Poemas neste tema
Vida e Existência
Virgílio Martinho
A Luz Encarnada
A luz encarnada é o proibido
Na cidade povoada de fendas.
A luz encarnada é o pigmento
Dos rostos tintados de cólera.
A luz encarnada é a corrida Sade,
Explosão sem princípio nem fim.
A luz encarnada é o meu amor assim,
Visão que às vezes é peixe galo.
A luz encarnada é o sangue da cabra
Imolada no altar da capela papal.
A luz encarnada é o homem na cruz,
Sonho antigo para se morrer santo.
A luz encarnada é o devasso nu
Erecto no horizonte dos ventres.
A luz encarnada é a erva daninha
Que tudo envenena com seu hálito.
A luz encarnada é o gás letal
Na câmara escura da inocência.
A luz encarnada é a praga do sangue
Que bolça dos ouvidos da criança.
Veio ao mundo havia uma guerra grega,
Havia também um olho cor de âmbar,
Farol da máquina macho de Jarry.
Só não havia o meu amor assim.
Na cidade povoada de fendas.
A luz encarnada é o pigmento
Dos rostos tintados de cólera.
A luz encarnada é a corrida Sade,
Explosão sem princípio nem fim.
A luz encarnada é o meu amor assim,
Visão que às vezes é peixe galo.
A luz encarnada é o sangue da cabra
Imolada no altar da capela papal.
A luz encarnada é o homem na cruz,
Sonho antigo para se morrer santo.
A luz encarnada é o devasso nu
Erecto no horizonte dos ventres.
A luz encarnada é a erva daninha
Que tudo envenena com seu hálito.
A luz encarnada é o gás letal
Na câmara escura da inocência.
A luz encarnada é a praga do sangue
Que bolça dos ouvidos da criança.
Veio ao mundo havia uma guerra grega,
Havia também um olho cor de âmbar,
Farol da máquina macho de Jarry.
Só não havia o meu amor assim.
1 076
Mário-Henrique Leiria
Pegada na areia
Pegada na areia
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
605
Mário-Henrique Leiria
Triângulo cabalístico
Eu sei que as túlipas
são os olhos de todos os aviões perdidos
Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina
Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores
Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada
Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente
Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes
Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos
Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar
Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos.
são os olhos de todos os aviões perdidos
Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina
Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores
Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada
Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente
Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes
Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos
Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar
Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos.
721
Baltazar Dias
Conselho para bem casar
Escolha, quem quer casar;
contente-se com sua sorte,
pois a não pode enjeitar
e esta lhe há-de durar
até que os aparte a morte.
Não queira só fermosura
mas busque dote também;
porque se esta o não tem,
terá muito má ventura
e não no verá ninguém.
Porque é muito arriscada
fermosura com pobreza,
em uma mulher casada;
e se lhe falta, desespera;
virá ser mulher errada.
Porque o não ter que gastar
e sustentar vaidades,
dá ao mundo em que falar
e, às vezes, o murmurar
vem a parar em verdades.
Pois se acaso não tiver
um pouco de fermosura,
que há-de o pobre fazer?
E quem tal vida atura
melhor lhe fôra morrer.
Busca logo outra fermosa,
com quem gasta quanto tem,
e disto, tanto mal vem,
que sua mulher, de irosa,
se faz má mulher, também.
E ao fim desta jornada,
depois da bolsa estar raza
de não deitar de si nada,
logo a fazenda é gastada,
e tem a mulher em casa.
contente-se com sua sorte,
pois a não pode enjeitar
e esta lhe há-de durar
até que os aparte a morte.
Não queira só fermosura
mas busque dote também;
porque se esta o não tem,
terá muito má ventura
e não no verá ninguém.
Porque é muito arriscada
fermosura com pobreza,
em uma mulher casada;
e se lhe falta, desespera;
virá ser mulher errada.
Porque o não ter que gastar
e sustentar vaidades,
dá ao mundo em que falar
e, às vezes, o murmurar
vem a parar em verdades.
Pois se acaso não tiver
um pouco de fermosura,
que há-de o pobre fazer?
E quem tal vida atura
melhor lhe fôra morrer.
Busca logo outra fermosa,
com quem gasta quanto tem,
e disto, tanto mal vem,
que sua mulher, de irosa,
se faz má mulher, também.
E ao fim desta jornada,
depois da bolsa estar raza
de não deitar de si nada,
logo a fazenda é gastada,
e tem a mulher em casa.
717
Mário-Henrique Leiria
claridade dada pelo tempo
I
Deixa-me sentar numa nuvem
a mais alta
e dar pontapés na Lua
que era como eu devia ter vivido
a vida toda
dar pontapés
até sentir um tal cansaço nas pernas
que elas pudessem voar
mas não é possível
que tenho tonturas e quando
olho para baixo
vejo sempre planícies muito brancas
intermináveis
povoadas por uma enorme quantidade
de sombras
dá-me um cão ou uma bola
ou qualquer coisa que eu possa olhar
dá-me os teus braços exaustivamente
longos
dá-me o sono que me pediste uma vez
e que transformaste apenas para
teu prazer
nos nossos encontros e nos nossos
dias perdidos e achados logo em
seguida
depois de terem passado
por uma ponte feita por nós dois
em qualquer sítio me serve
encontrar o teu cabelo
em qualquer lugar me bastam
os teus olhos
porque
sentado numa nuvem
na lua
ou em qualquer precipício
eu sei
que as minhas pernas
feitas pássaros
voam para ti
e as tonturas que a planície me dá
são feitas por nós
de propósito
para irritar aqueles que não sabem
subir e descer as montanhas geladas
são feitas por nós
para nunca nos esquecermos
da beleza dum corpo
cintilando fulgurantemente
para nunca nos esquecermos
do abraço que nos foi dado
por um braço desconhecido
nós sabemos
tu e eu
que depois de tudo
apenas existem os nossos corpos
rutilantes
até se perderem no
limite do olhar
dá-me um cigarro
mesmo que seja só um
já me basta
desde que seja dado por ti
mas não me leves
não me tires
as tonturas que eu teria
que eu terei
sempre que penso cá de cima
duma altura vertiginosa
onde a própria águia
nada mais é que um minúsculo
objecto perdido
onde a nuvem
mais alta de todas
se agasalha como um cão de caça
leva-me a recordação
apenas a recordação
da vida martelada
que em mim tem ficado
como herança dada há mil e
duzentos anos
deixa que eu fique
muito afastado
silencioso
e único
no alto daquela nuvem
que escolhi
ainda antes de existir
Deixa-me sentar numa nuvem
a mais alta
e dar pontapés na Lua
que era como eu devia ter vivido
a vida toda
dar pontapés
até sentir um tal cansaço nas pernas
que elas pudessem voar
mas não é possível
que tenho tonturas e quando
olho para baixo
vejo sempre planícies muito brancas
intermináveis
povoadas por uma enorme quantidade
de sombras
dá-me um cão ou uma bola
ou qualquer coisa que eu possa olhar
dá-me os teus braços exaustivamente
longos
dá-me o sono que me pediste uma vez
e que transformaste apenas para
teu prazer
nos nossos encontros e nos nossos
dias perdidos e achados logo em
seguida
depois de terem passado
por uma ponte feita por nós dois
em qualquer sítio me serve
encontrar o teu cabelo
em qualquer lugar me bastam
os teus olhos
porque
sentado numa nuvem
na lua
ou em qualquer precipício
eu sei
que as minhas pernas
feitas pássaros
voam para ti
e as tonturas que a planície me dá
são feitas por nós
de propósito
para irritar aqueles que não sabem
subir e descer as montanhas geladas
são feitas por nós
para nunca nos esquecermos
da beleza dum corpo
cintilando fulgurantemente
para nunca nos esquecermos
do abraço que nos foi dado
por um braço desconhecido
nós sabemos
tu e eu
que depois de tudo
apenas existem os nossos corpos
rutilantes
até se perderem no
limite do olhar
dá-me um cigarro
mesmo que seja só um
já me basta
desde que seja dado por ti
mas não me leves
não me tires
as tonturas que eu teria
que eu terei
sempre que penso cá de cima
duma altura vertiginosa
onde a própria águia
nada mais é que um minúsculo
objecto perdido
onde a nuvem
mais alta de todas
se agasalha como um cão de caça
leva-me a recordação
apenas a recordação
da vida martelada
que em mim tem ficado
como herança dada há mil e
duzentos anos
deixa que eu fique
muito afastado
silencioso
e único
no alto daquela nuvem
que escolhi
ainda antes de existir
698
Mário-Henrique Leiria
facto diverso
Discretamente fui ontem almoçar
ao lado do meu túmulo
levei para o acto um ramo de papoilas
que guardava em casa há cerca de oito anos
para qualquer momento circunstancial
(sempre me considerei digno e respeitador
dos insultantes bons costumes)
Lá estava gravado na pedra de Estremoz
EUROPA – MAIS UM DIA
era certo e fora um trabalho bem eficiente
em elzevir escolhido e sem defeito
Sentei-me sempre tive esse costume
e fiquei a olhar inquisitivo para a Europa
donde nunca consegui sair
mesmo quando pareço estar remotamente longe
fiquei a olhar para São Paulo
fantasma abúlico mal traduzido do americano
que se apaga triste e sem figura
com a presença real e muito nítida
de Londres de Paris de Moscovo
de Lisboa menina sorridente e milenária
(…)
ao lado do meu túmulo
levei para o acto um ramo de papoilas
que guardava em casa há cerca de oito anos
para qualquer momento circunstancial
(sempre me considerei digno e respeitador
dos insultantes bons costumes)
Lá estava gravado na pedra de Estremoz
EUROPA – MAIS UM DIA
era certo e fora um trabalho bem eficiente
em elzevir escolhido e sem defeito
Sentei-me sempre tive esse costume
e fiquei a olhar inquisitivo para a Europa
donde nunca consegui sair
mesmo quando pareço estar remotamente longe
fiquei a olhar para São Paulo
fantasma abúlico mal traduzido do americano
que se apaga triste e sem figura
com a presença real e muito nítida
de Londres de Paris de Moscovo
de Lisboa menina sorridente e milenária
(…)
715
Mário-Henrique Leiria
Quando fez a primeira comunhão
Quando fez a primeira comunhão
o pai explicou-lhe
com honesta rectidão
as comunhões
são como os bonés de caça
basta tapar as orelhas
e já está
tens o que desejas
ficas logo comunhado
gostou
e comunhou-se mais três vezes
sempre atento e preocupado
mas era fácil
daí em diante teve a certeza
bastava tapar as orelhas
era só
era uma beleza
pronto
orelha protegida
e comunhão logo garantida.
o pai explicou-lhe
com honesta rectidão
as comunhões
são como os bonés de caça
basta tapar as orelhas
e já está
tens o que desejas
ficas logo comunhado
gostou
e comunhou-se mais três vezes
sempre atento e preocupado
mas era fácil
daí em diante teve a certeza
bastava tapar as orelhas
era só
era uma beleza
pronto
orelha protegida
e comunhão logo garantida.
496
Virgílio Martinho
Já Sei o Que Se Passa No Mundo
Já sei o que se passa no mundo.
Ouvi a música da vitória,
vi a multidão hiante a correr,
os rostos como narizes compridos.
Ouvi as vozes da vitória,
mastigavam como vulcões, mordiam.
Eram todos bonitos, ganharam.
Tinham as caras dos pais, ganiam.
Vieram do campeonato, tinham alma,
eram jovens, comiam, como comiam!
Tisnados da praia, olhos pardos, barba,
tudo que faz parte da agonia.
Têm rabo, picha grande, acne,
são o futuro, conhecem dinheiro,
mas ganharam, alpista para eles,
vitória para nós, parecem bigodes.
Têm razão, são as vozes, os voos
do mundo, são os corredores da morte,
os rapazes do grande balão,
os amortecedores do colchão.
Ouvi a música da vitória,
vi a multidão hiante a correr,
os rostos como narizes compridos.
Ouvi as vozes da vitória,
mastigavam como vulcões, mordiam.
Eram todos bonitos, ganharam.
Tinham as caras dos pais, ganiam.
Vieram do campeonato, tinham alma,
eram jovens, comiam, como comiam!
Tisnados da praia, olhos pardos, barba,
tudo que faz parte da agonia.
Têm rabo, picha grande, acne,
são o futuro, conhecem dinheiro,
mas ganharam, alpista para eles,
vitória para nós, parecem bigodes.
Têm razão, são as vozes, os voos
do mundo, são os corredores da morte,
os rapazes do grande balão,
os amortecedores do colchão.
1 022
Virgílio Martinho
A Bebida Branca
A bebida branca é o arbusto
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.
Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.
Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.
Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento
corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.
O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino
Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.
Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.
Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.
Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento
corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.
O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino
Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
1 161
Virgílio Martinho
A Bebida Branca
A bebida branca é o arbusto
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.
Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.
Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.
Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento
corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.
O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino
Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.
Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.
Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.
Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento
corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.
O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino
Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
1 161
Virgílio Martinho
Fetal
Fetal dentro do escuro da mãe,
formada na sua arca de vida,
sujeita à expulsão pela mater,
vim fêmea do negrume para a luz.
Ungida de matérias, tatuada de líquidos,
após o vagido, o som do chorar,
busquei o volume, o redondo do seio,
mãos hesitantes no tacto inicial.
Finda a busca, achado o alimento,
veio o crescer, a torrente viva,
soma de gestos, levedura de sons,
qual labirinto de espelhos feito.
Imagem de imagens, o desenho do rosto,
o despertar do ser inscrito nos olhos,
nas linhas enigmas da mão aberta,
no pulsante relevo da pele branca.
Estar no mundo, função minha,
ter em memória a vida que vou sendo,
no crescimento do meu crescer,
primeiro passado, depois futuro.
Agora, no ventre curvo a felpa crespa,
as pernas como funis até aos pés,
o rabo quais polpas da humana árvore,
as calotes dos seios desejo de mãos.
Do amor sei o desejo no desejar
quando o primeiro fiz e sofri
formada na sua arca de vida,
sujeita à expulsão pela mater,
vim fêmea do negrume para a luz.
Ungida de matérias, tatuada de líquidos,
após o vagido, o som do chorar,
busquei o volume, o redondo do seio,
mãos hesitantes no tacto inicial.
Finda a busca, achado o alimento,
veio o crescer, a torrente viva,
soma de gestos, levedura de sons,
qual labirinto de espelhos feito.
Imagem de imagens, o desenho do rosto,
o despertar do ser inscrito nos olhos,
nas linhas enigmas da mão aberta,
no pulsante relevo da pele branca.
Estar no mundo, função minha,
ter em memória a vida que vou sendo,
no crescimento do meu crescer,
primeiro passado, depois futuro.
Agora, no ventre curvo a felpa crespa,
as pernas como funis até aos pés,
o rabo quais polpas da humana árvore,
as calotes dos seios desejo de mãos.
Do amor sei o desejo no desejar
quando o primeiro fiz e sofri
1 021
Virgílio Martinho
Fetal
Fetal dentro do escuro da mãe,
formada na sua arca de vida,
sujeita à expulsão pela mater,
vim fêmea do negrume para a luz.
Ungida de matérias, tatuada de líquidos,
após o vagido, o som do chorar,
busquei o volume, o redondo do seio,
mãos hesitantes no tacto inicial.
Finda a busca, achado o alimento,
veio o crescer, a torrente viva,
soma de gestos, levedura de sons,
qual labirinto de espelhos feito.
Imagem de imagens, o desenho do rosto,
o despertar do ser inscrito nos olhos,
nas linhas enigmas da mão aberta,
no pulsante relevo da pele branca.
Estar no mundo, função minha,
ter em memória a vida que vou sendo,
no crescimento do meu crescer,
primeiro passado, depois futuro.
Agora, no ventre curvo a felpa crespa,
as pernas como funis até aos pés,
o rabo quais polpas da humana árvore,
as calotes dos seios desejo de mãos.
Do amor sei o desejo no desejar
quando o primeiro fiz e sofri
formada na sua arca de vida,
sujeita à expulsão pela mater,
vim fêmea do negrume para a luz.
Ungida de matérias, tatuada de líquidos,
após o vagido, o som do chorar,
busquei o volume, o redondo do seio,
mãos hesitantes no tacto inicial.
Finda a busca, achado o alimento,
veio o crescer, a torrente viva,
soma de gestos, levedura de sons,
qual labirinto de espelhos feito.
Imagem de imagens, o desenho do rosto,
o despertar do ser inscrito nos olhos,
nas linhas enigmas da mão aberta,
no pulsante relevo da pele branca.
Estar no mundo, função minha,
ter em memória a vida que vou sendo,
no crescimento do meu crescer,
primeiro passado, depois futuro.
Agora, no ventre curvo a felpa crespa,
as pernas como funis até aos pés,
o rabo quais polpas da humana árvore,
as calotes dos seios desejo de mãos.
Do amor sei o desejo no desejar
quando o primeiro fiz e sofri
1 021
Virgílio Martinho
Fetal
Fetal dentro do escuro da mãe,
formada na sua arca de vida,
sujeita à expulsão pela mater,
vim fêmea do negrume para a luz.
Ungida de matérias, tatuada de líquidos,
após o vagido, o som do chorar,
busquei o volume, o redondo do seio,
mãos hesitantes no tacto inicial.
Finda a busca, achado o alimento,
veio o crescer, a torrente viva,
soma de gestos, levedura de sons,
qual labirinto de espelhos feito.
Imagem de imagens, o desenho do rosto,
o despertar do ser inscrito nos olhos,
nas linhas enigmas da mão aberta,
no pulsante relevo da pele branca.
Estar no mundo, função minha,
ter em memória a vida que vou sendo,
no crescimento do meu crescer,
primeiro passado, depois futuro.
Agora, no ventre curvo a felpa crespa,
as pernas como funis até aos pés,
o rabo quais polpas da humana árvore,
as calotes dos seios desejo de mãos.
Do amor sei o desejo no desejar
quando o primeiro fiz e sofri
formada na sua arca de vida,
sujeita à expulsão pela mater,
vim fêmea do negrume para a luz.
Ungida de matérias, tatuada de líquidos,
após o vagido, o som do chorar,
busquei o volume, o redondo do seio,
mãos hesitantes no tacto inicial.
Finda a busca, achado o alimento,
veio o crescer, a torrente viva,
soma de gestos, levedura de sons,
qual labirinto de espelhos feito.
Imagem de imagens, o desenho do rosto,
o despertar do ser inscrito nos olhos,
nas linhas enigmas da mão aberta,
no pulsante relevo da pele branca.
Estar no mundo, função minha,
ter em memória a vida que vou sendo,
no crescimento do meu crescer,
primeiro passado, depois futuro.
Agora, no ventre curvo a felpa crespa,
as pernas como funis até aos pés,
o rabo quais polpas da humana árvore,
as calotes dos seios desejo de mãos.
Do amor sei o desejo no desejar
quando o primeiro fiz e sofri
1 021
Mário-Henrique Leiria
desejo eterno
No mundo o primeiro homem apareceu.
E com ele nasceu
a ânsia, sempre insatisfeita,
de lutar, de combater,
de dominar.
Os tempos rodaram.
As civilizações passaram.
Agora as multidões caldaicas
depois os exércitos do Egipto de Dáris
avassalaram toda a terra
na fúria eterna do domínio,
da guerra.
Milhões de homens pereceram.
Impérios famosos desapareceram
mas o desejo de lutar continuou.
(…)
E hoje, como ontem, como sempre,
o homem matará.
Desejo que nasceu com o primeiro
e só com o último
morrerá.
Afinal para quê tanto lutar?
Quando o homem que hoje foi poderoso
for banquete de vermes, imundície e podridão,
o mundo continua a girar,
o tempo passa,
e o homem nada conseguiu
no seu desejo eterno
de ilusão.
E com ele nasceu
a ânsia, sempre insatisfeita,
de lutar, de combater,
de dominar.
Os tempos rodaram.
As civilizações passaram.
Agora as multidões caldaicas
depois os exércitos do Egipto de Dáris
avassalaram toda a terra
na fúria eterna do domínio,
da guerra.
Milhões de homens pereceram.
Impérios famosos desapareceram
mas o desejo de lutar continuou.
(…)
E hoje, como ontem, como sempre,
o homem matará.
Desejo que nasceu com o primeiro
e só com o último
morrerá.
Afinal para quê tanto lutar?
Quando o homem que hoje foi poderoso
for banquete de vermes, imundície e podridão,
o mundo continua a girar,
o tempo passa,
e o homem nada conseguiu
no seu desejo eterno
de ilusão.
787
Mário-Henrique Leiria
desejo eterno
No mundo o primeiro homem apareceu.
E com ele nasceu
a ânsia, sempre insatisfeita,
de lutar, de combater,
de dominar.
Os tempos rodaram.
As civilizações passaram.
Agora as multidões caldaicas
depois os exércitos do Egipto de Dáris
avassalaram toda a terra
na fúria eterna do domínio,
da guerra.
Milhões de homens pereceram.
Impérios famosos desapareceram
mas o desejo de lutar continuou.
(…)
E hoje, como ontem, como sempre,
o homem matará.
Desejo que nasceu com o primeiro
e só com o último
morrerá.
Afinal para quê tanto lutar?
Quando o homem que hoje foi poderoso
for banquete de vermes, imundície e podridão,
o mundo continua a girar,
o tempo passa,
e o homem nada conseguiu
no seu desejo eterno
de ilusão.
E com ele nasceu
a ânsia, sempre insatisfeita,
de lutar, de combater,
de dominar.
Os tempos rodaram.
As civilizações passaram.
Agora as multidões caldaicas
depois os exércitos do Egipto de Dáris
avassalaram toda a terra
na fúria eterna do domínio,
da guerra.
Milhões de homens pereceram.
Impérios famosos desapareceram
mas o desejo de lutar continuou.
(…)
E hoje, como ontem, como sempre,
o homem matará.
Desejo que nasceu com o primeiro
e só com o último
morrerá.
Afinal para quê tanto lutar?
Quando o homem que hoje foi poderoso
for banquete de vermes, imundície e podridão,
o mundo continua a girar,
o tempo passa,
e o homem nada conseguiu
no seu desejo eterno
de ilusão.
787
Mário-Henrique Leiria
desejo eterno
No mundo o primeiro homem apareceu.
E com ele nasceu
a ânsia, sempre insatisfeita,
de lutar, de combater,
de dominar.
Os tempos rodaram.
As civilizações passaram.
Agora as multidões caldaicas
depois os exércitos do Egipto de Dáris
avassalaram toda a terra
na fúria eterna do domínio,
da guerra.
Milhões de homens pereceram.
Impérios famosos desapareceram
mas o desejo de lutar continuou.
(…)
E hoje, como ontem, como sempre,
o homem matará.
Desejo que nasceu com o primeiro
e só com o último
morrerá.
Afinal para quê tanto lutar?
Quando o homem que hoje foi poderoso
for banquete de vermes, imundície e podridão,
o mundo continua a girar,
o tempo passa,
e o homem nada conseguiu
no seu desejo eterno
de ilusão.
E com ele nasceu
a ânsia, sempre insatisfeita,
de lutar, de combater,
de dominar.
Os tempos rodaram.
As civilizações passaram.
Agora as multidões caldaicas
depois os exércitos do Egipto de Dáris
avassalaram toda a terra
na fúria eterna do domínio,
da guerra.
Milhões de homens pereceram.
Impérios famosos desapareceram
mas o desejo de lutar continuou.
(…)
E hoje, como ontem, como sempre,
o homem matará.
Desejo que nasceu com o primeiro
e só com o último
morrerá.
Afinal para quê tanto lutar?
Quando o homem que hoje foi poderoso
for banquete de vermes, imundície e podridão,
o mundo continua a girar,
o tempo passa,
e o homem nada conseguiu
no seu desejo eterno
de ilusão.
787
Mário-Henrique Leiria
desejo eterno
No mundo o primeiro homem apareceu.
E com ele nasceu
a ânsia, sempre insatisfeita,
de lutar, de combater,
de dominar.
Os tempos rodaram.
As civilizações passaram.
Agora as multidões caldaicas
depois os exércitos do Egipto de Dáris
avassalaram toda a terra
na fúria eterna do domínio,
da guerra.
Milhões de homens pereceram.
Impérios famosos desapareceram
mas o desejo de lutar continuou.
(…)
E hoje, como ontem, como sempre,
o homem matará.
Desejo que nasceu com o primeiro
e só com o último
morrerá.
Afinal para quê tanto lutar?
Quando o homem que hoje foi poderoso
for banquete de vermes, imundície e podridão,
o mundo continua a girar,
o tempo passa,
e o homem nada conseguiu
no seu desejo eterno
de ilusão.
E com ele nasceu
a ânsia, sempre insatisfeita,
de lutar, de combater,
de dominar.
Os tempos rodaram.
As civilizações passaram.
Agora as multidões caldaicas
depois os exércitos do Egipto de Dáris
avassalaram toda a terra
na fúria eterna do domínio,
da guerra.
Milhões de homens pereceram.
Impérios famosos desapareceram
mas o desejo de lutar continuou.
(…)
E hoje, como ontem, como sempre,
o homem matará.
Desejo que nasceu com o primeiro
e só com o último
morrerá.
Afinal para quê tanto lutar?
Quando o homem que hoje foi poderoso
for banquete de vermes, imundície e podridão,
o mundo continua a girar,
o tempo passa,
e o homem nada conseguiu
no seu desejo eterno
de ilusão.
787
Baltazar Dias
Malícia das mulheres
No que digo podeis ver
ser a mulher imperfeita,
no genesis podeis ler,
onde Deus a mandou ser
ao homem sempre sujeita.
Têm muitas, tão pouca fé,
por ter no mundo os sentidos,
que vemos (e assim é)
que tratam a seus maridos
como negros da guiné.
É já coisa tão comua
que os homens pisam c’os pés,
são tão feitas ao revés
se os maridos dizem ũa
elas lhes respondem dez.
Há aí homens tão sofridos,
e mulheres tão malvadas,
que quando estão agastadas
pelam barbas aos maridos
e os moem às pancadas.
Há aí mulher tão singela
que se ao lume põe o comer,
chama outra tal como ela,
comem as sopas da panela
e o mais que está a cozer.
E quando vem o marido,
ou da roça ou do mato
ou doutro qualquer partido,
por escuzar arruido
diz que o comeu o gato.
Cuidando que era verdade
o coitado, como peco,
e ela por sua maldade,
faz-lhe comer o pão seco
mui contra sua vontade.
Um homem em Roma havia
que se algum filho casava,
publicamente o chorava,
porque escravo o fazia
da mulher a quem o dava.
Se casava a filha rica,
quando alguém lhe perguntava,
alegremente dizia:
― Que um escravo comprava,
que seu cativo seria.
O homem que agora casa
sempre cativo há-de ser
da que lhe dão por mulher,
e ela há-de ter em casa
quem lhe ganhe de comer.
E, pois que a liberdade
é preço, que não tem par,
Senhor, esta é a verdade,
que não me quero casar
porque não tenho vontade.
Vosso conselho mui são,
não cura minha ferida,
perdoai-me, meu irmão,
pois sabeis que sujeição
encurta os dias da vida.
ser a mulher imperfeita,
no genesis podeis ler,
onde Deus a mandou ser
ao homem sempre sujeita.
Têm muitas, tão pouca fé,
por ter no mundo os sentidos,
que vemos (e assim é)
que tratam a seus maridos
como negros da guiné.
É já coisa tão comua
que os homens pisam c’os pés,
são tão feitas ao revés
se os maridos dizem ũa
elas lhes respondem dez.
Há aí homens tão sofridos,
e mulheres tão malvadas,
que quando estão agastadas
pelam barbas aos maridos
e os moem às pancadas.
Há aí mulher tão singela
que se ao lume põe o comer,
chama outra tal como ela,
comem as sopas da panela
e o mais que está a cozer.
E quando vem o marido,
ou da roça ou do mato
ou doutro qualquer partido,
por escuzar arruido
diz que o comeu o gato.
Cuidando que era verdade
o coitado, como peco,
e ela por sua maldade,
faz-lhe comer o pão seco
mui contra sua vontade.
Um homem em Roma havia
que se algum filho casava,
publicamente o chorava,
porque escravo o fazia
da mulher a quem o dava.
Se casava a filha rica,
quando alguém lhe perguntava,
alegremente dizia:
― Que um escravo comprava,
que seu cativo seria.
O homem que agora casa
sempre cativo há-de ser
da que lhe dão por mulher,
e ela há-de ter em casa
quem lhe ganhe de comer.
E, pois que a liberdade
é preço, que não tem par,
Senhor, esta é a verdade,
que não me quero casar
porque não tenho vontade.
Vosso conselho mui são,
não cura minha ferida,
perdoai-me, meu irmão,
pois sabeis que sujeição
encurta os dias da vida.
1 061
Mário-Henrique Leiria
Não me chamem senhor
Não me chamem senhor
foi o que eu disse
quando cheguei
ao caminho entre os teus seios
não sabiam
que eu possuía a tua língua
e falaram-me com extrema precaução
como se fala a um estrangeiro
não sou senhor de nada
apenas conheço a terra
líquida vegetal colorida quente
que desce dos rios que tu és
até ao teu umbigo
Yaffa
civilizações redondas e macias
antigas e cruéis
reunidas na estranha planície
que nunca me entregaste
estendendo-se entre amoras
até se encontrar
num tempo primeiro e decisivo
fundo único exacto
em colinas ondulantes
onde nascem cantantes vales
de laranjas
que se repetem pelo horizonte
até junto à orla do teu mar
deslizando entre cidades enterradas
a recordar vestígios de paisagens
como trombetas de ruído e sal
em caminhos de água e de memória
Yaffa
o teu sexo de repouso límpido
ao som da flauta do tof e dos figos
bei n’har Prat un’har Chideke!
foi o que eu disse
quando cheguei
ao caminho entre os teus seios
não sabiam
que eu possuía a tua língua
e falaram-me com extrema precaução
como se fala a um estrangeiro
não sou senhor de nada
apenas conheço a terra
líquida vegetal colorida quente
que desce dos rios que tu és
até ao teu umbigo
Yaffa
civilizações redondas e macias
antigas e cruéis
reunidas na estranha planície
que nunca me entregaste
estendendo-se entre amoras
até se encontrar
num tempo primeiro e decisivo
fundo único exacto
em colinas ondulantes
onde nascem cantantes vales
de laranjas
que se repetem pelo horizonte
até junto à orla do teu mar
deslizando entre cidades enterradas
a recordar vestígios de paisagens
como trombetas de ruído e sal
em caminhos de água e de memória
Yaffa
o teu sexo de repouso límpido
ao som da flauta do tof e dos figos
bei n’har Prat un’har Chideke!
643
Virgílio Martinho
A Cerveja Sabe
Preciso de cerveja para viver o poema,
da hora tardia para não ser o outro eu,
preciso de ouvir palavras dentro de mim
e de estar só como a estátua do jardim.
Comecei assim, pelo fim das coisas,
digo, no termo da vida, a cerveja sabe,
não há guerreiro, não há Virgílio,
há a morte como um espanto esperado.
Quando te bebo vejo o pero encarnado,
monto as cenas no palco inventado,
alinho-as uma a uma, são pedras erectas,
são soluços, silêncios, portas fechadas.
Escrever, disseram-me, é não ver quem vive,
é percorrer uma estrada com bicos,
apostar no cavalo alado, com chumbo na asa,
é ter nos lábios a guerra murmurada.
Preciso de cerveja, falo claro, sou eu,
apenas isto, num mundo de surpresas,
temporal inesperado, casa destruída,
flor escarlate, vegetal com cabeça.
Deslumbrado olho o corpo da esfinge,
suponho o arquitecto, deito-me na duna,
detesto a cadeira, odeio a cinza,
no dia em que bebo sento-me à espera.
da hora tardia para não ser o outro eu,
preciso de ouvir palavras dentro de mim
e de estar só como a estátua do jardim.
Comecei assim, pelo fim das coisas,
digo, no termo da vida, a cerveja sabe,
não há guerreiro, não há Virgílio,
há a morte como um espanto esperado.
Quando te bebo vejo o pero encarnado,
monto as cenas no palco inventado,
alinho-as uma a uma, são pedras erectas,
são soluços, silêncios, portas fechadas.
Escrever, disseram-me, é não ver quem vive,
é percorrer uma estrada com bicos,
apostar no cavalo alado, com chumbo na asa,
é ter nos lábios a guerra murmurada.
Preciso de cerveja, falo claro, sou eu,
apenas isto, num mundo de surpresas,
temporal inesperado, casa destruída,
flor escarlate, vegetal com cabeça.
Deslumbrado olho o corpo da esfinge,
suponho o arquitecto, deito-me na duna,
detesto a cadeira, odeio a cinza,
no dia em que bebo sento-me à espera.
1 095
Mário-Henrique Leiria
POEMA
eu sei
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como a ponte dos velhos manequins
aí
o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através
dos teus cabelos
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como a ponte dos velhos manequins
aí
o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através
dos teus cabelos
1 086
Virgílio Martinho
Uma Canção de Amor
Na cidade a noite
Entre nós o peixe
Estamos sós, amor,
Somos um do outro,
É simples.
Quando nos conhecemos,
Chovia.
Era inverno no mar.
Havia dinheiro,
Fomos ao baile.
Uma luz tinha nome,
Não era Deus, não era,
Havia também uma cama
E os nossos corpos eram macios.
Viajámos vezes sem conta,
Porque somos pessoas humildes,
Com um segredo apenas:
Vermo-nos no dia seguinte.
Por isso,
Lemos nos intervalos dos gestos,
Aprendemos a tabuada dos sentidos,
Bebemos cerveja gelada,
Fazemos canções castas.
Somos puros, é verdade,
Tanto que ninguém nos quer,
E tão inocentes no dia a dia,
Que temos dívidas.
Devemos os olhos que temos,
Devemos o vermelho dos lábios,
Devemos todos os sonhos,
Devemos o pão e o sal.
Certo temos sinais diferentes,
Luas que não acertam com eles,
Por vezes chegamos a ser perversos,
Porque eles são redondos, nós esguios,
Amor.
Mas o beijo que nos une
É um silêncio justo, alegre,
E o amor que fazemos
É como o vento sobre o vento.
Entre nós o peixe
Estamos sós, amor,
Somos um do outro,
É simples.
Quando nos conhecemos,
Chovia.
Era inverno no mar.
Havia dinheiro,
Fomos ao baile.
Uma luz tinha nome,
Não era Deus, não era,
Havia também uma cama
E os nossos corpos eram macios.
Viajámos vezes sem conta,
Porque somos pessoas humildes,
Com um segredo apenas:
Vermo-nos no dia seguinte.
Por isso,
Lemos nos intervalos dos gestos,
Aprendemos a tabuada dos sentidos,
Bebemos cerveja gelada,
Fazemos canções castas.
Somos puros, é verdade,
Tanto que ninguém nos quer,
E tão inocentes no dia a dia,
Que temos dívidas.
Devemos os olhos que temos,
Devemos o vermelho dos lábios,
Devemos todos os sonhos,
Devemos o pão e o sal.
Certo temos sinais diferentes,
Luas que não acertam com eles,
Por vezes chegamos a ser perversos,
Porque eles são redondos, nós esguios,
Amor.
Mas o beijo que nos une
É um silêncio justo, alegre,
E o amor que fazemos
É como o vento sobre o vento.
925
Virgílio Martinho
Biografia Inventada
Sou Úrsula, chamo-me Luísa,
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
1 118
Virgílio Martinho
Biografia Inventada
Sou Úrsula, chamo-me Luísa,
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
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