandar telegramas ao meu pai
– Não andar por Paris, como ando , às moscas.
Levantar-me e sair – não precisar
De hora e meia antes de vir prá rua.
Pôr termo a isto de viver na lua,
– perder a frousse das correntes de ar.
Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa de amigos que frequento –
Não me embrenhar por histórias duvidosas
Que em fantasia apenas argumento.
Que tudo em mim é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete:
E sempre o oiro em chumbo se derrete
Por meu azar ou minha zoina suada ...
tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe ...
E não há forma: cada vez mais perdida
Mas a destreza de saber pegar-lhe.
Viver em casa como toda a gente,
Não Ter juízo nos meus livros – mas
Chegar ao fim do mês com as
Despesas pagas religiosamente.
Não Ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas –
À minha torre ebúrnea abrir janelas
Numa palavra, e não fazer mais cenas.
Ter força um dia para quebrar as roscas
Desta engrenagem que emperrando vai.
– Não mandar telegramas ao meu pai
– Não andar por Paris, como ando , às moscas.
Levantar-me e sair – não precisar
De hora e meia antes de vir prá rua.
Pôr termo a isto de viver na lua,
– perder a frousse das correntes de ar.
Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa de amigos que frequento –
Não me embrenhar por histórias duvidosas
Que em fantasia apenas argumento.
Que tudo em mim é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete:
E sempre o oiro em chumbo se derrete
Por meu azar ou minha zoina suada ...
5 530
1
Alexandre S. Santos
Saída para a Sanidade
O que tens a dizer ser insensato,
senão contradizer-te com palavras ocas;
deitar-te sobre pregos e sentir prazer;
cobrir-te de medalhas e lisonjas mocas;
travestir-te de feliz enquanto no retrato...
Abre com grande grito teu peito;
deixa pulsar sem disfarce teu coração;
chora lágrimas de dor verdadeira;
sonha e vive, porém, com emoção;
clama ajuda ao desfalecer no leito...
Ouve a voz que brota de tua entranha;
mescla ao teu bom senso o sentimento;
escorra sangue da veia pungida;
não percas a luta para o tormento;
toma o gozo pela dor, numa barganha...
Então, quando da visita da alvorada
sentires o calor vivificante da coragem,
não mates teu tempo com pura divagação,
ungi-te de vigor e parte numa viagem;
chora, ri, ama, faça da vida namorada.
senão contradizer-te com palavras ocas;
deitar-te sobre pregos e sentir prazer;
cobrir-te de medalhas e lisonjas mocas;
travestir-te de feliz enquanto no retrato...
Abre com grande grito teu peito;
deixa pulsar sem disfarce teu coração;
chora lágrimas de dor verdadeira;
sonha e vive, porém, com emoção;
clama ajuda ao desfalecer no leito...
Ouve a voz que brota de tua entranha;
mescla ao teu bom senso o sentimento;
escorra sangue da veia pungida;
não percas a luta para o tormento;
toma o gozo pela dor, numa barganha...
Então, quando da visita da alvorada
sentires o calor vivificante da coragem,
não mates teu tempo com pura divagação,
ungi-te de vigor e parte numa viagem;
chora, ri, ama, faça da vida namorada.
997
1
Vittoria Colonna
ASSAI LUNGE A PROVAR
Assaz longe do gelo em peito meu
dos tristes pensamentos. de ano em ano,
estava eu então, que em trevas e que em dano
tu me deixaste, ó sol, tornando ao céu.
Indigna fui do ardente zelo teu
e das tuas asas, com que aceso e ufano
tu me inflamavas a esquivar o engano
e a desprezar contigo o mortal véu.
Ligeiro tu voaste: e quando abrias
as grandes asas, ah, como foi triste
eu não subir contigo onde subias!
Mas se eu não estava, quando tu partiste!
E minhas forças são sem ti tão frias,
que já não sei se vida ou morte existe.
dos tristes pensamentos. de ano em ano,
estava eu então, que em trevas e que em dano
tu me deixaste, ó sol, tornando ao céu.
Indigna fui do ardente zelo teu
e das tuas asas, com que aceso e ufano
tu me inflamavas a esquivar o engano
e a desprezar contigo o mortal véu.
Ligeiro tu voaste: e quando abrias
as grandes asas, ah, como foi triste
eu não subir contigo onde subias!
Mas se eu não estava, quando tu partiste!
E minhas forças são sem ti tão frias,
que já não sei se vida ou morte existe.
1 488
1
Vittoria Colonna
ASSAI LUNGE A PROVAR
Assaz longe do gelo em peito meu
dos tristes pensamentos. de ano em ano,
estava eu então, que em trevas e que em dano
tu me deixaste, ó sol, tornando ao céu.
Indigna fui do ardente zelo teu
e das tuas asas, com que aceso e ufano
tu me inflamavas a esquivar o engano
e a desprezar contigo o mortal véu.
Ligeiro tu voaste: e quando abrias
as grandes asas, ah, como foi triste
eu não subir contigo onde subias!
Mas se eu não estava, quando tu partiste!
E minhas forças são sem ti tão frias,
que já não sei se vida ou morte existe.
dos tristes pensamentos. de ano em ano,
estava eu então, que em trevas e que em dano
tu me deixaste, ó sol, tornando ao céu.
Indigna fui do ardente zelo teu
e das tuas asas, com que aceso e ufano
tu me inflamavas a esquivar o engano
e a desprezar contigo o mortal véu.
Ligeiro tu voaste: e quando abrias
as grandes asas, ah, como foi triste
eu não subir contigo onde subias!
Mas se eu não estava, quando tu partiste!
E minhas forças são sem ti tão frias,
que já não sei se vida ou morte existe.
1 488
1
Jorge Macedo
Nos pés do recomeço
1
na cidade
nos pés
o recomeço
vai-se
é-se
reconstrutivo
a parede
demolida
revém
no contorno
do
dia
2
as esquinas
de tudo
entornam
seus rostos
de tempo
emerso
no sol todos os dias outro
3
crescendo
cres
cen
do
crescentes
crescem
acrescendo
rosas
chaminés
crescendo
no elã
guindastes
creem
branco rosar
rosamão
fumo não
caracóis
sim rosas
4
a cidade
nome
doutro oceano
é mais
líquida
vertiginosa
enchente
5
no elã de guindastes
semeando
hastes
no tamanho
das ânsias
o despertar
o loiro
estua
os barcos
guindados
para a dimensão rósea das rotas
na cidade
nos pés
o recomeço
vai-se
é-se
reconstrutivo
a parede
demolida
revém
no contorno
do
dia
2
as esquinas
de tudo
entornam
seus rostos
de tempo
emerso
no sol todos os dias outro
3
crescendo
cres
cen
do
crescentes
crescem
acrescendo
rosas
chaminés
crescendo
no elã
guindastes
creem
branco rosar
rosamão
fumo não
caracóis
sim rosas
4
a cidade
nome
doutro oceano
é mais
líquida
vertiginosa
enchente
5
no elã de guindastes
semeando
hastes
no tamanho
das ânsias
o despertar
o loiro
estua
os barcos
guindados
para a dimensão rósea das rotas
1 059
1
Jorge Macedo
Nos pés do recomeço
1
na cidade
nos pés
o recomeço
vai-se
é-se
reconstrutivo
a parede
demolida
revém
no contorno
do
dia
2
as esquinas
de tudo
entornam
seus rostos
de tempo
emerso
no sol todos os dias outro
3
crescendo
cres
cen
do
crescentes
crescem
acrescendo
rosas
chaminés
crescendo
no elã
guindastes
creem
branco rosar
rosamão
fumo não
caracóis
sim rosas
4
a cidade
nome
doutro oceano
é mais
líquida
vertiginosa
enchente
5
no elã de guindastes
semeando
hastes
no tamanho
das ânsias
o despertar
o loiro
estua
os barcos
guindados
para a dimensão rósea das rotas
na cidade
nos pés
o recomeço
vai-se
é-se
reconstrutivo
a parede
demolida
revém
no contorno
do
dia
2
as esquinas
de tudo
entornam
seus rostos
de tempo
emerso
no sol todos os dias outro
3
crescendo
cres
cen
do
crescentes
crescem
acrescendo
rosas
chaminés
crescendo
no elã
guindastes
creem
branco rosar
rosamão
fumo não
caracóis
sim rosas
4
a cidade
nome
doutro oceano
é mais
líquida
vertiginosa
enchente
5
no elã de guindastes
semeando
hastes
no tamanho
das ânsias
o despertar
o loiro
estua
os barcos
guindados
para a dimensão rósea das rotas
1 059
1
Carlos Figueiredo
As estrelas brilham por amor
As estrelas brilham por amor,
como o mar, as crianças, a música,
como os homens quando são livres
como o mar, as crianças, a música,
como os homens quando são livres
1 061
1
Luís de Camões
Um mover dolhos, brando e piadoso
Um mover dolhos, brando e piadoso,
sem ver de quê; um riso brando e honesto,
quase forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;
um despejo quieto e vergonhoso;
um repouso gravíssimo e modesto;
ûa pura bondade, manifesto
indício da alma, limpo e gracioso;
um encolhido ousar; üa brandura;
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento;
esta foi a celeste fermosura
da minha Circe, e o mágico veneno
que pôde transformar meu pensamento.
sem ver de quê; um riso brando e honesto,
quase forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;
um despejo quieto e vergonhoso;
um repouso gravíssimo e modesto;
ûa pura bondade, manifesto
indício da alma, limpo e gracioso;
um encolhido ousar; üa brandura;
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento;
esta foi a celeste fermosura
da minha Circe, e o mágico veneno
que pôde transformar meu pensamento.
6 130
1
João José Cochofel
Paraíso Perdido
Que vens aqui fazer, espírito velho
de tudo o que foi perdido
e nunca mais achei?
Então...
ainda eu olhava o mundo
com meus olhos de manhãs azuis,
e nos lábios
havia ainda a ternura dos beijos moços
como a relva dos prados.
Foi mais tarde...
que a vida me entardeceu.
(Tardes enevoadas e frias,
abandonadas,
ermas
tristes como eu... )
Foi mais tarde...
que a tal desgraça se deu.
de tudo o que foi perdido
e nunca mais achei?
Então...
ainda eu olhava o mundo
com meus olhos de manhãs azuis,
e nos lábios
havia ainda a ternura dos beijos moços
como a relva dos prados.
Foi mais tarde...
que a vida me entardeceu.
(Tardes enevoadas e frias,
abandonadas,
ermas
tristes como eu... )
Foi mais tarde...
que a tal desgraça se deu.
1 475
1
Judas Isgorogota
Bebedouro
Na Manguaba tranqüila, uma canoa
Dança, lá embaixo; lá de cima, a lua
Põe pó de arroz na face da lagoa...
Junto às margens, o mangue; empós, a rua
E, na choupana humilde, a tabaroa,
Rica de sonhos na pobreza sua...
Depois, alguém; e nesse alguém um choro
Silencioso lhe molhando o olhar.
O alguém sou eu; a terra é Bebedouro...
Desconversemos... não convém lembrar...
Dança, lá embaixo; lá de cima, a lua
Põe pó de arroz na face da lagoa...
Junto às margens, o mangue; empós, a rua
E, na choupana humilde, a tabaroa,
Rica de sonhos na pobreza sua...
Depois, alguém; e nesse alguém um choro
Silencioso lhe molhando o olhar.
O alguém sou eu; a terra é Bebedouro...
Desconversemos... não convém lembrar...
1 364
1
Judas Isgorogota
Recompensa
Certa manhã deixei a minha casa...
Cinco e meia, talvez,
Talvez seis horas da manhã da vida...
Um sol vermelho, de um vermelho brasa,
Por sobre a estrada adormecida,
Em completa mudez,
Derramava-se todo
Numa tonalidade futurista...
Era manhã quando saí de casa...
E o sol, vermelho, de zarcão, dizia:
— "Para onde vai esse menino doido
Que nem espera que lhe venha o dia?"
Cheio de minha fé, saí disposto
Para a conquista
Da primeira curva
Do caminho; porém,
Logo à tardinha o sol esmaeceu
E eu vi que havia rugas em meu rosto
E a minha vista
Já ficava turva
Como a vista do sol que envelheceu...
E passo a passo, envelheci também...
De volta, meus sonhos apagados,
Joelhos vertendo dor, pés descarnados,
Sem um gesto, entretanto, de revolta,
Ando à procura de uma cova rasa
Onde eu, mártir da fé, pobre e infeliz,
Possa, enfim, encontrar a recompensa
De uma conquista imensa
Que não fiz!
Era manhã quando saí de casa...
Cinco e meia, talvez,
Talvez seis horas da manhã da vida...
Um sol vermelho, de um vermelho brasa,
Por sobre a estrada adormecida,
Em completa mudez,
Derramava-se todo
Numa tonalidade futurista...
Era manhã quando saí de casa...
E o sol, vermelho, de zarcão, dizia:
— "Para onde vai esse menino doido
Que nem espera que lhe venha o dia?"
Cheio de minha fé, saí disposto
Para a conquista
Da primeira curva
Do caminho; porém,
Logo à tardinha o sol esmaeceu
E eu vi que havia rugas em meu rosto
E a minha vista
Já ficava turva
Como a vista do sol que envelheceu...
E passo a passo, envelheci também...
De volta, meus sonhos apagados,
Joelhos vertendo dor, pés descarnados,
Sem um gesto, entretanto, de revolta,
Ando à procura de uma cova rasa
Onde eu, mártir da fé, pobre e infeliz,
Possa, enfim, encontrar a recompensa
De uma conquista imensa
Que não fiz!
Era manhã quando saí de casa...
1 745
1
Judas Isgorogota
Recompensa
Certa manhã deixei a minha casa...
Cinco e meia, talvez,
Talvez seis horas da manhã da vida...
Um sol vermelho, de um vermelho brasa,
Por sobre a estrada adormecida,
Em completa mudez,
Derramava-se todo
Numa tonalidade futurista...
Era manhã quando saí de casa...
E o sol, vermelho, de zarcão, dizia:
— "Para onde vai esse menino doido
Que nem espera que lhe venha o dia?"
Cheio de minha fé, saí disposto
Para a conquista
Da primeira curva
Do caminho; porém,
Logo à tardinha o sol esmaeceu
E eu vi que havia rugas em meu rosto
E a minha vista
Já ficava turva
Como a vista do sol que envelheceu...
E passo a passo, envelheci também...
De volta, meus sonhos apagados,
Joelhos vertendo dor, pés descarnados,
Sem um gesto, entretanto, de revolta,
Ando à procura de uma cova rasa
Onde eu, mártir da fé, pobre e infeliz,
Possa, enfim, encontrar a recompensa
De uma conquista imensa
Que não fiz!
Era manhã quando saí de casa...
Cinco e meia, talvez,
Talvez seis horas da manhã da vida...
Um sol vermelho, de um vermelho brasa,
Por sobre a estrada adormecida,
Em completa mudez,
Derramava-se todo
Numa tonalidade futurista...
Era manhã quando saí de casa...
E o sol, vermelho, de zarcão, dizia:
— "Para onde vai esse menino doido
Que nem espera que lhe venha o dia?"
Cheio de minha fé, saí disposto
Para a conquista
Da primeira curva
Do caminho; porém,
Logo à tardinha o sol esmaeceu
E eu vi que havia rugas em meu rosto
E a minha vista
Já ficava turva
Como a vista do sol que envelheceu...
E passo a passo, envelheci também...
De volta, meus sonhos apagados,
Joelhos vertendo dor, pés descarnados,
Sem um gesto, entretanto, de revolta,
Ando à procura de uma cova rasa
Onde eu, mártir da fé, pobre e infeliz,
Possa, enfim, encontrar a recompensa
De uma conquista imensa
Que não fiz!
Era manhã quando saí de casa...
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Textos Bíblicos
Cântico dos cânticos (trecho)
Quão belos são os teus pés
nas sandálias que trazes, ó filha de príncipe!
As colunas das tuas pernas são como anéis
trabalhados por mãos de artista.
o teu umbigo é uma taça arredondada,
que nunca está desprovida de vinho.
O teu ventre é como um monte de trigo
cercado de lírios.
Os teus dois seios são como dois filhinhos
gêmeos duma gazela.
O teu pescoço é como uma torre de marfim.
Os teus olhos são como as piscinas de Hesebon,
que estão situadas junto da porta de Bat-Rabim.
O teu nariz é como a torre do Líbano,
que olha para Damasco.
A tua cabeça levanta-se como o monte Carmelo;
os cabelos da tua cabeça são como a púrpura
um rei ficou preso às suas madeixas.
Quão formosa e encantadora és,
meu amor, minhas delícias!
A tua figura é semelhante a uma palmeira.
Eu disse. Subirei à palmeira,
e colherei os seus frutos.
Os teus seios serão, para mim, como cachos de uvas,
e o perfume da tua boca como o das maçãs.
nas sandálias que trazes, ó filha de príncipe!
As colunas das tuas pernas são como anéis
trabalhados por mãos de artista.
o teu umbigo é uma taça arredondada,
que nunca está desprovida de vinho.
O teu ventre é como um monte de trigo
cercado de lírios.
Os teus dois seios são como dois filhinhos
gêmeos duma gazela.
O teu pescoço é como uma torre de marfim.
Os teus olhos são como as piscinas de Hesebon,
que estão situadas junto da porta de Bat-Rabim.
O teu nariz é como a torre do Líbano,
que olha para Damasco.
A tua cabeça levanta-se como o monte Carmelo;
os cabelos da tua cabeça são como a púrpura
um rei ficou preso às suas madeixas.
Quão formosa e encantadora és,
meu amor, minhas delícias!
A tua figura é semelhante a uma palmeira.
Eu disse. Subirei à palmeira,
e colherei os seus frutos.
Os teus seios serão, para mim, como cachos de uvas,
e o perfume da tua boca como o das maçãs.
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Carlos Figueiredo
No mundo das fadas
No mundo das fadas
cada nome é usado uma única vez
em histórias contadas pelo vento
A luz é uma música
o mar é curvo
os olhos são espelhos
e a noite é um grito
e é dos seus gemidos
que surge a areia das praias.
No mundo das fadas
o Tempo é um luar
no bosque da memória
onde correm almas de rios
em cachoeiras-miragens
até um lago
feito da pele que vai saindo do arfar
de um coração-estrela.
No mundo das fadas
um Dia é Amor
dedos são crianças
e há uma torre
onde não há nada.
(cont.)
No mundo das fadas
raízes são pássaros
rostos são relâmpagos.
E se respiram lâminas
delgadas, rítmicas, fatais,
que se morre a cada instante
e a cada volta
é preciso substituir o coro.
cada nome é usado uma única vez
em histórias contadas pelo vento
A luz é uma música
o mar é curvo
os olhos são espelhos
e a noite é um grito
e é dos seus gemidos
que surge a areia das praias.
No mundo das fadas
o Tempo é um luar
no bosque da memória
onde correm almas de rios
em cachoeiras-miragens
até um lago
feito da pele que vai saindo do arfar
de um coração-estrela.
No mundo das fadas
um Dia é Amor
dedos são crianças
e há uma torre
onde não há nada.
(cont.)
No mundo das fadas
raízes são pássaros
rostos são relâmpagos.
E se respiram lâminas
delgadas, rítmicas, fatais,
que se morre a cada instante
e a cada volta
é preciso substituir o coro.
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Carlos Figueiredo
Goliardos
A Xisto Bahia Filho
Vós, que não podeis beber,
ide para longe destas festas.
Aqui não é lugar para abstêmios.
Baco, virás bem
acolhido e desejado.
Por ti nosso espírito
se torna alegre
ávido de sensualidade
mais que de saúde.
Pai nosso que estais nos copos
santificado
seja esse vinho.
Que venha o embriagado Baco
faça-se abundância de ti
assim no vinho como na taberna.
O pão nosso para comer nos dai hoje
e afastai de nós os copos grandes
assim como nós nos afastamos dos nossos
/beberrões
e não nos induza à tentação do vinho
mas livrai-nos das vestes.
Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta
chogne lingua deven tremando muta,
e li occhi no lardiscon di guardare.
As formas pensam.
O princípio barroco da subordinação
de todos os elementos arquiteturais
para produzir um efeito único
especular
do absolutismo central
do Pontífice.
No ar,
no alto,
a tensão rupestre
como um estigma na pedra.
A resplandecer
No Tao
Nos Upanichades, em Hesíodo.
Jaurais voulu vous répondre avant
lheure de la poste; Je
nai personne
à qui causer dArt, des poètes,
de lIdéal.
Il confond trop
LIdéal avec le Réel.
Depois, subitamente:
"Vinte anos após estes
acontecimentos
podia-se encontrar
nas ruas de Fougères
um velho ainda ereto etc."
Verdadeiramente embriagado
eu acreditava captar uma antiguidade
maravilhosa.
O mito é o nada que é tudo.
Os deuses vendem quando dão.
O ranger dos bambus
me diz que neva.
Notas do poema Goliardos
Goliardos
Os Goliardos eram uma espécie de beatniks, de freaks do
Século XII, beberrões, vagantes,"on the road", cuja
produção literária se constituiu em um dos marcos
precursores do Renascimento.
A origem do termo não está, ainda, estabelecida.
Alguns identificam os goliardos com Pedro Abelardo(1079-
1142), chamado, nos processos que lhe moveu a Igreja, de
Golias, inimigo da fé. Outros, ao fato deles beberem
e comerem como Golias.
......
Na Idade Média, durante séculos, os textos produzidos,
além de escassíssimos eram, em sua maioria esmagadora,
hagiológicos. Ao longo de cem anos, os anais de um
convento - de S. Benedito - registra tres passagens: Um
surto de peste, o falecimento de um abade tido como santo
e o desabamento da laje do altar.
Quando chega o Século XII "os fatos irrompem
esplêndidos". "Em meio a um frêmito, surgem novos
escritores enfim conscientes da utilidade prática da
História. Ressurge o Direito Romano e nascem escolas que
ressuscitam a atividade científica, em uma primeira tentativa de
laicisar a ciência, e arrebata-la das mãos do clero".
"Todas as classes sociais foram dominadas por um
sentimento vago de inquietação, que as incitava a
buscarem novas e ignotas regiões; que excitavam nelas
fantásticas aspirações a uma nova vida. Daqui o
fanatismo pelas viagens ao Oriente, pelas Cruzadas,
pelas peregrinações, pelas expedições longínquas e
perigosas. Esse sentimento invade também as escolas"
"Em busca de conhecimentos especializados, os estudantes
procuram em Paris as artes liberais. Em Aureliano
(Orleans) os autores, em Bolonha os códigos, em Salermo
as "pyxides" e em Toledo, os demônios. E assim, desses
encontros nas estradas, surgem os Goliardos.
À eles devemos uma das produções literárias da Idade
Média mais belas e características"
Apud Adolfo Bartoli in "Precursores do Renascimento".
Ed. Parma - 1983. Tradução do Prof. Valeriano Gomes do
Nascimento.
De "Vós que não podeis beber..." até "...se torna alegre"
transcrição de textos goliardos (Carmina Burana, 240),
op. cit. P. 37. Ver (ouvir) como Carl Orff cifra
(decifra), no coro de sua Carmina Burana o sentido
seminal do rompimento goliardo.
"Ávido de sensualidade/mais que de saúde" idem, (Carm.
Bur., pp. 67-69), op. cit. P. 39.40
De "Pai nosso que estais..." até "mas livra-nos das
vestes", idem, (Missa de Putatoribus - Missa dos
Bebedores - chamada também de Missa Glutonis - Missa
do Glutão), op. cit. P.43.
"Tanto gentile e tanto onesta pare..." até "e li occhi
no lardiscon de guardare" - Quadra primeira do Soneto XV
da "Vita Nuova". Dante, um século depois dos goliardos,
obra publicada em Florença em l292, que inaugura o Renascimento.
Tradução de Jorge Wanderley In "Vida Nova - Os Poemas",
Livraria Tauros; Livraria Timbre editores - 1988. P.61:
"Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha amada, no saudar contida,
que toda língua treme emudecida
e os olhares não se ousam levantar"
Há várias outras traduções desse soneto.
Conheço uma de Arduíno Bolívar in "30 Séculos de Poesia"
- Edições de Ouro, Coleção Clássicos de Bolso - 1966. P. 138.
E uma outra, que não cheguei a registrar
O soneto inteiro é assim
(cf. Dante Alighiere in "Vita Nuova",Garzanti Editore, 1982, P. 51):
Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta,
chogne lingua deven tremando muta
e li occhi no lardiscon di guardare.
Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente dumiltà vestuta;
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.
Mostrasi sì piacente a chi la mira
che dá per li occhi una dolcezza al core,
che ntender no la può chi no la prova:
e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien damore,
che va dicendo a lanima: Sospira.
De "O princípio barroco..." até "...do Pontífice", cf.
Roger Bastide in "Psicanálise do Cafuné". Ed. Guaíra,
Coleção Caderno Azul - 1941. P. 46.
Vale a pena transcrever alguns trechos desse ensaio,
que - não fosse a universalidade do neolítico
- situa o barroco como o protótipo da linguagem globalizada.
C.f. P. 43 op. cit. :
" A Igreja, sendo internacional, quis uma arte interna-
cional; o poder pontificial só poderia caracterizar-se
por uma espécie de padronização da arte barroca, contra
o regionalismo medieval e contra a variedade de arquite-
turas próprias das antigas ordens religiosas. Isso é
muito claro na pintura, que se separa da cor local parti-
cular de cada província, para se tornar abstrata e
universal".
Cf. P. 46:
" Seja qual for a diversidade dos aspectos de que se
revista o barroco europeu segundo os vários países, ele
apresenta certo número de caracteres comuns: o vínculo
entre o monumento e o espaço onde se situa, a escolha do
local e da perspectiva; o princípio de subordinação de
todos os elementos arquiteturais para produzir um efeito
único; a importância da linha curva, um estilo de
movimento, as "formas que voam" que se opõem às "formas
que pensam"; a riqueza da decoração ligada ao caráter
sentimental, afetivo, dessa arte, à sua exuberância de
vida; o cromatismo, que se caracteriza pela escolha dos
materiais utilizados pela pintura, pelo amor ao ouro; o
papel da luz no jogo de sombras e do sol, especialmente
sobre a fachada; o ilusionismo que permite substituir as
paredes por meio<
Vós, que não podeis beber,
ide para longe destas festas.
Aqui não é lugar para abstêmios.
Baco, virás bem
acolhido e desejado.
Por ti nosso espírito
se torna alegre
ávido de sensualidade
mais que de saúde.
Pai nosso que estais nos copos
santificado
seja esse vinho.
Que venha o embriagado Baco
faça-se abundância de ti
assim no vinho como na taberna.
O pão nosso para comer nos dai hoje
e afastai de nós os copos grandes
assim como nós nos afastamos dos nossos
/beberrões
e não nos induza à tentação do vinho
mas livrai-nos das vestes.
Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta
chogne lingua deven tremando muta,
e li occhi no lardiscon di guardare.
As formas pensam.
O princípio barroco da subordinação
de todos os elementos arquiteturais
para produzir um efeito único
especular
do absolutismo central
do Pontífice.
No ar,
no alto,
a tensão rupestre
como um estigma na pedra.
A resplandecer
No Tao
Nos Upanichades, em Hesíodo.
Jaurais voulu vous répondre avant
lheure de la poste; Je
nai personne
à qui causer dArt, des poètes,
de lIdéal.
Il confond trop
LIdéal avec le Réel.
Depois, subitamente:
"Vinte anos após estes
acontecimentos
podia-se encontrar
nas ruas de Fougères
um velho ainda ereto etc."
Verdadeiramente embriagado
eu acreditava captar uma antiguidade
maravilhosa.
O mito é o nada que é tudo.
Os deuses vendem quando dão.
O ranger dos bambus
me diz que neva.
Notas do poema Goliardos
Goliardos
Os Goliardos eram uma espécie de beatniks, de freaks do
Século XII, beberrões, vagantes,"on the road", cuja
produção literária se constituiu em um dos marcos
precursores do Renascimento.
A origem do termo não está, ainda, estabelecida.
Alguns identificam os goliardos com Pedro Abelardo(1079-
1142), chamado, nos processos que lhe moveu a Igreja, de
Golias, inimigo da fé. Outros, ao fato deles beberem
e comerem como Golias.
......
Na Idade Média, durante séculos, os textos produzidos,
além de escassíssimos eram, em sua maioria esmagadora,
hagiológicos. Ao longo de cem anos, os anais de um
convento - de S. Benedito - registra tres passagens: Um
surto de peste, o falecimento de um abade tido como santo
e o desabamento da laje do altar.
Quando chega o Século XII "os fatos irrompem
esplêndidos". "Em meio a um frêmito, surgem novos
escritores enfim conscientes da utilidade prática da
História. Ressurge o Direito Romano e nascem escolas que
ressuscitam a atividade científica, em uma primeira tentativa de
laicisar a ciência, e arrebata-la das mãos do clero".
"Todas as classes sociais foram dominadas por um
sentimento vago de inquietação, que as incitava a
buscarem novas e ignotas regiões; que excitavam nelas
fantásticas aspirações a uma nova vida. Daqui o
fanatismo pelas viagens ao Oriente, pelas Cruzadas,
pelas peregrinações, pelas expedições longínquas e
perigosas. Esse sentimento invade também as escolas"
"Em busca de conhecimentos especializados, os estudantes
procuram em Paris as artes liberais. Em Aureliano
(Orleans) os autores, em Bolonha os códigos, em Salermo
as "pyxides" e em Toledo, os demônios. E assim, desses
encontros nas estradas, surgem os Goliardos.
À eles devemos uma das produções literárias da Idade
Média mais belas e características"
Apud Adolfo Bartoli in "Precursores do Renascimento".
Ed. Parma - 1983. Tradução do Prof. Valeriano Gomes do
Nascimento.
De "Vós que não podeis beber..." até "...se torna alegre"
transcrição de textos goliardos (Carmina Burana, 240),
op. cit. P. 37. Ver (ouvir) como Carl Orff cifra
(decifra), no coro de sua Carmina Burana o sentido
seminal do rompimento goliardo.
"Ávido de sensualidade/mais que de saúde" idem, (Carm.
Bur., pp. 67-69), op. cit. P. 39.40
De "Pai nosso que estais..." até "mas livra-nos das
vestes", idem, (Missa de Putatoribus - Missa dos
Bebedores - chamada também de Missa Glutonis - Missa
do Glutão), op. cit. P.43.
"Tanto gentile e tanto onesta pare..." até "e li occhi
no lardiscon de guardare" - Quadra primeira do Soneto XV
da "Vita Nuova". Dante, um século depois dos goliardos,
obra publicada em Florença em l292, que inaugura o Renascimento.
Tradução de Jorge Wanderley In "Vida Nova - Os Poemas",
Livraria Tauros; Livraria Timbre editores - 1988. P.61:
"Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha amada, no saudar contida,
que toda língua treme emudecida
e os olhares não se ousam levantar"
Há várias outras traduções desse soneto.
Conheço uma de Arduíno Bolívar in "30 Séculos de Poesia"
- Edições de Ouro, Coleção Clássicos de Bolso - 1966. P. 138.
E uma outra, que não cheguei a registrar
O soneto inteiro é assim
(cf. Dante Alighiere in "Vita Nuova",Garzanti Editore, 1982, P. 51):
Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta,
chogne lingua deven tremando muta
e li occhi no lardiscon di guardare.
Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente dumiltà vestuta;
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.
Mostrasi sì piacente a chi la mira
che dá per li occhi una dolcezza al core,
che ntender no la può chi no la prova:
e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien damore,
che va dicendo a lanima: Sospira.
De "O princípio barroco..." até "...do Pontífice", cf.
Roger Bastide in "Psicanálise do Cafuné". Ed. Guaíra,
Coleção Caderno Azul - 1941. P. 46.
Vale a pena transcrever alguns trechos desse ensaio,
que - não fosse a universalidade do neolítico
- situa o barroco como o protótipo da linguagem globalizada.
C.f. P. 43 op. cit. :
" A Igreja, sendo internacional, quis uma arte interna-
cional; o poder pontificial só poderia caracterizar-se
por uma espécie de padronização da arte barroca, contra
o regionalismo medieval e contra a variedade de arquite-
turas próprias das antigas ordens religiosas. Isso é
muito claro na pintura, que se separa da cor local parti-
cular de cada província, para se tornar abstrata e
universal".
Cf. P. 46:
" Seja qual for a diversidade dos aspectos de que se
revista o barroco europeu segundo os vários países, ele
apresenta certo número de caracteres comuns: o vínculo
entre o monumento e o espaço onde se situa, a escolha do
local e da perspectiva; o princípio de subordinação de
todos os elementos arquiteturais para produzir um efeito
único; a importância da linha curva, um estilo de
movimento, as "formas que voam" que se opõem às "formas
que pensam"; a riqueza da decoração ligada ao caráter
sentimental, afetivo, dessa arte, à sua exuberância de
vida; o cromatismo, que se caracteriza pela escolha dos
materiais utilizados pela pintura, pelo amor ao ouro; o
papel da luz no jogo de sombras e do sol, especialmente
sobre a fachada; o ilusionismo que permite substituir as
paredes por meio<
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