Poemas neste tema
Vida e Existência
Pablo Neruda
LXII
Que significa persistir
no beco da morte?
No deserto do sal
como se pode florescer?
No mar do não ocorre nada
há vestido para morrer?
Quando já se foram os ossos
quem vive no pó final?
no beco da morte?
No deserto do sal
como se pode florescer?
No mar do não ocorre nada
há vestido para morrer?
Quando já se foram os ossos
quem vive no pó final?
1 025
Pablo Neruda
LXII
Que significa persistir
no beco da morte?
No deserto do sal
como se pode florescer?
No mar do não ocorre nada
há vestido para morrer?
Quando já se foram os ossos
quem vive no pó final?
no beco da morte?
No deserto do sal
como se pode florescer?
No mar do não ocorre nada
há vestido para morrer?
Quando já se foram os ossos
quem vive no pó final?
1 025
Pablo Neruda
Nas Ruas de Praga
Recordas as ruas de Praga que duras sonhavam
como se tambores de pedra sonhassem na solidão
daquele que através dos mares buscou tua lembrança:
tua imagem em cima da ponte San Carlos era uma laranja.
Então cruzamos a neve de sete fronteiras
desde Budapeste que agregava roseiras e pão à sua estirpe
até os amantes, tu e eu, perseguidos, sedentos e famintos,
nos reconhecemos ferindo-nos com dentes e beijos e espadas.
Oh dias cortados pelas cimitarras do fogo e da fúria
sofrendo o amante e a amante sem trégua e sem pranto
como se o sentimento se houvesse enterrado em um páramo entre as urtigas
e cada expressão se turbasse queimando e virando lava.
como se tambores de pedra sonhassem na solidão
daquele que através dos mares buscou tua lembrança:
tua imagem em cima da ponte San Carlos era uma laranja.
Então cruzamos a neve de sete fronteiras
desde Budapeste que agregava roseiras e pão à sua estirpe
até os amantes, tu e eu, perseguidos, sedentos e famintos,
nos reconhecemos ferindo-nos com dentes e beijos e espadas.
Oh dias cortados pelas cimitarras do fogo e da fúria
sofrendo o amante e a amante sem trégua e sem pranto
como se o sentimento se houvesse enterrado em um páramo entre as urtigas
e cada expressão se turbasse queimando e virando lava.
1 096
Pablo Neruda
L
Quem pode convencer o mar
para que seja razoável?
De que lhe serve demolir
âmbar azul, granito verde?
E para que tantas marcas
e tantos sulcos no rochedo?
Cheguei de detrás do mar
e onde vou quando me atalha?
Por que encerrei meu caminho
caindo no ardil do mar?
para que seja razoável?
De que lhe serve demolir
âmbar azul, granito verde?
E para que tantas marcas
e tantos sulcos no rochedo?
Cheguei de detrás do mar
e onde vou quando me atalha?
Por que encerrei meu caminho
caindo no ardil do mar?
973
Pablo Neruda
XXII
Amor, amor aquele e aquela,
se já não são, para onde foram?
Ontem, ontem disse a meus olhos
quando voltaremos a ver-nos?
E quando se muda a paisagem
são tuas mãos ou tuas luvas?
Quando canta o azul da água
como foge o rumor do céu?
se já não são, para onde foram?
Ontem, ontem disse a meus olhos
quando voltaremos a ver-nos?
E quando se muda a paisagem
são tuas mãos ou tuas luvas?
Quando canta o azul da água
como foge o rumor do céu?
663
Pablo Neruda
XXII
Amor, amor aquele e aquela,
se já não são, para onde foram?
Ontem, ontem disse a meus olhos
quando voltaremos a ver-nos?
E quando se muda a paisagem
são tuas mãos ou tuas luvas?
Quando canta o azul da água
como foge o rumor do céu?
se já não são, para onde foram?
Ontem, ontem disse a meus olhos
quando voltaremos a ver-nos?
E quando se muda a paisagem
são tuas mãos ou tuas luvas?
Quando canta o azul da água
como foge o rumor do céu?
663
Pablo Neruda
XXXVIII
Não achas que vive a morte
dentro do sol de uma cereja?
Não pode também matar-te
um beijo da primavera?
Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?
E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?
dentro do sol de uma cereja?
Não pode também matar-te
um beijo da primavera?
Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?
E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?
1 049
Pablo Neruda
XXXVIII
Não achas que vive a morte
dentro do sol de uma cereja?
Não pode também matar-te
um beijo da primavera?
Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?
E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?
dentro do sol de uma cereja?
Não pode também matar-te
um beijo da primavera?
Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?
E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?
1 049
Pablo Neruda
XXXVIII
Não achas que vive a morte
dentro do sol de uma cereja?
Não pode também matar-te
um beijo da primavera?
Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?
E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?
dentro do sol de uma cereja?
Não pode também matar-te
um beijo da primavera?
Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?
E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?
1 049
Pablo Neruda
II - o Rio
Eu entrei em Florença. Era
de noite. Tremi escutando
quase adormecido o que o doce rio
me contava. Eu não sei
o que dizem os quadros nem os livros
(não todos os quadros nem todos os livros,
só alguns),
mas sei o que dizem
todos os rios.
Têm o mesmo idioma que tenho.
Nas terras selvagens
o Orinoco me fala
e entendo, entendo
histórias que não posso repetir.
Há segredos meus
que o rio levou,
e o que me pediu lhe vou cumprindo
pouco a pouco na terra.
Reconheci na voz do Arno então
velhas palavras que buscavam minha boca,
como o que nunca conheceu o mel
e acha que reconhece seu sabor.
Assim escutei as vozes
do rio de Florença,
como se antes de ser me houvessem dito
o que agora escutava:
sonhos e passos que me uniam
à voz do rio,
seres em movimento,
lances de luz na história,
tercetos acesos como lâmpadas.
O pão e o sangue cantavam
com a voz noturna da água.
de noite. Tremi escutando
quase adormecido o que o doce rio
me contava. Eu não sei
o que dizem os quadros nem os livros
(não todos os quadros nem todos os livros,
só alguns),
mas sei o que dizem
todos os rios.
Têm o mesmo idioma que tenho.
Nas terras selvagens
o Orinoco me fala
e entendo, entendo
histórias que não posso repetir.
Há segredos meus
que o rio levou,
e o que me pediu lhe vou cumprindo
pouco a pouco na terra.
Reconheci na voz do Arno então
velhas palavras que buscavam minha boca,
como o que nunca conheceu o mel
e acha que reconhece seu sabor.
Assim escutei as vozes
do rio de Florença,
como se antes de ser me houvessem dito
o que agora escutava:
sonhos e passos que me uniam
à voz do rio,
seres em movimento,
lances de luz na história,
tercetos acesos como lâmpadas.
O pão e o sangue cantavam
com a voz noturna da água.
1 353
Pablo Neruda
LXI
A gota viva do mercúrio
corre para baixo ou para sempre?
Minha poesia infeliz
olhará com os olhos meus?
Terei meu cheiro e minhas dores
quando eu dormir destruído?
corre para baixo ou para sempre?
Minha poesia infeliz
olhará com os olhos meus?
Terei meu cheiro e minhas dores
quando eu dormir destruído?
1 054
Pablo Neruda
LXI
A gota viva do mercúrio
corre para baixo ou para sempre?
Minha poesia infeliz
olhará com os olhos meus?
Terei meu cheiro e minhas dores
quando eu dormir destruído?
corre para baixo ou para sempre?
Minha poesia infeliz
olhará com os olhos meus?
Terei meu cheiro e minhas dores
quando eu dormir destruído?
1 054
Pablo Neruda
XXXVI
Não será por fim a morte
uma cozinha interminável?
Que farão teus ossos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?
Se fundirá tua destruição
em outra forma e em outra luz?
Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?
uma cozinha interminável?
Que farão teus ossos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?
Se fundirá tua destruição
em outra forma e em outra luz?
Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?
1 044
Pablo Neruda
XXXVI
Não será por fim a morte
uma cozinha interminável?
Que farão teus ossos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?
Se fundirá tua destruição
em outra forma e em outra luz?
Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?
uma cozinha interminável?
Que farão teus ossos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?
Se fundirá tua destruição
em outra forma e em outra luz?
Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?
1 044
Pablo Neruda
XXXVI
Não será por fim a morte
uma cozinha interminável?
Que farão teus ossos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?
Se fundirá tua destruição
em outra forma e em outra luz?
Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?
uma cozinha interminável?
Que farão teus ossos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?
Se fundirá tua destruição
em outra forma e em outra luz?
Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?
1 044
Pablo Neruda
XXX
Quando escreveu seu livro azul
Rubén Darío não era verde?
Não era escarlate Rimbaud e
Gôngora cor de violeta?
E Victor Hugo tricolor?
E eu listões amarelos?
Juntam-se todas as lembranças
dos pobres das aldeias?
E em uma caixa mineral
guardaram seus sonhos os ricos?
Rubén Darío não era verde?
Não era escarlate Rimbaud e
Gôngora cor de violeta?
E Victor Hugo tricolor?
E eu listões amarelos?
Juntam-se todas as lembranças
dos pobres das aldeias?
E em uma caixa mineral
guardaram seus sonhos os ricos?
1 043
Pablo Neruda
III - A ilha
Antiga Rapa Nui, pátria sem voz,
perdoa a nós, os tagarelas do mundo:
viemos de todas as partes para cuspir em tua lava,
chegamos cheios de conflitos, de divergências, de sangue,
de pranto e digestões, de guerras e de pêssegos,
em pequenas fileiras de inimizade, de sorrisos
hipócritas, reunidos pelos dados do céu
sobre a mesa de teu silêncio.
Mais uma vez chegamos para ofender-te.
Saúdo primeiro a cratera, Ranu Raraku, suas pálpebras
de lodo e seus velhos lábios verdes:
é amplo, e altos muros o circundam, o encerram,
más a água lá em baixo, mesquinha, suja, negra,
vive, se comunica com a morte
como um iguana imóvel, sonolenta, escondido.
Eu, aprendiz de vulcões, conheci,
criança ainda, as línguas do Aconcágua,
o vômito incendiado do vulcão Tronador,
na noite espantosa vi cair
a luz do Villarrica fulminando as vacas,
torrencial, abrasando plantas e acampamentos,
crepitar derrubando penhascos na fogueira.
Mas se aqui minha infância tivesse me deixado,
neste vulcão morto já faz mil anos,
neste Ranu Raraku, umbigo da morte,
teria uivado de terror e teria obedecido:
teria deslizado minha vida em silêncio,
teria caído no medo verde, na boca da cratera desdentada,
transformando-me em lodo, em línguas do iguana.
Silêncio depositado no vale, terror
da boca lunária, há um minuto, uma hora
pesada como si o tempo tivesse parado
para converter-se em imensa pedra:
é um momento, logo
também dissolve o tempo sua nova estátua impossível
e fica o dia imóvel, como um encarcerado
dentro da cratera, dentro do cárcere da cratera,
dentro dos olhos do iguana da cratera.
perdoa a nós, os tagarelas do mundo:
viemos de todas as partes para cuspir em tua lava,
chegamos cheios de conflitos, de divergências, de sangue,
de pranto e digestões, de guerras e de pêssegos,
em pequenas fileiras de inimizade, de sorrisos
hipócritas, reunidos pelos dados do céu
sobre a mesa de teu silêncio.
Mais uma vez chegamos para ofender-te.
Saúdo primeiro a cratera, Ranu Raraku, suas pálpebras
de lodo e seus velhos lábios verdes:
é amplo, e altos muros o circundam, o encerram,
más a água lá em baixo, mesquinha, suja, negra,
vive, se comunica com a morte
como um iguana imóvel, sonolenta, escondido.
Eu, aprendiz de vulcões, conheci,
criança ainda, as línguas do Aconcágua,
o vômito incendiado do vulcão Tronador,
na noite espantosa vi cair
a luz do Villarrica fulminando as vacas,
torrencial, abrasando plantas e acampamentos,
crepitar derrubando penhascos na fogueira.
Mas se aqui minha infância tivesse me deixado,
neste vulcão morto já faz mil anos,
neste Ranu Raraku, umbigo da morte,
teria uivado de terror e teria obedecido:
teria deslizado minha vida em silêncio,
teria caído no medo verde, na boca da cratera desdentada,
transformando-me em lodo, em línguas do iguana.
Silêncio depositado no vale, terror
da boca lunária, há um minuto, uma hora
pesada como si o tempo tivesse parado
para converter-se em imensa pedra:
é um momento, logo
também dissolve o tempo sua nova estátua impossível
e fica o dia imóvel, como um encarcerado
dentro da cratera, dentro do cárcere da cratera,
dentro dos olhos do iguana da cratera.
1 117
Pablo Neruda
Tarde - LXVIII
A menina de madeira não chegou caminhando:
ali esteve de súbito sentada nos ladrilhos,
velhas flores do mar cobriam sua cabeça,
seu olhar tinha tristeza de raízes.
Ali ficou olhando nossas vidas abertas,
o ir e ser e andar e voltar pela terra,
o dia descolorindo suas pétalas graduais.
Vigiava sem ver-nos a menina de madeira.
A menina coroada pelas antigas ondas
ali fitava com seus olhos derrotados:
sabia que vivemos numa rede remota
de tempo e água e ondas e sons e chuva,
sem saber se existimos ou se somos seu sonho.
Esta é a história da moça de madeira.
ali esteve de súbito sentada nos ladrilhos,
velhas flores do mar cobriam sua cabeça,
seu olhar tinha tristeza de raízes.
Ali ficou olhando nossas vidas abertas,
o ir e ser e andar e voltar pela terra,
o dia descolorindo suas pétalas graduais.
Vigiava sem ver-nos a menina de madeira.
A menina coroada pelas antigas ondas
ali fitava com seus olhos derrotados:
sabia que vivemos numa rede remota
de tempo e água e ondas e sons e chuva,
sem saber se existimos ou se somos seu sonho.
Esta é a história da moça de madeira.
1 074
Pablo Neruda
XLVI
E como se chama esse mês
que está entre dezembro e janeiro?
Com que direito numeraram
as doces uvas do racimo?
Por que não nos deram extensos
meses que durem todo o ano?
Não te enganou a primavera
com beijos que não floresceram?
que está entre dezembro e janeiro?
Com que direito numeraram
as doces uvas do racimo?
Por que não nos deram extensos
meses que durem todo o ano?
Não te enganou a primavera
com beijos que não floresceram?
1 133
Pablo Neruda
XLIV
Onde está o menino que fui,
segue dentro de mim ou se foi?
Sabe que não o quis nunca
e que tampouco me queria?
Por que andamos tanto tempo
crescendo para separar-nos?
Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?
E se minha alma tombou
por que permanece o esqueleto?
segue dentro de mim ou se foi?
Sabe que não o quis nunca
e que tampouco me queria?
Por que andamos tanto tempo
crescendo para separar-nos?
Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?
E se minha alma tombou
por que permanece o esqueleto?
1 390
Pablo Neruda
XLIV
Onde está o menino que fui,
segue dentro de mim ou se foi?
Sabe que não o quis nunca
e que tampouco me queria?
Por que andamos tanto tempo
crescendo para separar-nos?
Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?
E se minha alma tombou
por que permanece o esqueleto?
segue dentro de mim ou se foi?
Sabe que não o quis nunca
e que tampouco me queria?
Por que andamos tanto tempo
crescendo para separar-nos?
Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?
E se minha alma tombou
por que permanece o esqueleto?
1 390
Pablo Neruda
XLIV
Onde está o menino que fui,
segue dentro de mim ou se foi?
Sabe que não o quis nunca
e que tampouco me queria?
Por que andamos tanto tempo
crescendo para separar-nos?
Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?
E se minha alma tombou
por que permanece o esqueleto?
segue dentro de mim ou se foi?
Sabe que não o quis nunca
e que tampouco me queria?
Por que andamos tanto tempo
crescendo para separar-nos?
Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?
E se minha alma tombou
por que permanece o esqueleto?
1 390