Poemas neste tema
Vida e Existência
Yi Sáng
Poema n. 14
Há um gra ma do em fren te ao ve lho cas te lo e so bre es te gra
ma do des can so o meu cha péu. Do to po do cas te lo a mar ro u
ma pe dra bem pe sa da à mi nha me mó ria e a lan ço a té on de
al can ça a dis tân cia da mi nha for ça. Ou ço o cho ro tris te da
his tó ria que re tro ce de so bre su a tra je tó ria pa ra bó li ca.
Num da do mo men to, ve jo a bai xo um men di go pos ta do ao
la do do meu cha péu co mo um guar di ão de pe dra. A in da que
lá em bai xo o men di go es tá a ci ma de mim. Ou se rá a al ma e
xâ ni me do so ma tó rio da his tó ria? A fun du ra do meu cha
péu a ber to em di re ção ao es pa ço in vo ca o céu i mi nen te.
Su bi ta men te, o men di go en cur va o seu ar tre me tre men te
e jo ga u ma pe dra pa ra den tro do meu cha péu. Eu já des mai
ei. Ve jo um ma pa em que o co ra ção se trans la da pa ra den
tro do crâ nio. U ma gé li da mão se en cos ta à mi nha tes ta. Na
mi nha tes ta a gé li da mão dei xa su a mar ca que nun ca mais
se a pa gou.
ma do des can so o meu cha péu. Do to po do cas te lo a mar ro u
ma pe dra bem pe sa da à mi nha me mó ria e a lan ço a té on de
al can ça a dis tân cia da mi nha for ça. Ou ço o cho ro tris te da
his tó ria que re tro ce de so bre su a tra je tó ria pa ra bó li ca.
Num da do mo men to, ve jo a bai xo um men di go pos ta do ao
la do do meu cha péu co mo um guar di ão de pe dra. A in da que
lá em bai xo o men di go es tá a ci ma de mim. Ou se rá a al ma e
xâ ni me do so ma tó rio da his tó ria? A fun du ra do meu cha
péu a ber to em di re ção ao es pa ço in vo ca o céu i mi nen te.
Su bi ta men te, o men di go en cur va o seu ar tre me tre men te
e jo ga u ma pe dra pa ra den tro do meu cha péu. Eu já des mai
ei. Ve jo um ma pa em que o co ra ção se trans la da pa ra den
tro do crâ nio. U ma gé li da mão se en cos ta à mi nha tes ta. Na
mi nha tes ta a gé li da mão dei xa su a mar ca que nun ca mais
se a pa gou.
604
Mauro Mota
SÓROR FELICIDADE
Sob o outono sem luz, nesta tarde amarela,
Uma rosa de Deus lentamente fenece
e se estorce de dor e agoniza na cela…
Lusco-fusco. Tristeza. O sol morre. Anoitece…
Tem quinze anos somente! é tão moça! é tão bela!
Com seus lábios sem cor balbucia uma prece.
Atira o último olhar através da janela:
vê a Vida lá fora e a lua que aparece.
Eis meus olhos ciriais velando-lhe a agonia,
Lentamente fenece e, assim, lívida e calma,
é uma santa do céu! Santa Melancolia!
Mas, súbito, na cela, um frêmito de ânsia corre,
E, no Claustro da Dor Imensa de Minh’alma,
Sóror Felicidade abre os braços e morre.
Uma rosa de Deus lentamente fenece
e se estorce de dor e agoniza na cela…
Lusco-fusco. Tristeza. O sol morre. Anoitece…
Tem quinze anos somente! é tão moça! é tão bela!
Com seus lábios sem cor balbucia uma prece.
Atira o último olhar através da janela:
vê a Vida lá fora e a lua que aparece.
Eis meus olhos ciriais velando-lhe a agonia,
Lentamente fenece e, assim, lívida e calma,
é uma santa do céu! Santa Melancolia!
Mas, súbito, na cela, um frêmito de ânsia corre,
E, no Claustro da Dor Imensa de Minh’alma,
Sóror Felicidade abre os braços e morre.
722
Paio Soares de Taveirós
Cantiga de amor
Como morreu quem nunca amar
se faz pela coisa que mais amou,
e quanto dela receou
sofreu, morrendo de pesar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Como morreu quem foi amar
quem nunca bem lhe quis fazer,
e de quem Deus lhe fez saber
que a morte havia de alcançar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Igual ao homem que endoideceu
com a grande mágoa que sentiu,
senhora, e nunca mais dormiu,
perdeu a paz, depois morreu,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Como morreu quem amou tal
mulher que nunca lhe quis bem
e a viu levada por alguém
que a não valia nem a vale,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Português antigo
Como morreu quen nunca ben
houve da ren que máis amou,
e quen viu quanto receou
dela, e foi morto por én:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Como morreu quen foi amar
quen lhe nunca quis ben fazer,
e de quen lhe fez Deus veer
de que foi morto con pesar:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Com'home que ensandeceu,
senhor, con gran pesar que viu,
e non foi ledo nen dormiu
depois, mia senhor, e morreu:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Como morreu quen amou tal
dona que lhe nunca fez ben,
e quen a viu levar a quen
a non valía, nen a val:
ai mia senhor, assí moir'eu!
se faz pela coisa que mais amou,
e quanto dela receou
sofreu, morrendo de pesar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Como morreu quem foi amar
quem nunca bem lhe quis fazer,
e de quem Deus lhe fez saber
que a morte havia de alcançar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Igual ao homem que endoideceu
com a grande mágoa que sentiu,
senhora, e nunca mais dormiu,
perdeu a paz, depois morreu,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Como morreu quem amou tal
mulher que nunca lhe quis bem
e a viu levada por alguém
que a não valia nem a vale,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Português antigo
Como morreu quen nunca ben
houve da ren que máis amou,
e quen viu quanto receou
dela, e foi morto por én:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Como morreu quen foi amar
quen lhe nunca quis ben fazer,
e de quen lhe fez Deus veer
de que foi morto con pesar:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Com'home que ensandeceu,
senhor, con gran pesar que viu,
e non foi ledo nen dormiu
depois, mia senhor, e morreu:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Como morreu quen amou tal
dona que lhe nunca fez ben,
e quen a viu levar a quen
a non valía, nen a val:
ai mia senhor, assí moir'eu!
3 777
Mauro Mota
Miragem
Amigo:
A vida é um lago cristalino…
Ele guarda consigo
o segredo eternal do teu destino!
Vês? É uma noite de prata!
E, lá no fundo do lago,
a lua se retrata…
Numa atitude de cegonha,
sonhador, como quem sonha
um sonho vago,
contempla aquela imagem lá no fundo
do lago…
Ela é a felicidade deste mundo!
No entanto,
si a buscasses tocando a superfície quieta,
a água se turvaria! morreria o teu canto
de poeta…
É que, por culpa tua,
desvendando o segredo do destino,
jamais verias, no lago cristalino,
a imagem da lua! a imagem da lua!
A vida é um lago cristalino…
Ele guarda consigo
o segredo eternal do teu destino!
Vês? É uma noite de prata!
E, lá no fundo do lago,
a lua se retrata…
Numa atitude de cegonha,
sonhador, como quem sonha
um sonho vago,
contempla aquela imagem lá no fundo
do lago…
Ela é a felicidade deste mundo!
No entanto,
si a buscasses tocando a superfície quieta,
a água se turvaria! morreria o teu canto
de poeta…
É que, por culpa tua,
desvendando o segredo do destino,
jamais verias, no lago cristalino,
a imagem da lua! a imagem da lua!
767
Osman Lins
II – Flagrantes Esportivos
— Os voos sobre a neve —
O lenço polido e frio.
É uma cauda de noiva,
o longo lençol de neve.
As asas guardam em si as possibilidade de voo.
Mas as asas do homem não têm plumas,
não participam de alturas:
são instrumentos de abraços
e suas únicas relações com a distância são os gestos de adeus.
Descendo, velos, na branca esteira de neve,
Um homem colhe no corpo um impulso que o lançara no ar.
(assim é possível colher,
numa rápida visão da namorada,
a subsequente alegria)
E o homem desprende-se do solo,
braços abertos,
lança à face das montanhas sua transitória e audaciosa revolta.
Fenece o impulso, o voo se interrompe;
esvai-se a alegria,
o homem desce.
§
A Cesta Enganosa
Num gesto de prestidigitador que solta um pombo,
um jogador endereça a bola ao companheiro , que corre.
Entre sua mão e o solo, a esfera traça
. . . . . . . . . . . . . [o desenho de um sismógrafo,
— tal como Virgínia, vestido de cambraia,
naquelas tardes antigas,
com sua ternura infantil a sua bola azul.
Entre os dez homens aflitos
há uma serie de equívocos.
Todos correm, a bola passa
de mão em mão. Afinal,
afinal, serenamente, como se buscava um ninho,
como corpo fatigado que se aninhasse na rede,
flor num jarro transparente ou anular num anel,
a bola acerta com a cesta.
Mas, oh! A cesta está furada
e permanece vazia
como anel sem anular.
§
A Devolução do Tempo
O trampolim é um braço estendido
com a iminência de um milagre na extremidade da mão.
Calma,
como a assinalar o princípio da canção que
[o seu próprio corpo contará no ar.
a moça estende os braços.
Há um silencio místico:
Estamos em face do sobrenatural.
A água da piscina estremece,
tem frêmitos de folhagem.
Os calcanhares se erguem
— e este sinal tem qualquer coisa de fronte que se inclina para um beijo.
Numa decisão de suicida,
o corpo iluminado se projeta,
é linha e fuso,
e seta disparada.
Veloz,
estrela libertada que finge itinerário de pássaro,
a flama vertical desaparece.
(Quem me trará de volta a saltadora?)
Torne o sol tornem os relógios,
torne o meu encantamento.
como estrela dissipada,
que refizesse o caminho
da própria rebelião,
a saltadora ressurge.
Afla, leve, a flor das águas,
e pousa no trampolim:
a sombra de um passarinho
que pousasse em minha mão,
não seria leve assim.
O lenço polido e frio.
É uma cauda de noiva,
o longo lençol de neve.
As asas guardam em si as possibilidade de voo.
Mas as asas do homem não têm plumas,
não participam de alturas:
são instrumentos de abraços
e suas únicas relações com a distância são os gestos de adeus.
Descendo, velos, na branca esteira de neve,
Um homem colhe no corpo um impulso que o lançara no ar.
(assim é possível colher,
numa rápida visão da namorada,
a subsequente alegria)
E o homem desprende-se do solo,
braços abertos,
lança à face das montanhas sua transitória e audaciosa revolta.
Fenece o impulso, o voo se interrompe;
esvai-se a alegria,
o homem desce.
§
A Cesta Enganosa
Num gesto de prestidigitador que solta um pombo,
um jogador endereça a bola ao companheiro , que corre.
Entre sua mão e o solo, a esfera traça
. . . . . . . . . . . . . [o desenho de um sismógrafo,
— tal como Virgínia, vestido de cambraia,
naquelas tardes antigas,
com sua ternura infantil a sua bola azul.
Entre os dez homens aflitos
há uma serie de equívocos.
Todos correm, a bola passa
de mão em mão. Afinal,
afinal, serenamente, como se buscava um ninho,
como corpo fatigado que se aninhasse na rede,
flor num jarro transparente ou anular num anel,
a bola acerta com a cesta.
Mas, oh! A cesta está furada
e permanece vazia
como anel sem anular.
§
A Devolução do Tempo
O trampolim é um braço estendido
com a iminência de um milagre na extremidade da mão.
Calma,
como a assinalar o princípio da canção que
[o seu próprio corpo contará no ar.
a moça estende os braços.
Há um silencio místico:
Estamos em face do sobrenatural.
A água da piscina estremece,
tem frêmitos de folhagem.
Os calcanhares se erguem
— e este sinal tem qualquer coisa de fronte que se inclina para um beijo.
Numa decisão de suicida,
o corpo iluminado se projeta,
é linha e fuso,
e seta disparada.
Veloz,
estrela libertada que finge itinerário de pássaro,
a flama vertical desaparece.
(Quem me trará de volta a saltadora?)
Torne o sol tornem os relógios,
torne o meu encantamento.
como estrela dissipada,
que refizesse o caminho
da própria rebelião,
a saltadora ressurge.
Afla, leve, a flor das águas,
e pousa no trampolim:
a sombra de um passarinho
que pousasse em minha mão,
não seria leve assim.
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Osman Lins
II – Flagrantes Esportivos
— Os voos sobre a neve —
O lenço polido e frio.
É uma cauda de noiva,
o longo lençol de neve.
As asas guardam em si as possibilidade de voo.
Mas as asas do homem não têm plumas,
não participam de alturas:
são instrumentos de abraços
e suas únicas relações com a distância são os gestos de adeus.
Descendo, velos, na branca esteira de neve,
Um homem colhe no corpo um impulso que o lançara no ar.
(assim é possível colher,
numa rápida visão da namorada,
a subsequente alegria)
E o homem desprende-se do solo,
braços abertos,
lança à face das montanhas sua transitória e audaciosa revolta.
Fenece o impulso, o voo se interrompe;
esvai-se a alegria,
o homem desce.
§
A Cesta Enganosa
Num gesto de prestidigitador que solta um pombo,
um jogador endereça a bola ao companheiro , que corre.
Entre sua mão e o solo, a esfera traça
. . . . . . . . . . . . . [o desenho de um sismógrafo,
— tal como Virgínia, vestido de cambraia,
naquelas tardes antigas,
com sua ternura infantil a sua bola azul.
Entre os dez homens aflitos
há uma serie de equívocos.
Todos correm, a bola passa
de mão em mão. Afinal,
afinal, serenamente, como se buscava um ninho,
como corpo fatigado que se aninhasse na rede,
flor num jarro transparente ou anular num anel,
a bola acerta com a cesta.
Mas, oh! A cesta está furada
e permanece vazia
como anel sem anular.
§
A Devolução do Tempo
O trampolim é um braço estendido
com a iminência de um milagre na extremidade da mão.
Calma,
como a assinalar o princípio da canção que
[o seu próprio corpo contará no ar.
a moça estende os braços.
Há um silencio místico:
Estamos em face do sobrenatural.
A água da piscina estremece,
tem frêmitos de folhagem.
Os calcanhares se erguem
— e este sinal tem qualquer coisa de fronte que se inclina para um beijo.
Numa decisão de suicida,
o corpo iluminado se projeta,
é linha e fuso,
e seta disparada.
Veloz,
estrela libertada que finge itinerário de pássaro,
a flama vertical desaparece.
(Quem me trará de volta a saltadora?)
Torne o sol tornem os relógios,
torne o meu encantamento.
como estrela dissipada,
que refizesse o caminho
da própria rebelião,
a saltadora ressurge.
Afla, leve, a flor das águas,
e pousa no trampolim:
a sombra de um passarinho
que pousasse em minha mão,
não seria leve assim.
O lenço polido e frio.
É uma cauda de noiva,
o longo lençol de neve.
As asas guardam em si as possibilidade de voo.
Mas as asas do homem não têm plumas,
não participam de alturas:
são instrumentos de abraços
e suas únicas relações com a distância são os gestos de adeus.
Descendo, velos, na branca esteira de neve,
Um homem colhe no corpo um impulso que o lançara no ar.
(assim é possível colher,
numa rápida visão da namorada,
a subsequente alegria)
E o homem desprende-se do solo,
braços abertos,
lança à face das montanhas sua transitória e audaciosa revolta.
Fenece o impulso, o voo se interrompe;
esvai-se a alegria,
o homem desce.
§
A Cesta Enganosa
Num gesto de prestidigitador que solta um pombo,
um jogador endereça a bola ao companheiro , que corre.
Entre sua mão e o solo, a esfera traça
. . . . . . . . . . . . . [o desenho de um sismógrafo,
— tal como Virgínia, vestido de cambraia,
naquelas tardes antigas,
com sua ternura infantil a sua bola azul.
Entre os dez homens aflitos
há uma serie de equívocos.
Todos correm, a bola passa
de mão em mão. Afinal,
afinal, serenamente, como se buscava um ninho,
como corpo fatigado que se aninhasse na rede,
flor num jarro transparente ou anular num anel,
a bola acerta com a cesta.
Mas, oh! A cesta está furada
e permanece vazia
como anel sem anular.
§
A Devolução do Tempo
O trampolim é um braço estendido
com a iminência de um milagre na extremidade da mão.
Calma,
como a assinalar o princípio da canção que
[o seu próprio corpo contará no ar.
a moça estende os braços.
Há um silencio místico:
Estamos em face do sobrenatural.
A água da piscina estremece,
tem frêmitos de folhagem.
Os calcanhares se erguem
— e este sinal tem qualquer coisa de fronte que se inclina para um beijo.
Numa decisão de suicida,
o corpo iluminado se projeta,
é linha e fuso,
e seta disparada.
Veloz,
estrela libertada que finge itinerário de pássaro,
a flama vertical desaparece.
(Quem me trará de volta a saltadora?)
Torne o sol tornem os relógios,
torne o meu encantamento.
como estrela dissipada,
que refizesse o caminho
da própria rebelião,
a saltadora ressurge.
Afla, leve, a flor das águas,
e pousa no trampolim:
a sombra de um passarinho
que pousasse em minha mão,
não seria leve assim.
580
Osman Lins
II – Flagrantes Esportivos
— Os voos sobre a neve —
O lenço polido e frio.
É uma cauda de noiva,
o longo lençol de neve.
As asas guardam em si as possibilidade de voo.
Mas as asas do homem não têm plumas,
não participam de alturas:
são instrumentos de abraços
e suas únicas relações com a distância são os gestos de adeus.
Descendo, velos, na branca esteira de neve,
Um homem colhe no corpo um impulso que o lançara no ar.
(assim é possível colher,
numa rápida visão da namorada,
a subsequente alegria)
E o homem desprende-se do solo,
braços abertos,
lança à face das montanhas sua transitória e audaciosa revolta.
Fenece o impulso, o voo se interrompe;
esvai-se a alegria,
o homem desce.
§
A Cesta Enganosa
Num gesto de prestidigitador que solta um pombo,
um jogador endereça a bola ao companheiro , que corre.
Entre sua mão e o solo, a esfera traça
. . . . . . . . . . . . . [o desenho de um sismógrafo,
— tal como Virgínia, vestido de cambraia,
naquelas tardes antigas,
com sua ternura infantil a sua bola azul.
Entre os dez homens aflitos
há uma serie de equívocos.
Todos correm, a bola passa
de mão em mão. Afinal,
afinal, serenamente, como se buscava um ninho,
como corpo fatigado que se aninhasse na rede,
flor num jarro transparente ou anular num anel,
a bola acerta com a cesta.
Mas, oh! A cesta está furada
e permanece vazia
como anel sem anular.
§
A Devolução do Tempo
O trampolim é um braço estendido
com a iminência de um milagre na extremidade da mão.
Calma,
como a assinalar o princípio da canção que
[o seu próprio corpo contará no ar.
a moça estende os braços.
Há um silencio místico:
Estamos em face do sobrenatural.
A água da piscina estremece,
tem frêmitos de folhagem.
Os calcanhares se erguem
— e este sinal tem qualquer coisa de fronte que se inclina para um beijo.
Numa decisão de suicida,
o corpo iluminado se projeta,
é linha e fuso,
e seta disparada.
Veloz,
estrela libertada que finge itinerário de pássaro,
a flama vertical desaparece.
(Quem me trará de volta a saltadora?)
Torne o sol tornem os relógios,
torne o meu encantamento.
como estrela dissipada,
que refizesse o caminho
da própria rebelião,
a saltadora ressurge.
Afla, leve, a flor das águas,
e pousa no trampolim:
a sombra de um passarinho
que pousasse em minha mão,
não seria leve assim.
O lenço polido e frio.
É uma cauda de noiva,
o longo lençol de neve.
As asas guardam em si as possibilidade de voo.
Mas as asas do homem não têm plumas,
não participam de alturas:
são instrumentos de abraços
e suas únicas relações com a distância são os gestos de adeus.
Descendo, velos, na branca esteira de neve,
Um homem colhe no corpo um impulso que o lançara no ar.
(assim é possível colher,
numa rápida visão da namorada,
a subsequente alegria)
E o homem desprende-se do solo,
braços abertos,
lança à face das montanhas sua transitória e audaciosa revolta.
Fenece o impulso, o voo se interrompe;
esvai-se a alegria,
o homem desce.
§
A Cesta Enganosa
Num gesto de prestidigitador que solta um pombo,
um jogador endereça a bola ao companheiro , que corre.
Entre sua mão e o solo, a esfera traça
. . . . . . . . . . . . . [o desenho de um sismógrafo,
— tal como Virgínia, vestido de cambraia,
naquelas tardes antigas,
com sua ternura infantil a sua bola azul.
Entre os dez homens aflitos
há uma serie de equívocos.
Todos correm, a bola passa
de mão em mão. Afinal,
afinal, serenamente, como se buscava um ninho,
como corpo fatigado que se aninhasse na rede,
flor num jarro transparente ou anular num anel,
a bola acerta com a cesta.
Mas, oh! A cesta está furada
e permanece vazia
como anel sem anular.
§
A Devolução do Tempo
O trampolim é um braço estendido
com a iminência de um milagre na extremidade da mão.
Calma,
como a assinalar o princípio da canção que
[o seu próprio corpo contará no ar.
a moça estende os braços.
Há um silencio místico:
Estamos em face do sobrenatural.
A água da piscina estremece,
tem frêmitos de folhagem.
Os calcanhares se erguem
— e este sinal tem qualquer coisa de fronte que se inclina para um beijo.
Numa decisão de suicida,
o corpo iluminado se projeta,
é linha e fuso,
e seta disparada.
Veloz,
estrela libertada que finge itinerário de pássaro,
a flama vertical desaparece.
(Quem me trará de volta a saltadora?)
Torne o sol tornem os relógios,
torne o meu encantamento.
como estrela dissipada,
que refizesse o caminho
da própria rebelião,
a saltadora ressurge.
Afla, leve, a flor das águas,
e pousa no trampolim:
a sombra de um passarinho
que pousasse em minha mão,
não seria leve assim.
580
Mauro Mota
Versos ao meu cigarro
Falam tanto de ti, pobre cigarro:
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.
Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…
Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…
Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…
Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!
Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.
Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…
Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…
Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…
Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!
Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
762
Mauro Mota
Versos ao meu cigarro
Falam tanto de ti, pobre cigarro:
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.
Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…
Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…
Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…
Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!
Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.
Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…
Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…
Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…
Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!
Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
762
Mauro Mota
Versos ao meu cigarro
Falam tanto de ti, pobre cigarro:
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.
Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…
Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…
Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…
Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!
Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.
Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…
Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…
Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…
Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!
Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
762
Victor Segalen
Pedra Musical
Eis o lugar onde se reconheceram os amantes
apaixonados pela flauta desigual;
Eis a mesa onde se alegraram o esposo hábil
e a moça inebriada;
Eis a cama onde eles se amavam pelos tons essenciais,
Através do metal dos sinos, da pele dura dos
sílex tilintantes,
Através dos cabelos do alaúde, no rumor dos tambores,
nas costas do tigre de madeira oca,
Entre o encantamento dos pavões de grito claro,
das gruas de chamado breve, da fênix de fala inaudita.
Eis o topo do palácio sonante que Mu-Kung (*),
o pai, ergueu para eles como um pedestal,
E eis – alçando-se mais suaves que fênix, aves fêmeas
e pavões – eis o espaço onde eles voaram.
Toquem-me: todas essas vozes vivem
na minha pedra musical.
Pierre Musicale
Voici le lieu où ils se reconnurent, les amants amoureux
de la flûte inégale;
Voici la table où ils se réjouirent l’époux habile
et la fille enivrée ;
Voici l’estrade où ils s’aimaient par les tons essentiels,
Au travers du métal des cloches, de la peau dure
des silex tintants,
À travers les cheveux du luth, dans la rumeur
des tambours, sur le dos du tigre de bois creux,
Parmi l’enchantement des paons au cri clair, des grues
à l’appel bref, du phénix au parler inouï.
Voici le faîte du palais sonnant que Mou-Koung, le père,
dressa pour eux comme un socle,
Et voilà, – d’un envol plus suave que phénix, oiselles
et paons, – voilà l’espace où ils ont pris essor.
Qu’on me touche : toutes ces voix vivente
dans ma pierre musicale.
apaixonados pela flauta desigual;
Eis a mesa onde se alegraram o esposo hábil
e a moça inebriada;
Eis a cama onde eles se amavam pelos tons essenciais,
Através do metal dos sinos, da pele dura dos
sílex tilintantes,
Através dos cabelos do alaúde, no rumor dos tambores,
nas costas do tigre de madeira oca,
Entre o encantamento dos pavões de grito claro,
das gruas de chamado breve, da fênix de fala inaudita.
Eis o topo do palácio sonante que Mu-Kung (*),
o pai, ergueu para eles como um pedestal,
E eis – alçando-se mais suaves que fênix, aves fêmeas
e pavões – eis o espaço onde eles voaram.
Toquem-me: todas essas vozes vivem
na minha pedra musical.
Pierre Musicale
Voici le lieu où ils se reconnurent, les amants amoureux
de la flûte inégale;
Voici la table où ils se réjouirent l’époux habile
et la fille enivrée ;
Voici l’estrade où ils s’aimaient par les tons essentiels,
Au travers du métal des cloches, de la peau dure
des silex tintants,
À travers les cheveux du luth, dans la rumeur
des tambours, sur le dos du tigre de bois creux,
Parmi l’enchantement des paons au cri clair, des grues
à l’appel bref, du phénix au parler inouï.
Voici le faîte du palais sonnant que Mou-Koung, le père,
dressa pour eux comme un socle,
Et voilà, – d’un envol plus suave que phénix, oiselles
et paons, – voilà l’espace où ils ont pris essor.
Qu’on me touche : toutes ces voix vivente
dans ma pierre musicale.
666
Yi Sáng
Poema n. 9
For te ven ta ni a to dos os di as e fi nal men te uma gran de mão
as sen ta so bre a mi nha cin tu ra. As sim que o chei ro do meu
su or al can çar o ma ra vi lho so va le da im pres sões di gi tais, a
ti re! He de a ti rar! Sin to o pe so do ca no do re vól ver so bre o
meu a pa re lho di ges ti vo e sin to a su per fí cie li sa de sua pon
ta den tro da mi nha bo ca cer ra da. Pou co de pois, fe cho os o
lhos co mo quem dá um ti ro, mas o que foi is to que cus pi pe la
bo ca no lu gar de um pro jé til?
as sen ta so bre a mi nha cin tu ra. As sim que o chei ro do meu
su or al can çar o ma ra vi lho so va le da im pres sões di gi tais, a
ti re! He de a ti rar! Sin to o pe so do ca no do re vól ver so bre o
meu a pa re lho di ges ti vo e sin to a su per fí cie li sa de sua pon
ta den tro da mi nha bo ca cer ra da. Pou co de pois, fe cho os o
lhos co mo quem dá um ti ro, mas o que foi is to que cus pi pe la
bo ca no lu gar de um pro jé til?
632
Alfredo Pedro de Meneses Guisado
BALOIÇO
Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
1 091
Alfredo Pedro de Meneses Guisado
BALOIÇO
Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
1 091
Alfredo Pedro de Meneses Guisado
BALOIÇO
Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
1 091
Alfredo Pedro de Meneses Guisado
BALOIÇO
Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
1 091
Mauro Mota
Natal
Natal, antes e agora
imutável. Feliz
noite branca sem hora
no pátio da Matriz.
Natal: os mesmos sinos
de repiques iguais.
Brinquedos e meninos,
Natal de outros natais.
A Banda, vozes, passos
da multidão fiel.
Tudo nos seus espaços,
o mundo e o carrossel.
Tudo, menos o andejo
homem que se conclui.
Olho-me, e não me vejo,
não sei para onde fui.
imutável. Feliz
noite branca sem hora
no pátio da Matriz.
Natal: os mesmos sinos
de repiques iguais.
Brinquedos e meninos,
Natal de outros natais.
A Banda, vozes, passos
da multidão fiel.
Tudo nos seus espaços,
o mundo e o carrossel.
Tudo, menos o andejo
homem que se conclui.
Olho-me, e não me vejo,
não sei para onde fui.
850
Mauro Mota
Natal
Natal, antes e agora
imutável. Feliz
noite branca sem hora
no pátio da Matriz.
Natal: os mesmos sinos
de repiques iguais.
Brinquedos e meninos,
Natal de outros natais.
A Banda, vozes, passos
da multidão fiel.
Tudo nos seus espaços,
o mundo e o carrossel.
Tudo, menos o andejo
homem que se conclui.
Olho-me, e não me vejo,
não sei para onde fui.
imutável. Feliz
noite branca sem hora
no pátio da Matriz.
Natal: os mesmos sinos
de repiques iguais.
Brinquedos e meninos,
Natal de outros natais.
A Banda, vozes, passos
da multidão fiel.
Tudo nos seus espaços,
o mundo e o carrossel.
Tudo, menos o andejo
homem que se conclui.
Olho-me, e não me vejo,
não sei para onde fui.
850
Tomas Tranströmer
HISTÓRIAS DE MARINHEIROS
Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.
Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.
(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.
Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.
Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.
(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.
Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
643
Yi Sáng
Poema n. 2
Quan do o meu pai dor mi ta ao meu la do eu me tor no o pai do
meu pai e tam bém me tor no o pai do pai do meu pai mas se o
meu pai na con di ção de meu pai é a in da meu pai en tão por
que mo ti vo eu me tor no o pai do pai….. do pai do pai do meu
pai por que mo ti vo eu de vo sal tar por ci ma do meu pai e fi
nal men te por que mo ti vo eu te nho de vi ver fa zen do o pa
pel de mim do meu pai e do pai do meu pai e do pai do pai do
meu pai?
meu pai e tam bém me tor no o pai do pai do meu pai mas se o
meu pai na con di ção de meu pai é a in da meu pai en tão por
que mo ti vo eu me tor no o pai do pai….. do pai do pai do meu
pai por que mo ti vo eu de vo sal tar por ci ma do meu pai e fi
nal men te por que mo ti vo eu te nho de vi ver fa zen do o pa
pel de mim do meu pai e do pai do meu pai e do pai do pai do
meu pai?
714
Alfredo Pedro de Meneses Guisado
Lume
Apagou-se, por fim, o incerto lume,
que, em volta do meu ser, ainda ardia,
e o velho alfange, de inquietante gume,
cortou o voo que meu sonho erguía.
Apagou-se, por fim, o lume incerto...
e fiquei-me entre as urzes, hesitante,
no local que pr'a o além era o mais perto
e pr'a voltar a mim o mais distante.
Abandonada, então, essa charneca,
vestida de silêncio, árida e seca,
rodeou-me a minha alma sonhadora.
Afastei-me. Acabei por me perder:
sem poder atingir o que quis ser
e sem poder voltar ao que já fora.
que, em volta do meu ser, ainda ardia,
e o velho alfange, de inquietante gume,
cortou o voo que meu sonho erguía.
Apagou-se, por fim, o lume incerto...
e fiquei-me entre as urzes, hesitante,
no local que pr'a o além era o mais perto
e pr'a voltar a mim o mais distante.
Abandonada, então, essa charneca,
vestida de silêncio, árida e seca,
rodeou-me a minha alma sonhadora.
Afastei-me. Acabei por me perder:
sem poder atingir o que quis ser
e sem poder voltar ao que já fora.
784
Mário Chamie
Os meninos
Verde, verde grama.
Negra, negra madrugada.
– Nas entranhas
dos meninos,
recém-vindos,
um rio corria
para serem ágeis
como pedras lavadas.
Negra, negra madrugada.
– Todavia,
o que corria
pela estrada
era o duro
vento frio,
negro sopro
d’água parada;
poça d’água
morto rio
que secava
nas entranhas
dos meninos
sem mais nada.
Verde, verde,
verde grama.
Negra, negra madrugada.
– Um rosto
em cada poça,
sem cavalo,
sem colheita,
terra batida
e solta,
espantalhos
pela cerca,
morta roça,
os meninos
recém-findos
eram a própria
cavalgada
de cavaleiros
fantasmas
no seu galope
de fome,
feito lobo
feito homem
feito mula sem cabeça
fugindo da noite espessa.
Verde, verde,
verde grama.
Negra, negra cavalgada.
Negra, negra madrugada.
– Nas entranhas
dos meninos,
recém-vindos,
um rio corria
para serem ágeis
como pedras lavadas.
Negra, negra madrugada.
– Todavia,
o que corria
pela estrada
era o duro
vento frio,
negro sopro
d’água parada;
poça d’água
morto rio
que secava
nas entranhas
dos meninos
sem mais nada.
Verde, verde,
verde grama.
Negra, negra madrugada.
– Um rosto
em cada poça,
sem cavalo,
sem colheita,
terra batida
e solta,
espantalhos
pela cerca,
morta roça,
os meninos
recém-findos
eram a própria
cavalgada
de cavaleiros
fantasmas
no seu galope
de fome,
feito lobo
feito homem
feito mula sem cabeça
fugindo da noite espessa.
Verde, verde,
verde grama.
Negra, negra cavalgada.
787
Mauro Mota
MINHA N. S. DA ESPERANÇA
Eu corri, todo ansioso, a recebê-la
numa manhã sem sol, de cerração,
e ela entrou, como o brilho duma estrela
do céu, para alumiar meu coração.
Tornou-se muito minha amiga então,
Era tão linda! ai quem me dera tê-la
junto a mim! mas já foi, já partiu pela
tarde do meu jardim — rosa em botão! —
É debalde, minh’alma, que lhe gritas.
Neste mundo não há quem a defina
com seu vestido branco e verdes fitas.
Teu brado, na distância, não a alcança.
Pois fiquei a pensar que essa menina
era Nossa Senhora da Esperança…
numa manhã sem sol, de cerração,
e ela entrou, como o brilho duma estrela
do céu, para alumiar meu coração.
Tornou-se muito minha amiga então,
Era tão linda! ai quem me dera tê-la
junto a mim! mas já foi, já partiu pela
tarde do meu jardim — rosa em botão! —
É debalde, minh’alma, que lhe gritas.
Neste mundo não há quem a defina
com seu vestido branco e verdes fitas.
Teu brado, na distância, não a alcança.
Pois fiquei a pensar que essa menina
era Nossa Senhora da Esperança…
600