Poemas neste tema
Vida e Existência
João Soares Coelho
Desmentido M'há 'Qui Um Trobador
Desmentido m'há 'qui um trobador
do que dixi da ama, sem razom,
de cousas pero, e de cousas nom.
Mais u menti, quero-mi-o eu dizer:
u nom dixi o meo do parecer
que lhi mui bõo deu Nostro Senhor.
Ca, de pram, a fez parecer melhor
de quantas outras eno mundo som
e mui mais mansa e mais com razom
falar e riir e tod'al fazer;
e fezo-lhe tam muito bem saber
que em todo bem é mui sabedor.
E por esto rogo Nostro Senhor
que lhe meta eno seu coraçom
que me faça bem, poilo a ela nom
ouso rogar; e se m'ela fazer
quisesse bem, nom querria seer
rei, nem seu filho, nem emperador,
se per i seu bem houvess'a perder;
ca sem ela nom poss'eu bem haver
eno mundo, nem de Nostro Senhor.
do que dixi da ama, sem razom,
de cousas pero, e de cousas nom.
Mais u menti, quero-mi-o eu dizer:
u nom dixi o meo do parecer
que lhi mui bõo deu Nostro Senhor.
Ca, de pram, a fez parecer melhor
de quantas outras eno mundo som
e mui mais mansa e mais com razom
falar e riir e tod'al fazer;
e fezo-lhe tam muito bem saber
que em todo bem é mui sabedor.
E por esto rogo Nostro Senhor
que lhe meta eno seu coraçom
que me faça bem, poilo a ela nom
ouso rogar; e se m'ela fazer
quisesse bem, nom querria seer
rei, nem seu filho, nem emperador,
se per i seu bem houvess'a perder;
ca sem ela nom poss'eu bem haver
eno mundo, nem de Nostro Senhor.
671
João Garcia de Guilhade
Per Boa Fé, Meu Amigo
Per boa fé, meu amigo,
mui bem sei eu que m'houvestes
grand'amor e estevestes
mui gram sazom bem comigo;
mais vede-lo que vos digo:
já safou.
Os grandes nossos amores
que mi e vós sempr'houvemos,
nunca lhi cima fezemos,
coma Brancafrol e Flores;
mais tempo de jogadores
já safou.
Já eu falei em folia
convosc'[e] em gram cordura
e em sem e em loucura,
quanto durava o dia,
mais est', ai dom J'am Garcia,
já safou.
E dessa folia toda
já safou.
Já safad'é pam de voda,
já safou.
mui bem sei eu que m'houvestes
grand'amor e estevestes
mui gram sazom bem comigo;
mais vede-lo que vos digo:
já safou.
Os grandes nossos amores
que mi e vós sempr'houvemos,
nunca lhi cima fezemos,
coma Brancafrol e Flores;
mais tempo de jogadores
já safou.
Já eu falei em folia
convosc'[e] em gram cordura
e em sem e em loucura,
quanto durava o dia,
mais est', ai dom J'am Garcia,
já safou.
E dessa folia toda
já safou.
Já safad'é pam de voda,
já safou.
604
João Baveca
Estavam Hoje Duas Soldadeiras
Estavam hoje duas soldadeiras
dizendo bem, a gram pressa, de si,
e viu a ũa delas as olheiras
de sa companheira, e diss'assi:
- Que enrugadas olheiras teendes!
E diss'a outra: - Vós com'ar veedes
desses ca[belos sobr'essas trincheiras]?
E ..............................................
.................................................
.................................................
.............. en'esse rostro. E des i
diss'el'outra vez: - Já vós doit'havedes;
mais tomad'aquest'espelh'e veeredes
tôdalas vossas sobrancelhas veiras.
E ambas elas eram companheiras,
e diss'a ũa em jogo outrossi:
- Pero nós ambas somos muit'arteiras,
milhor conhosc'eu vós ca vós [a] mim.
E diss'[a] outra: - Vós que conhocedes
a mim tam bem, porque nom entendedes
como som covas essas caaveiras?
E depois tomarom senhas masseiras
e banharom-se e loavam-s'assi;
e quis Deus que, nas palavras primeiras
que houverom, que chegass'eu ali;
e diss'a ũa: - Mole ventr'havedes;
e diss'a outr': - E vós mal o 'scondedes,
as tetas que semelham cevadeiras.
dizendo bem, a gram pressa, de si,
e viu a ũa delas as olheiras
de sa companheira, e diss'assi:
- Que enrugadas olheiras teendes!
E diss'a outra: - Vós com'ar veedes
desses ca[belos sobr'essas trincheiras]?
E ..............................................
.................................................
.................................................
.............. en'esse rostro. E des i
diss'el'outra vez: - Já vós doit'havedes;
mais tomad'aquest'espelh'e veeredes
tôdalas vossas sobrancelhas veiras.
E ambas elas eram companheiras,
e diss'a ũa em jogo outrossi:
- Pero nós ambas somos muit'arteiras,
milhor conhosc'eu vós ca vós [a] mim.
E diss'[a] outra: - Vós que conhocedes
a mim tam bem, porque nom entendedes
como som covas essas caaveiras?
E depois tomarom senhas masseiras
e banharom-se e loavam-s'assi;
e quis Deus que, nas palavras primeiras
que houverom, que chegass'eu ali;
e diss'a ũa: - Mole ventr'havedes;
e diss'a outr': - E vós mal o 'scondedes,
as tetas que semelham cevadeiras.
384
João Baveca
Estavam Hoje Duas Soldadeiras
Estavam hoje duas soldadeiras
dizendo bem, a gram pressa, de si,
e viu a ũa delas as olheiras
de sa companheira, e diss'assi:
- Que enrugadas olheiras teendes!
E diss'a outra: - Vós com'ar veedes
desses ca[belos sobr'essas trincheiras]?
E ..............................................
.................................................
.................................................
.............. en'esse rostro. E des i
diss'el'outra vez: - Já vós doit'havedes;
mais tomad'aquest'espelh'e veeredes
tôdalas vossas sobrancelhas veiras.
E ambas elas eram companheiras,
e diss'a ũa em jogo outrossi:
- Pero nós ambas somos muit'arteiras,
milhor conhosc'eu vós ca vós [a] mim.
E diss'[a] outra: - Vós que conhocedes
a mim tam bem, porque nom entendedes
como som covas essas caaveiras?
E depois tomarom senhas masseiras
e banharom-se e loavam-s'assi;
e quis Deus que, nas palavras primeiras
que houverom, que chegass'eu ali;
e diss'a ũa: - Mole ventr'havedes;
e diss'a outr': - E vós mal o 'scondedes,
as tetas que semelham cevadeiras.
dizendo bem, a gram pressa, de si,
e viu a ũa delas as olheiras
de sa companheira, e diss'assi:
- Que enrugadas olheiras teendes!
E diss'a outra: - Vós com'ar veedes
desses ca[belos sobr'essas trincheiras]?
E ..............................................
.................................................
.................................................
.............. en'esse rostro. E des i
diss'el'outra vez: - Já vós doit'havedes;
mais tomad'aquest'espelh'e veeredes
tôdalas vossas sobrancelhas veiras.
E ambas elas eram companheiras,
e diss'a ũa em jogo outrossi:
- Pero nós ambas somos muit'arteiras,
milhor conhosc'eu vós ca vós [a] mim.
E diss'[a] outra: - Vós que conhocedes
a mim tam bem, porque nom entendedes
como som covas essas caaveiras?
E depois tomarom senhas masseiras
e banharom-se e loavam-s'assi;
e quis Deus que, nas palavras primeiras
que houverom, que chegass'eu ali;
e diss'a ũa: - Mole ventr'havedes;
e diss'a outr': - E vós mal o 'scondedes,
as tetas que semelham cevadeiras.
384
João Garcia de Guilhade
Gram Sazom Há Que Eu Morrera Já
Gram sazom há que eu morrera já
por mia senhor, desejando seu bem;
mais ar direi-vos o que me detém
que nom per moir', e direi-vo-lo já:
falam-me dela, e ar vou-a veer,
[e] já quant'esto me faz já viver.
E esta coita 'm que eu viv'assi,
nunca en parte soube mia senhor;
e vou vivend'a gram pesar d'amor,
e direi já por quanto viv'assi:
falam-me dela, e ar vou-a veer,
[e] já quanto esto me faz já viver.
Nom viv'eu já se per aquesto nom:
ouç'eu as gentes no seu bem falar,
e vem amor logo por me matar,
e nom guaresco, se per esto nom:
falam-me dela, e ar vou-a veer,
[e] já quant'esto me faz já viver.
E viverei, mentre puder viver;
ca pois por ela m'e[u] hei a morrer.
por mia senhor, desejando seu bem;
mais ar direi-vos o que me detém
que nom per moir', e direi-vo-lo já:
falam-me dela, e ar vou-a veer,
[e] já quant'esto me faz já viver.
E esta coita 'm que eu viv'assi,
nunca en parte soube mia senhor;
e vou vivend'a gram pesar d'amor,
e direi já por quanto viv'assi:
falam-me dela, e ar vou-a veer,
[e] já quanto esto me faz já viver.
Nom viv'eu já se per aquesto nom:
ouç'eu as gentes no seu bem falar,
e vem amor logo por me matar,
e nom guaresco, se per esto nom:
falam-me dela, e ar vou-a veer,
[e] já quant'esto me faz já viver.
E viverei, mentre puder viver;
ca pois por ela m'e[u] hei a morrer.
372
João Garcia de Guilhade
Gram Sazom Há Que Eu Morrera Já
Gram sazom há que eu morrera já
por mia senhor, desejando seu bem;
mais ar direi-vos o que me detém
que nom per moir', e direi-vo-lo já:
falam-me dela, e ar vou-a veer,
[e] já quant'esto me faz já viver.
E esta coita 'm que eu viv'assi,
nunca en parte soube mia senhor;
e vou vivend'a gram pesar d'amor,
e direi já por quanto viv'assi:
falam-me dela, e ar vou-a veer,
[e] já quanto esto me faz já viver.
Nom viv'eu já se per aquesto nom:
ouç'eu as gentes no seu bem falar,
e vem amor logo por me matar,
e nom guaresco, se per esto nom:
falam-me dela, e ar vou-a veer,
[e] já quant'esto me faz já viver.
E viverei, mentre puder viver;
ca pois por ela m'e[u] hei a morrer.
por mia senhor, desejando seu bem;
mais ar direi-vos o que me detém
que nom per moir', e direi-vo-lo já:
falam-me dela, e ar vou-a veer,
[e] já quant'esto me faz já viver.
E esta coita 'm que eu viv'assi,
nunca en parte soube mia senhor;
e vou vivend'a gram pesar d'amor,
e direi já por quanto viv'assi:
falam-me dela, e ar vou-a veer,
[e] já quanto esto me faz já viver.
Nom viv'eu já se per aquesto nom:
ouç'eu as gentes no seu bem falar,
e vem amor logo por me matar,
e nom guaresco, se per esto nom:
falam-me dela, e ar vou-a veer,
[e] já quant'esto me faz já viver.
E viverei, mentre puder viver;
ca pois por ela m'e[u] hei a morrer.
372
João Baveca
Bernal Fendudo, Quero-Vos Dizer
Bernal Fendudo, quero-vos dizer
o que façades, pois vos querem dar
armas e "dona salvage" chamar:
se vos com mouros lid'acaecer,
sofrede-os, ca todos vos ferrám,
e, dando colbes em vós, cansarám,
e havedes pois vós a vencer.
E ali log', u s'há lide a volver,
verrám-vos deles deante colpar;
des i os outros, por vos nom errar,
ar querram-vos por alhur cometer;
mais sofrede[-os], feiram per u quer,
ca, se vos Deus em armas bem fezer,
ferindo em vós, ham eles de caer.
Pero, com’há mui gram gente a seer,
muitas vezes vos ham a derrobar;
mais sempre vos havedes a cobrar
e eles ham mais a enfraquecer,
pero nom quedarám de vos ferir
de todas partes; mais, ao [fiir],
todos morrerám em vosso poder.
o que façades, pois vos querem dar
armas e "dona salvage" chamar:
se vos com mouros lid'acaecer,
sofrede-os, ca todos vos ferrám,
e, dando colbes em vós, cansarám,
e havedes pois vós a vencer.
E ali log', u s'há lide a volver,
verrám-vos deles deante colpar;
des i os outros, por vos nom errar,
ar querram-vos por alhur cometer;
mais sofrede[-os], feiram per u quer,
ca, se vos Deus em armas bem fezer,
ferindo em vós, ham eles de caer.
Pero, com’há mui gram gente a seer,
muitas vezes vos ham a derrobar;
mais sempre vos havedes a cobrar
e eles ham mais a enfraquecer,
pero nom quedarám de vos ferir
de todas partes; mais, ao [fiir],
todos morrerám em vosso poder.
610
João Baveca
Maior Garcia Sempr'oi[U] Dizer
Maior Garcia sempr'oi[u] dizer
por quem quer que [se] podesse guisar
de sa mort'e se bem maenfestar,
que nom podia perdudo seer;
e ela diz, por se de mal partir,
que, enquant'houver per que o comprir,
que nom quer já sem clérigo viver.
Ca diz que nom sab'u x'há de morrer,
e por aquesto se quer trabalhar,
a como quer, de se desto pagar;
e diz que há bem per u o fazer
con'o que tem de seu, se d'alhur nom:
dous ou três clérigos, um a sazom,
[pode mui bem consigo sempr'haver].
E Maior Garcia, por nom perder
sua alma, quando esto oiu, foi buscar
clérigo e nom s'atreveu albergar
[tam senlheira u quer que há viver];
e já três clérigos pagados tem,
que, sem um deles, sabede vós bem
que a nom pode a morte tolher.
por quem quer que [se] podesse guisar
de sa mort'e se bem maenfestar,
que nom podia perdudo seer;
e ela diz, por se de mal partir,
que, enquant'houver per que o comprir,
que nom quer já sem clérigo viver.
Ca diz que nom sab'u x'há de morrer,
e por aquesto se quer trabalhar,
a como quer, de se desto pagar;
e diz que há bem per u o fazer
con'o que tem de seu, se d'alhur nom:
dous ou três clérigos, um a sazom,
[pode mui bem consigo sempr'haver].
E Maior Garcia, por nom perder
sua alma, quando esto oiu, foi buscar
clérigo e nom s'atreveu albergar
[tam senlheira u quer que há viver];
e já três clérigos pagados tem,
que, sem um deles, sabede vós bem
que a nom pode a morte tolher.
556
João Baveca
Maior Garcia Sempr'oi[U] Dizer
Maior Garcia sempr'oi[u] dizer
por quem quer que [se] podesse guisar
de sa mort'e se bem maenfestar,
que nom podia perdudo seer;
e ela diz, por se de mal partir,
que, enquant'houver per que o comprir,
que nom quer já sem clérigo viver.
Ca diz que nom sab'u x'há de morrer,
e por aquesto se quer trabalhar,
a como quer, de se desto pagar;
e diz que há bem per u o fazer
con'o que tem de seu, se d'alhur nom:
dous ou três clérigos, um a sazom,
[pode mui bem consigo sempr'haver].
E Maior Garcia, por nom perder
sua alma, quando esto oiu, foi buscar
clérigo e nom s'atreveu albergar
[tam senlheira u quer que há viver];
e já três clérigos pagados tem,
que, sem um deles, sabede vós bem
que a nom pode a morte tolher.
por quem quer que [se] podesse guisar
de sa mort'e se bem maenfestar,
que nom podia perdudo seer;
e ela diz, por se de mal partir,
que, enquant'houver per que o comprir,
que nom quer já sem clérigo viver.
Ca diz que nom sab'u x'há de morrer,
e por aquesto se quer trabalhar,
a como quer, de se desto pagar;
e diz que há bem per u o fazer
con'o que tem de seu, se d'alhur nom:
dous ou três clérigos, um a sazom,
[pode mui bem consigo sempr'haver].
E Maior Garcia, por nom perder
sua alma, quando esto oiu, foi buscar
clérigo e nom s'atreveu albergar
[tam senlheira u quer que há viver];
e já três clérigos pagados tem,
que, sem um deles, sabede vós bem
que a nom pode a morte tolher.
556
João Garcia de Guilhade
Quer'eu, Amigas, o Mundo Loar
Quer'eu, amigas, o mundo loar
por quanto bem m'i Nostro Senhor fez;
fez-me fremosa e de mui bom prez,
ar faz-mi meu amigo muit'amar;
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
O paraíso bõo x'é, de pram,
ca o fez Deus, e nom dig'eu de nom,
mailos amigos que no mundo som
amigos muit[o] ambos lezer ham;
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
Querria-m'eu o paraís'haver
des que morresse, bem come quem quer,
mais, poila dona seu amig'hoer
e com el pode no mundo viver,
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
[E] quem aquesto nom tever por bem
[já] nunca lhi Deus dê en'ele rem.
por quanto bem m'i Nostro Senhor fez;
fez-me fremosa e de mui bom prez,
ar faz-mi meu amigo muit'amar;
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
O paraíso bõo x'é, de pram,
ca o fez Deus, e nom dig'eu de nom,
mailos amigos que no mundo som
amigos muit[o] ambos lezer ham;
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
Querria-m'eu o paraís'haver
des que morresse, bem come quem quer,
mais, poila dona seu amig'hoer
e com el pode no mundo viver,
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
[E] quem aquesto nom tever por bem
[já] nunca lhi Deus dê en'ele rem.
606
João Baveca
Pero D'ambroa, Sodes Maiordomo
Pero d'Ambroa, sodes maiordomo
e trabalhar-s'-á de vos enganar
o albergueiro; mais d'escarmentar-
-lo havedes. E direi-vos eu como:
se vos mentir do que vosco poser,
seja de vós e de nós, como quer,
é brita[r]-lh'os narizes no momo.
E de nosso ................
[...]
E ..........................
[...]
E pois mercade lo al: logo cedo
vos amonstr'a roupa que vos dará;
e se pois virdes que vo-la nom dá,
ide sarrar la porta, vosso quedo,
e desses vossos narizes log'i
fiqu'o seu cuu quebrantad', assi
que já sempr'haja d'espanhoes medo.
e trabalhar-s'-á de vos enganar
o albergueiro; mais d'escarmentar-
-lo havedes. E direi-vos eu como:
se vos mentir do que vosco poser,
seja de vós e de nós, como quer,
é brita[r]-lh'os narizes no momo.
E de nosso ................
[...]
E ..........................
[...]
E pois mercade lo al: logo cedo
vos amonstr'a roupa que vos dará;
e se pois virdes que vo-la nom dá,
ide sarrar la porta, vosso quedo,
e desses vossos narizes log'i
fiqu'o seu cuu quebrantad', assi
que já sempr'haja d'espanhoes medo.
579
João Baveca
Pero D'ambroa Prometeu, de Pram
Pero d'Ambroa prometeu, de pram,
que fosse romeu de Santa Maria,
e acabou assi sa romaria
com'acabou a do frume Jordam:
ca entonce atá Mompilier chegou,
e ora per Roçavales passou
e tornou-se do poio de Roldam.
E pois ................................
[...]
- Ca, pois aqui cheguei, já nom dirám
que nom foi.......................
.........................................
........................................[am]
............................. en buscar
senom de que podesse pois chufar
e ach'aqui o corno de Roldam.
que fosse romeu de Santa Maria,
e acabou assi sa romaria
com'acabou a do frume Jordam:
ca entonce atá Mompilier chegou,
e ora per Roçavales passou
e tornou-se do poio de Roldam.
E pois ................................
[...]
- Ca, pois aqui cheguei, já nom dirám
que nom foi.......................
.........................................
........................................[am]
............................. en buscar
senom de que podesse pois chufar
e ach'aqui o corno de Roldam.
666
João Garcia de Guilhade
Que Muitos Me Preguntarám
Que muitos me preguntarám,
quando m'ora virem morrer,
por que moir', e quer'eu dizer
quanto x'ende pois saberám:
moir'eu, porque nom vej'aqui
a dona que nom vej'aqui.
E preguntar-m'-am, eu o sei,
da dona que diga qual é,
e juro-vos, per bõa fé,
que nunca lhis en mais direi:
moir'eu, porque nom vej'aqui
a dona que nom vej'aqui.
E dirám-mi que parecer
virom aqui donas mui bem,
e direi-vo-lhis eu por en
quanto m'ora oístes dizer:
moir'eu, porque nom vej'aqui
a dona que nom vej'aqui.
E nom dig'eu das outras mal
nem bem, nem sol nom falo i;
mais, pois vejo que moir'assi,
dig'est', e nunca direi al:
moir'eu, porque nom vej'aqui
a dona que nom vej'aqui.
quando m'ora virem morrer,
por que moir', e quer'eu dizer
quanto x'ende pois saberám:
moir'eu, porque nom vej'aqui
a dona que nom vej'aqui.
E preguntar-m'-am, eu o sei,
da dona que diga qual é,
e juro-vos, per bõa fé,
que nunca lhis en mais direi:
moir'eu, porque nom vej'aqui
a dona que nom vej'aqui.
E dirám-mi que parecer
virom aqui donas mui bem,
e direi-vo-lhis eu por en
quanto m'ora oístes dizer:
moir'eu, porque nom vej'aqui
a dona que nom vej'aqui.
E nom dig'eu das outras mal
nem bem, nem sol nom falo i;
mais, pois vejo que moir'assi,
dig'est', e nunca direi al:
moir'eu, porque nom vej'aqui
a dona que nom vej'aqui.
796
João Garcia de Guilhade
Queixei-M'eu Destes Olhos Meus
Queixei-m'eu destes olhos meus;
mais ora, se Deus mi perdom!,
quero-lhis bem de coraçom,
e des oimais quer'amar Deus;
ca mi mostrou quem hoj'eu vi:
ai! que parecer hoj'eu vi!
Sempre m'eu d'Amor queixarei,
ca sempre mi dele mal vem;
mais os meus olhos quer'eu bem,
e já sempre Deus amarei;
ca mi mostrou quem hoj'eu vi:
ai! que parecer hoj'eu vi!
E mui gram queixum'hei d'Amor,
ca sempre mi coita sol dar;
mais os meus olhos quer'amar,
e quer'amar Nostro Senhor;
ca mi mostrou quem hoj'eu vi:
ai! que parecer hoj'eu vi!
E se cedo nom vir quem vi,
cedo morrerei por quem vi.
mais ora, se Deus mi perdom!,
quero-lhis bem de coraçom,
e des oimais quer'amar Deus;
ca mi mostrou quem hoj'eu vi:
ai! que parecer hoj'eu vi!
Sempre m'eu d'Amor queixarei,
ca sempre mi dele mal vem;
mais os meus olhos quer'eu bem,
e já sempre Deus amarei;
ca mi mostrou quem hoj'eu vi:
ai! que parecer hoj'eu vi!
E mui gram queixum'hei d'Amor,
ca sempre mi coita sol dar;
mais os meus olhos quer'amar,
e quer'amar Nostro Senhor;
ca mi mostrou quem hoj'eu vi:
ai! que parecer hoj'eu vi!
E se cedo nom vir quem vi,
cedo morrerei por quem vi.
720
João Garcia de Guilhade
Deus! Como Se Forom Perder E Matar
Deus! Como se forom perder e matar
mui boas donzelas, quaes vos direi:
foi[-se] Dordia Gil e foi[-se] Guiomar,
que prenderom ordim. Mais se foss'eu rei
eu as mandaria por en[de] queimar
porque forom mund'e prez desemparar.
Nom metedes mentes em qual perdiçom
fezerom no mundo e se forom perder?!
Com'outras arlotas, vivem na raçom,
por muito de bem que poderom fazer.
Mais eu por alguém já mort'hei de prender,
que nom vej'e moiro por alguém veer.
Outra bõa dona que pelo reino há,
de bom prez e ric'e de bom parecer,
se mi a Deus amostra, gram bem mi fará,
ca nunca prazer verei sen'a veer.
Que farei, coitado? Moiro por alguém
que nom vej'e moiro por veer alguém.
mui boas donzelas, quaes vos direi:
foi[-se] Dordia Gil e foi[-se] Guiomar,
que prenderom ordim. Mais se foss'eu rei
eu as mandaria por en[de] queimar
porque forom mund'e prez desemparar.
Nom metedes mentes em qual perdiçom
fezerom no mundo e se forom perder?!
Com'outras arlotas, vivem na raçom,
por muito de bem que poderom fazer.
Mais eu por alguém já mort'hei de prender,
que nom vej'e moiro por alguém veer.
Outra bõa dona que pelo reino há,
de bom prez e ric'e de bom parecer,
se mi a Deus amostra, gram bem mi fará,
ca nunca prazer verei sen'a veer.
Que farei, coitado? Moiro por alguém
que nom vej'e moiro por veer alguém.
547
João Garcia de Guilhade
Cuidou-S'amor Que Logo Me Faria
Cuidou-s'Amor que logo me faria
per sa coita o sem que hei perder;
e pero nunca o pôdo fazer,
mais aprendeu outra sabedoria:
quer-me matar mui cedo por alguém,
e aquesto pod'el fazer mui bem,
ca mia senhor esto quer todavia.
E tem-s'Amor que demandei folia
em demandar o que nom poss'haver;
e aquesto nom poss'eu escolher,
ca logo m'eu en[d'] al escolheria:
escolheria, mentr'houvesse sem,
de nunca já morrer por nulha rem;
ca esta morte nom é jograria.
Ai! que de coita levei em Faria!
E vim aqui a Segóbia morrer!
Ca nom vej'i quem soía veer
meu pouc'e pouc'e per esso guaria.
Mais pois que já nom posso guarecer,
a por que moiro vos quero dizer:
d'i d'alguém éste filha: de Maria.
E o que sempre neguei em trobar,
ora o dix'! E pês a quem pesar,
pois que alguém acabou sa perfia.
per sa coita o sem que hei perder;
e pero nunca o pôdo fazer,
mais aprendeu outra sabedoria:
quer-me matar mui cedo por alguém,
e aquesto pod'el fazer mui bem,
ca mia senhor esto quer todavia.
E tem-s'Amor que demandei folia
em demandar o que nom poss'haver;
e aquesto nom poss'eu escolher,
ca logo m'eu en[d'] al escolheria:
escolheria, mentr'houvesse sem,
de nunca já morrer por nulha rem;
ca esta morte nom é jograria.
Ai! que de coita levei em Faria!
E vim aqui a Segóbia morrer!
Ca nom vej'i quem soía veer
meu pouc'e pouc'e per esso guaria.
Mais pois que já nom posso guarecer,
a por que moiro vos quero dizer:
d'i d'alguém éste filha: de Maria.
E o que sempre neguei em trobar,
ora o dix'! E pês a quem pesar,
pois que alguém acabou sa perfia.
428
João Airas de Santiago
Foi-S'o Meu Amigo a Cas D'el-Rei
Foi-s'o meu amigo a cas d'el-rei
e, amigas, com grand'amor que lh'hei,
quand'el veer, já eu morta serei,
mais nom lhe digam que morri assi,
ca, se souber com'eu por el morri,
será mui pouca sa vida des i.
Per nulha rem nom me posso guardar
que nom moira ced'e com gram pesar,
e, amigas, quand'el aqui chegar,
nom sábia per vós qual mort'eu prendi,
ca, se souber com'eu por el morri,
será mui pouca sa vida des i.
Eu morrerei cedo, se Deus quiser,
e, amigas, quand'el aqui veer,
desmesura dirá quem lhi disser
qual mort'eu filhei des que o nom vi,
ca, se souber com'eu por el morri,
será mui pouca sa vida des i.
Já nom posso de morte guarecer,
mais, quando s'el tornar por me veer,
nom lhi digam como m'el fez morrer
ante tempo, porque se foi daqui,
ca, se souber com'eu por el morri,
será mui pouca sa vida des i.
e, amigas, com grand'amor que lh'hei,
quand'el veer, já eu morta serei,
mais nom lhe digam que morri assi,
ca, se souber com'eu por el morri,
será mui pouca sa vida des i.
Per nulha rem nom me posso guardar
que nom moira ced'e com gram pesar,
e, amigas, quand'el aqui chegar,
nom sábia per vós qual mort'eu prendi,
ca, se souber com'eu por el morri,
será mui pouca sa vida des i.
Eu morrerei cedo, se Deus quiser,
e, amigas, quand'el aqui veer,
desmesura dirá quem lhi disser
qual mort'eu filhei des que o nom vi,
ca, se souber com'eu por el morri,
será mui pouca sa vida des i.
Já nom posso de morte guarecer,
mais, quando s'el tornar por me veer,
nom lhi digam como m'el fez morrer
ante tempo, porque se foi daqui,
ca, se souber com'eu por el morri,
será mui pouca sa vida des i.
547
João Airas de Santiago
Meu Amig'e Meu Bem E Meu Amor
Meu amig'e meu bem e meu amor,
disserom-vos que me virom falar
com outr'home por vos fazer pesar,
e por en rog'eu a Nostro Senhor
que confonda quem vo-lo foi dizer,
e vós, se o assi fostes creer,
e mim, se end'eu fui merecedor.
Já vos disserom por mi que falei
com outr'hom'e que vos nom tiv'em rem,
e, se o fiz, nunca mi venha bem;
mais rog'a Deus sempr'e rogá-Lo-ei
que confonda quem vo-lo diss'assi,
e vós, se tam gram mentira de mim
crevestes, e mim, se o eu cuidei.
Sei que vos disserom, per bõa fé,
que falei com outr'hom', e nom foi al
senom que vo-lo disserom por mal;
mais rog'a Deus, que [e]no ceo sé,
que confonda quem vos atal razom
diss', e vós, se a crevestes entom,
e que confonda mim, se verdad'é.
E confonda quem há tam gram sabor
d'antre mim e vós meter desamor
- ca [o] maior amor do mund[o] é.
disserom-vos que me virom falar
com outr'home por vos fazer pesar,
e por en rog'eu a Nostro Senhor
que confonda quem vo-lo foi dizer,
e vós, se o assi fostes creer,
e mim, se end'eu fui merecedor.
Já vos disserom por mi que falei
com outr'hom'e que vos nom tiv'em rem,
e, se o fiz, nunca mi venha bem;
mais rog'a Deus sempr'e rogá-Lo-ei
que confonda quem vo-lo diss'assi,
e vós, se tam gram mentira de mim
crevestes, e mim, se o eu cuidei.
Sei que vos disserom, per bõa fé,
que falei com outr'hom', e nom foi al
senom que vo-lo disserom por mal;
mais rog'a Deus, que [e]no ceo sé,
que confonda quem vos atal razom
diss', e vós, se a crevestes entom,
e que confonda mim, se verdad'é.
E confonda quem há tam gram sabor
d'antre mim e vós meter desamor
- ca [o] maior amor do mund[o] é.
807
João Airas de Santiago
Ua Dona, Nom Dig'eu Qual
Ũa dona, nom dig'eu qual,
nom aguirou ogano mal:
polas oitavas de Natal,
ia por sa missa oir,
e [houv'] um corvo carnaçal,
e nom quis da casa sair.
A dona, mui de coraçom,
oíra sa missa entom,
e foi por oír o sarmom,
e vedes que lho foi partir:
houve sig'um corv'a carom,
e nom quis da casa sair.
A dona disse: - Que será?
E i o clérig'está já
revestid'e maldizer-m'-á
se me na igreja nom vir.
E diss'o corvo: – Quá, cá;
e nom quis da casa sair.
Nunca taes agoiros vi
des aquel dia em que naci
com'aquest'ano houv'aqui;
e ela quis provar de s'ir
e houv'um corvo sobre si
e nom quis da casa sair.
nom aguirou ogano mal:
polas oitavas de Natal,
ia por sa missa oir,
e [houv'] um corvo carnaçal,
e nom quis da casa sair.
A dona, mui de coraçom,
oíra sa missa entom,
e foi por oír o sarmom,
e vedes que lho foi partir:
houve sig'um corv'a carom,
e nom quis da casa sair.
A dona disse: - Que será?
E i o clérig'está já
revestid'e maldizer-m'-á
se me na igreja nom vir.
E diss'o corvo: – Quá, cá;
e nom quis da casa sair.
Nunca taes agoiros vi
des aquel dia em que naci
com'aquest'ano houv'aqui;
e ela quis provar de s'ir
e houv'um corvo sobre si
e nom quis da casa sair.
911
João Airas de Santiago
Ai Justiça, Mal Fazedes, Que Nom
Ai Justiça, mal fazedes, que nom
queredes ora dereito filhar
de Mor da Cana, porque foi matar
Joan'Airas, ca fez mui sem razom;
mais se dereito queredes fazer,
ela sô el devedes a meter,
ca o manda o Livro de Leon.
Ca lhi queria gram bem, e des i
nunca lhi chamava senom senhor;
e quando lh'el queria mui milhor,
foi-o ela logo matar ali;
mais, Justiça, pois tam gram torto fez,
metede-a já sô el ũa vez,
ca o manda o dereito assi.
E quando mais Joan'Airas cuidou
que houvesse de Mor da Cana bem,
foi-o ela logo matar por en,
tanto que el em seu poder entrou;
mais, Justiça, pois que assi é já,
metam-na sô el, e padecerá
a que o a mui gram torto matou.
E quen'os ambos vir jazer, dirá:
- Beeito seja aquel que o julgou!
queredes ora dereito filhar
de Mor da Cana, porque foi matar
Joan'Airas, ca fez mui sem razom;
mais se dereito queredes fazer,
ela sô el devedes a meter,
ca o manda o Livro de Leon.
Ca lhi queria gram bem, e des i
nunca lhi chamava senom senhor;
e quando lh'el queria mui milhor,
foi-o ela logo matar ali;
mais, Justiça, pois tam gram torto fez,
metede-a já sô el ũa vez,
ca o manda o dereito assi.
E quando mais Joan'Airas cuidou
que houvesse de Mor da Cana bem,
foi-o ela logo matar por en,
tanto que el em seu poder entrou;
mais, Justiça, pois que assi é já,
metam-na sô el, e padecerá
a que o a mui gram torto matou.
E quen'os ambos vir jazer, dirá:
- Beeito seja aquel que o julgou!
702
João Airas de Santiago
Tôdalas Cousas Eu Vejo Partir
Tôdalas cousas eu vejo partir
do mund', em como soíam seer,
e vej'as gentes partir de fazer
bem que soíam, tal tempo nos vem!
Mais nom se pod'o coraçom partir
do meu amigo de mi querer bem.
Pero que home part'o coraçom
das cousas que ama, per bõa fé,
e parte-s'home da terra ond'é,
e parte-s'home d'u gran[de] prol tem,
nom se pode parti'lo coraçom
do meu amigo de mi querer bem.
Tôdalas cousas eu vejo mudar,
mudam-s'os tempos e muda-s'o al,
muda-s'a gente em fazer bem ou mal,
mudam-s'os ventos e tod'outra rem,
mais nom se pod'o coraçom mudar
do meu amigo de mi querer bem.
do mund', em como soíam seer,
e vej'as gentes partir de fazer
bem que soíam, tal tempo nos vem!
Mais nom se pod'o coraçom partir
do meu amigo de mi querer bem.
Pero que home part'o coraçom
das cousas que ama, per bõa fé,
e parte-s'home da terra ond'é,
e parte-s'home d'u gran[de] prol tem,
nom se pode parti'lo coraçom
do meu amigo de mi querer bem.
Tôdalas cousas eu vejo mudar,
mudam-s'os tempos e muda-s'o al,
muda-s'a gente em fazer bem ou mal,
mudam-s'os ventos e tod'outra rem,
mais nom se pod'o coraçom mudar
do meu amigo de mi querer bem.
772
João Airas de Santiago
Tôdalas Cousas Eu Vejo Partir
Tôdalas cousas eu vejo partir
do mund', em como soíam seer,
e vej'as gentes partir de fazer
bem que soíam, tal tempo nos vem!
Mais nom se pod'o coraçom partir
do meu amigo de mi querer bem.
Pero que home part'o coraçom
das cousas que ama, per bõa fé,
e parte-s'home da terra ond'é,
e parte-s'home d'u gran[de] prol tem,
nom se pode parti'lo coraçom
do meu amigo de mi querer bem.
Tôdalas cousas eu vejo mudar,
mudam-s'os tempos e muda-s'o al,
muda-s'a gente em fazer bem ou mal,
mudam-s'os ventos e tod'outra rem,
mais nom se pod'o coraçom mudar
do meu amigo de mi querer bem.
do mund', em como soíam seer,
e vej'as gentes partir de fazer
bem que soíam, tal tempo nos vem!
Mais nom se pod'o coraçom partir
do meu amigo de mi querer bem.
Pero que home part'o coraçom
das cousas que ama, per bõa fé,
e parte-s'home da terra ond'é,
e parte-s'home d'u gran[de] prol tem,
nom se pode parti'lo coraçom
do meu amigo de mi querer bem.
Tôdalas cousas eu vejo mudar,
mudam-s'os tempos e muda-s'o al,
muda-s'a gente em fazer bem ou mal,
mudam-s'os ventos e tod'outra rem,
mais nom se pod'o coraçom mudar
do meu amigo de mi querer bem.
772
João Airas de Santiago
Par Deus, Amigo, Nom Sei Eu Que É
Par Deus, amigo, nom sei eu que é,
mais muit'há já que vos vejo partir
de trobar por mi e de me servir,
mais ũa destas é, per bõa fé:
ou é per mi, que vos nom faço bem,
ou é sinal de morte que vos vem.
Mui gram temp'há, e tenho que é mal,
que vos nom oí já cantar fazer,
nem loar-mi, nem meu bom parecer,
mais ũa destas é, u nom ja[z] al:
ou é per mi, que vos nom faço bem,
ou é sinal de morte que vos vem.
Já m'eu do tempo acordar nom sei
que vos oísse fazer um cantar,
como soíades, por me loar,
mais ũa destas é que vos direi:
ou é per mi, que vos nom faço bem,
ou é sinal de morte que vos vem.
Se é per mi, que vos nom faço bem,
dizede-mi-o, e já quê farei en.
mais muit'há já que vos vejo partir
de trobar por mi e de me servir,
mais ũa destas é, per bõa fé:
ou é per mi, que vos nom faço bem,
ou é sinal de morte que vos vem.
Mui gram temp'há, e tenho que é mal,
que vos nom oí já cantar fazer,
nem loar-mi, nem meu bom parecer,
mais ũa destas é, u nom ja[z] al:
ou é per mi, que vos nom faço bem,
ou é sinal de morte que vos vem.
Já m'eu do tempo acordar nom sei
que vos oísse fazer um cantar,
como soíades, por me loar,
mais ũa destas é que vos direi:
ou é per mi, que vos nom faço bem,
ou é sinal de morte que vos vem.
Se é per mi, que vos nom faço bem,
dizede-mi-o, e já quê farei en.
658
João Airas de Santiago
Os Que Dizem Que Veem Bem E Mal
Os que dizem que veem bem e mal
[e]nas aves e d'agoirar pre[i]t'ham,
querem corvo seestro quando vam
algur entrar; e digo-lhis eu al:
que Iésu Cristo nom me perdom
se ant'eu nom queria um capom
que um gram corvo carnaçal.
E o que diz que é mui sabedor
d'agoir'e d'aves, quand'algur quer ir,
quer corvo seestro sempr'ao partir;
e por en dig'eu a Nostro Senhor
que El[e] me dê, cada u chegar,
capom cevado pera meu jantar
e dê o corvo ao agoirador.
Ca eu sei bem as aves conhoscer
e com patela gorda mais me praz
que com bulhafre, voutre, nem viaraz,
que me nom pode[m] bem nem mal fazer;
e o agoirador torpe que diz
que mais val o corvo que a perdiz,
nunca o Deus leixe melhor escolher.
[e]nas aves e d'agoirar pre[i]t'ham,
querem corvo seestro quando vam
algur entrar; e digo-lhis eu al:
que Iésu Cristo nom me perdom
se ant'eu nom queria um capom
que um gram corvo carnaçal.
E o que diz que é mui sabedor
d'agoir'e d'aves, quand'algur quer ir,
quer corvo seestro sempr'ao partir;
e por en dig'eu a Nostro Senhor
que El[e] me dê, cada u chegar,
capom cevado pera meu jantar
e dê o corvo ao agoirador.
Ca eu sei bem as aves conhoscer
e com patela gorda mais me praz
que com bulhafre, voutre, nem viaraz,
que me nom pode[m] bem nem mal fazer;
e o agoirador torpe que diz
que mais val o corvo que a perdiz,
nunca o Deus leixe melhor escolher.
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