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Poemas neste tema

Vida e Existência

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Coroa do Arquipélago para Ruben Azócar

Do Chile chegou a notícia mal-escrita por mão da Morte:
o melhor dos meus, meu irmão Rubén está imóvel
dentro de um nicho, na tumba mesquinha dos cidadãos.

Bem-amada, na hora do ar recolhe uma lágrima e leva-a
através do Atlântico negro à sua rude cabeça adormecida;
não me tragas notícias; não posso entender sua agonia:
ele deveria terminar como um tronco queimado na selva,
erguido na ilustre armadura de sua desarmada inocência.

Nunca vi outra árvore como esta, não vi no bosque
tal cortiça gigante riscada e escrita pelas cicatrizes:
o rosto de Azócar, de pedra e de vento, de luz macerada,
e sob a pele da estátua de couro e de pelo
o magnânimo mel que ninguém possui na terra.

Talvez no fundo da África, no meio-dia compacto,
uma flecha revela na ave que cai voando o esplêndido sal da safira,
ou melhor o arpão baleeiro saindo sangrento da besta pura
tocou uma presença que ali preservava o aroma do âmbar:
assim foi em meu caminho meu irmão que agora chorando recubro
com a mínima pompa que não necessitam seus olhos
adormecidos.
Assim foi por aquelas épocas felizes e malbaratadas
que descobri a bondade no homem, porque ele me ensinava,
abrindo sorrindo com sobrancelhas de árvore, o ninho de abelhas invictas
que andava com ele sussurrando de noite e de dia
e então, a mim que saía da juventude invejosa e suprema,
tocando o peito coberto por sua abandonada jaqueta,
me deu a conhecer a bondade, e provei a bondade, e até agora
não tenho podido mudar a medida do homem em meu canto;
nunca mais aprendi senão aquilo que aprendi de meu irmão nas ilhas.

Ele passeava em Boroa, em Temuco com um charlatão agregado,
com um pobre ladrão de galinhas vestido de negro
que burlava, servil e silvestre, os fazendeiros:
era um cão avariado e roído pela enfermidade literária
que, graças a Nietzsche e a Whitman, se dissimulava ladrando
e meu pobre Rubén antagônico suportava o pedante inclemente
até que o charlatão o deixou de refém no pobre hoteleco
sem dinheiro e sem roupa, em honra da literatura.

Meu irmão! Meu pobre leão das gredas amargas de Lota,
mineral, inflamado como os fulgores do raio na noite de chuva,
meu irmão, recordo teus olhos atônitos ante o desacato
e tua pura pureza empenhada por um espantalhovargasvilovante.
Nunca vi uns olhos tranquilos como em ti nesse instante teus olhos
ao pesar o veneno do mundo e apartar com sombria inteireza
o punhal da dor, e seguir o caminho do homem.

Ai irmão, ai irmão de ciência escondida, ai irmão de todo o inverno nas ilhas:
ai, irmão, comendo contigo feijão com milho verde recém-separado
do marfim silencioso que educa o milho em suas lanças,
e depois os mexilhões saindo do mar arquipélago,
as ostras de Ancud, cheirosas à mitologia,
o vinho de inverno bebido sem trégua na chuva
e teu coração debulhando-se sobre o território.

Não é a vida que faz os homens, é antes,
é antes: remoto é o peso da alma no sangue;
os séculos azuis, os sonhos do bosque, os sáurios perdidos
na caravana, o terror vegetal do silêncio,
se agregaram a ti antes de nada, teceram com sombra e madeira
o assombro da criança que te acompanhou pela terra.

Sei que no México bravio em um dia desértico esteve
tua cabeça angustiada, tua boca com fome, teu riso feito pó.

E não posso olvidar que ao cruzar o Peru te esqueceram em um calabouço.
Enquanto no Panamá na maranha de umidade e raízes,
tu, sabendo que ali as serpentes tomavam o tórrido sol e mordiam,
ali te estendeste para morrer de regresso às lianas, e então
um milagre salvou tua pele para nossa alegria.
Já se sabe que um dia em Cuba, transformado em donoso donzel,
parodiaste com verso e donaire os exílios daquele Cavaleiro
que deixou à sua galante Madama uma recordação em um cofre cheiroso
e se sabe que quando com flor na mão tua graça passeava
pelo equinócio da história hilariante e patética,
Fidel com sua barba e altura ficou assombrado ao ouvir-te e olhar-te
e depois abraçando-te, com riso e delícia, baixou a cabeça,
porque entre uma batalha e outra não há louro que mais cative o guerreiro
que tua generosa presença regalando a magia e o mel,
adorável palhaço, capitão da dissipação, redentor da sabedoria.

Se contasse, se pudesse contar teus milagres, as histórias
que penduraste no colo do mundo como um colar claro:
dispuseste de um amplo desvão com navios
e bonecas, bonecos que te obedeciam logo que
se moviam tuas sobrancelhas povoadas por árvores negras.

Porque tu antes de ser o adivinho, escolheste teu reino,
tua pequena estatura, tua cabeça de rei araucano,
e de quanto mais nobre e mais firme encontraste no nada
construíste teu corpo e teu sonho, pequeno monarca,
agregando-lhe inúteis fibras que continuam brilhando
com o ouro enlutado de tua travessura grandiosa.

Às vezes olhando-te o cenho com que vigilavas meus passos,
temendo por mim como o pai do pai do pai do filho,
divisei em teu olhar uma antiga tristeza
e teria tido razão a tristeza em teus olhos antigos:
os próximos a ti não souberam venerar tua madeira celeste
e a miúdo puseram espinhos em tua cabeleira
e com lanças de ferro oxidado te cravaram na desventura.

Mas aquela água escura que certa vez encontrei em teu olhar
guardava o silêncio normal da natureza
e se tinham caído as folhas no fundo do poço em trevas
não apodreceram as folhas defuntas a cisterna de onde surgia
tua solene bondade florescida por um ramo indomável de rosas.

Tenho o Ás! Tenho o Dois! Tenho o Três! cantarão e talvez cantaremos;
cantarão, cantaremos na borda do vinho de Outubro;
cantaremos a inútil beleza do mundo sem que tu a vejas,
sem que tu, companheiro, respondas rindo e cantando,
cantando e chorando algum dia na nave ou melhor à beira
do mar das ilhas que amaste, marinheiro sonoro;
cantarão, cantaremos, e o bosque do homem perdido,
a bruma huaiteca, o lariço de peito implacável
te acompanharão, companheiro, em teu canto invisível.

Tenho o Ás! Tenho o Dois! Tenho o Três! Mas falta tu, irmão!
Falta o rei que se foi para sempre com o riso e a rosa na mão.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Solidão

Viajante, estou só na Rua da Huchette. É manhã.
Nem um só vestígio de ontem ficou colado nos muros.
Prepara-se o depois de amanhã na noite ruidosa
que passa enredada na névoa que sobe das cabeleiras.
Há um vago silêncio apoiado por uma guitarra tardia.
E compreendo que nesta minúscula ruela tortuosa
alguém toca a rebater o metal invisível
de um agudo sino que estende na noite seu círculo
e no mapa redondo baixando a vista descubro
caminhos de formiga que vêm sulcando o outono e os mares
e vão deslizando figuras que caem do mapa da Austrália,
que descem da Suécia nos trens da madrugada deserta,
pequenos caminhos de inseto que perfuram o ar e a terra
e que se desprenderam da Espanha, da Escócia, do Golfo do México,
tradeando buracos que tarde ou cedo penetram a terra
e aqui à meia-noite destapa a noite seu frio orifício
e assoma a fronte de algum colombiano que amarra no cinto
tua velha pistola e a louca guitarra dos guerrilheiros.
Talvez Aragón junto a Elsa estendeu o arquipélago
de seus sonhos povoados por amplas sereias que penteiam a música
e sobre a Rua de Varennes uma estrela, a única do céu vazio,
abre e fecha suas pálpebras de diamante e platina,
e mais longe o traje fragrante da França se guarda em uma arca
porque dormem as vinhas e o vinho nos barris prepara
a saída do sol, professor de francês no céu.

Para Menilmontant, nos meus tempos, para os acordeões
do ano de milnovecentosevinte acudíamos: era sério o encontro
com a malandragem de guimba na boca e brutal aparência.
Eu dancei com Friné Lavatier, com Marise e com quem?
Ah com quem? Fogem-me os nomes do baile
mas continuo dançando a “java” no impuro subúrbio
e viver era então tão fácil como o pão que se come nos trens,
como andar no campo assobiando, festejado pela primavera.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Solidão

Viajante, estou só na Rua da Huchette. É manhã.
Nem um só vestígio de ontem ficou colado nos muros.
Prepara-se o depois de amanhã na noite ruidosa
que passa enredada na névoa que sobe das cabeleiras.
Há um vago silêncio apoiado por uma guitarra tardia.
E compreendo que nesta minúscula ruela tortuosa
alguém toca a rebater o metal invisível
de um agudo sino que estende na noite seu círculo
e no mapa redondo baixando a vista descubro
caminhos de formiga que vêm sulcando o outono e os mares
e vão deslizando figuras que caem do mapa da Austrália,
que descem da Suécia nos trens da madrugada deserta,
pequenos caminhos de inseto que perfuram o ar e a terra
e que se desprenderam da Espanha, da Escócia, do Golfo do México,
tradeando buracos que tarde ou cedo penetram a terra
e aqui à meia-noite destapa a noite seu frio orifício
e assoma a fronte de algum colombiano que amarra no cinto
tua velha pistola e a louca guitarra dos guerrilheiros.
Talvez Aragón junto a Elsa estendeu o arquipélago
de seus sonhos povoados por amplas sereias que penteiam a música
e sobre a Rua de Varennes uma estrela, a única do céu vazio,
abre e fecha suas pálpebras de diamante e platina,
e mais longe o traje fragrante da França se guarda em uma arca
porque dormem as vinhas e o vinho nos barris prepara
a saída do sol, professor de francês no céu.

Para Menilmontant, nos meus tempos, para os acordeões
do ano de milnovecentosevinte acudíamos: era sério o encontro
com a malandragem de guimba na boca e brutal aparência.
Eu dancei com Friné Lavatier, com Marise e com quem?
Ah com quem? Fogem-me os nomes do baile
mas continuo dançando a “java” no impuro subúrbio
e viver era então tão fácil como o pão que se come nos trens,
como andar no campo assobiando, festejado pela primavera.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Fulgor e morte de Joaquín Murieta

Esta é a longa história de um homem inflamado.
Natural, valoroso, sua memória é uma acha de guerra.
É tempo de abrir o repouso, o sepulcro do claro bandido
e romper o ouvido oxidado que agora o enterra.
Talvez não encontrou seu destino o soldado e lamento
não ter conversado com ele, e com uma garrafa de vinho
ter esperado na História que passasse algum dia seu grande regimento.
Talvez aquele homem perdido no vento houvesse mudado o caminho.
O sangue caído lhe pôs nas mãos um raio violento,
agora passaram cem anos e já não podemos mudar seu destino:
assim é que comecemos sem ele e sem vinho nesta hora quieta
a história de meu compatriota, o bandido honorável don Joaquín Murieta.
É longa a história que aterra mais tarde e que nasce aqui abaixo
nesta angustura de terra que o Polo nos trouxe e o mar e a neve disputam,
aqui entre pereiras e telhas e chuva brilhavam as uvas chilenas
e como uma taça de prata que enche a noite sombria de pálido vinho
a lua do Chile crescia entre boldos, maitenes10, alfavacas, orégano, jasmins, feijões, loureiros, orvalho,
então nascia à luz do planeta um infante moreno
e na sombra serena é o raio que nasce, se chama Murieta,
e ninguém suspeita à luz da lua que um raio nascente
adormece no berço enquanto se esconde nos montes a lua:
é um menino chileno cor de azeitona e seus olhos ignoram o pranto.

Minha pátria lhe deu as medalhas do campo bravio, do pampa ardente:
parece ter forjado com frio e com brasas para uma batalha
seu corpo de arado e é um desafio sua voz e suas mãos são duas ameaças.

Vingança é o ferro, a pedra, a chuva, a fúria, a lança,
a chama, o rancor do desterro, a paz crepitante,
e o homem distante fica cego clamando na sombra vingança,
buscando na noite esperança sangrenta e castigo constante,
desperta o arredio e percorre a cavalo a terra noturna. Deus meu,
que busca o escuro à espreita do dano que brilha em sua mão cortante?

Vingança é o nome instantâneo de seu calafrio
que crava a carne ou golpeia no crânio ou assusta com boca alarmante
e mata e se afasta o dançante mortal galopando à beira do rio.

A chama do ouro percorre a terra do Chile do mar aos montes
e começa o desfile do horizonte até o Porto, o magnético feitiço,
despovoa Quillota, debulha Coquimbo, as naves esperam em Valparaíso.

Crescendo à sombra de salgueiros flexíveis nadava nos rios, domava os potros, lançava os laços,
ardia no brio, educava os braços, a alma, os olhos, e se ouviam cantar as esporas
quando do fundo do outono vermelho descia a galope em sua égua de estanho
vinha da cordilheira, de pedras hirsutas, de cerros hostis, de vento inumano,
trazia nas mãos o golpe vizinho do rio que fustiga e divide a neve fragrante e jazente
e o transpassava aquele livre alvedrio, a virtude selvagem que toca a fronte
dos indomáveis e sela com ira e limpeza o orgulho de algumas cabeças
que guarda o destino em suas atas de fogo e pureza, e assim o elegido
não sabe que está prometido e que deve matar e morrer na empresa.

Assim são as coisas amigo e é bom aprender e que saiba e conheça
os versos que escrevi e repita contando e cantando a lembrança de um livre chileno proscrito
que andando e andando e morrendo foi um mito infinito:
sua infância cantei ao instante e sabemos que foi o caminhante muito longe,
um dia mataram o chileno errante, contam os velhos de noite ao braseiro
e é como se falasse o riacho, a chuva silvante ou na nevasca chorasse no vento a neve distante
porque de Aconcágua partiu num veleiro buscando na água um caminho
e para a Califórnia a morte e o ouro chamavam com vozes ardentes que no fim decidiram seu negro destino.

Mas no caminho marinho, no branco veleiro maulino11
o amor sobreveio e Murieta descobre uns olhos escuros,
se sente inseguro perdido na nova certeza:
sua noiva se chama Tereza e ele não conheceu mulher camponesa
como esta Tereza que beija sua boca e seu sangue, e no grande oceano
perdida a barca na bruma, o amor se consuma e Murieta pressente que é este o amor infinito
e sabe talvez que está escrito seu fim e a morte o espera
e pede à Tereza sua noiva e mulher que se case com ele na nave veleira
e na primavera marinha Joaquín, domador de cavalos, tomou por esposa Tereza, mulher camponesa,
e os imigrantes em busca do ouro inumano e distante celebram este casamento
ouvindo as ondas que elevam seu eterno lamento;
e tal é a estranha cegueira do homem no rito da passageira alegria;
na nave o amor acendeu uma fogueira; não sabem que já começou a agonia.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

A Barcarola

(O vento frio corre compacto como um peixe
e golpeia os talos da aveia. Ao rés do solo vive
um movimento múltiplo e delgado. O dia está nu.
O fulgor de Novembro como uma estalactite
lisa e azul decide a pompa do estio.
É verão. E as lanças do vento interminável
perfuram o favo do espaço amarelo:
olvido ao ver correr a música na aveia
a abóbada implacável do meio-dia.
Escuta,
mulher do sol, meu pensamento. Toca
com teus pés o tremor fugitivo do solo.
Entre a relva cresce meu rosto contra o verde,
através de meus olhos cruzam as espadanas
e bebo com a alma velocidade e vento.)

Mas eu, o cidadão de um tempo gasto e roído, de ruas direitas,
que vi converter-se em incêndio, em detritos, em pedras queimadas, em fogo e em pó,
e depois voltar da guerra o soldado com mortes em cima e embaixo,
e outra vez levantar a cidade infeliz colando cimento às ruínas
e janela e janela e janela e janela e janela
e outra porta outra porta outra porta outra porta outra porta
até o duro infinito moderno com seu inferno de fogo quadrado,
pois a pátria da geometria substitui a pátria do homem.

Viajante perdido, o regresso implacável, a vitória de
pernas cortadas,
a derrota guardada em um cesto como uma maçã diabólica:
este século em que me pariram também, entre tantos que já não alcançaram,
que caíram, Desnos, Frederico, Miguel, companheiros
sem trégua ao meu lado no sol e na morte,
estes anos que às vezes ao cravar a bandeira e cantar com orgulho aos povos
me apontaram com sanha os mesmos que eu defendi com meu canto
e quiseram atirar-me à fossa mordendo minha vida
com as mesmas ferozes mandíbulas do tigre inimigo.

(Os inseguros temem a integridade, golpeiam
então minhas costas com pequenos martelos,
querem assegurar o lugar que lhes toca,
porque medo e soberba sempre estiveram juntos
e suas acusações são suas únicas medalhas.)
(Temem que a violência desintegre seus ossos
e para defender-se vestem-se de violência.)
(Veja o testemunho mudo de depois de amanhã,
recolha os pedaços da torre calada
e quanto me tocou da crueldade inútil.
Compreenderá? Talvez. Os tambores
estarão rotos, e a buzina estridente
será pó no pó.
A felicidade te acompanhe,
companheiro, a felicidade, patrimônio futuro
que herdarás de nosso sangue encarniçado.)
Em minha barcarola se encontram voando os pregos do ódio
com o arroz negro que os invejosos me dão em seu prato
e devo estudar a linguagem do corvo, tocar a plumagem,
olhar nos olhos dos insaciáveis e dos insaciados
e no mesmo páramo das imundícies terrestres
arrojar as censuras de agora e as adulações de então.

Cantando entre escórias o canto reluz na taça de minha alma
e tinge com luz de amaranto o crepúsculo aziago,
eu só sustento a taça de sangue e a espada que canta na arena
e provo o sal em meus lábios, a chuva em minha língua e o fogo recebo em meus olhos,
cantando sem pressa nem pausa, coroado pelas nevascas.

Porque em cima e em torno de mim se sacode como uma bandeira
longitudinal, o capítulo puro de minha geografia,
e do Taltal platinado pela camanchaca13 salobre
até Ruca Diuca coberto por trepadeiras e salgueiros-chorões,
eu vou estendendo entre montes e torres calcáreas minha vertiginosa linhagem,
sem dúvida acossado pela trêmula fragrância do trevo,
talvez inerente produto do bosque na chuva no inverno
pelas estradas molhadas onde passou uma serpente vestida de verde,
de todas as maneiras, sem ser conduzido pelas aventuras do rio com seu batalhão transparente
percorro as terras contando os pássaros, as pedras, a água,
e me retribui o Outono com tanto dinheiro amarelo
que choro de puro cantor derramando meu canto no vento.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

O Astronauto

I.

SE ME ENCONTREI nestas regiões reconcentradas e calcáreas
foi por equívocos de pai e mãe em meu planeta:
me aborreceram tanto uns como outros inclementes;
deixei plantados os puros, desencadeei certa loucura
e continuei presenteando os hostis.

II.

Cheguei porque me convidaram a uma estrela recém-aberta;
já Leonov me havia dito que cruzaríamos cores
de enxofre imenso e amaranto, fogo furioso de turquesa,
zonas insólitas de prata como espelhos efervescentes
e quando então fiquei só sobre a calvície do céu
nesta zona parecida com a extensão de Antofagasta,
com a solidão de Astacama, com as alturas da Mongólia
me despi para viver no calor do mundo virgem,
do mundo velho de uma estrela que agonizava ou que nascia.

III.

Não me fazia falta a roupa mas a linguagem, recolhi
uma suavíssima, metálica flor, uma rosa cujo orvalho
caiu perfurando o solo como uma torrente de mercúrio
e por esse álveo escutei de gruta em gruta o orvalho
descer as escadarias de cristal adormecido e gasto.
Gasto por quem? Pelos sonhos? Pela vida com sobrenome?
Por animais ou pessoas, elefantes ou analfabetos?
E de repente me surpreendi buscando outra vez com tristeza
a identidade, a história, o conto dos que deixei na terra.

IV.

Talvez aqui nestas rugas, sob estas crostas estépicas,
sob o vulcânico estandarte das cinzas celestiais
existiu ou existe a inveja que mordeu-me pelos caminhos
terrestres, como um caimão de quarenta caudas apodrecidas?
Aqui também prosperará o canibal parasitário,
o cínico, o frívolo, o piadista sustentado por seus cosméticos?
Aqui o Chamudar trocará de casaca pegajosa
como o Retamudez Gordillo da intervenção “oportuna”?

V.

Mas encontrei só os ossos do silêncio carbonizado;
buscando desci os estratos de mortífera astrologia:
iguanas mortas talvez eram os vestígios do pó,
idades que se trituraram e ficava só o fulgor
e era toda aquela estrela como uma antiga borboleta
de ancestrais asas que apenas tocadas se desvaneciam
aparecendo então um buraco de metal,
uma cova em cujo passado brilhavam as pedras do frio.

VI.

Perdi-me pelas galerias do sol talvez derrubado
ou na lua sem coração com seus espelhos carcomidos
e como na segurança de meu país inseguro
aqui o medo me dirigia os pés no descobrimento.
Mas não achei como alabar o alabastro que corria
derretido, pelas gargantas de pedra-pome adstringente,
e como, com quem falar do tesouro negro que fugia
com o rio do azeviche pelas ruas cicatrizadas?

VII.

Pouco a pouco o silêncio me fez um Robinson assustadiço
sem roupa mas sem fome, sem sede porque pelos poros
a luz mineral nutria e umedecia, mas pouco
a pouco o planeta se despencava de minha língua,
e errei sem idioma, escuro pelas areias do silêncio.

Oh solidão espacial do silêncio! Se desfaz
o ruído do coração e quando sobressaltado
ouvi um silêncio debaixo de outro silêncio maior:
fui emagrecendo até ser somente silêncio naquele bairro do céu
onde caí e fui enterrado por um álveo silencioso
por um grande rio de esmeraldas que não sabiam cantar.
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