Poemas neste tema
Vida e Existência
Renato Rezende
Os Antepassados
Meu tio José gostava de ficar
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
975
Renato Rezende
Asas de Papel
Subir aos céus em asas de cristal
Subir aos céus
Subir aos céus em escadas de papel
Subir aos céus
Subir aos céus no elevador panorâmico
do Shopping Iguatemi
Não importa como:
Subir
São Paulo, março 1996
Subir aos céus
Subir aos céus em escadas de papel
Subir aos céus
Subir aos céus no elevador panorâmico
do Shopping Iguatemi
Não importa como:
Subir
São Paulo, março 1996
1 052
Renato Rezende
Recordo
Cada desejo do teu coração
Eu quero responder.
Te levo à Ibéria,
Te faço bela.
Te beijo por dentro e por fora.
(Teu corpo não tem nome)
És uma massa esparramada
Doce amor perdido.
Eu quero responder.
Te levo à Ibéria,
Te faço bela.
Te beijo por dentro e por fora.
(Teu corpo não tem nome)
És uma massa esparramada
Doce amor perdido.
1 008
Renato Rezende
Os Anjos
Um anjo desce e estende
o pequeno braço branco para mim:
--- Venha comigo
passar dez minutos no paraíso.
--- Não, eu digo,
não sou desses que têm tempo
para passear no paraíso.
Mas o anjo é misericordioso.
Sem perceber cochilo,
e por dez minutos sonho
com todas as cores do paraíso.
Boston, maio 1991
o pequeno braço branco para mim:
--- Venha comigo
passar dez minutos no paraíso.
--- Não, eu digo,
não sou desses que têm tempo
para passear no paraíso.
Mas o anjo é misericordioso.
Sem perceber cochilo,
e por dez minutos sonho
com todas as cores do paraíso.
Boston, maio 1991
1 086
Luci Collin
aos pés da letra
não sei você
mas eu por dentro estou quase num
nem existo______quase na lona no limbo
na face escura da lua
na rua a ver navios
quase imprevisto
não sei você mas eu
por dentro estou com um estrepe um engasgo
parece indeferimento
por dentro é rés movimento
é sem balanço___sem serventia
por dentro um estrago
não fosse o colibri aqui faz pouco
tinha me abstido dessa cena
tinha desistido desse filme
— espelho bissexto e algo turvo —
não fora o sol que entendi esplêndido
passava batido o entardecer vermelho
pela natureza desse ofício
pelo oficioso desse esforço
não sei você mas eu por dentro
sou só
_________texto
mas eu por dentro estou quase num
nem existo______quase na lona no limbo
na face escura da lua
na rua a ver navios
quase imprevisto
não sei você mas eu
por dentro estou com um estrepe um engasgo
parece indeferimento
por dentro é rés movimento
é sem balanço___sem serventia
por dentro um estrago
não fosse o colibri aqui faz pouco
tinha me abstido dessa cena
tinha desistido desse filme
— espelho bissexto e algo turvo —
não fora o sol que entendi esplêndido
passava batido o entardecer vermelho
pela natureza desse ofício
pelo oficioso desse esforço
não sei você mas eu por dentro
sou só
_________texto
766
Renato Rezende
Andaluza
A janela de serviço do pequeno apartamento
de Granada, onde morava com minha família
(eu, meu marido, três filhos, a empregada)
era também pequena, mas dava
para a rua ensolarada: as copas das árvores
das alamedas de Granada, e a vida, que passava
(sempre!) longe e iluminada.
Nova York, setembro 1995
de Granada, onde morava com minha família
(eu, meu marido, três filhos, a empregada)
era também pequena, mas dava
para a rua ensolarada: as copas das árvores
das alamedas de Granada, e a vida, que passava
(sempre!) longe e iluminada.
Nova York, setembro 1995
715
Ricardo Aleixo
BISPO DO ROSÁRIO
quem fez e refez
cem vezes o
caminho do mundo
até antes
cem vezes na
cabeça o longo
trecho entre o
mar e o
céu
quem re fez o
caminho da perda
com seu manto
de
ver deus filho.
cem vezes o
caminho do mundo
até antes
cem vezes na
cabeça o longo
trecho entre o
mar e o
céu
quem re fez o
caminho da perda
com seu manto
de
ver deus filho.
745
Ricardo Aleixo
BISPO DO ROSÁRIO
quem fez e refez
cem vezes o
caminho do mundo
até antes
cem vezes na
cabeça o longo
trecho entre o
mar e o
céu
quem re fez o
caminho da perda
com seu manto
de
ver deus filho.
cem vezes o
caminho do mundo
até antes
cem vezes na
cabeça o longo
trecho entre o
mar e o
céu
quem re fez o
caminho da perda
com seu manto
de
ver deus filho.
745
Renato Rezende
A Mão
...
depois
o ardor do corpo se faz demasiado
e não queremos mais o gozo
e sim
somente o delicado
acariciar de nossos corpos
abandonados
por esta mão
(qual?)
que nos acariciava
enquanto nos acariciávamos.
Roma, abril 1991
depois
o ardor do corpo se faz demasiado
e não queremos mais o gozo
e sim
somente o delicado
acariciar de nossos corpos
abandonados
por esta mão
(qual?)
que nos acariciava
enquanto nos acariciávamos.
Roma, abril 1991
1 018
Zulmira Ribeiro Tavares
Surfista
Tinha o corpo pronto para fazer filhos
e surfar a grande.
Não lhe guardei o nome. Era um homem
de ancas estreitas e ombros largos.
O seu peito arrostava os repelões do ar.
Não perdia o equilíbrio
e a musculatura o trazia
a um palmo acima da água.
Tanta força e destreza
vinham-lhe do arcabouço exato.
Veloz, impunha respeito às gaivotas.
Elas não lhe batiam no crespo da cabeça
de caracóis duros como os das estátuas.
Era um homem feito
e sabia o quanto. Ele pensava
a sua descendência de ouro.
Esperma e espuma fosforesciam na noite.
O surfista corria pelo escuro do mar
sonhando novos obstáculos –
o olhar esperto e vigilante.
Golpeado por um impulso a contrapelo
– vagalhão sem lei –
a prancha partiu-se em dois
e os urubus lhe abriram espaço
no céu das gaivotas.
Da praia sua descendência se desata
no raso da vazante – maré vazia.
e surfar a grande.
Não lhe guardei o nome. Era um homem
de ancas estreitas e ombros largos.
O seu peito arrostava os repelões do ar.
Não perdia o equilíbrio
e a musculatura o trazia
a um palmo acima da água.
Tanta força e destreza
vinham-lhe do arcabouço exato.
Veloz, impunha respeito às gaivotas.
Elas não lhe batiam no crespo da cabeça
de caracóis duros como os das estátuas.
Era um homem feito
e sabia o quanto. Ele pensava
a sua descendência de ouro.
Esperma e espuma fosforesciam na noite.
O surfista corria pelo escuro do mar
sonhando novos obstáculos –
o olhar esperto e vigilante.
Golpeado por um impulso a contrapelo
– vagalhão sem lei –
a prancha partiu-se em dois
e os urubus lhe abriram espaço
no céu das gaivotas.
Da praia sua descendência se desata
no raso da vazante – maré vazia.
747
Zulmira Ribeiro Tavares
Surfista
Tinha o corpo pronto para fazer filhos
e surfar a grande.
Não lhe guardei o nome. Era um homem
de ancas estreitas e ombros largos.
O seu peito arrostava os repelões do ar.
Não perdia o equilíbrio
e a musculatura o trazia
a um palmo acima da água.
Tanta força e destreza
vinham-lhe do arcabouço exato.
Veloz, impunha respeito às gaivotas.
Elas não lhe batiam no crespo da cabeça
de caracóis duros como os das estátuas.
Era um homem feito
e sabia o quanto. Ele pensava
a sua descendência de ouro.
Esperma e espuma fosforesciam na noite.
O surfista corria pelo escuro do mar
sonhando novos obstáculos –
o olhar esperto e vigilante.
Golpeado por um impulso a contrapelo
– vagalhão sem lei –
a prancha partiu-se em dois
e os urubus lhe abriram espaço
no céu das gaivotas.
Da praia sua descendência se desata
no raso da vazante – maré vazia.
e surfar a grande.
Não lhe guardei o nome. Era um homem
de ancas estreitas e ombros largos.
O seu peito arrostava os repelões do ar.
Não perdia o equilíbrio
e a musculatura o trazia
a um palmo acima da água.
Tanta força e destreza
vinham-lhe do arcabouço exato.
Veloz, impunha respeito às gaivotas.
Elas não lhe batiam no crespo da cabeça
de caracóis duros como os das estátuas.
Era um homem feito
e sabia o quanto. Ele pensava
a sua descendência de ouro.
Esperma e espuma fosforesciam na noite.
O surfista corria pelo escuro do mar
sonhando novos obstáculos –
o olhar esperto e vigilante.
Golpeado por um impulso a contrapelo
– vagalhão sem lei –
a prancha partiu-se em dois
e os urubus lhe abriram espaço
no céu das gaivotas.
Da praia sua descendência se desata
no raso da vazante – maré vazia.
747
Renato Rezende
O Anjo Na Calçada
Douradas, rosas, azuis
na calçada
duas pétalas de flor
como asas,
borboleta
crucificada
Boston, setembro 1990
na calçada
duas pétalas de flor
como asas,
borboleta
crucificada
Boston, setembro 1990
1 060
Marília Garcia
estereofonia
ESTEREOFONIA
nunca falei tão sério, disse e olhei
para cima: seu rosto no meio das gotas,
o guarda-chuva preto como uma moldura redonda
e você parado, cantando, virado para o vidro
do carro, sem ouvir mais nada
só a voz
a voz cantando no meio da chuva
e o eco no vidro do carro.
essa poderia ser a descrição
completa, mas o caminho mais rápido,
de um ponto a outro, ele respondeu,
eu podia ter ido embora na hora
os cílios partidos e aquela voz
cantando - mas o caminho mais rápido,
ele diz, e eu olho pra cima de novo
e lembro da cor malva
e dele dizendo que é quase
malva, tem um pingo que torna tudo
malva, mas a única cor que lembro
era o nublado daquele dia
a única cor era o
chumbo daquela vez:
eu olhei pra cima e você ia embora
pelas escadas. no último degrau
não se vira mais.
- esse poema contém 12 passos, ele diz,
e eu saio contando a distância
enquanto caminho dizendo o poema de cor,
mas daquele dia só me lembro
da cor de chumbo e a voz
em eco no vidro do carro.
olho para cima outra vez
e vejo sempre o mesmo
guarda-chuva preto, moldura para
descongelar cada um dos degraus,
para descongelar a ordem
do verso seguinte:
panorâmica, golpe e caixa-preta.
você vai sempre pelo som?
- que som?
nunca falei tão sério, disse e olhei
para cima: seu rosto no meio das gotas,
o guarda-chuva preto como uma moldura redonda
e você parado, cantando, virado para o vidro
do carro, sem ouvir mais nada
só a voz
a voz cantando no meio da chuva
e o eco no vidro do carro.
essa poderia ser a descrição
completa, mas o caminho mais rápido,
de um ponto a outro, ele respondeu,
eu podia ter ido embora na hora
os cílios partidos e aquela voz
cantando - mas o caminho mais rápido,
ele diz, e eu olho pra cima de novo
e lembro da cor malva
e dele dizendo que é quase
malva, tem um pingo que torna tudo
malva, mas a única cor que lembro
era o nublado daquele dia
a única cor era o
chumbo daquela vez:
eu olhei pra cima e você ia embora
pelas escadas. no último degrau
não se vira mais.
- esse poema contém 12 passos, ele diz,
e eu saio contando a distância
enquanto caminho dizendo o poema de cor,
mas daquele dia só me lembro
da cor de chumbo e a voz
em eco no vidro do carro.
olho para cima outra vez
e vejo sempre o mesmo
guarda-chuva preto, moldura para
descongelar cada um dos degraus,
para descongelar a ordem
do verso seguinte:
panorâmica, golpe e caixa-preta.
você vai sempre pelo som?
- que som?
652
Renato Rezende
Mulher
a A.L.A.
A mulher, nua
diante do espelho.
Eis, no meio da vida
o prazer verdadeiro.
Em círculo beija
a própria ferida,
o próprio seio.
Cambridge, maio 1989
A mulher, nua
diante do espelho.
Eis, no meio da vida
o prazer verdadeiro.
Em círculo beija
a própria ferida,
o próprio seio.
Cambridge, maio 1989
731
Renato Rezende
Mulher
a A.L.A.
A mulher, nua
diante do espelho.
Eis, no meio da vida
o prazer verdadeiro.
Em círculo beija
a própria ferida,
o próprio seio.
Cambridge, maio 1989
A mulher, nua
diante do espelho.
Eis, no meio da vida
o prazer verdadeiro.
Em círculo beija
a própria ferida,
o próprio seio.
Cambridge, maio 1989
731
Renato Rezende
Piazza San Marco
Gerações de homens
de pombas
de gôndolas
no entanto o ar está fresco
e como se pela primeira vez
o sol nasce
Veneza, julho 1984 --
São Paulo, abril 1996
de pombas
de gôndolas
no entanto o ar está fresco
e como se pela primeira vez
o sol nasce
Veneza, julho 1984 --
São Paulo, abril 1996
1 113
Renato Rezende
Piazza San Marco
Gerações de homens
de pombas
de gôndolas
no entanto o ar está fresco
e como se pela primeira vez
o sol nasce
Veneza, julho 1984 --
São Paulo, abril 1996
de pombas
de gôndolas
no entanto o ar está fresco
e como se pela primeira vez
o sol nasce
Veneza, julho 1984 --
São Paulo, abril 1996
1 113
Renato Rezende
O Quarto
Aqui ficará a mesa,
e nessa gaveta
os novos poemas que escreverei;
aqui a vitrola
e os discos;
ali os livros,
a cama, a cadeira, a roupa,
a máquina de escrever.
Aqui (por quanto tempo?)
passará minha vida.
Boston, setembro 1990
e nessa gaveta
os novos poemas que escreverei;
aqui a vitrola
e os discos;
ali os livros,
a cama, a cadeira, a roupa,
a máquina de escrever.
Aqui (por quanto tempo?)
passará minha vida.
Boston, setembro 1990
749
Renato Rezende
Os Dias
Sobre a estante de madeira
um lenço bordado por um antepassado;
sobre esse delicado trabalho
um copo de plástico:
vaso
para flores amarelas
como astros no espaço.
Assim --
passam os dias.
Boston, setembro 1990
um lenço bordado por um antepassado;
sobre esse delicado trabalho
um copo de plástico:
vaso
para flores amarelas
como astros no espaço.
Assim --
passam os dias.
Boston, setembro 1990
1 120
Renato Rezende
Os Dias
Sobre a estante de madeira
um lenço bordado por um antepassado;
sobre esse delicado trabalho
um copo de plástico:
vaso
para flores amarelas
como astros no espaço.
Assim --
passam os dias.
Boston, setembro 1990
um lenço bordado por um antepassado;
sobre esse delicado trabalho
um copo de plástico:
vaso
para flores amarelas
como astros no espaço.
Assim --
passam os dias.
Boston, setembro 1990
1 120
Renato Rezende
Poema Mudo
Quero escrever uma poesia calada.
Que cada palavra exista em si, um corpo.
Que cada palavra seja tempo, pedra, rosto.
Que, principalmente, a poesia seja amor, e cada palavra
o amor feito palavra. Quero um poema
que tenha o significado da vida.
(A palavra esboçada e jamais dita;
o corpo, frágil, refletido no espelho).
Quero um verso forte e passageiro.
(Um rosto amado, e nunca mais visto;
o filho que sonhamos, e que não velo).
Que cada palavra exista em si, um corpo.
Que cada palavra seja tempo, pedra, rosto.
Que, principalmente, a poesia seja amor, e cada palavra
o amor feito palavra. Quero um poema
que tenha o significado da vida.
(A palavra esboçada e jamais dita;
o corpo, frágil, refletido no espelho).
Quero um verso forte e passageiro.
(Um rosto amado, e nunca mais visto;
o filho que sonhamos, e que não velo).
1 173
Luci Collin
declaração
que disparate tentar falar de amor
num poema______neste poema
não se conserva do outono
o adágio do pássaro
não se leva para além da memória
o delírio que a boca conheceu da fruta
sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade
sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci
num poema______neste poema
não se conserva do outono
o adágio do pássaro
não se leva para além da memória
o delírio que a boca conheceu da fruta
sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade
sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci
706
Luci Collin
declaração
que disparate tentar falar de amor
num poema______neste poema
não se conserva do outono
o adágio do pássaro
não se leva para além da memória
o delírio que a boca conheceu da fruta
sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade
sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci
num poema______neste poema
não se conserva do outono
o adágio do pássaro
não se leva para além da memória
o delírio que a boca conheceu da fruta
sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade
sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci
706
Zulmira Ribeiro Tavares
Vesuvio
Tua cabeça a prumo emplaca o tempo.
Dentro dela guardas o Vesuvio
que nunca chegaste a ter em pedra e lava,
mas em tela, plasma, figura.
Perto do Vesuvio, em esfuminho,
o perfil de teu amor esvaecido
há tantos anos.
E escutas chegar pelo esfuminho
como por um canal de cinzas
o professor Silvério cantarolando
nas aulas de desenho, o teu fracasso.
E tens no teu fracasso a mão direita
duplicada dentro da cabeça
suja de carvão e tinta a óleo.
A esquerda se apoia no joelho
e faz figa para o mundo: um sucesso.
Tua cabeça a acolhe com ternura
e com firmeza a ambas:
a submissa e a da recusa.
Um dia arrastarás, a tua cabeça,
para altas esferas,
como o saco de Noel (que delas desce)
a quem chamam pai,
papai para os pequenos —
pelo que distribui de vida adulta
adiantada em maquete e aos pedaços
com o impagável nome de brinquedos.
Cruzarás com ele e te farás de sonso.
Já tu agora de nada queres ser destituído.
Isso foi antes.
Sem acordo com Noel, não distribuirás,
e a usura será a tua força.
Sobre o teu pescoço, firmes
como o saco de Noel nos ombros,
terás dentro da cabeça
vivos, tudo:
do Vesuvio em tela à lava do teu corpo.
Dentro dela guardas o Vesuvio
que nunca chegaste a ter em pedra e lava,
mas em tela, plasma, figura.
Perto do Vesuvio, em esfuminho,
o perfil de teu amor esvaecido
há tantos anos.
E escutas chegar pelo esfuminho
como por um canal de cinzas
o professor Silvério cantarolando
nas aulas de desenho, o teu fracasso.
E tens no teu fracasso a mão direita
duplicada dentro da cabeça
suja de carvão e tinta a óleo.
A esquerda se apoia no joelho
e faz figa para o mundo: um sucesso.
Tua cabeça a acolhe com ternura
e com firmeza a ambas:
a submissa e a da recusa.
Um dia arrastarás, a tua cabeça,
para altas esferas,
como o saco de Noel (que delas desce)
a quem chamam pai,
papai para os pequenos —
pelo que distribui de vida adulta
adiantada em maquete e aos pedaços
com o impagável nome de brinquedos.
Cruzarás com ele e te farás de sonso.
Já tu agora de nada queres ser destituído.
Isso foi antes.
Sem acordo com Noel, não distribuirás,
e a usura será a tua força.
Sobre o teu pescoço, firmes
como o saco de Noel nos ombros,
terás dentro da cabeça
vivos, tudo:
do Vesuvio em tela à lava do teu corpo.
809