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Vida e Existência

Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 5

Estou no fundo da casa, no abismo possível dos oito anos.
A glória sangrenta é uma lembrança.
Da minha doença horizontal — súbita e esmagadora — pressinto a glória como uma coisa pequena.
Como se um indefinido grão de ciência tivesse um preço monstruoso: uma espécie de morte e um difícil renascimento, entre penumbras.
E o que se perdia — que perdera eu? — seria talvez tão precioso pelo menos como aquilo que se ganhava.
(Não reconhecia também o que ganhara.)
Aparecera em mim uma nova fragilidade, e o meu corpo crescera no seu conhecimento, o amor crescera e a confusão.
Contudo, eu havia decifrado um enigma.
Não sabia qual.
O mundo, entretanto, compreendera alguma coisa a meu respeito.
Os outros viam que eu crescera até ficar como que às portas da loucura.
E então as mulheres vinham observar o enfermo, com algum espanto, uma curiosidade cúmplice, talvez mesmo com certa gratidão.
Traziam as coisas femininas: as mãos, os vestidos, os cheiros, os longos cabelos, os olhos cheios de pensamento, e as maçãs, os bolos, a nenhuma referência verbal à minha glória.
Eu percebia, percebo isso.
Descubro também que sou pobre.
Que os homens não possuem outra arma além de um comovido e estéril entendimento.
Terei talvez de morrer gloriosamente um milhão de vezes, e ressuscitar sempre, com uma acrescentada ciência estéril.
A mãe chega e olha para mim.
Devorado pela febre, descubro a máxima lentidão das suas mãos e a máxima profundidade dos olhos.
Beija-me.
É como se ela tivesse também inteiramente descoberto quem eu sou.
Beija-me como se, de certa maneira, eu estivesse morto, para ressuscitar noutro sítio, noutra linguagem.
A avó, essa, tem uma idade verdadeiramente espantosa, porque me traz maçãs.
Põe-nas na mesa de cabeceira e diz: amanhã estás melhor.
Tremo.
Alegria, terror, gratidão, admiração.
As mãos e a cara dela são muito velhas — inesgotáveis.
Ajeita a roupa da cama e não sorri.
Não precisa sorrir.
A sua força é para além disso.
Uma força de presença, apenas.
É uma presença total, um bloco de idade.
Mas as irmãs e as primas sabem menos, por isso posso tocar mais facilmente nelas o pequeno milagre da minha nova sabedoria.
Vejo nelas um vestígio de culpa e reconhecimento.
Põem vestidos claros, beijam-me muito, contam tudo o que lhes aconteceu durante o dia.
Parece que desejariam dizer: não temos qualquer segredo para ti, queremos que te levantes e venhas connosco para todos os lugares.
Sabemos, no entanto, elas e eu, que nada mais temos do que amor para nos darmos.
Nunca possuiremos o mesmo conhecimento, o mesmo crescimento.
Eu deverei aprender devagar e penosamente o ritmo da feminilidade, aquele lugar onde elas têm vestidos claros e riem, ou onde de súbito ficam silenciosas e são lentas, como se receassem quebrar algo que trouxessem dentro de si.
Descobrirão logo o sentido da minha espectacular emoção, e ficarão gratas.
Depois vão-se todas embora, e eu permaneço com as minhas trevas onde o corpo está a crescer tanto que poderei rebentar de dor.
A minha luta é para fixar a pequena luz que germina no escuro.
Preciso curar-me de um conhecimento tão recente e tão vivo.
Curar-me da sua intensidade, da sua surpresa.
Só então me será possível sair do quarto, andar pela casa, aproximar-me das mulheres sem terror — e falar-lhes.
Contudo, nunca lhes poderei dizer o que conheço.
Mas ser-me-á concedida a alegria.
Voltarei a ter o meu próprio corpo.
A ferida do braço cicatriza.
Os dias são brancos e extensos.
Durmo e acordo, e há sempre luz e tempo.
Quando as sombras chegam, ouço vozes que cantam.
Percebo que existe algures uma grande simplicidade a que não poderei chegar nem cedo nem tarde demais.
Tenho oito anos, uma primeira glória violenta, a primeira morte e um modo novo de avaliar-me.
Brutalmente, aparece a grande certeza de que estou vivo.
É impossível continuar doente.
Os dias andam depressa agora, já não apalpo o subtil tecido de que são compostos.
Quero fazer coisas.
Levantar-me da cama, ver, mover-me.
Devo afirmar que o mundo é o meu espaço e o tempo não poderá existir sem mim.
As mulheres já sabem.
A avó deixou de me trazer maçãs, e prepara-me a roupa.
A mãe anda como que atarefada noutra esfera.
Julgo que enche frascos de compota.
Há nas irmãs e nas primas um leve receio de que eu tenha crescido demasiado e comece a partir, pela casa fora, tudo o que apanhar à mão.
Esta esplêndida violência do meu ser atemoriza-as um pouco e, embora sorriam gentilmente, sei que acabo de alcançar um perigoso prestígio.
Elas nunca terão a minha violência.
Isso torna-me monstruosamente feliz.
Apenas a minha próxima morte as libertará, até que eu de novo renasça, para então as atemorizar de novo.
Um dia, porém, elas serão como a mãe, e estarão fora do meu alcance, porque nessa altura devem conhecer a minha essencial esterilidade.
E, mais tarde ainda, serão como a avó, terão toda a inteligência, e pelo seu espírito não passará a mais ligeira dúvida: saberão tudo o que haverá para fazer.
Estarei reduzido à completa masculinidade.
Mas muitos anos terão de passar até ao momento dessa desesperada tarefa.
A glória e o conhecimento só agora principiaram, nem eu sei ainda ao que me conduzirão.
Gozo o poder violento deste instante, não me volto para trás nem para a frente.
Deixo as roupas moles da cama, o círculo sensível e intuitivo das mulheres, o silêncio — e abandono o quarto, estonteado pela debilidade da doença e pela força da cura.
Cresceste, diz a avó.
Sorri agora, sabendo o que é e o que será tudo isso.
Cresci, penso, cresci durante a minha doença.
As irmãs olham-me com pudor e curiosidade e as primas tocam-me de passagem no ombro.
Parece que estou com os braços e as pernas muito grandes para o resto do corpo.
Há qualquer coisa em mim de desproporcionado, talvez um pouco repelente, mas também comovedor.
Temível, do mesmo modo.
Riem timidamente do meu aspecto.
Ah, sim.
Gostariam de entregar-se a uma veemente e feliz troça, mas a minha desproporção é inquietante.
Os braços e as pernas.
Sem dúvida: desenvolveram-se demais.
Mas trata-se apenas de um sinal grosseiro de outra coisa que ganhou novo espaço.
A vida cresceu, a diferença cresceu entre mim e elas.
Eu sei coisas.
Eu tenho forças.
Outro país, não o delas, está a florescer em braços e pernas, em obscuro poder.
Dá vontade de rir.
E devido à insólita transformação no fundo da doença, aos oito anos, os anos delas vão-se pôr também a crescer, sabe-se lá como, com que poder e sinais.
Mas não penso nisso, nada sei.
Não me importam os seus risos e frases, nem a minha doença acabada, nem sequer o que diz a avó.
Estou interessado nos meus braços e pernas e no modo como aplicá-los ao vasto lugar onde se encontram e ao tempo atravessado pelo calor de junho.
Vejo que os posso colocar bastante bem em cada momento, no espaço todo.
Não há desproporção.
Os dias absorvem a minha desproporção.
Quando vou para a praia, movo-me melhor na água e corro sofregamente pela areia.
Por enquanto, durante toda esta ocupação de aplicar o meu novo tamanho, o corpo, o meu coração posterior à glória, à morte e ao renascimento, por enquanto sim, sei que desprezo um pouco as mulheres.
É preciso ser a avó para entender isso.
1 083
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 5

Estou no fundo da casa, no abismo possível dos oito anos.
A glória sangrenta é uma lembrança.
Da minha doença horizontal — súbita e esmagadora — pressinto a glória como uma coisa pequena.
Como se um indefinido grão de ciência tivesse um preço monstruoso: uma espécie de morte e um difícil renascimento, entre penumbras.
E o que se perdia — que perdera eu? — seria talvez tão precioso pelo menos como aquilo que se ganhava.
(Não reconhecia também o que ganhara.)
Aparecera em mim uma nova fragilidade, e o meu corpo crescera no seu conhecimento, o amor crescera e a confusão.
Contudo, eu havia decifrado um enigma.
Não sabia qual.
O mundo, entretanto, compreendera alguma coisa a meu respeito.
Os outros viam que eu crescera até ficar como que às portas da loucura.
E então as mulheres vinham observar o enfermo, com algum espanto, uma curiosidade cúmplice, talvez mesmo com certa gratidão.
Traziam as coisas femininas: as mãos, os vestidos, os cheiros, os longos cabelos, os olhos cheios de pensamento, e as maçãs, os bolos, a nenhuma referência verbal à minha glória.
Eu percebia, percebo isso.
Descubro também que sou pobre.
Que os homens não possuem outra arma além de um comovido e estéril entendimento.
Terei talvez de morrer gloriosamente um milhão de vezes, e ressuscitar sempre, com uma acrescentada ciência estéril.
A mãe chega e olha para mim.
Devorado pela febre, descubro a máxima lentidão das suas mãos e a máxima profundidade dos olhos.
Beija-me.
É como se ela tivesse também inteiramente descoberto quem eu sou.
Beija-me como se, de certa maneira, eu estivesse morto, para ressuscitar noutro sítio, noutra linguagem.
A avó, essa, tem uma idade verdadeiramente espantosa, porque me traz maçãs.
Põe-nas na mesa de cabeceira e diz: amanhã estás melhor.
Tremo.
Alegria, terror, gratidão, admiração.
As mãos e a cara dela são muito velhas — inesgotáveis.
Ajeita a roupa da cama e não sorri.
Não precisa sorrir.
A sua força é para além disso.
Uma força de presença, apenas.
É uma presença total, um bloco de idade.
Mas as irmãs e as primas sabem menos, por isso posso tocar mais facilmente nelas o pequeno milagre da minha nova sabedoria.
Vejo nelas um vestígio de culpa e reconhecimento.
Põem vestidos claros, beijam-me muito, contam tudo o que lhes aconteceu durante o dia.
Parece que desejariam dizer: não temos qualquer segredo para ti, queremos que te levantes e venhas connosco para todos os lugares.
Sabemos, no entanto, elas e eu, que nada mais temos do que amor para nos darmos.
Nunca possuiremos o mesmo conhecimento, o mesmo crescimento.
Eu deverei aprender devagar e penosamente o ritmo da feminilidade, aquele lugar onde elas têm vestidos claros e riem, ou onde de súbito ficam silenciosas e são lentas, como se receassem quebrar algo que trouxessem dentro de si.
Descobrirão logo o sentido da minha espectacular emoção, e ficarão gratas.
Depois vão-se todas embora, e eu permaneço com as minhas trevas onde o corpo está a crescer tanto que poderei rebentar de dor.
A minha luta é para fixar a pequena luz que germina no escuro.
Preciso curar-me de um conhecimento tão recente e tão vivo.
Curar-me da sua intensidade, da sua surpresa.
Só então me será possível sair do quarto, andar pela casa, aproximar-me das mulheres sem terror — e falar-lhes.
Contudo, nunca lhes poderei dizer o que conheço.
Mas ser-me-á concedida a alegria.
Voltarei a ter o meu próprio corpo.
A ferida do braço cicatriza.
Os dias são brancos e extensos.
Durmo e acordo, e há sempre luz e tempo.
Quando as sombras chegam, ouço vozes que cantam.
Percebo que existe algures uma grande simplicidade a que não poderei chegar nem cedo nem tarde demais.
Tenho oito anos, uma primeira glória violenta, a primeira morte e um modo novo de avaliar-me.
Brutalmente, aparece a grande certeza de que estou vivo.
É impossível continuar doente.
Os dias andam depressa agora, já não apalpo o subtil tecido de que são compostos.
Quero fazer coisas.
Levantar-me da cama, ver, mover-me.
Devo afirmar que o mundo é o meu espaço e o tempo não poderá existir sem mim.
As mulheres já sabem.
A avó deixou de me trazer maçãs, e prepara-me a roupa.
A mãe anda como que atarefada noutra esfera.
Julgo que enche frascos de compota.
Há nas irmãs e nas primas um leve receio de que eu tenha crescido demasiado e comece a partir, pela casa fora, tudo o que apanhar à mão.
Esta esplêndida violência do meu ser atemoriza-as um pouco e, embora sorriam gentilmente, sei que acabo de alcançar um perigoso prestígio.
Elas nunca terão a minha violência.
Isso torna-me monstruosamente feliz.
Apenas a minha próxima morte as libertará, até que eu de novo renasça, para então as atemorizar de novo.
Um dia, porém, elas serão como a mãe, e estarão fora do meu alcance, porque nessa altura devem conhecer a minha essencial esterilidade.
E, mais tarde ainda, serão como a avó, terão toda a inteligência, e pelo seu espírito não passará a mais ligeira dúvida: saberão tudo o que haverá para fazer.
Estarei reduzido à completa masculinidade.
Mas muitos anos terão de passar até ao momento dessa desesperada tarefa.
A glória e o conhecimento só agora principiaram, nem eu sei ainda ao que me conduzirão.
Gozo o poder violento deste instante, não me volto para trás nem para a frente.
Deixo as roupas moles da cama, o círculo sensível e intuitivo das mulheres, o silêncio — e abandono o quarto, estonteado pela debilidade da doença e pela força da cura.
Cresceste, diz a avó.
Sorri agora, sabendo o que é e o que será tudo isso.
Cresci, penso, cresci durante a minha doença.
As irmãs olham-me com pudor e curiosidade e as primas tocam-me de passagem no ombro.
Parece que estou com os braços e as pernas muito grandes para o resto do corpo.
Há qualquer coisa em mim de desproporcionado, talvez um pouco repelente, mas também comovedor.
Temível, do mesmo modo.
Riem timidamente do meu aspecto.
Ah, sim.
Gostariam de entregar-se a uma veemente e feliz troça, mas a minha desproporção é inquietante.
Os braços e as pernas.
Sem dúvida: desenvolveram-se demais.
Mas trata-se apenas de um sinal grosseiro de outra coisa que ganhou novo espaço.
A vida cresceu, a diferença cresceu entre mim e elas.
Eu sei coisas.
Eu tenho forças.
Outro país, não o delas, está a florescer em braços e pernas, em obscuro poder.
Dá vontade de rir.
E devido à insólita transformação no fundo da doença, aos oito anos, os anos delas vão-se pôr também a crescer, sabe-se lá como, com que poder e sinais.
Mas não penso nisso, nada sei.
Não me importam os seus risos e frases, nem a minha doença acabada, nem sequer o que diz a avó.
Estou interessado nos meus braços e pernas e no modo como aplicá-los ao vasto lugar onde se encontram e ao tempo atravessado pelo calor de junho.
Vejo que os posso colocar bastante bem em cada momento, no espaço todo.
Não há desproporção.
Os dias absorvem a minha desproporção.
Quando vou para a praia, movo-me melhor na água e corro sofregamente pela areia.
Por enquanto, durante toda esta ocupação de aplicar o meu novo tamanho, o corpo, o meu coração posterior à glória, à morte e ao renascimento, por enquanto sim, sei que desprezo um pouco as mulheres.
É preciso ser a avó para entender isso.
1 083
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 1

Vejo-lhes o rosto sem sombras, um pequeno rosto branco que tem raízes em águas lisas.
A peste neles é uma tarefa tranquila.
As raízes bebem-na na própria paz, e o sono não dá conta.
Sólido sono que nenhum pavor atravessa.
Um dia hei-de falar melhor deste sono, desse distraído e falso equilíbrio que regras estéreis secretamente alimentam.
Eu via esses rostos, esse sono, e não tinha paz.
Sabem como é?
Começamos por reconhecer aí os seres do nosso amor e gentileza — sei lá — a mãe, as irmãs, a rapariga cujas altas ancas atravessavam os quartos obscuros, atravancavam corredores, e onde a luz viva se quebrava.
Nas fotografias antigas, com forma oval e uma cor ambígua, a três quartos, de frente, de perfil — sim, reconhecemos isso.
São rostos brancos, e dormem.
Dormem o sono onde a lepra estremece: a tenebrosa semente.
Depois vemos que tudo era vazio, lá dentro: era uma casca — e, precisamente, nada significava.
Mãe — dizemos nós.
Mas a mãe fora tomada por aquela grande desatenção.
E chamamos pela jovem tremendamente irradiante e íntima.
Mas nada há, além de um nome inventado pelo nosso tempo e colocação, o nosso próprio mistério.
Fazemos um apelo aos retratos, cercamo-los de uma quente expectativa, e temos sobre eles uma teoria emocionante.
Contudo, é forçoso deixá-los: dormem daquele sono.
Estou rodeado por dezenas de cabeças assim — calmas e vazias.
Vou para os lugares do norte — é talvez um projecto.
Sim, tenho esse projecto.
No norte a neve é grande, e eu andarei sobre ela, possivelmente descalço.
Lá em cima, se me aplicar bastante, segundo uma regra minha interior que hei-de descobrir, ficarei com os pés queimados.
Quando voltar a ver as antigas memórias, terei os pés cobertos de cicatrizes.
Que pensarão de mim?
Que sou um mártir? um vagabundo a quem faltaram os sapatos? um homem a quem faltou a prudência?
Deixemos-lhes os alvitres, os sensos morais.
Temos de pensar nos nossos pés.
Não para lamentos.
Porque, evidentemente, quem possui pés marcados não pode deixar de ser suspeito.
Quero eu dizer: se a neve e o gelo os marcaram, como fogo, é porque o coração tinha o seu crime, a sua regra violenta.
Escutem vocês.
Não temos família, nem amor, nem paz, nem casa, nem país, nem fraternidade, nem.
Realmente nem isso.
Nem projecto.
Quando eu disse muito baixo: mãe.
Sabem vocês o que aconteceu?
Veio aquela mulher muito velha, sonâmbula, que sorria estupidamente, que deveria estar a dormir.
Aposto em que era oca, igual ao ovo de avestruz que havia na horrível sala de jantar.
Bem sei: a minha versão era outra.
Uma mulher silenciosa, sentada junto a uma janela com cortinas brancas onde batia o vento marinho.
A criatura gentil e atenta, cuja melancolia era uma espécie de inteligência subterrânea que todas as coisas, e uma memória oculta, ajudavam no silêncio.
Mas a velha oca sorria, e a inteligência dela era apenas andar pela casa.
Uma galinha.
Vejo-a a esgravatar a terra, a morrer da sua peste, com a cabeça dormente sobre as curtas asas.
O que eu digo é bastante simples: a gente precisa de encontrar o seu verdadeiro lugar para morrer.
Aí é que se vive.
Não é junto de fotografias amarelas, de mães empestadas, de raparigas esplêndidas guardando com ignorância o seu cancro fatal.
Onde é bom para morrer, não há perigo.
Está limpo, é definitivo.
Oh, deixemo-nos de invenções menores.
Já somos puros e responsáveis, depois de tudo o que sucedeu: as pessoas que dormem embrulhadas em volta da sua tenebrosa doença, os retratos oblíquos, inclinando o seu suspeito sorriso e a sua seriedade gramatical.
Merda para os espantalhos.
Estamos sós, libertos dos bons sentimentos, das pequenas grandezas de alma, das vozes solícitas.
Fomos ao norte ou, se não fomos, havemos de ir — isso é o menos.
E aquela dos pés descalços sobre a neve, o diabo tece-as.
Pode bem vir a ser uma verdade.
Não seria assim uma coisa como que heróica, hein?
Uma espécie de santidade, martírio, ou crime exemplar?
Às vezes penso mesmo que é necessário assassinar alguém, ter as mãos cobertas de sangue.
Não que isto possa vir a ser o começo de uma ressurreiçãozinha, mas apenas porque há a necessidade de algo bastante concreto.
Temos contas a liquidar, e o sangue continua a ser, vindo da simbologia antiga, um sinal indiscutível.
Não melhoraria coisa alguma, não senhores.
Mas — enfim — havíamos actuado, tínhamos esse acto como reserva de consciência.
Afinal a mãe estava morta, e a avó que empestava a casa estava morta, e morta estava aquela extraordinária rapariga de ancas altas, a que andava pela obscuridade, essa tinha a sua doença repugnante e estava morta.
Chegámos aqui a um ponto importante.
A minha teoria é a seguinte.
Matá-los não era possível, pois eles estavam todos mortos, sorrindo nos corredores, nas janelas, nos retratos.
Mas nós devíamo-nos sentir os executores.
A sua justa morte, posterior, deveria ter sido obra nossa, milagre, violência nossa.
E então partíamos para a neve, com uma alegria feroz, uma essência pura — libertos por nossas próprias mãos.
Que esplêndidos pés marcados.
Mas afinal sentamo-nos a uma mesa e escrevemos as palavras ambíguas para que haverá todos os sentidos, aqueles mesmo por onde escapará a pequena parte de nobreza que era a nossa intenção.
E agora, para mais, assaltam-me imagens de uma beleza terrível e degradante para o que tenho pela minha alta vocação: o esquecimento.
Sabem o que vejo?
Mãos quentes e seguras que fazem desenhos sobre a mesa, no ar, na conversa.
Irmãs, primas, mulheres que atravessam um frio e nítido pomar de laranjeiras anãs, o cabelo húmido, o rosto grande aberto, o olhar muito vivo.
Enquanto sufoco com tanta beleza, eu, criança comovida, pequeno monstro sensível entregue às ciladas da falsa memória.
Na realidade, eu deveria estar no deserto, de pé, porque tudo é impiedoso, e eu sou impiedoso.
É preciso deitar fogo às ervas, as ervas altas, estar sobre areia, sobre cal.
Há uma pureza, decerto.
E não será feita com detritos, emoções fáceis, figuras repetindo gestos a que nos aplicámos a dar uma virtude — e que constituem depois o exemplo do tempo, do lugar, do acto.
A história que eu conto é esta.
Houve um engano nos nossos pensamentos, e do engano fizemos a alegria e a tristeza, chegámos a fazer a nossa força.
A pureza não deve ser a ingenuidade e a segurança com que a podemos ter.
Por isso falo de uma viagem onde é possível perder o próprio nome, e morrer disso.
E então viver.
Não dormindo, como as nossas bestas respeitáveis.
Viver — digo eu.
E que o nosso afastamento, o silêncio vibrante, a grande morte pensada e amada nas profundidades — fossem bastante para vergar as bestas todas, empurrá-las pelo seu próprio sono abaixo, afundá-las até ao inferno.
Gostaria de cantar quando o ar estivesse completamente límpido.
Mas não passo de um fraco — nem sequer matei os prestigiosos monstros do meu tempo: todas essas criaturas que me entregam uma velhice pecaminosa, essas obscenas figuras de retórica que são as descobertas da intimidade.
Todos os dias os mortos ressuscitam e bebem o meu sangue de homem, e eu sorrio-lhes, cheio de gratidão e amor.
Grande filho de puta.
643
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 1

Vejo-lhes o rosto sem sombras, um pequeno rosto branco que tem raízes em águas lisas.
A peste neles é uma tarefa tranquila.
As raízes bebem-na na própria paz, e o sono não dá conta.
Sólido sono que nenhum pavor atravessa.
Um dia hei-de falar melhor deste sono, desse distraído e falso equilíbrio que regras estéreis secretamente alimentam.
Eu via esses rostos, esse sono, e não tinha paz.
Sabem como é?
Começamos por reconhecer aí os seres do nosso amor e gentileza — sei lá — a mãe, as irmãs, a rapariga cujas altas ancas atravessavam os quartos obscuros, atravancavam corredores, e onde a luz viva se quebrava.
Nas fotografias antigas, com forma oval e uma cor ambígua, a três quartos, de frente, de perfil — sim, reconhecemos isso.
São rostos brancos, e dormem.
Dormem o sono onde a lepra estremece: a tenebrosa semente.
Depois vemos que tudo era vazio, lá dentro: era uma casca — e, precisamente, nada significava.
Mãe — dizemos nós.
Mas a mãe fora tomada por aquela grande desatenção.
E chamamos pela jovem tremendamente irradiante e íntima.
Mas nada há, além de um nome inventado pelo nosso tempo e colocação, o nosso próprio mistério.
Fazemos um apelo aos retratos, cercamo-los de uma quente expectativa, e temos sobre eles uma teoria emocionante.
Contudo, é forçoso deixá-los: dormem daquele sono.
Estou rodeado por dezenas de cabeças assim — calmas e vazias.
Vou para os lugares do norte — é talvez um projecto.
Sim, tenho esse projecto.
No norte a neve é grande, e eu andarei sobre ela, possivelmente descalço.
Lá em cima, se me aplicar bastante, segundo uma regra minha interior que hei-de descobrir, ficarei com os pés queimados.
Quando voltar a ver as antigas memórias, terei os pés cobertos de cicatrizes.
Que pensarão de mim?
Que sou um mártir? um vagabundo a quem faltaram os sapatos? um homem a quem faltou a prudência?
Deixemos-lhes os alvitres, os sensos morais.
Temos de pensar nos nossos pés.
Não para lamentos.
Porque, evidentemente, quem possui pés marcados não pode deixar de ser suspeito.
Quero eu dizer: se a neve e o gelo os marcaram, como fogo, é porque o coração tinha o seu crime, a sua regra violenta.
Escutem vocês.
Não temos família, nem amor, nem paz, nem casa, nem país, nem fraternidade, nem.
Realmente nem isso.
Nem projecto.
Quando eu disse muito baixo: mãe.
Sabem vocês o que aconteceu?
Veio aquela mulher muito velha, sonâmbula, que sorria estupidamente, que deveria estar a dormir.
Aposto em que era oca, igual ao ovo de avestruz que havia na horrível sala de jantar.
Bem sei: a minha versão era outra.
Uma mulher silenciosa, sentada junto a uma janela com cortinas brancas onde batia o vento marinho.
A criatura gentil e atenta, cuja melancolia era uma espécie de inteligência subterrânea que todas as coisas, e uma memória oculta, ajudavam no silêncio.
Mas a velha oca sorria, e a inteligência dela era apenas andar pela casa.
Uma galinha.
Vejo-a a esgravatar a terra, a morrer da sua peste, com a cabeça dormente sobre as curtas asas.
O que eu digo é bastante simples: a gente precisa de encontrar o seu verdadeiro lugar para morrer.
Aí é que se vive.
Não é junto de fotografias amarelas, de mães empestadas, de raparigas esplêndidas guardando com ignorância o seu cancro fatal.
Onde é bom para morrer, não há perigo.
Está limpo, é definitivo.
Oh, deixemo-nos de invenções menores.
Já somos puros e responsáveis, depois de tudo o que sucedeu: as pessoas que dormem embrulhadas em volta da sua tenebrosa doença, os retratos oblíquos, inclinando o seu suspeito sorriso e a sua seriedade gramatical.
Merda para os espantalhos.
Estamos sós, libertos dos bons sentimentos, das pequenas grandezas de alma, das vozes solícitas.
Fomos ao norte ou, se não fomos, havemos de ir — isso é o menos.
E aquela dos pés descalços sobre a neve, o diabo tece-as.
Pode bem vir a ser uma verdade.
Não seria assim uma coisa como que heróica, hein?
Uma espécie de santidade, martírio, ou crime exemplar?
Às vezes penso mesmo que é necessário assassinar alguém, ter as mãos cobertas de sangue.
Não que isto possa vir a ser o começo de uma ressurreiçãozinha, mas apenas porque há a necessidade de algo bastante concreto.
Temos contas a liquidar, e o sangue continua a ser, vindo da simbologia antiga, um sinal indiscutível.
Não melhoraria coisa alguma, não senhores.
Mas — enfim — havíamos actuado, tínhamos esse acto como reserva de consciência.
Afinal a mãe estava morta, e a avó que empestava a casa estava morta, e morta estava aquela extraordinária rapariga de ancas altas, a que andava pela obscuridade, essa tinha a sua doença repugnante e estava morta.
Chegámos aqui a um ponto importante.
A minha teoria é a seguinte.
Matá-los não era possível, pois eles estavam todos mortos, sorrindo nos corredores, nas janelas, nos retratos.
Mas nós devíamo-nos sentir os executores.
A sua justa morte, posterior, deveria ter sido obra nossa, milagre, violência nossa.
E então partíamos para a neve, com uma alegria feroz, uma essência pura — libertos por nossas próprias mãos.
Que esplêndidos pés marcados.
Mas afinal sentamo-nos a uma mesa e escrevemos as palavras ambíguas para que haverá todos os sentidos, aqueles mesmo por onde escapará a pequena parte de nobreza que era a nossa intenção.
E agora, para mais, assaltam-me imagens de uma beleza terrível e degradante para o que tenho pela minha alta vocação: o esquecimento.
Sabem o que vejo?
Mãos quentes e seguras que fazem desenhos sobre a mesa, no ar, na conversa.
Irmãs, primas, mulheres que atravessam um frio e nítido pomar de laranjeiras anãs, o cabelo húmido, o rosto grande aberto, o olhar muito vivo.
Enquanto sufoco com tanta beleza, eu, criança comovida, pequeno monstro sensível entregue às ciladas da falsa memória.
Na realidade, eu deveria estar no deserto, de pé, porque tudo é impiedoso, e eu sou impiedoso.
É preciso deitar fogo às ervas, as ervas altas, estar sobre areia, sobre cal.
Há uma pureza, decerto.
E não será feita com detritos, emoções fáceis, figuras repetindo gestos a que nos aplicámos a dar uma virtude — e que constituem depois o exemplo do tempo, do lugar, do acto.
A história que eu conto é esta.
Houve um engano nos nossos pensamentos, e do engano fizemos a alegria e a tristeza, chegámos a fazer a nossa força.
A pureza não deve ser a ingenuidade e a segurança com que a podemos ter.
Por isso falo de uma viagem onde é possível perder o próprio nome, e morrer disso.
E então viver.
Não dormindo, como as nossas bestas respeitáveis.
Viver — digo eu.
E que o nosso afastamento, o silêncio vibrante, a grande morte pensada e amada nas profundidades — fossem bastante para vergar as bestas todas, empurrá-las pelo seu próprio sono abaixo, afundá-las até ao inferno.
Gostaria de cantar quando o ar estivesse completamente límpido.
Mas não passo de um fraco — nem sequer matei os prestigiosos monstros do meu tempo: todas essas criaturas que me entregam uma velhice pecaminosa, essas obscenas figuras de retórica que são as descobertas da intimidade.
Todos os dias os mortos ressuscitam e bebem o meu sangue de homem, e eu sorrio-lhes, cheio de gratidão e amor.
Grande filho de puta.
643
Matilde Campilho

Matilde Campilho

We Never Did Too Much Talking Anyway

Por exemplo
esqueça Coney Island
e as trezentas peças
de metal que compõem
o jogo mágico de Coney
Island no mês de agosto
Lembre da palavra sushi
sendo gritada no metrô
quando tudo o que alguém
queria gritar era sua devoção
por pedacinhos de prata
Lembre de meu fascínio
profundo por desportistas
noturnos que sincronizam
a respiração com o batimento
dos dedos da amante morta
Esqueça o comprimido
composto de estearato
de magnésio e macrogol
receitado por doutor Roberto
quando o pobre doutor Roberto
não sabia mais o que tentar
ou então tinha mais o que fazer
naquela tarde de quarta-feira
na emergência de São Vicente
Lembre que quarta-feira
é dia de jogo de pebolim
e sobre isso não tem discussão
Lembre do quanto me iluminam
os animais talhados no marfim
principalmente aquela baleia
de oito centímetros e meio
minha única herança
minha única esperança
Esqueça talvez
a manobra repetida
de lamber envelopes
no silêncio de um quarto
quando já faz sol nas praças
Somos feitos para o relento
Lembre que por vezes
você tem muita razão
e que outras vezes não
Esqueça vá esqueça
o inverno em Ipanema
e o tubarão nadando
nas veias da besta
de Ipanema gelada
Lembre de meu desejo
muitas vezes certo
muitas vezes não
Lembre a descoberta
daquele excerto que dizia
nós subimos os degraus
a correr e saímos do frio
brilhante para o frio escuro
E se puder não esqueça
o rosto calmo do tigre
que está parado na porta
esperando para entrar
e para depois nos atravessar.
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