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Poemas neste tema

Vida e Existência

Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

Acerca da História

Num dia de Março caminhei para escutar até à beira do lago.
O gelo era azul como o céu. E quebrava-se ao sol.
O sol sussurrava a um microfone debaixo do gelo.
Há um fervilhar e borbotar. De longe parece uma folha de papel
a ser amarrotada.
Tudo isto é como a História: o nosso presente. Descemos
nele, escutamos. 

II
Conferências são como ilhas instáveis e voadoras.
Epílogo: uma frágil ponte suspensa de compromissos.
O tráfego inteiro passa por cima daquela ponte debaixo de estrelas,
debaixo de faces de crianças ainda por nascer, pálidas,
abandonadas, sem nome como grãos de arroz.

III
Em 1926, Goethe visitou a África disfarçado de Gide e reparou
nisso.
Há rostos que se tornam mais nítidos pelo que vêem depois da morte.
Ao chegarem notícias diárias da Argélia pela rádio
vi uma casa enorme e todas as janelas da casa eram escuras
excepto uma. Era dessa mesma que o rosto de Dreyfus olhava.

IV
Radical e Reaccionário vivem juntos como num casamento
miserável,
diminuídos um pelo outro, encostados um ao outro.
Mas nós, os seus filhos, temos de encontrar o nosso caminho.
Cada problema exige a sua linguagem privada. 
Por qualquer vereda em que haja um traço de verdade, caminhem.

V
Num baldio não longe das leiras
há meses que está um jornal aberto cheio de notícias.
Envelhece devido ao dia e à noite, chuva e sol.
Está a ponto de se tornar uma planta, um repolho. Está
a unir-se à terra
como uma memória antiga que se transforma gradualmente em ti.
714
Harry Martinson

Harry Martinson

Ajuste de contas

A folhagem vespertina do final do verão se 
     escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
     Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
     em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
     às tardes de tranquilizantes.


Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
     homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias 
     rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
     anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
     tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo 
     jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
      que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
     que desejas sem sombra.


Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há 
     verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até 
     o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
     vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
     apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
      a consomes,
depois nada mais.
739
Harry Martinson

Harry Martinson

Ajuste de contas

A folhagem vespertina do final do verão se 
     escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
     Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
     em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
     às tardes de tranquilizantes.


Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
     homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias 
     rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
     anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
     tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo 
     jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
      que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
     que desejas sem sombra.


Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há 
     verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até 
     o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
     vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
     apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
      a consomes,
depois nada mais.
739
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

Solidão

I
Aqui, estive a ponto de morrer numa noite de Fevereiro.
O carro patinou no gelo, derrapou de lado e seguiu
na faixa contrária. Os carros aproximando-se –
os seus faróis – cada vez mais perto.

O meu nome, as minhas filhas, o meu emprego
desprenderam-se e ficaram para trás em silêncio
cada vez mais para trás. Eu estava anónimo,
como uma criança num pátio de colégio cercada de inimigos.

Era poderosa a luz do tráfego aproximando-se.
Iluminava-me à medida que girava e girava
o volante num medo transparente agitado como clara de ovo.
Os segundos dilatavam-se – ocupando mais espaço –
engrandeciam como edifícios de hospital. 

Podia-se quase ficar à vontade
e um tudo nada descontraído
antes do choque se dar.

Então surgiu terra firme: veio em socorro um grão de areia
ou uma rajada súbita de vento. O carro agarrou-se
derrapou, atravessou a estrada.
Elevou-se um poste e quebrou-se – um som vibrante
juntou-se à escuridão.

Até que chegou o silêncio. Sentado e seguro pelo cinto
vi alguém caminhar no turbilhão da neve
para ver o que restava de mim.

II
A caminhar durante horas
pelos campos gelados da Suécia
não consegui ver ninguém.

Noutras partes do mundo
pessoas nascem, vivem e morrem
em perpétua multidão.

Ser constantemente visível – viver
num enxame de olhos –
deixa marcas no rosto.
Sulcos revestidos de pó.

O murmúrio que sobe e desce
enquanto dividem entre si
o céu, as sombras, os grãos de areia. 

Tenho de estar a sós
dez minutos pela manhã
dez minutos pela tarde.
- Sem fazer nada.
Todos fazem fila à porta de todos.
Muitos.
Um.
438
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

Solidão

I
Aqui, estive a ponto de morrer numa noite de Fevereiro.
O carro patinou no gelo, derrapou de lado e seguiu
na faixa contrária. Os carros aproximando-se –
os seus faróis – cada vez mais perto.

O meu nome, as minhas filhas, o meu emprego
desprenderam-se e ficaram para trás em silêncio
cada vez mais para trás. Eu estava anónimo,
como uma criança num pátio de colégio cercada de inimigos.

Era poderosa a luz do tráfego aproximando-se.
Iluminava-me à medida que girava e girava
o volante num medo transparente agitado como clara de ovo.
Os segundos dilatavam-se – ocupando mais espaço –
engrandeciam como edifícios de hospital. 

Podia-se quase ficar à vontade
e um tudo nada descontraído
antes do choque se dar.

Então surgiu terra firme: veio em socorro um grão de areia
ou uma rajada súbita de vento. O carro agarrou-se
derrapou, atravessou a estrada.
Elevou-se um poste e quebrou-se – um som vibrante
juntou-se à escuridão.

Até que chegou o silêncio. Sentado e seguro pelo cinto
vi alguém caminhar no turbilhão da neve
para ver o que restava de mim.

II
A caminhar durante horas
pelos campos gelados da Suécia
não consegui ver ninguém.

Noutras partes do mundo
pessoas nascem, vivem e morrem
em perpétua multidão.

Ser constantemente visível – viver
num enxame de olhos –
deixa marcas no rosto.
Sulcos revestidos de pó.

O murmúrio que sobe e desce
enquanto dividem entre si
o céu, as sombras, os grãos de areia. 

Tenho de estar a sós
dez minutos pela manhã
dez minutos pela tarde.
- Sem fazer nada.
Todos fazem fila à porta de todos.
Muitos.
Um.
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