Gilka Machado

Gilka Machado

1893–1980 · viveu 87 anos BR BR

Gilka Machado foi uma poeta brasileira, reconhecida por sua obra lírica e sensual, que explorou temas como o amor, a paixão, o corpo feminino e a espiritualidade com uma linguagem rica e imagética. Sua poesia, muitas vezes considerada transgressora para a época, abordou a sensualidade de forma explícita e inovadora, rompendo com as convenções literárias e sociais. Foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, um marco para as escritoras brasileiras. Sua obra continua a ser valorizada pela sua força expressiva e pela sua contribuição para a poesia feminina no Brasil.

n. 1893-01-01, Rio de Janeiro · m. 1980-01-01, Rio de Janeiro

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Saudade

De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

De quem é esta saudade,
de quem?

Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...

E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...

De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?
(in Velha poesia, 1965)

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Biografia

Identificação e contexto básico

Gilka Machado foi uma notável poeta brasileira, cujo nome completo era Gilka de Mello Machado. Nasceu no Rio de Janeiro e dedicou sua vida à escrita, explorando em seus versos a complexidade do amor, da paixão, do erotismo e da espiritualidade, muitas vezes sob a ótica da experiência feminina. Sua obra é escrita em português e se insere em um contexto histórico de transformações sociais e literárias no Brasil, especialmente no início do século XX.

Infância e formação

Gilka Machado teve uma infância e juventude em um ambiente familiar que lhe proporcionou acesso à cultura e à educação. Embora os detalhes de sua formação formal sejam menos conhecidos, é evidente em sua obra um profundo conhecimento literário e uma sensibilidade aguçada. As leituras de poetas clássicos e contemporâneos, bem como as influências do ambiente cultural carioca, certamente moldaram sua trajetória.

Percurso literário

O percurso literário de Gilka Machado começou a se destacar com a publicação de seus primeiros livros de poesia. Sua obra evoluiu no sentido de uma maior ousadia temática e estilística, explorando a sensualidade e o corpo de maneira cada vez mais explícita e poética. Ela colaborou com diversas publicações literárias da época, ganhando reconhecimento por sua voz lírica singular. Gilka Machado foi a primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras, em 1924, um feito de grande importância histórica para a representatividade feminina na literatura brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Gilka Machado incluem "O Inútil" (1911), "Servidões" (1914), "Coração em Dois Tempos" (1922), "Estados de Alma" (1928) e "Poemas Escolhidos" (1945). Seus temas centrais giram em torno do amor, da paixão ardente, do erotismo, da dor da separação, da busca pela transcendência e da força da mulher. Sua forma poética frequentemente se alinha com o parnasianismo e o simbolismo, mas com uma liberdade temática que a distinguia. Utiliza recursos como a metáfora, a adjetivação rica e uma musicalidade acentuada em seus versos. A voz poética é predominantemente lírica e confessional, expressando as profundezas de suas emoções e desejos. A linguagem é elaborada, com um vocabulário expressivo e uma densidade imagética que evoca sensações fortes. Gilka Machado introduziu uma ousadia temática ao abordar a sensualidade feminina de forma direta, o que representou uma inovação para a época, dialogando com a tradição literária e ao mesmo tempo propondo novas abordagens para a expressão do eu lírico feminino.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Gilka Machado produziu sua obra em um período de grandes transformações no Brasil, com a Belle Époque carioca, a ascensão do modernismo e debates intensos sobre os papéis sociais da mulher. Sua poesia, ao abordar a sensualidade com franqueza, muitas vezes chocou e gerou controvérsia, mas também abriu caminhos para uma expressão mais livre da feminilidade na arte. Sua eleição para a Academia Brasileira de Letras foi um marco histórico, desafiando as estruturas patriarcais da época e abrindo portas para outras escritoras.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Os detalhes da vida pessoal de Gilka Machado são menos documentados, mas sabe-se que sua obra reflete intensamente suas experiências emocionais e sua visão sobre o amor e as relações. Sua dedicação à poesia e sua posição como uma figura feminina de destaque no cenário literário brasileiro indicam uma personalidade forte e independente.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Gilka Machado obteve reconhecimento em vida, especialmente com sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, um dos mais altos louvores literários no país. Sua obra, embora tenha enfrentado alguma resistência devido à sua temática ousada, foi gradualmente sendo valorizada pela crítica e pelo público, consolidando seu lugar como uma das importantes vozes poéticas femininas do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A obra de Gilka Machado foi influenciada por autores que souberam explorar a profundidade dos sentimentos e a beleza da linguagem. Seu legado reside na sua coragem em expressar a voz e o corpo feminino de forma poética e potente, abrindo caminho para futuras gerações de escritoras que buscavam maior liberdade expressiva. Sua poesia continua a ser estudada e apreciada pela sua qualidade estética e pela sua relevância temática.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Gilka Machado é frequentemente analisada sob a ótica do lirismo erótico e da representação da mulher na literatura. Suas explorações do desejo e da paixão oferecem ricas possibilidades de interpretação sobre a subjetividade feminina e os tabus sociais da época.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um dos aspetos mais notáveis da obra de Gilka Machado é a forma como ela conseguiu, em um período em que a expressão feminina era restrita, dar voz à sensualidade e aos anseios do corpo de maneira tão poética e cativante.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Gilka Machado faleceu no Rio de Janeiro. Sua memória perdura através de sua obra, que continua a ser revisitada e celebrada como um marco da poesia brasileira e da luta pela expressão feminina na literatura.

Poemas

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Saudade

De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

De quem é esta saudade,
de quem?

Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...

E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...

De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?
(in Velha poesia, 1965)

3 758

O retrato fiel

Não creias nos meus retratos,
nenhum deles me revela,
ai, não me julgues assim!

Minha cara verdadeira
fugiu às penas do corpo,
ficou isenta da vida.

Toda minha faceirice
e minha vaidade toda
estão na sonora face;

naquela que não foi vista
e que paira, levitando,
em meio a um mundo de cegos.

Os meus retratos são vários
e neles não terás nunca
o meu rosto de poesia.

Não olhes os meus retratos,
nem me suponhas em mim.

3 067

Lépida e leve

Lépida e leve
em teu labor que, de expressões à míngua,
o verso não descreve...
Lépida e leve,
guardas, ó língua, em teu labor,
gostos de afago e afagos de sabor.

És tão mansa e macia,
que teu nome a ti mesma acaricia,
que teu nome por ti roça, flexuosamente,
como rítmica serpente,
e se faz menos rudo,
o vocábulo, ao teu contacto de veludo.

Dominadora do desejo humano,
estatuária da palavra,
ódio, paixão, mentira, desengano,
por ti que incêndio no Universo lavra!...
és o réptil que voa,
o divino pecado
que as asas musicais, às vezes, solta, à toa.
e que a Terra povoa e despovoa,
quando é de seu agrado.

Sol dos ouvidos, sabiá do tato,
ó língua-idéia, ó língua-sensação,
em que olvido insensato,
em que tolo recato,
te hão deixado o louvor, a exaltação!

– Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!
– Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!
Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de
alucinação, és o elatério da alma... Ó minha louca
língua, do meu Amor penetra a boca,
passa-lhe em todo senso tua mão,
enche-o de mim, deixa-me oca...
– Tenho certeza, minha louca,
de lhe dar a morder em ti meu coração!...

Língua do meu Amor velosa e doce,
que me convences de que sou frase,
que me contornas, que me vestes quase,
como se o corpo meu de ti vindo me fosse.
Língua que me cativas, que me enleias
ou surtos de ave estranha,
em linhas longas de invisíveis teias,
de que és, há tanto, habilidosa aranha...

Língua-lâmina, língua-labareda,
língua-linfa, coleando, em deslizes de seda...
Força inferia e divina
faz com que o bem e o mal resumas,
língua-cáustica, língua-cocaína,
língua de mel, língua de plumas?...

Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,
amo-te como todas as mulheres
te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,
pela carne de som que à idéia emprestas
e pelas frases mudas que proferes
nos silêncios de Amor!...

5 359

Lembranças

Teus retratos — figuras esmaecidas;
mostram pouco, muito pouco do que foste.
Tuas cartas — palavras em desgaste,
dizem menos, muito menos
do que outrora me diziam
teus silêncios afagantes...
Só o espelho da minha memória
conserva nítida, imutável
a projeção de tua formosura,
só nos folhos dos meus sentidos
pairam vívidas
em relevo
as frases que teu carinho
soube nelas imprimir.

Sou a urna funerária de tua beleza
que a saudade
embalsamou.

Quando chegar o meu instante derradeiro
só então, mais do que eu,
tu morrerás
em mim.


Publicado no livro Velha poesia (1965).

In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p.440
3 107

Ser Mulher

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!


Publicado no livro Cristais partidos (1915).

In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 106
9 217

Ser mulher

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida, a liberdade e o amor,
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor,
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um Senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!



4 652

Nesta ausência

Nesta ausência que me excita,
tenho-te, à minha vontade,
numa vontade infinita...
Distância, sejas bendita!
Bendita sejas, saudade!

Teu nome lindo...Ao dizê-lo
queimo os lábios, meu amor!
- O teu nome é um setestrelo
na noite da minha dor.

Nunca digas com firmeza
que a mágoa apenas crucia:
a saudade é uma tristeza,
que nos dá tanta alegria!

Passo horas calada e queda,
a rever, a relembrar
as duas asas de seda
do teu langoroso olhar.

Se a mágoa nos não conforta,
por que é que a felicidade
tem mais sabor quando morta,
depois que se faz saudade?

2 846

Reflexão

Há certas almas
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.

Em seu vôo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detem-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.

Ela, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...

Almas e borboletas,
não fosse a tentação das cousas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...
(in Sublimação, 1928)

3 670

Fecundação

Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente...
de dentro deles teu amor me espia.

Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura

Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a pesuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.

Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.
(in Sublimação, 1928)

3 609

Troversando

Do sucesso na subida
nunca te orgulhes demais
muito difícil na vida
é conservar o cartaz

(...)

Eu não explico a ninguém
pois ainda não compreendi
porque te chamo meu bem
se sofro tanto por ti.

(...)

Entre nuvens no infinito,
sofro a prisão mais prisão...
Sinto-me pássaro aflito
na gaiola de um avião.

Não rias do que te digo
mas sempre na nossa alcova
eu quisera estar contigo
como escova sobre escova.

(...)

Do meu coração me espanto!
O amor só me deu pesar,
como tendo amado tanto
tenho ainda amor para dar?!...

(...)


Publicado no livro Velha poesia (1965).

In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p.429-432
2 097

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