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Poemas neste tema

Vida e Existência

Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 4

Contou que caminhava pela praia, nu, correndo.
A areia, o sol, o mar e a profundidade extenuante do céu embriagavam-no.
Tinha extrema consciência da sua nudez, e isso também o embriagava.
Ia com um projecto, ou uma missão, estava carregado disso, mas tratava-se de uma coisa inominável.
Na praia havia gente, gente — parece — com aquela disponibilidade sem expectativa de gente na praia.
Estavam em fato de banho, ociosos e alheios, e quando ele passou pelo meio dessa gente, a nudez que tinha ainda o embriagou mais.
Depois encontrou três degraus de pedra, e subiu-os.
Continuou a correr, mas — segundo contou — o céu, a água e a areia, agora perdidos, haviam deixado nele um espaço vazio onde a ideia de missão se pôs a crescer, de modo que ele se encontrava como que louco da pressa e densidade da missão.
Corria por um labirinto de pedra negra, e nos corredores estreitos havia casas baixas, também de pedra, sem telhado e sem portas e janelas.
Eram cubos negros abertos em cima e com buracos rectangulares a diversos níveis.
Correndo pelos labirintos, cheio da sua pressa e com a espessa ansiedade daquela mensagem tão obscura, viu de súbito que tinha dois longos pénis brancos, delgados e longos como duas serpentes, e que se contorciam e enroscavam um no outro.
Não sentiu medo, sequer espanto, pois imaginava que isso também fazia parte da missão.
Mas quando avistou uma mulher que vinha em sentido contrário ao dele, procurou tapar com as mãos aqueles pénis-serpentes nascidos da mesma sombria raiz, quando corria pelos labirintos.
As serpentes, no entanto, escapavam-se por entre os dedos, desciam-lhe pelas pernas, subiam pelo ventre até ao peito, avançavam em todas as direcções, com as suas pequenas cabeças cruéis, sagazes e esfaimadas.
Cheio de terror, parou em frente de uma daquelas casas.
Quando entrou — contou ele — havia já perdido a sua força e leveza de mensageiro, e apenas sentia medo.
A casa estava vazia como todas as outras e, como elas, sem tecto e sem portas e janelas.
Naquele cubo negro e devassado, onde adivinhava excrementos e restos podres de comida, através de uma luz sinistra, pensou que viera de longe, percorrendo com a sua nudez os caminhos do dia e estes labirintos tenebrosos, apenas para se encontrar vazio, cercado pela podridão.
As duas serpentes brancas continuavam a fremir entre as suas pernas abertas.
1 083
Herberto Helder

Herberto Helder

Mão: a Mão

O coração em cheio
no corpo, Um sopro
no coração,
E a carne reflui toda,
Uma braçada alta,
Reflui
ao sorvedouro a água áspera,
Árdua meada de sangue
de mão a mão no escuro, Sob
a roupa que a lua
exalta,
Escafandrista
que defendesse o remoinho de ar
nos pulmões
do remoinho do abismo,
Ou defendesse
a insónia da surda invasão do medo,
Abraçado a essa bolha,
Toque
leveza baptismal
centro,
Oh sombria natação com um relâmpago,
Camisa molhada
até às entranhas: secando à lua entre
água e pesadelo,
Visto
essa camisa brilhando sobre
um buraco um
escurecimento,
A transfusão das imagens,
Fendido
ao meio dos olhos, Por onde penetra a agudeza
do mundo:
e me
transforma, Quem
enterra um diamante e não sabe
que o enterra
em si, E fosse: pela costura
elementar: uma pálpebra
por cima de um
aparelho da alucinação um
organismo do sonho,
Alguém que se deitasse
com um grito
dentro: e acordasse com esse grito
pela boca fora,
Que fosse
uma cana encontrada
no vento: quando é de alguém
que o vento se levanta,
E os dedos atassem
e desatassem o som
nos orifícios — música
ferramenta
a paixão,
Que fosse
de fôlego a fôlego, Qualidade
da coisa que se nomeia,
E tudo me abala
— O nome a encher uma pessoa
como a luz enche o vento,
Ou a ferida enche a lembrança,
Mantenho
os objectos
as chamas:
à força
de respiração: de carne amarga,
Pensa-se que a cabeça é toda
brusca:
a beleza rudemente
pela brancura,
Com uma vara de sal
é que tocaram fundo
e me floriram,
E eu estremeço
desse dardo: dessa pancada na cabeça
cheia de sangue e sopro:
e desse
florescimento,
É uma arte em pé ardendo à vista,
Que se infunda na matéria
acerba
o lume, Um ofício:
a sua maravilha:
apavoram-me,
E na madeira
se lavrem a pulso os genitais: os membros:
o umbigo
e a garganta,
Da carnagem das gramáticas
arranco a música
o nome
o número,
Trabalho à raiz do ouro
frio, Tão agudo tão agudo,
Se toda a peça de carne é varada
por uma veia inocente:
vara-me
a iluminação vocabular
da memória,
Mexida por lunações como na fêmea
a massa lêveda,
Ou no poema
a parte fêmea instrumentada pela
magnificência,
O que nele se talha
em som escrito: órgão,
Mão que revolves a substância primordial,
Barro
fundamento, Que o hausto atenda à força
respirada
pela carne em poder,
O nó
coronário de uma estrela,
Peso e melancolia
da riqueza
e do medo, E que me assome Deus às partes
graves: com sua luva súbita
no abismo,
É ao meu nome que regresso: à ameaça,
A limpidez
atravessa-me pelos furos naturais
ardidos,
Entra um astro
por mim dentro:
faz-me potência e dança,
Que toda a noite do mundo te torne humana:
obra
1 380
Herberto Helder

Herberto Helder

Mão: a Mão

O coração em cheio
no corpo, Um sopro
no coração,
E a carne reflui toda,
Uma braçada alta,
Reflui
ao sorvedouro a água áspera,
Árdua meada de sangue
de mão a mão no escuro, Sob
a roupa que a lua
exalta,
Escafandrista
que defendesse o remoinho de ar
nos pulmões
do remoinho do abismo,
Ou defendesse
a insónia da surda invasão do medo,
Abraçado a essa bolha,
Toque
leveza baptismal
centro,
Oh sombria natação com um relâmpago,
Camisa molhada
até às entranhas: secando à lua entre
água e pesadelo,
Visto
essa camisa brilhando sobre
um buraco um
escurecimento,
A transfusão das imagens,
Fendido
ao meio dos olhos, Por onde penetra a agudeza
do mundo:
e me
transforma, Quem
enterra um diamante e não sabe
que o enterra
em si, E fosse: pela costura
elementar: uma pálpebra
por cima de um
aparelho da alucinação um
organismo do sonho,
Alguém que se deitasse
com um grito
dentro: e acordasse com esse grito
pela boca fora,
Que fosse
uma cana encontrada
no vento: quando é de alguém
que o vento se levanta,
E os dedos atassem
e desatassem o som
nos orifícios — música
ferramenta
a paixão,
Que fosse
de fôlego a fôlego, Qualidade
da coisa que se nomeia,
E tudo me abala
— O nome a encher uma pessoa
como a luz enche o vento,
Ou a ferida enche a lembrança,
Mantenho
os objectos
as chamas:
à força
de respiração: de carne amarga,
Pensa-se que a cabeça é toda
brusca:
a beleza rudemente
pela brancura,
Com uma vara de sal
é que tocaram fundo
e me floriram,
E eu estremeço
desse dardo: dessa pancada na cabeça
cheia de sangue e sopro:
e desse
florescimento,
É uma arte em pé ardendo à vista,
Que se infunda na matéria
acerba
o lume, Um ofício:
a sua maravilha:
apavoram-me,
E na madeira
se lavrem a pulso os genitais: os membros:
o umbigo
e a garganta,
Da carnagem das gramáticas
arranco a música
o nome
o número,
Trabalho à raiz do ouro
frio, Tão agudo tão agudo,
Se toda a peça de carne é varada
por uma veia inocente:
vara-me
a iluminação vocabular
da memória,
Mexida por lunações como na fêmea
a massa lêveda,
Ou no poema
a parte fêmea instrumentada pela
magnificência,
O que nele se talha
em som escrito: órgão,
Mão que revolves a substância primordial,
Barro
fundamento, Que o hausto atenda à força
respirada
pela carne em poder,
O nó
coronário de uma estrela,
Peso e melancolia
da riqueza
e do medo, E que me assome Deus às partes
graves: com sua luva súbita
no abismo,
É ao meu nome que regresso: à ameaça,
A limpidez
atravessa-me pelos furos naturais
ardidos,
Entra um astro
por mim dentro:
faz-me potência e dança,
Que toda a noite do mundo te torne humana:
obra
1 380
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 8

O que me exalta nas fotografias é o roubo — aquele roubo abrupto, resguardador, defensivo — às forças expansivas do tempo.
Vejo ali o máximo de poder centripetador.
A fábula da imobilidade defende-me da devastação e, no entanto, ponho-me a investigar nesse texto obsessivo o estremecimento dos germens.
Será possível que a criança já tudo saiba?
Sim, a fotografia apenas concentrou a maligna ciência infantil.
A adolescente de quinze anos ergue-se, por virtude do vestido branco e do cabelo solto, como num pequeno voo, uma levitação distraída e cheia de comovente confiança.
O medo.
Bem, não se vê?
É nas pálpebras que acabaram de bater e mostram um veloz arrependimento, a presciência de que a impulsão não a fará libertar-se numa onda de entusiasmo branco.
Realmente, é um olhar apavorado.
Nenhum movimento ascensional descarrega uma adolescente do crime da sabedoria, nem um vestido é suficientemente branco para deslocar a verdade.
O pai é um senhor robusto, pretendendo tapar tudo com o braço sobre o ombro da mãe, o casaco abotoado e o sorriso voltado demasiadamente para o fotógrafo, para quem o verá na fotografia, os exegetas da sua confiança e solidez de patriarca.
Contudo, há um ponto no casaco estático que parece latejar, e o que eu digo é que lateja de podridão, debaixo da luz.
A outra irmã encontra-se encostada à perna do cavalheiro, e se calhar vai ser feliz com aquela perna pela vida fora, andando e parando com ela, rapariguinha herdeira de uma espécie de estúpida frontalidade.
A sua arma é não entender as subtilezas e, assim, alegre sem arrebatamento, tranquilamente formal com a pata do cavalheiro como grande memória infantil, irá dia a dia adquirindo uma morte bastante material.
Não vai dar por isso.
A mãe está horrivelmente parada, e o menino de oito anos encosta-lhe a cabeça à barriga.
Parece incrustado no ventre materno — um cancro quente que o devora.
Pagará por isso, decerto.
A mãe é fascinante.
Vejam que não sorri, não sente o braço do cavalheiro sobre os ombros neutros, olha num ângulo insólito para ninguém, para nada, sem curiosidade.
Não se percebe que é a esposa dele e a mãe deles, a não ser com a condição de se estudar tudo, durante horas e horas, como se na fotografia pretendêssemos a chave do enigma que um dos quatro tivesse vindo a criar em si próprio, pelos anos fora.
É preciso ter desesperado de tudo e, depois de fazer viagens, julgando ganhar e perder coisas, parar de súbito num sítio, dentro de um quarto, e ficar para ali, com todo o fervor de uma última vontade de conhecimento, estudando e estudando e estudando a fotografia.
Uma noite descobre-se que se trata de uma criança perversa, de boca desordenada e olhos abruptos.
Tem a cara implacável dos meninos de oito anos que se encostam aos ventres das mães.
As mãos dele parecem inocentes, estão caídas ao longo do corpo e, disfarçadas pelos oito anos, pretendem confundir o tempo com esta ideia: têm oito anos, estas mãos, e por isso são limpas — as mãos caídas das crianças são inocentes.
Vejam que foram necessários muitos anos, com viagens loucas, buscas, algo como a mística demanda dos infernos, para compreender que as mãos estão ali assim para iludir a maneira da cabeça: enterrada no ventre materno.
A cabeça do filho é a morte da mãe — e o modo como está a mãe é que é o saber isso.
Ela haveria de gritar, a mãe?
Ter medo, cólera, expulsar aquela externa inocência dissimuladora?
Raízes invisíveis, múltiplas e nocturnas ligam aquele ser, pela cabeça, ao ser devastado pelo ventre.
Ela olha, no ângulo insólito, a difundida devastação da sua vida — e isso é tão forte e completo que nada tem importância: nem o voo simulado da adolescente, nem o senhor com um braço para o lado e uma perna um pouco para a frente, nem a menina com a pata patriarcal pela vida fora, e a felicidade compacta disso.
A mãe comove.
Depois, é outra coisa.
E é terrível.
No quarto onde se parou, tantos anos depois, com a decisão de esgotar o conhecimento, o que se vê é isto: há um pacto.
E só eles dois é que sabem, tendo a adolescente adivinhado qualquer coisa, devido a não se conhece que afinidades, que simetrias insondáveis.
Depois mete-se a fotografia dentro de um livro, anda-se para aqui e para ali, regressa-se a qualquer coisa, faz-se uma tarefa, descansa-se.
Está-se a fingir muito bem.
Finge-se quase até ao esquecimento.
Há paisagens, ruas, cinemas, amores, dinheiro, pensamentos, palavras, estações do ano e obras de arte.
Diz-se: a vida.
Ou: o tempo.
E um dia abre-se o livro e vê-se de novo a fotografia.
E já não se recomeça a leitura no mesmo ponto.
O que se roubou foi o tempo, sim, mas não naquele primeiro sentido suposto.
A antiquíssima imagem fixa serve para se roubar ao tempo a sua qualidade de perdão.
Porque a idade não ensina a anuência aos bons e fáceis sentimentos.
A idade é: cada vez mais atenção.
Só te resta isso, caminhador: o perigo.
O perigo que é o conhecimento, o conhecimento ganho na atenção.
Um homem que conquistou a sua idade não pára diante da fotografia antiga para se comover e murmurar: a mãe com o seu filho ou o filho com a sua mãe.
Ele pensa: quem são? o que fazem um ao outro?
Ele ouve: vou morrer, e vou deixar-vos descansados.
E ouve a sua própria voz: então morra.
E as mãos inocentes.
De uma delas sabe que se moveu como se agarrasse um punhal — a pequena mão inocente registada com oito anos.
Descanso?
Mas isso conhecia ela bem que seria impossível.
O que ela dizia era assim: morro para que tu, tu, tu, não tenhas nenhuma espécie de descanso.
Um pouco mais, um pouco mais — é para isso que as imagens são imóveis.
Tu próprio não és uma criatura móvel, a menos que fales em atenção, em profundidade.
Desce àquilo em que te encontras imóvel.
Mas em vez disso saímos para a rua, à procura dos velhos companheiros: os que se vão suicidar, os que se encontram à entrada do seu irrevogável romance de esquizofrenia, os que de longe escreverão uma carta pedindo para os ajudarmos a virem morrer nesta cidade branca que, do outro lado, quando se está com o fígado desfeito e a cabeça a tremer, a gente imagina metaforicamente aérea, varrida por ventos puros.
Saímos em busca dos bêbados.
Pretende-se a ilusão de espaços dinâmicos, figuras que se propaguem através deles, o empolgante cinetismo das visões.
E que haja tempo, o tempo, o tempo.
Que as coisas avancem, desfazendo os nós ferozes onde a angústia se concentrou.
Uma semana de bebedeira ininterrupta — e aparecem as amiguinhas, vamos todos de um lado para outro, bando apocalíptico, animado por um furor malsão, uma alegria brutal.
Arranjamos um quarto, despimo-nos, e depois estamos noutro quarto, e estamos a despir-nos, e de novo a fazer amor, quatro, seis, oito em cima do tapete — o terrível milagre de uma alucinação de pernas, braços, seios, mãos, sexos, coxas, cabeças, vestidos, camisas.
E uma madrugada, só, vagueando pelos cais desertos, no meio da luz suja e trémula, ressurge o horror da inteligência.
Vê-se tudo, e seria preciso morrer.
E então volta-se para casa, procura-se a fotografia no livro, no fundo de uma gaveta, e está lá isto: o tempo não existe.
Seria possível uma pequena piedade por nós próprios, mas somos tão pouco sentimentais, nós.
Não gostamos da piedade.
Descobre-se que a mãe não era para piedades.
A perversa cabeça infantil entra nela como um punhal, e a mãe, sem conhecer o peso do braço do cavalheiro, olha o espaço, de lado, neutra, ligada àquela espécie de enigmático crime, à obscura vingança no outro lado da sua profecia do descanso para eles, para ele, ele — para ti.
Decifrando a metáfora, percorrendo os caminhos para descobrir as deslocações das partes e, assim, recompor a verdade do texto — a fotografia, a realidade, a vida — ele descobre que toda a gente tem as mãos cheias de sangue.
Que nada foi criado que o não fosse no abismo das destruições.
E entendendo enfim a linguagem das fotografias, ele assume a sua desgraça, e a insignificância dela, e supõe poder avançar, liberto, para a sua própria morte, algures num tempo.
750
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 8

O que me exalta nas fotografias é o roubo — aquele roubo abrupto, resguardador, defensivo — às forças expansivas do tempo.
Vejo ali o máximo de poder centripetador.
A fábula da imobilidade defende-me da devastação e, no entanto, ponho-me a investigar nesse texto obsessivo o estremecimento dos germens.
Será possível que a criança já tudo saiba?
Sim, a fotografia apenas concentrou a maligna ciência infantil.
A adolescente de quinze anos ergue-se, por virtude do vestido branco e do cabelo solto, como num pequeno voo, uma levitação distraída e cheia de comovente confiança.
O medo.
Bem, não se vê?
É nas pálpebras que acabaram de bater e mostram um veloz arrependimento, a presciência de que a impulsão não a fará libertar-se numa onda de entusiasmo branco.
Realmente, é um olhar apavorado.
Nenhum movimento ascensional descarrega uma adolescente do crime da sabedoria, nem um vestido é suficientemente branco para deslocar a verdade.
O pai é um senhor robusto, pretendendo tapar tudo com o braço sobre o ombro da mãe, o casaco abotoado e o sorriso voltado demasiadamente para o fotógrafo, para quem o verá na fotografia, os exegetas da sua confiança e solidez de patriarca.
Contudo, há um ponto no casaco estático que parece latejar, e o que eu digo é que lateja de podridão, debaixo da luz.
A outra irmã encontra-se encostada à perna do cavalheiro, e se calhar vai ser feliz com aquela perna pela vida fora, andando e parando com ela, rapariguinha herdeira de uma espécie de estúpida frontalidade.
A sua arma é não entender as subtilezas e, assim, alegre sem arrebatamento, tranquilamente formal com a pata do cavalheiro como grande memória infantil, irá dia a dia adquirindo uma morte bastante material.
Não vai dar por isso.
A mãe está horrivelmente parada, e o menino de oito anos encosta-lhe a cabeça à barriga.
Parece incrustado no ventre materno — um cancro quente que o devora.
Pagará por isso, decerto.
A mãe é fascinante.
Vejam que não sorri, não sente o braço do cavalheiro sobre os ombros neutros, olha num ângulo insólito para ninguém, para nada, sem curiosidade.
Não se percebe que é a esposa dele e a mãe deles, a não ser com a condição de se estudar tudo, durante horas e horas, como se na fotografia pretendêssemos a chave do enigma que um dos quatro tivesse vindo a criar em si próprio, pelos anos fora.
É preciso ter desesperado de tudo e, depois de fazer viagens, julgando ganhar e perder coisas, parar de súbito num sítio, dentro de um quarto, e ficar para ali, com todo o fervor de uma última vontade de conhecimento, estudando e estudando e estudando a fotografia.
Uma noite descobre-se que se trata de uma criança perversa, de boca desordenada e olhos abruptos.
Tem a cara implacável dos meninos de oito anos que se encostam aos ventres das mães.
As mãos dele parecem inocentes, estão caídas ao longo do corpo e, disfarçadas pelos oito anos, pretendem confundir o tempo com esta ideia: têm oito anos, estas mãos, e por isso são limpas — as mãos caídas das crianças são inocentes.
Vejam que foram necessários muitos anos, com viagens loucas, buscas, algo como a mística demanda dos infernos, para compreender que as mãos estão ali assim para iludir a maneira da cabeça: enterrada no ventre materno.
A cabeça do filho é a morte da mãe — e o modo como está a mãe é que é o saber isso.
Ela haveria de gritar, a mãe?
Ter medo, cólera, expulsar aquela externa inocência dissimuladora?
Raízes invisíveis, múltiplas e nocturnas ligam aquele ser, pela cabeça, ao ser devastado pelo ventre.
Ela olha, no ângulo insólito, a difundida devastação da sua vida — e isso é tão forte e completo que nada tem importância: nem o voo simulado da adolescente, nem o senhor com um braço para o lado e uma perna um pouco para a frente, nem a menina com a pata patriarcal pela vida fora, e a felicidade compacta disso.
A mãe comove.
Depois, é outra coisa.
E é terrível.
No quarto onde se parou, tantos anos depois, com a decisão de esgotar o conhecimento, o que se vê é isto: há um pacto.
E só eles dois é que sabem, tendo a adolescente adivinhado qualquer coisa, devido a não se conhece que afinidades, que simetrias insondáveis.
Depois mete-se a fotografia dentro de um livro, anda-se para aqui e para ali, regressa-se a qualquer coisa, faz-se uma tarefa, descansa-se.
Está-se a fingir muito bem.
Finge-se quase até ao esquecimento.
Há paisagens, ruas, cinemas, amores, dinheiro, pensamentos, palavras, estações do ano e obras de arte.
Diz-se: a vida.
Ou: o tempo.
E um dia abre-se o livro e vê-se de novo a fotografia.
E já não se recomeça a leitura no mesmo ponto.
O que se roubou foi o tempo, sim, mas não naquele primeiro sentido suposto.
A antiquíssima imagem fixa serve para se roubar ao tempo a sua qualidade de perdão.
Porque a idade não ensina a anuência aos bons e fáceis sentimentos.
A idade é: cada vez mais atenção.
Só te resta isso, caminhador: o perigo.
O perigo que é o conhecimento, o conhecimento ganho na atenção.
Um homem que conquistou a sua idade não pára diante da fotografia antiga para se comover e murmurar: a mãe com o seu filho ou o filho com a sua mãe.
Ele pensa: quem são? o que fazem um ao outro?
Ele ouve: vou morrer, e vou deixar-vos descansados.
E ouve a sua própria voz: então morra.
E as mãos inocentes.
De uma delas sabe que se moveu como se agarrasse um punhal — a pequena mão inocente registada com oito anos.
Descanso?
Mas isso conhecia ela bem que seria impossível.
O que ela dizia era assim: morro para que tu, tu, tu, não tenhas nenhuma espécie de descanso.
Um pouco mais, um pouco mais — é para isso que as imagens são imóveis.
Tu próprio não és uma criatura móvel, a menos que fales em atenção, em profundidade.
Desce àquilo em que te encontras imóvel.
Mas em vez disso saímos para a rua, à procura dos velhos companheiros: os que se vão suicidar, os que se encontram à entrada do seu irrevogável romance de esquizofrenia, os que de longe escreverão uma carta pedindo para os ajudarmos a virem morrer nesta cidade branca que, do outro lado, quando se está com o fígado desfeito e a cabeça a tremer, a gente imagina metaforicamente aérea, varrida por ventos puros.
Saímos em busca dos bêbados.
Pretende-se a ilusão de espaços dinâmicos, figuras que se propaguem através deles, o empolgante cinetismo das visões.
E que haja tempo, o tempo, o tempo.
Que as coisas avancem, desfazendo os nós ferozes onde a angústia se concentrou.
Uma semana de bebedeira ininterrupta — e aparecem as amiguinhas, vamos todos de um lado para outro, bando apocalíptico, animado por um furor malsão, uma alegria brutal.
Arranjamos um quarto, despimo-nos, e depois estamos noutro quarto, e estamos a despir-nos, e de novo a fazer amor, quatro, seis, oito em cima do tapete — o terrível milagre de uma alucinação de pernas, braços, seios, mãos, sexos, coxas, cabeças, vestidos, camisas.
E uma madrugada, só, vagueando pelos cais desertos, no meio da luz suja e trémula, ressurge o horror da inteligência.
Vê-se tudo, e seria preciso morrer.
E então volta-se para casa, procura-se a fotografia no livro, no fundo de uma gaveta, e está lá isto: o tempo não existe.
Seria possível uma pequena piedade por nós próprios, mas somos tão pouco sentimentais, nós.
Não gostamos da piedade.
Descobre-se que a mãe não era para piedades.
A perversa cabeça infantil entra nela como um punhal, e a mãe, sem conhecer o peso do braço do cavalheiro, olha o espaço, de lado, neutra, ligada àquela espécie de enigmático crime, à obscura vingança no outro lado da sua profecia do descanso para eles, para ele, ele — para ti.
Decifrando a metáfora, percorrendo os caminhos para descobrir as deslocações das partes e, assim, recompor a verdade do texto — a fotografia, a realidade, a vida — ele descobre que toda a gente tem as mãos cheias de sangue.
Que nada foi criado que o não fosse no abismo das destruições.
E entendendo enfim a linguagem das fotografias, ele assume a sua desgraça, e a insignificância dela, e supõe poder avançar, liberto, para a sua própria morte, algures num tempo.
750
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 8

O que me exalta nas fotografias é o roubo — aquele roubo abrupto, resguardador, defensivo — às forças expansivas do tempo.
Vejo ali o máximo de poder centripetador.
A fábula da imobilidade defende-me da devastação e, no entanto, ponho-me a investigar nesse texto obsessivo o estremecimento dos germens.
Será possível que a criança já tudo saiba?
Sim, a fotografia apenas concentrou a maligna ciência infantil.
A adolescente de quinze anos ergue-se, por virtude do vestido branco e do cabelo solto, como num pequeno voo, uma levitação distraída e cheia de comovente confiança.
O medo.
Bem, não se vê?
É nas pálpebras que acabaram de bater e mostram um veloz arrependimento, a presciência de que a impulsão não a fará libertar-se numa onda de entusiasmo branco.
Realmente, é um olhar apavorado.
Nenhum movimento ascensional descarrega uma adolescente do crime da sabedoria, nem um vestido é suficientemente branco para deslocar a verdade.
O pai é um senhor robusto, pretendendo tapar tudo com o braço sobre o ombro da mãe, o casaco abotoado e o sorriso voltado demasiadamente para o fotógrafo, para quem o verá na fotografia, os exegetas da sua confiança e solidez de patriarca.
Contudo, há um ponto no casaco estático que parece latejar, e o que eu digo é que lateja de podridão, debaixo da luz.
A outra irmã encontra-se encostada à perna do cavalheiro, e se calhar vai ser feliz com aquela perna pela vida fora, andando e parando com ela, rapariguinha herdeira de uma espécie de estúpida frontalidade.
A sua arma é não entender as subtilezas e, assim, alegre sem arrebatamento, tranquilamente formal com a pata do cavalheiro como grande memória infantil, irá dia a dia adquirindo uma morte bastante material.
Não vai dar por isso.
A mãe está horrivelmente parada, e o menino de oito anos encosta-lhe a cabeça à barriga.
Parece incrustado no ventre materno — um cancro quente que o devora.
Pagará por isso, decerto.
A mãe é fascinante.
Vejam que não sorri, não sente o braço do cavalheiro sobre os ombros neutros, olha num ângulo insólito para ninguém, para nada, sem curiosidade.
Não se percebe que é a esposa dele e a mãe deles, a não ser com a condição de se estudar tudo, durante horas e horas, como se na fotografia pretendêssemos a chave do enigma que um dos quatro tivesse vindo a criar em si próprio, pelos anos fora.
É preciso ter desesperado de tudo e, depois de fazer viagens, julgando ganhar e perder coisas, parar de súbito num sítio, dentro de um quarto, e ficar para ali, com todo o fervor de uma última vontade de conhecimento, estudando e estudando e estudando a fotografia.
Uma noite descobre-se que se trata de uma criança perversa, de boca desordenada e olhos abruptos.
Tem a cara implacável dos meninos de oito anos que se encostam aos ventres das mães.
As mãos dele parecem inocentes, estão caídas ao longo do corpo e, disfarçadas pelos oito anos, pretendem confundir o tempo com esta ideia: têm oito anos, estas mãos, e por isso são limpas — as mãos caídas das crianças são inocentes.
Vejam que foram necessários muitos anos, com viagens loucas, buscas, algo como a mística demanda dos infernos, para compreender que as mãos estão ali assim para iludir a maneira da cabeça: enterrada no ventre materno.
A cabeça do filho é a morte da mãe — e o modo como está a mãe é que é o saber isso.
Ela haveria de gritar, a mãe?
Ter medo, cólera, expulsar aquela externa inocência dissimuladora?
Raízes invisíveis, múltiplas e nocturnas ligam aquele ser, pela cabeça, ao ser devastado pelo ventre.
Ela olha, no ângulo insólito, a difundida devastação da sua vida — e isso é tão forte e completo que nada tem importância: nem o voo simulado da adolescente, nem o senhor com um braço para o lado e uma perna um pouco para a frente, nem a menina com a pata patriarcal pela vida fora, e a felicidade compacta disso.
A mãe comove.
Depois, é outra coisa.
E é terrível.
No quarto onde se parou, tantos anos depois, com a decisão de esgotar o conhecimento, o que se vê é isto: há um pacto.
E só eles dois é que sabem, tendo a adolescente adivinhado qualquer coisa, devido a não se conhece que afinidades, que simetrias insondáveis.
Depois mete-se a fotografia dentro de um livro, anda-se para aqui e para ali, regressa-se a qualquer coisa, faz-se uma tarefa, descansa-se.
Está-se a fingir muito bem.
Finge-se quase até ao esquecimento.
Há paisagens, ruas, cinemas, amores, dinheiro, pensamentos, palavras, estações do ano e obras de arte.
Diz-se: a vida.
Ou: o tempo.
E um dia abre-se o livro e vê-se de novo a fotografia.
E já não se recomeça a leitura no mesmo ponto.
O que se roubou foi o tempo, sim, mas não naquele primeiro sentido suposto.
A antiquíssima imagem fixa serve para se roubar ao tempo a sua qualidade de perdão.
Porque a idade não ensina a anuência aos bons e fáceis sentimentos.
A idade é: cada vez mais atenção.
Só te resta isso, caminhador: o perigo.
O perigo que é o conhecimento, o conhecimento ganho na atenção.
Um homem que conquistou a sua idade não pára diante da fotografia antiga para se comover e murmurar: a mãe com o seu filho ou o filho com a sua mãe.
Ele pensa: quem são? o que fazem um ao outro?
Ele ouve: vou morrer, e vou deixar-vos descansados.
E ouve a sua própria voz: então morra.
E as mãos inocentes.
De uma delas sabe que se moveu como se agarrasse um punhal — a pequena mão inocente registada com oito anos.
Descanso?
Mas isso conhecia ela bem que seria impossível.
O que ela dizia era assim: morro para que tu, tu, tu, não tenhas nenhuma espécie de descanso.
Um pouco mais, um pouco mais — é para isso que as imagens são imóveis.
Tu próprio não és uma criatura móvel, a menos que fales em atenção, em profundidade.
Desce àquilo em que te encontras imóvel.
Mas em vez disso saímos para a rua, à procura dos velhos companheiros: os que se vão suicidar, os que se encontram à entrada do seu irrevogável romance de esquizofrenia, os que de longe escreverão uma carta pedindo para os ajudarmos a virem morrer nesta cidade branca que, do outro lado, quando se está com o fígado desfeito e a cabeça a tremer, a gente imagina metaforicamente aérea, varrida por ventos puros.
Saímos em busca dos bêbados.
Pretende-se a ilusão de espaços dinâmicos, figuras que se propaguem através deles, o empolgante cinetismo das visões.
E que haja tempo, o tempo, o tempo.
Que as coisas avancem, desfazendo os nós ferozes onde a angústia se concentrou.
Uma semana de bebedeira ininterrupta — e aparecem as amiguinhas, vamos todos de um lado para outro, bando apocalíptico, animado por um furor malsão, uma alegria brutal.
Arranjamos um quarto, despimo-nos, e depois estamos noutro quarto, e estamos a despir-nos, e de novo a fazer amor, quatro, seis, oito em cima do tapete — o terrível milagre de uma alucinação de pernas, braços, seios, mãos, sexos, coxas, cabeças, vestidos, camisas.
E uma madrugada, só, vagueando pelos cais desertos, no meio da luz suja e trémula, ressurge o horror da inteligência.
Vê-se tudo, e seria preciso morrer.
E então volta-se para casa, procura-se a fotografia no livro, no fundo de uma gaveta, e está lá isto: o tempo não existe.
Seria possível uma pequena piedade por nós próprios, mas somos tão pouco sentimentais, nós.
Não gostamos da piedade.
Descobre-se que a mãe não era para piedades.
A perversa cabeça infantil entra nela como um punhal, e a mãe, sem conhecer o peso do braço do cavalheiro, olha o espaço, de lado, neutra, ligada àquela espécie de enigmático crime, à obscura vingança no outro lado da sua profecia do descanso para eles, para ele, ele — para ti.
Decifrando a metáfora, percorrendo os caminhos para descobrir as deslocações das partes e, assim, recompor a verdade do texto — a fotografia, a realidade, a vida — ele descobre que toda a gente tem as mãos cheias de sangue.
Que nada foi criado que o não fosse no abismo das destruições.
E entendendo enfim a linguagem das fotografias, ele assume a sua desgraça, e a insignificância dela, e supõe poder avançar, liberto, para a sua própria morte, algures num tempo.
750
Erorci Santana

Erorci Santana

XXVI

Por mais que eu me seqüestre, aquele rio me retoma.
E começa a desenhar-se na lembrança
seus contornos imprecisos, rio limpo, atravessando
a alma sem escoriações, sem danos, embora
maculada para sempre a sua líquida história,
evocação inscrita agora, nessa idade sazonada
e madura. Traz ao poema os primeiros signos do mal.
Primeiro surgem os palustres afogados,
continentais criaturas, depois os assassinados,
cujos inquéritos policiais não decifraram
a condição de peixes compulsórios, os que
tomaram o rio de empréstimo e têm nele
a morada derradeira. Obriga-os ao fundo
um colar de pérolas vulcânicas, utilitárias
da construção civil de grutas.

(...)

Todo rio é da infância e principia com águas
de pouco caso e vai ganhando lenda
e autoridade a cada braça percorrida
para consumo próprio e assombração de inimigos.
E vai morrer, melhor, somar-se ao mar,
cumprindo o seu destino, feito os kamikazes,
os poemas, os meninos. Veste-se
de ira quando violada sua integridade,
ao jugo de substâncias estranhas submetido.
Deve vingar-se semeando a morte se preciso,
pestilências de calibre, delegar armas letais
aos esquadrões de sua guarda para dizimar
aqueles que cometem lesa-majestade contra ele.
Rio que se preze não deve dar testemunho
de pusilanimidade, deve disfarçar seus tristes tons,
creditar à pujança toda venenosa escuma.
E mesmo que os discípulos chorem lágrimas veladas,
esse Mestre deve transitar por entre eles
de cabeça erguida. Um rio assim antepara
os aguilhões da mágoa. Quem obtém um rio assim
não anda mais sozinho. Rio desse naipe,
mesmo turvo como sói, rio deve, até que banhem
o coração de toda humanidade as suas águas.
635
Erorci Santana

Erorci Santana

XXVI

Por mais que eu me seqüestre, aquele rio me retoma.
E começa a desenhar-se na lembrança
seus contornos imprecisos, rio limpo, atravessando
a alma sem escoriações, sem danos, embora
maculada para sempre a sua líquida história,
evocação inscrita agora, nessa idade sazonada
e madura. Traz ao poema os primeiros signos do mal.
Primeiro surgem os palustres afogados,
continentais criaturas, depois os assassinados,
cujos inquéritos policiais não decifraram
a condição de peixes compulsórios, os que
tomaram o rio de empréstimo e têm nele
a morada derradeira. Obriga-os ao fundo
um colar de pérolas vulcânicas, utilitárias
da construção civil de grutas.

(...)

Todo rio é da infância e principia com águas
de pouco caso e vai ganhando lenda
e autoridade a cada braça percorrida
para consumo próprio e assombração de inimigos.
E vai morrer, melhor, somar-se ao mar,
cumprindo o seu destino, feito os kamikazes,
os poemas, os meninos. Veste-se
de ira quando violada sua integridade,
ao jugo de substâncias estranhas submetido.
Deve vingar-se semeando a morte se preciso,
pestilências de calibre, delegar armas letais
aos esquadrões de sua guarda para dizimar
aqueles que cometem lesa-majestade contra ele.
Rio que se preze não deve dar testemunho
de pusilanimidade, deve disfarçar seus tristes tons,
creditar à pujança toda venenosa escuma.
E mesmo que os discípulos chorem lágrimas veladas,
esse Mestre deve transitar por entre eles
de cabeça erguida. Um rio assim antepara
os aguilhões da mágoa. Quem obtém um rio assim
não anda mais sozinho. Rio desse naipe,
mesmo turvo como sói, rio deve, até que banhem
o coração de toda humanidade as suas águas.
635
Erorci Santana

Erorci Santana

XXVI

Por mais que eu me seqüestre, aquele rio me retoma.
E começa a desenhar-se na lembrança
seus contornos imprecisos, rio limpo, atravessando
a alma sem escoriações, sem danos, embora
maculada para sempre a sua líquida história,
evocação inscrita agora, nessa idade sazonada
e madura. Traz ao poema os primeiros signos do mal.
Primeiro surgem os palustres afogados,
continentais criaturas, depois os assassinados,
cujos inquéritos policiais não decifraram
a condição de peixes compulsórios, os que
tomaram o rio de empréstimo e têm nele
a morada derradeira. Obriga-os ao fundo
um colar de pérolas vulcânicas, utilitárias
da construção civil de grutas.

(...)

Todo rio é da infância e principia com águas
de pouco caso e vai ganhando lenda
e autoridade a cada braça percorrida
para consumo próprio e assombração de inimigos.
E vai morrer, melhor, somar-se ao mar,
cumprindo o seu destino, feito os kamikazes,
os poemas, os meninos. Veste-se
de ira quando violada sua integridade,
ao jugo de substâncias estranhas submetido.
Deve vingar-se semeando a morte se preciso,
pestilências de calibre, delegar armas letais
aos esquadrões de sua guarda para dizimar
aqueles que cometem lesa-majestade contra ele.
Rio que se preze não deve dar testemunho
de pusilanimidade, deve disfarçar seus tristes tons,
creditar à pujança toda venenosa escuma.
E mesmo que os discípulos chorem lágrimas veladas,
esse Mestre deve transitar por entre eles
de cabeça erguida. Um rio assim antepara
os aguilhões da mágoa. Quem obtém um rio assim
não anda mais sozinho. Rio desse naipe,
mesmo turvo como sói, rio deve, até que banhem
o coração de toda humanidade as suas águas.
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Erorci Santana

Erorci Santana

XXVI

Por mais que eu me seqüestre, aquele rio me retoma.
E começa a desenhar-se na lembrança
seus contornos imprecisos, rio limpo, atravessando
a alma sem escoriações, sem danos, embora
maculada para sempre a sua líquida história,
evocação inscrita agora, nessa idade sazonada
e madura. Traz ao poema os primeiros signos do mal.
Primeiro surgem os palustres afogados,
continentais criaturas, depois os assassinados,
cujos inquéritos policiais não decifraram
a condição de peixes compulsórios, os que
tomaram o rio de empréstimo e têm nele
a morada derradeira. Obriga-os ao fundo
um colar de pérolas vulcânicas, utilitárias
da construção civil de grutas.

(...)

Todo rio é da infância e principia com águas
de pouco caso e vai ganhando lenda
e autoridade a cada braça percorrida
para consumo próprio e assombração de inimigos.
E vai morrer, melhor, somar-se ao mar,
cumprindo o seu destino, feito os kamikazes,
os poemas, os meninos. Veste-se
de ira quando violada sua integridade,
ao jugo de substâncias estranhas submetido.
Deve vingar-se semeando a morte se preciso,
pestilências de calibre, delegar armas letais
aos esquadrões de sua guarda para dizimar
aqueles que cometem lesa-majestade contra ele.
Rio que se preze não deve dar testemunho
de pusilanimidade, deve disfarçar seus tristes tons,
creditar à pujança toda venenosa escuma.
E mesmo que os discípulos chorem lágrimas veladas,
esse Mestre deve transitar por entre eles
de cabeça erguida. Um rio assim antepara
os aguilhões da mágoa. Quem obtém um rio assim
não anda mais sozinho. Rio desse naipe,
mesmo turvo como sói, rio deve, até que banhem
o coração de toda humanidade as suas águas.
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Erorci Santana

Erorci Santana

XXVI

Por mais que eu me seqüestre, aquele rio me retoma.
E começa a desenhar-se na lembrança
seus contornos imprecisos, rio limpo, atravessando
a alma sem escoriações, sem danos, embora
maculada para sempre a sua líquida história,
evocação inscrita agora, nessa idade sazonada
e madura. Traz ao poema os primeiros signos do mal.
Primeiro surgem os palustres afogados,
continentais criaturas, depois os assassinados,
cujos inquéritos policiais não decifraram
a condição de peixes compulsórios, os que
tomaram o rio de empréstimo e têm nele
a morada derradeira. Obriga-os ao fundo
um colar de pérolas vulcânicas, utilitárias
da construção civil de grutas.

(...)

Todo rio é da infância e principia com águas
de pouco caso e vai ganhando lenda
e autoridade a cada braça percorrida
para consumo próprio e assombração de inimigos.
E vai morrer, melhor, somar-se ao mar,
cumprindo o seu destino, feito os kamikazes,
os poemas, os meninos. Veste-se
de ira quando violada sua integridade,
ao jugo de substâncias estranhas submetido.
Deve vingar-se semeando a morte se preciso,
pestilências de calibre, delegar armas letais
aos esquadrões de sua guarda para dizimar
aqueles que cometem lesa-majestade contra ele.
Rio que se preze não deve dar testemunho
de pusilanimidade, deve disfarçar seus tristes tons,
creditar à pujança toda venenosa escuma.
E mesmo que os discípulos chorem lágrimas veladas,
esse Mestre deve transitar por entre eles
de cabeça erguida. Um rio assim antepara
os aguilhões da mágoa. Quem obtém um rio assim
não anda mais sozinho. Rio desse naipe,
mesmo turvo como sói, rio deve, até que banhem
o coração de toda humanidade as suas águas.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 7

Ele lembra-se de setembro, o mês.
Setembro é um mês obrigatório.
Chegara para alguém o tempo do conhecimento.
Os ladrões são assim: espreitam, esperam, a ver como é.
Depois, do conhecimento dos outros instituem uma parte do seu conhecimento próprio.
Pode-se pensar que são coleccionadores de selos, acumuladores de riqueza, espíritos vorazes intensamente ocupados na extravagância dos espectáculos.
E emocionam-se, deslumbram-se, sofrem — monstros hábeis metendo tudo nas algibeiras.
Vamos rir: se calhar, aquilo de nada lhes servirá.
Alguém diz: tornam-se maiores as dimensões da realidade.
E o coleccionador, perdido em espaços demasiado grandes para si, diz devagar, muito devagar: merda.
Ninguém ouve, e ele mantém o seu orgulho de guardador de coisas, ele, o das vastas dimensões da realidade.
Porque é que em setembro acontecem coisas?
É por causa da luz.
O terror, por exemplo, é de setembro.
As noites rebentam inesperadamente no que pensamos ser o meio da luz do mês de setembro.
A morte diverte-se muito em setembro.
Vejamos: as pessoas estão a dormir, em setembro, e acordam de súbito, apavoradas.
Tiveram um sonho premonitório.
As pessoas julgam que a vida treme nelas, riem de alegria, têm o corpo bronzeado, cantam, levantam a cabeça para a luz.
É porque se está em setembro.
Então aprendem uma coisa qualquer, roubam-na, coleccionam-na, aumentam as dimensões da realidade.
E mesmo que digam baixinho: merda — não se livram do seu álbum de selos.
Estão tramadas.
Ele sabe isso muito bem.
De setembro, o mês, conhece todas as artimanhas.
Agora ri, quando as pessoas fáceis dizem: no verão, em setembro.
Elas contam as historiazinhas da praia, da alegria de viver junto ao mar, das roupas leves e claras.
Bem: nunca parou de enriquecer, ele, por obrigação.
E então chegou setembro, o obrigatório.
Nessa altura já ele tinha os braços e as pernas muito grandes e tentava metê-los no espaço, ao mesmo tempo que o resto do corpo.
Estava à procura do último ritmo, e as coisas iam menos mal.
Mas a mais nova das irmãs, com a malevolência dos seus doze anos, estava a comer uma ameixa, com os olhos sobre a mesa de estudo.
Setembro já começara a encher-se de assombro, por causa dos doze anos dela.
Embora o mês principiasse por ter uma qualidade especial de expectativa, e os dias se mudassem uns aos outros, mantendo uma subtil tensão — só nesse sábado branco é que o tumulto se levantou no meio da casa.
A irmã levantou os olhos da mesa, deixou cair a ameixa e ficou a olhar com espanto a parede em frente.
Depois, em setembro, o rosto dela correu vertiginosamente em direcção ao pânico, e ela deu um grito.
Tinha chegado o tempo do conhecimento.
Rouba o teu bocado, disse o pequeno monstro.
Vieram pessoas, vieram as mães todas: a velha, a outra a seguir, e a outra, e as novas mas ainda assim mais velhas.
Arrastaram a irmã para um quarto do fundo, e esconderam-na.
O espectador disse: agora é ela a vítima, foi apanhada de súbito pelo conhecimento.
E perguntou: o que é que cresceu nela, a comedora de ameixas aos doze anos?
Os dias de setembro unem-se uns aos outros, sob a enorme luz da tarde.
As mães todas correm pelos corredores, falam baixo, pretendem tornar inalcançável para ele os doze anos da comedora de ameixas.
Porque ele fica junto da mesa, à procura da ameixa mordida que rolou para o soalho.
Mas ele próprio já sabia demais para convencer-se de que procurava no chão ameixas mordidas.
Caberia isso na cabeça de alguém?
Um criminoso de oito anos procura, em setembro, quando a irmã grita e é levada para o inacessível.
Digo: um criminoso de oito anos perde tempo à procura de uma ameixa? quando uma rapariguinha de súbito cai em pleno espaço do sacral e as sacerdotisas se alvoroçam à sua volta, dizendo: chegou o tempo.
Levam-na para o inacessível, para o fundo da casa.
Que procuras tu, farejador?
Comigo foi assim, pensa ele: golpeei o braço, expus-me, criança doce e dramática, em frente do espanto e da comoção das mulheres, caí no abismo, ressuscitei sob a delicadíssima atenção feminina, cresceram-me os braços e as pernas, insinuou-se em mim um novo ritmo, soube que ultrapassei um perigo e fiquei de uma outra maneira diante de tudo.
Depois diz: aconteceu-lhe o mesmo a ela, mas de um modo particular.
Deve existir um sinal.
Havia no soalho, junto da cadeira, uma pequena mancha de sangue.
E ao longo do quarto, até à porta, um rasto de pingos de sangue.
E havia no corredor, ao longo do corredor — havia sangue.
Acerca das ameixas já eu sabia tudo, pensa ele.
Acerca de sangue de golpes no braço, pensa ele, já eu sabia tudo.
Quanto ao sangue de uma irmã de doze anos que de repente pára de comer ameixas e olha a parede e fica em pânico e grita e atrai as mulheres e é arrastada para o fundo da casa — começo a saber uma pequena coisa.
Tenho medo.
Quando uma mulher tiver fluxo de sangue, e o sangue lhe manar do corpo, ficará sete dias em reclusão, na impureza das suas regras.
Todo aquele que a tocar ficará imundo até à tarde.
O leito em que ela se deitar ficará imundo, e o sítio em que se sentar ficará imundo.
Todo aquele que tocar no seu leito deverá limpar as vestes, e lavar-se em água, e ficará imundo até à tarde.
Todo aquele que tocar num móvel, seja qual for, onde ela se tenha sentado, deverá limpar as vestes, e lavar-se-á em água, e ficará imundo até à tarde.
Se um objecto se encontrar no leito ou no sítio onde ela se sentou, aquele que lhe tocar ficará imundo até à tarde.
Se um homem se deitar com ela, atingi-lo-á a impureza das regras.
Ficará imundo durante sete dias.
O leito onde se deitar ficará imundo.
Principiou assim um tempo novo, uma coisa difícil a favor ou contra a qual ele não possuía qualquer arma.
Se se passasse pelos dias brancos e lisos, talvez nada se notasse, mas ao fundo deles vibrava o ambíguo e cerrado transe feminino.
O crescimento dramático e obscuro da irmã perpetuava-se algures, era o intangível e terrível remate desses dias tão planos.
Deve-se acreditar nos arquitectos, na tradição?
É verdade que uma casa se construíra e nela se instalara um campo de forças, de linhas cruzadas e tensas onde assentava o equilíbrio.
Podia-se então, sob a luz peremptória de setembro, averiguar o valor das pequenas coisas, o sentido de algumas transformações e, embora nada disso se fizesse sem alguma surpresa e sofrimento, ah, ressuscitava-se, sim, ressuscitava-se sempre.
Na verdade, não existia mácula nenhuma.
Metamorfoses, se as havia — e havia — davam-se dentro do próprio sistema de que se fazia parte.
Já se falara em terror?
Sim, falara-se na terra que treme debaixo dos pés, no medo e na confusão.
Não se falara contudo em mácula.
O que estava dentro de uma pessoa crescia, era certo, crescia por vezes espectacularmente, tornava estranhos e inóspitos, por um tempo, o lugar e o estilo — mas recuperava-se tudo, e pensava-se depois: descubro novos dons dentro de mim, eu cresço.
Mas que o mundo crescesse, ele, que o mundo fosse tão brutalmente activo, e não matéria apenas expectante à espera do nosso talento que crescia, isso, ah isso.
Isso não, não se sabia.
Tinha-se medo.
Havia sangue — um sangue corruptor.
Afinal, o trabalho das mulheres era o da ocultação da sua mácula.
Não se tratava de uma riqueza que fosse necessário decifrar, fosse difícil pela sua mesma natureza, mas cujo singular valor se relacionava obscuramente com o crescimento de uma criança.
As mulheres eram secretamente impuras, inspiravam o terror.
Eis que ela grita, aquela que agora se inicia, mas que em si trazia os húmidos e soturnos germens do mal, todas as virtualidades demoníacas.
E se olhares para o alvoroço feminino, com o teu coração tão acessível ao patético, onde o gesto e o movimento curvo se gravam pela impressividade da graça e da inspirada reticência — se olhares assim, aprendiz, ficas a saber que as mulheres continuam o seu trabalho de surpreendentes tecedeiras do milagre.
Mas descobriste outra coisa: que há uma mentira.
Descobriste isto: as mulheres nem roçam por ti.
Nunca soubeste nada, não decifraste o menor sinal, elas sempre estiveram a uma inimaginável distância.
Se perguntasses: o que há em setembro?, apareceriam todas as mentiras.
Maria: a roupa seca mais depressa; Francisca: é o melhor tempo de praia; Filipa: a luz estonteia; Luísa: pode-se dormir ao ar livre; Merícia: custa a adormecer.
Mas em setembro aparece a menstruação.
E ele anda pela casa, em volta daquele círculo de treva ardente, rondando a sagrada vileza das mulheres.
Mas há nessa espécie de desavinda sede de conhecimento, ou nessa angustiosa fascinação, uma repugnância e um medo próximos do amor, um silêncio crispado e atento que quase se abre num louvor incoerente.
Todo aquele… todo aquele que tocar… ficará imundo…
Sim, arrebatam-na, e ela cresce, cresce.
Que é isso de pernas e braços que se põem ridiculamente a sair do seu tamanho, como tomados de um ímpeto próprio, comparado com aquilo que nem se nomeia, não se pode ver, e é sagrado e intocável pelo poder da sua própria maldição?
Uma irmã come ameixas, e isso é mentira.
Ele olhou-a, a ela, e olhou as outras raparigas, e a mãe, e a avó.
Aprendia, pensava ele, aprendia.
Tocava-lhes nos vestidos, via-as pentear-se, andar, falar, calarem-se.
O grito, sim, o grito era o limiar: a primeira e última verdade.
Depois, a treva.
E a irmã estava de repente no seu lugar — a ausência perfeita.
Em setembro, as crianças não dormem.
São rapazinhos de rosto atemorizado, o olhar aberto e imóvel, as mãos espalmadas sobre a colcha.
Talvez pudessem ficar assim, até serem homens, e o que cresceria então neles?
Quem sabe se apenas os cabelos e as unhas?
Mas ele levanta-se no meio da sua noite, um destes rapazinhos, porque afinal existe a força do amor.
Levanta-se para novos corredores e escadas — e anda como um sonâmbulo comido pela febre.
Que o crime é uma vocação — sim, diga-se dessa maneira; diga-se que o crime é uma vocação, do mesmo modo que o conhecimento.
Que são uma só coisa, isso; que o crime e o conhecimento são uma só coisa: uma vocação.
Ele levanta-se na sua noite, cheio de confuso amor, e precipita-se na sua silenciosa vocação: o crime do conhecimento.
E assim se aproxima, tacteando, com as mãos trementes de febre, dos lugares sagrados.
Bem pode ser que haja setembro, luz, coisas aparentemente fáceis, nenhuma dúvida.
Mas agora é sempre noite, sempre um fervor culpado, a descoberta da violação.
Pode-se falar de alegria?
Pode.
É disso mesmo, é de uma monstruosa alegria aquilo de que se fala.
Assim se caminha pelos corredores e quartos, pelo equívoco das velhas arquitecturas, e a inspiração é esta: uma alegria cujas dimensões são ainda imperscrutáveis.
Não se conte isto em tempo: foi muito tempo, ou foi muito pouco.
Não há tempo.
Porque esta alegria, este amor, este medo que anda, esta violação servida por minúcias mesquinhas, estão prontos para o muito ou o pouco tempo.
Exerce-se, e nisso se basta.
É uma aranha, tem as virtudes inteligentes, miúdas e tenazes da aranha.
Aquele rapazinho que fora apanhado pelo espanto e o terror, que se deitara de mãos abertas como fulminado, e estava pálido e já não sabia nada, esse, sim, esse.
É desse que se fala.
Pois levantou-se, e agora procura, cada vez mais perto, mais perto.
É ele.
E um dia então descobre um pano manchado de sangue menstrual e mete-o debaixo da camisa, contra a sua própria carne.
Parece que não chegou a deixar a cama, porque podemos encontrá-lo tal como estava: deitado de mãos estendidas, respirando com a boca entreaberta, e o olhar fixo no tecto.
Talvez um resto de sorriso fugindo dos lábios, ou o princípio de um sorriso.
Mas agora é ele que desaparece, cerra-se, corta todas as pontes que poderiam conduzir ao seu segredo.
Fica só.
Não atravessem corredores, nem subam ou desçam escadas.
Nunca o encontrarão.
Lentamente, a mão que talvez se julgasse adormecida sobe da colcha.
Nunca esteve tão acordada, nunca foi tão forte — aquela mão de rapazinho deitado.
Desabotoa a camisa — ela, a mão, a mão que sabe — e tira o pano para fora.
É sobre um rosto de olhos fechados que essa mão parece voar docemente, com o pano vermelho bem agarrado.
A mão desce sobre o rosto, e o que se poderia ver seria um fremir de narinas, e um tremer de lábios.
O odor tão vivo daquele sangue morto enche-o, passa pelo olfacto e enche-o turvamente.
Sim, sim, também isso, também isso é verdade: um beijo — o beijo do amor.
E, pelas pálpebras fechadas, lágrimas para que não há nome.
Quando ele abre os olhos, talvez ninguém saiba, mas abre-os para a alegria — a mais terrível das alegrias.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 12

Pendurada pelos cabelos, no meio do estúdio, há uma cabeça decepada que pensa: é este o meu filho?
Vejo-lhe o rosto apavorado, as mãos frágeis, e não consigo imaginar que pudessem erguer um cutelo de açougueiro.
Tem os olhos sofredores das crianças que percorrem os quartos, abrindo e fechando portas, esquecendo-se também de as fecharem.
Mas esses olhos de crianças deambulatórias enganam, e sobretudo porque este ser não é uma criança, é um homem.
Intriga-me a idade dele.
Não será um velho?
E se é uma doce criança, ou um homem tão fraco, ou se é um velho — para que subi eu das águas e atravessei a cidade, uma cabeça sem pernas, até chegar a este estúdio, e erguer-me apenas pela força do meu delírio, da minha astúcia e dor, e amarrar-me ao tecto pelos cabelos?
Teatral eu, sim — mas uma cabeça cheia de terrível amor.
Entre a janela e a porta, para lhe ocultar o mundo, para afundar os meus olhos nos olhos do filho.
Ele entra e hesita, existe ainda qualquer coisa fútil naquele coração que um dia desejou abandonar-se à luz.
Espera uma cidade com pequenas surpresas quotidianas, pensa em pessoas andando pelas ruas, arrabaldes com cavalos, e aragem passando nas árvores.
Julgo às vezes que ele nada conhece dos crimes.
Imagina libertações.
Procuro ajudá-lo com o horror da minha presença irremovível.
É bom no entanto lembrar que a sua cara se encostou à minha, e as suas lágrimas banharam o meu rosto que irrompeu do meio dos mortos.
Será sempre assim?, pensava ele, mas a ideia de um pacto nascia já dentre a confusão de todas as outras ideias.
E confunde tudo, ele, confunde as coisas todas, quando quer saber se o crime compensa.
Compensar seria para ele libertar-se dos profundos pactos do amor.
Mas as faunas e floras daqueles países que não há, consignadas na parede do estúdio, que são elas senão alusões aos mistérios do amor, metáforas do crime, deslocações subtis de sentido para chegar ao centro do próprio amor?
E eis-me aqui, pendurada por esta cabeleira que me esforcei por fazer crescer até ao rosto dele.
Eis-me tornada suspensa, voraz, aterradora, dando o melhor do meu conhecimento, da minha força — para que ele compreenda, este mau estudante.
Meu Deus, será sempre assim, sempre?
Estou cansada.
Duvido já da minha ciência, já quase me distraio às vezes de que o amor é para aterrorizar e matar.
Procuro sorrir, ser doce, utilizar um código humano.
Ele treme, talvez jovem demais ou excessivamente velho.
Uma cabeça pendurada não pode saber tudo.
Depois, falta-me o corpo — que ajuda a não ter cabeça, de quando em quando.
Sou forçada a possuir uma cabeça permanente, eu, cabeça.
Utilizo pequenos truques de teatro, oscilo, volto-me, torno-me maior.
É para aterrorizá-lo, afirmar categoricamente a minha realidade maravilhosa.
Mas ele tem terror do terror, não o recebe como alimento da sua própria vida.
Faz comparações tolas com a América do Sul, escapa-lhe a significação das coisas.
A grandeza que me concede é por comparação com o folclore.
Ah, mete-me no centro do teu coração, não durmas mais, caminha até ao fundo da angústia.
Não sou uma mestra-escola.
Sou a frontalidade do crime.
E ele cambaleia, treme, hesita, tem delicadas mãos de fantasista de paredes.
Eras tu quem me deveria erguer ao alto, com as tuas mãos fortes e ensanguentadas, com o teu negro coração cheio da minha eternidade.
Contudo, sou eu que me penduro pelos cabelos, fazendo teatro.
Se pudesses ouvir que nunca houve primaveras com cheiros vegetais, roupas idiotas a secar, casas altas no meio da luz.
Escuta: avança pelas trevas.
É um literato, este pobre diabo: leu o Apocalipse, o Inferno, Lautréamont, Rimbaud.
Não se leu a si próprio, não leu o mistério da minha aparição.
O que deseja, o fraco, é curar-se do pouco que ainda sabe.
E então eu sorrio, envergonhada de nós dois, aspirando às vezes a perder-me no esquecimento, não supor que houve um crime.
Talvez o crime não compense, sim, no outro sentido, talvez o crime não seja uma coisa exemplar, criadora.
Sou uma cabeça triste, envelheço.
Deixo-me balançar ao vento, quero libertar-me.
Pergunto mesmo: há realidade, amor, crime?
Este homem gastou-se no medo.
Encheu-se de ideias de salvação, penetrou-se de doçura — o que ele ama é a interpretação mais superficial da minha presença.
Gosta que eu sorria.
E talvez eu própria comece a gostar de sorrir, talvez deseje libertar-me da presença deste homem.
Hoje, quando ele estava encostado à porta, olhando-me nos olhos, perguntei se isto não terá fim.
Nunca mais, nunca mais?
Quem sabe se não se encontrará aí o segredo da minha aparição?
Suponho por instantes que foi ele quem me tirou do rio, quem me trouxe para aqui e me pendurou do tecto.
Talvez quisesse saber até que ponto eu suportaria um pacto.
Talvez eu seja uma criação sua.
Meu Deus, e se assim for, nunca mais me libertarei?
Haverá um pacto?
Que pacto?
Digo a verdade: não foi ele quem chorou com o rosto encostado à minha face gelada.
Fui eu.
E as minhas lágrimas caíam na cara dele, rolavam até à sua boca implacável.
Porque eu não sei, ele não pronuncia uma só palavra.
Meu Deus, será sempre assim? sempre, sempre?
Tenho medo desta tenebrosa cumplicidade que há entre nós dois, porque ele é um homem, um ser perigoso, e eu sou apenas uma cabeça de grand guignol.
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