Lista de Poemas

Plantio

Lavrado o trato, fica o homem em seu domínio.
Joga o jogo do roçado. Calca a planta do plantio,
cava a cova para a sobra. Mas se o jogo que ele
joga faz do ganho o seu contrário, dá em troça
com o contrato então lavrado.

                                     Cava,
                             então descansa.
              Enxada: fio de corte corre o braço
                                 de cima
                  e marca: pés, pés de barro.
                                    Cova.

                                    Joga,
                           então não pensa.
            Semente; grão de poda larga a palma
                                  de lado
                 e sonda: foz, foz de água.
                                   Cava.

                                  Calca
                        e não relembra.
        Demência; mão de louco lança a pedra
                                de perto
                e sopra: céu, céu de treva.
                                   Cova.

                                  Molha
                          e não dispensa.
          Adubo; pó de esterco mancha  o lodo
                                 de longo
                  e forma: nó, nó de mofo.
                                   Joga.

                                  Troca,
                          então condena.
         Contrato; quê de paga perde o ganho
                                 de hora
                e troça: mais, mais de ano.
                                  Calca.

                                  Cova:
                      e não se espanta.
         Plantio; fé e safra sofre o homem
                              de morte
              e morre: rês, rés de fome
                                  cava.
1 048

Agiotagem

um
dois
três
o juro:o prazo
o pôr / o cento / o mês / o ágio

p o r c e n t a g i o.

dez
cem
mil
o lucro:o dízimo
o ágio / a mora / a monta em péssimo

e m p r é s t i m o.

muito
nada
tudo
a quebra:a sobra
a monta / o pé / o cento / a quota

h a j a   n o t a
agiota.
1 521

Os meninos

Verde, verde grama.
Negra, negra madrugada.

– Nas entranhas
dos meninos,
recém-vindos,
um rio corria
para serem ágeis
como pedras lavadas.

Negra, negra madrugada.
 
– Todavia,
o que corria
pela estrada
era o duro
vento frio,
negro sopro
d’água parada;
poça d’água
morto rio
que secava
nas entranhas
dos meninos
sem mais nada.
Verde, verde,
verde grama.

Negra, negra madrugada.

– Um rosto
em cada poça,
sem cavalo,
sem colheita,
terra batida
e solta,
espantalhos
pela cerca,
morta roça,
os meninos
recém-findos
eram a própria
cavalgada
de cavaleiros
fantasmas
no seu galope
de fome,
feito lobo
feito homem
feito mula sem cabeça
fugindo da noite espessa.

Verde, verde,
verde grama.
Negra, negra cavalgada.
745

O TOLO E O SÁBIO

O sábio que há em você
não sabe o que sabe
o tolo que não se vê.

Sabe que não se vê
o tolo que não sabe
o que há de sábio em você.

Mas do tolo que há em você
não sabe o sábio que você vê.
971

SIDERURGIA S.O.S.

Se  der  o  ouro  sidéreo  opus  horáriO
Sem   sol   o   sal   do   erário   saláriO

Ser der orgia  semistério o empresáriO
Siderurgia   do   opus  o  só  do  eráriO

Se  der  a  via  do  pus   opus    erradO
Se der o certo no errado o  empregadO

Se  der  errado  no certo o emprecáriO
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A língua

Os lábios se gastam.
O escuro os prende
enquanto a língua
revira a esponja
do verbo prenhe
que diz a longa
missão de légua
por entre a vária
paixão sem leme.
 
A língua espanta.
Contém saliva
hidrato e fera.
Contém a festa
do bicho em viva
espécie de meta
que se diz salva
na hora avessa.
Vão susto rude
que nos desperta
da baba espessa
de sermos queda.

A língua queima.
A língua enxuga.
Mário a externa
na risca e ruga
do rosto, emblema
lançado à área
da só angústia,
já quente areia
que a chuva mansa
caída amena
amaina e suja.

Sempre a temos.
Cio depois véu
excita os remos
das vozes naves.

Em vão, Orfeu,
na voz dos ventos
(a nau das bodas)
soprou na lira
as águas leves
do mar Egeu,
falando a língua
das noves penas
do seu inferno,
das nove cordas
do seu mistério
que excita as aves.

O escuro a chama.
A língua despe.
A língua lambe
pelos morenos,
monte de vênus.
A língua fere
no som, na carne
que me reflete
homem sem norte.
Pois uso o termo
que já expresso,
rasgada a veste
que fecha o corpo
que fecha a fonte,
fechado esquema
da podre frase
que nos condena.

Língua, vírus, légua
esponja e régua.
Eu Mário, a fala.
Ela, a nossa carta
com o jogo inverso
de me ser forte
se me dispersa,
se me concentra
se me constata
a força exata
de não ser trôpego
nesta palavra
de fogo e fôlego
sem breu nem treva.

Acesa flecha,
liberta fera.
782

Espaço inaugural

O espaço que se mede
e que se perde
não é o tempo perdido
da memória.

Esquece.
O tempo que se perde
é o mesmo que fenece
a cada hora.

Na hora do homem
em casa.
Na hora do homem
na rua.
Na hora do espanto
desse homem
sem tempo
no espaço de cada canto.

Mas o cansaço do tempo
que se perde
não impede o espaço
que se inaugura.

O espaço do homem
na praça.
O espaço do homem
em luta
com a fúria de outro tempo
sua surda fúria muda.
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PEDRIN
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Identificação e contexto básico

Mário Chamie, nascido em São Paulo em 1933, foi um poeta, tradutor e professor brasileiro. Sua obra poética é reconhecida pela sua profundidade filosófica e pela experimentação formal, dialogando com as tradições literárias e com as vanguardas do século XX. Escreveu em português e dedicou-se também à tradução de obras literárias importantes.

Infância e formação

Nascido em uma família de origem libanesa, Chamie teve uma infância marcada pela imigração e pela riqueza cultural de sua herança. Formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), mas sua paixão pela literatura o levou a trilhar um caminho acadêmico e profissional voltado para as letras. Sua formação intelectual foi ampla, abrangendo filosofia, linguística e estudos literários.

Percurso literário

O percurso literário de Mário Chamie iniciou-se nas décadas de 1950 e 1960, um período de efervescência cultural no Brasil. Publicou seu primeiro livro de poemas, "A idade do serrote", em 1963. Ao longo de sua carreira, publicou diversos livros de poesia, explorando diferentes fases de sua escrita, que variava entre o lirismo introspectivo e a experimentação mais radical. Além de poeta, Chamie foi um tradutor prolífico, responsável por verter para o português obras de autores como T.S. Eliot, Fernando Pessoa e William Shakespeare.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras poéticas de Chamie incluem "A idade do serrote" (1963), "O corpo e o sangue" (1977), "Os olhos do abismo" (1997) e "O amor é um fogo que arde" (2002). Seus temas centrais abordam a condição humana, a busca por sentido, a religiosidade, o amor, a efemeridade do tempo e a relação entre o ser e o universo. Formalmente, sua poesia demonstra um rigor notável, com um uso expressivo da linguagem, que pode variar do verso livre à métrica mais elaborada. Sua obra é marcada pela densidade semântica, pela imagética poderosa e por uma musicalidade intrínseca. É associado a uma poesia que busca a transcendência e o aprofundamento existencial, muitas vezes com um tom filosófico e metafísico.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Mário Chamie viveu e produziu sua obra em um período de grandes transformações no Brasil e no mundo, incluindo a ditadura militar no país. Sua poesia, embora muitas vezes introspectiva, reflete preocupações com a condição humana e com as questões existenciais que permeiam a sociedade. Manteve contato com outros escritores e intelectuais de sua geração, participando ativamente do cenário cultural brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Mário Chamie, embora menos documentada publicamente, parece ter sido dedicada à reflexão e à busca artística e intelectual. Sua origem libanesa e sua formação em direito podem ter influenciado sua visão de mundo e sua abordagem à linguagem e à cultura. Sua dedicação à tradução revela um profundo amor pela literatura e um desejo de conectar diferentes universos culturais.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de Mário Chamie cresceu ao longo do tempo, tanto pela crítica quanto pelo público leitor interessado em uma poesia mais elaborada e reflexiva. Suas traduções também foram amplamente elogiadas por sua fidelidade e qualidade literária. É considerado um dos poetas importantes da literatura brasileira contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Chamie foi influenciado por poetas como Fernando Pessoa, T.S. Eliot e Carlos Drummond de Andrade, e por correntes filosóficas que exploram a condição humana. Seu legado reside na sua capacidade de unir rigor formal a uma profunda exploração existencial e espiritual, além de seu importante trabalho como tradutor, que ampliou o acesso a obras fundamentais da literatura universal.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Mário Chamie é frequentemente analisada sob a ótica de sua densidade filosófica e de sua busca por um sentido transcendente. Críticos destacam sua habilidade em criar imagens que conectam o particular ao universal, o corpóreo ao espiritual. Sua obra tem sido objeto de estudos acadêmicos que exploram suas complexas camadas de significado e sua contribuição para a poesia brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante de sua carreira é a dualidade entre sua formação jurídica e sua profunda dedicação à poesia e à tradução literária. Sua abordagem à tradução demonstrava um cuidado minucioso com a palavra e com a recriação estética do texto original.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Mário Chamie faleceu em 2010, deixando um legado poético e tradutório significativo. Sua obra continua a ser revisitada e celebrada, consolidando seu lugar na história da literatura brasileira.