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Poemas neste tema

Vida e Existência

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cariocas

Como vai ser este verão, querida,
com a praia aumentada/diminuída?
A draga, esse dragão, estranho creme
de areia e lama oferta ao velho Leme.
Fogem banhistas para o Posto Seis,
o Posto Vinte… Invade-se Ipanema
hippie e festiva, chega-se ao Leblon
e já nem rimo, pois nessa sinuca
superlota-se a Barra da Tijuca
(até que alguém se lembre
de duplicar a Barra, pesadíssima).
Ah, o tamanho natural das coisas
estava errado! O mar era excessivo,
a terra pouca. Pobre do ser vivo,
que aumenta o chão pisável, sem que aumente
a própria dimensão interior.
Somos hoje mais vastos? mais humanos?
Que draga nos vai dar a areia pura,
fundamento de nova criatura?
Carlos, deixa de vãs filosofias,
olha aí, olha o broto, olha as esguias
pernas, o busto altivo, olha a serena
arquitetura feminina em cena
pelas ruas do Rio de Janeiro,
que não é rio, é um oceano inteiro
de (a)mo(r)cidade.
Repara como tudo está pra frente,
a começar na blusa transparente
e a terminar… a frente é interminável.
A transparência vai além: os ossos,
as vísceras também ficam à mostra?
Meu amor, que gracinha de esqueleto
revelas sob teu vestido preto!
Os costureiros são radiologistas?
Sou eu que dou uma de futurólogo?
Translúcidas pedidas advogo:
tudo nu na consciência, tudo claro,
sem paredes as casas e os governos…
Ai, Carlos, tu deliras? Até logo.
Regressa ao cotidiano: um professor
reclama para os sapos mais amor.
Caçá-los e exportá-los prejudica
os nossos canaviais; ele, gentil,
engole ruins aranhas do Brasil,
medonhos escorpiões:
o sapo papa paca,
no mais, tem a doçura de uma vaca
embutida no verde da paisagem.
(Conservo no remorso um sapo antigo
assassinado a pedra, e me castigo
a remoer sua emplastada imagem.)
Depressa, a Roselândia, onde floriram
a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram
que novidade? Rosas de verdade,
com cheiro e tudo quanto se resume
no festival enlevo do perfume?
Busco em vão neste Rio um roseiral,
indago, pulo muros: qual!
A flor é de papel, ou cheira mal
o terreno baldio, a rua, o Rio?
A Roselândia vamos e aspiremos
o fino olor da flor em cor e albor.
Uma rosa te dou, em vez de um verso,
uma rosa é um rosal; e me disperso
em quadrada emoção diante da rosa,
pois inda existe flor, e flor que zomba
desse fero contexto
de metralhadora, de sequestro e bomba?
29/11/1969
1 353
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Tartaruga

No abismo do terciário
a tartaruga gigante
tem um mínimo de pássaro
que se pusesse a rastejar,
no anel de placa óssea dos olhos,
na ausência pacífica de dentes,
testudo gigas emergindo
de Brejo dos Sonhos,
lá vem trazendo seu recado
de plena paz por entre guerras.
Tão fiel a si mesma, que o retrato
da moça tartaruga do Amazonas
repete o essencial do figurino.
Esta é a elefantina,
por gracioso artifício, que não muda
a linha imemorial,
e esta, sem vaidade, a grega,
e esta outra a mauritânia,
tão suave e lembrada de seus pagos,
que onde quer que a deixem volta sempre
a um apelo de flauta ou de jardim.
O cacto, o líquen seco
nutre as últimas netas dos colossos
vizinhos do Hominídeo
e na solidão dos Galápagos
vai mirrando essa imagem de grandeza,
delicado organismo,
blindada flor que filosofa e pensa
o mundo sem rancor, e nos ensina
que a rude carapaça mais protege
o amor do que o repele.
Lição que nada vale,
pois o que sabe ao paladar corrupto
não é da tartaruga o calmo ser
e florescer à flor da areia ou n’água,
mas a carne fechada
em seu fundo segredo,
a carne monacal
de tanto se vestir de solitude.
E vem a tartaruga de avião
para os ritos da morte em nobre estilo.
Fotografada, anunciada, promovida,
será sopa amanhã, por entre árvores
de velho parque onde quisera
antes viver seu tempo meditado.
Levam-na ao Top Clube para exame
de olhos gulosos,
prévia degustação, de faz de conta.
Uma cidade inteira quer comê-la,
mas poucos a merecem por seu preço.
Comer a tartaruga é ato bento
e pobres já desmorrem com sua morte.
Mas vale, vale a pena
matar para ajudar?
Recusa-se o mestre-cuca a ser verdugo,
leva-se a tartaruga para a Urca
em compasso de espera. O tempo urge,
esta tartaruga vai morrer,
de qualquer jeito matemo-la, que o fim
é nobre, e sua sopa uma delícia.
A tevê entrevista a pobrezinha,
que mantém um silêncio de andorinha.
Lya Cavalcanti, a sempre alerta
em defesa do vivo e sofredor,
ergue a voz comovida: dois partidos
se enfrentam, linha dura
e linha humanitária.
A tartaruga, sem uma ruga
no pétreo manto além do seu riscado
multissecular, tão pomba e mansa
em seu dulçor de frágil fortaleza,
vê chegado o momento da tortura,
mas eis que uma criança,
que com ela brincou e soube ver
a maravilha do ato de existir,
se levanta da relva e pede em pranto
à mãe, na hora fatal:
“Não deixa ela morrer!” — e a tartaruga
é salva, por encanto.
08/11/1964
1 829
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Paulo de Tarso

São Paulo aos Coríntios:
“Ao soar a última trombeta
ressuscitarão os mortos,
incorruptíveis”.

Paulo, temos pressa de cumprir
teu maravilhoso anúncio.
Demora tanto essa final trombeta,
e acaso será ouvida entre milhões
de ruídos modernos
que o bel e o decibel não medem?
Queremos já, no chão terreno,
sobre a morte plantar nossa vitória.
Não te aborreças, Paulo.
O nosso irmão Ettinger, incumbido
de quebrar este galho, eis que inventou
uma casa de mortos especial,
que a morte dribla e ilude.

Estão mortos, parece?
Não, apenas
desligados da vida, congelados.
Daqui a 20, 30, talvez menos,
5 anos, quem sabe?, ressuscitam,
continuando a lavrar a mesma vida.

A mesma, Paulo. Não a outra,
aquela vida nova, azulfutura
a que teu verbo os preparava.
A 273 graus de zero abaixo
um tanto de glicerol e outro de
dimestilsulfóxido

(vocábulos de Novíssimo Testamento)
impedem a corrupção,
perdão,
detêm a corrupção na justa hora
de o coração parar.
Parou. Fica esperando
que uma droga sutil seja criada
pelos nossos irmãos, em cada caso.

A droga surge,
rompe-se o caixão plástico na câmara
mortu-refrigerada, cumpre-se
tua palavra, Paulo (ou a de Cristo)
a nosso modo:
a vida
com seus enigmas
ameaças
pânicos
difícil de ser cumprida e desejada
apesar disso, por isso?
ocupa novamente o peito ex-glaciar
e nele reinstala
sua dor de pensar
sua dor de amar
e a (que não dói, mas dói) de esquecer
e todas as complementares
que pelo ar haviam fugido
no tempo da morte clínica,
antes de mano Ettinger bolar
a mortivida frígida.

Dispensa o coro de trombetas,
Paulo,
nossa vitória aceita como boa:
“Ressuscitarão os mortos
(in)corruptíveis”.
Em verdade conseguimos
(perdoa)
a ressurreição em meia
confecção.
18/01/1967
1 346
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Paulo de Tarso

São Paulo aos Coríntios:
“Ao soar a última trombeta
ressuscitarão os mortos,
incorruptíveis”.

Paulo, temos pressa de cumprir
teu maravilhoso anúncio.
Demora tanto essa final trombeta,
e acaso será ouvida entre milhões
de ruídos modernos
que o bel e o decibel não medem?
Queremos já, no chão terreno,
sobre a morte plantar nossa vitória.
Não te aborreças, Paulo.
O nosso irmão Ettinger, incumbido
de quebrar este galho, eis que inventou
uma casa de mortos especial,
que a morte dribla e ilude.

Estão mortos, parece?
Não, apenas
desligados da vida, congelados.
Daqui a 20, 30, talvez menos,
5 anos, quem sabe?, ressuscitam,
continuando a lavrar a mesma vida.

A mesma, Paulo. Não a outra,
aquela vida nova, azulfutura
a que teu verbo os preparava.
A 273 graus de zero abaixo
um tanto de glicerol e outro de
dimestilsulfóxido

(vocábulos de Novíssimo Testamento)
impedem a corrupção,
perdão,
detêm a corrupção na justa hora
de o coração parar.
Parou. Fica esperando
que uma droga sutil seja criada
pelos nossos irmãos, em cada caso.

A droga surge,
rompe-se o caixão plástico na câmara
mortu-refrigerada, cumpre-se
tua palavra, Paulo (ou a de Cristo)
a nosso modo:
a vida
com seus enigmas
ameaças
pânicos
difícil de ser cumprida e desejada
apesar disso, por isso?
ocupa novamente o peito ex-glaciar
e nele reinstala
sua dor de pensar
sua dor de amar
e a (que não dói, mas dói) de esquecer
e todas as complementares
que pelo ar haviam fugido
no tempo da morte clínica,
antes de mano Ettinger bolar
a mortivida frígida.

Dispensa o coro de trombetas,
Paulo,
nossa vitória aceita como boa:
“Ressuscitarão os mortos
(in)corruptíveis”.
Em verdade conseguimos
(perdoa)
a ressurreição em meia
confecção.
18/01/1967
1 346
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Paulo de Tarso

São Paulo aos Coríntios:
“Ao soar a última trombeta
ressuscitarão os mortos,
incorruptíveis”.

Paulo, temos pressa de cumprir
teu maravilhoso anúncio.
Demora tanto essa final trombeta,
e acaso será ouvida entre milhões
de ruídos modernos
que o bel e o decibel não medem?
Queremos já, no chão terreno,
sobre a morte plantar nossa vitória.
Não te aborreças, Paulo.
O nosso irmão Ettinger, incumbido
de quebrar este galho, eis que inventou
uma casa de mortos especial,
que a morte dribla e ilude.

Estão mortos, parece?
Não, apenas
desligados da vida, congelados.
Daqui a 20, 30, talvez menos,
5 anos, quem sabe?, ressuscitam,
continuando a lavrar a mesma vida.

A mesma, Paulo. Não a outra,
aquela vida nova, azulfutura
a que teu verbo os preparava.
A 273 graus de zero abaixo
um tanto de glicerol e outro de
dimestilsulfóxido

(vocábulos de Novíssimo Testamento)
impedem a corrupção,
perdão,
detêm a corrupção na justa hora
de o coração parar.
Parou. Fica esperando
que uma droga sutil seja criada
pelos nossos irmãos, em cada caso.

A droga surge,
rompe-se o caixão plástico na câmara
mortu-refrigerada, cumpre-se
tua palavra, Paulo (ou a de Cristo)
a nosso modo:
a vida
com seus enigmas
ameaças
pânicos
difícil de ser cumprida e desejada
apesar disso, por isso?
ocupa novamente o peito ex-glaciar
e nele reinstala
sua dor de pensar
sua dor de amar
e a (que não dói, mas dói) de esquecer
e todas as complementares
que pelo ar haviam fugido
no tempo da morte clínica,
antes de mano Ettinger bolar
a mortivida frígida.

Dispensa o coro de trombetas,
Paulo,
nossa vitória aceita como boa:
“Ressuscitarão os mortos
(in)corruptíveis”.
Em verdade conseguimos
(perdoa)
a ressurreição em meia
confecção.
18/01/1967
1 346
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Paulo de Tarso

São Paulo aos Coríntios:
“Ao soar a última trombeta
ressuscitarão os mortos,
incorruptíveis”.

Paulo, temos pressa de cumprir
teu maravilhoso anúncio.
Demora tanto essa final trombeta,
e acaso será ouvida entre milhões
de ruídos modernos
que o bel e o decibel não medem?
Queremos já, no chão terreno,
sobre a morte plantar nossa vitória.
Não te aborreças, Paulo.
O nosso irmão Ettinger, incumbido
de quebrar este galho, eis que inventou
uma casa de mortos especial,
que a morte dribla e ilude.

Estão mortos, parece?
Não, apenas
desligados da vida, congelados.
Daqui a 20, 30, talvez menos,
5 anos, quem sabe?, ressuscitam,
continuando a lavrar a mesma vida.

A mesma, Paulo. Não a outra,
aquela vida nova, azulfutura
a que teu verbo os preparava.
A 273 graus de zero abaixo
um tanto de glicerol e outro de
dimestilsulfóxido

(vocábulos de Novíssimo Testamento)
impedem a corrupção,
perdão,
detêm a corrupção na justa hora
de o coração parar.
Parou. Fica esperando
que uma droga sutil seja criada
pelos nossos irmãos, em cada caso.

A droga surge,
rompe-se o caixão plástico na câmara
mortu-refrigerada, cumpre-se
tua palavra, Paulo (ou a de Cristo)
a nosso modo:
a vida
com seus enigmas
ameaças
pânicos
difícil de ser cumprida e desejada
apesar disso, por isso?
ocupa novamente o peito ex-glaciar
e nele reinstala
sua dor de pensar
sua dor de amar
e a (que não dói, mas dói) de esquecer
e todas as complementares
que pelo ar haviam fugido
no tempo da morte clínica,
antes de mano Ettinger bolar
a mortivida frígida.

Dispensa o coro de trombetas,
Paulo,
nossa vitória aceita como boa:
“Ressuscitarão os mortos
(in)corruptíveis”.
Em verdade conseguimos
(perdoa)
a ressurreição em meia
confecção.
18/01/1967
1 346
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A. B. C. Manuelino

Alaúza, minha gente!
Festivo repique o sino
em honra deste menino.

Bem nascido no Recife
lá no bairro do Capunga
e de tendência malunga.

Companheiro de nascença
ficou sendo da poesia,
luz e sol de cada dia.

De nós todos companheiro,
por isso que no seu verso
há um carinho submerso.

Entre a Rua da União
e a união pelo canto,
distribui paz, acalanto.

Faz muito tempo que veio
ao mundo? Está bem lampeiro,
mistura de sábio e arteiro.

Gazal compõe e balada,
mas, se quer ser concretista,
concretos fujam da pista.

Hertziana magia, fluida,
circula em cada palavra,
ouro do campo em que lavra.

Inimigos, não: amigos
são quantos, na trilha amarga
da angústia, encontram Pasárgada.

Já foi doente, mas soube
vencer o mal que há no mal.
É tudo lição ideal.

K., solitário de Kafka,
entraria no castelo
ao ritmo do “Belo Belo”.

Laura, Natércia, outros mitos
o poeta descobre que há
no sabonete Araxá.

Mas percebe ao mesmo tempo
a miséria dos destinos
dos carvoeirinhos meninos.

Na sua lira moderna
a dor de cada criatura
colhe um eco de ternura.

O recado que nos manda
é um recado experiente
de vida e de amor presente.

Para chegar à pureza
de siderais avenidas,
o poeta viveu mil vidas.

Quem disse que é sem família
no seu quarto à beira-oceano?
Seu mano: o gênero humano.

Rosas, rosas e mais rosas
de Barbacena ou Caymmi
em ramalhete sublime

sejam portanto ofertadas
àquele que no seu horto,
mesmo à visão do boi morto,

tem um jeito de existir
tão natural como planta
que em silêncio se alevanta.

Uma planta que dá sombra
e dá música — segredo
assim em tom de brinquedo.

Viva, viva! aos oitent’anos,
quem que pode com o velhinho
amador de chope e vinho?

Xis do problema: este viço
vem-lhe d’alma, fortaleza
de bondade sempre acesa.

Ypissilão foi-se embora
do nosso atual dicionário.
Que importa? Canhestro, vário,

zangarreante cronista,
saúdo Manuel Bandeira,
estrela da vida inteira.
17/04/1966
1 029
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Luar Para Alphonsus

Hoje peço uma lua diferente
para Ouro Preto
Conceição do Serro
Mariana.

Não venha a lua de Armstrong
pisada, apalpada
analisada em fragmentos pelos geólogos.

Há de ser a lua mágica e pensativa
a lua de Alphonsus
sobre as três cidades de sua vida.

Comemore-se o centenário do poeta
com uma lua de absoluta primeira classe
bem mineira no gelado vapor de julho
bem da Virgem do Carmo do Ribeirão
dos menestréis de serenata
bem simbolista bem medieval.

Haja um luar de prata escorrendo sobre montanhas
inundando as prefeituras
os bancos de investimento de Belo Horizonte
a própria polícia militar
de modo que ninguém se esqueça, ninguém possa alegar:

Eu não sabia
que ele fazia
cem anos.

Mas não é para soltar foguete nem fazer
os clássicos discursos ao povo mineiro
dando ao espectro do poeta o que faltou ao poeta
numa vida banal sem esperança.

É para sentir o luar
extra que envolve
Ouro Preto, Mariana, Conceição
filtrado suavemente
da poesia de Alphonsus, no silêncio
de sua mesa de juiz municipal
meritíssimo poeta do luar.

Algum estudante, sim, espero vê-lo
debruçado sobre a Pastoral aos crentes
do amor e da morte, penetrando
o cerne doceamargo
de um verso alphonsino cem por cento.
Algum velho da minha geração,
uns poucos doidos mansos, e quem mais?
Onde o poeta assiste, não há cocks
autógrafos, badalos, gravações.
Está cerrado em si mesmo (tel qu’en lui-même
enfin l’éternité le change…)
e descobri-lo é quase um nascimento
do verbo:
cada palavra antiga surge nova
intemporal, sem desgaste vanguardista, lua
nova, na página lunar.

E essa lua eu peço: aquela mesma
barquinha santa, gôndola
rosal cheio de harpas
urna de padre-nossos
pão de trigo da sagrada ceia
lua dupla de Ismália enlouquecida
lua de Alphonsus que ele soube ver
como ninguém mais veria
de seus mineiros altos miradouros.
O poeta faz cem anos no luar.
05/07/1970
1 855
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Outubro

Outubro eleitoral, que desabrochas
da vaga primavera de setembro,
misturando biquínis e galochas,
ardor a frio, e coisas que relembro;

outubro já verão na areia clara
de praias leblonianas, espera
um silfo, uma sereia, forma rara
a desfazer-se em rosa na atmosfera;

outubro a despertar em rebeldia
(ó meu passado!) e tropas se alinhando
no caminho do Túnel: quem diria
que a liberdade é um não sei quê nem quando?

Outubro que em tu mesmo te pintavas
para fazer do sangue o selo rubro,
penhor de novos tempos, fúrias, lavas
de puro entusiasmo, ingênuo outubro;

eis que de novo trazes no regaço,
político, um mistério, ó mês estranho.
Outubro, tem paciência, o tempo é escasso
à solução de enigma assim tamanho.

À tua brisa, outubro, se renova
nossa velha esperança malograda
depois de tanta luta e tanta prova,
rumo a Juarez e Mílton, na alvorada.

Que nos darás, amigo? Um homem puro,
numa quadra de paz e grandes feitos?
Ou temos de chorar, de encontro ao muro,
nossos erros, nos erros dos eleitos?

Voltará o passado, outubro, outubro?
Voltarão as misérias e os enganos?
(Como sacerdotisa no delubro,
a musa explora em vão os teus arcanos.)

Que depende de nós, eu sei. No entanto,
à cósmica energia de teu bojo,
o amante e o cidadão se enchem de espanto,
e sob o influxo astral tombam de rojo…

Outubro escorpional, meu aracnídeo
postado entre Balança e Sagitário:
Órion persegue Diana? em vão: agride-o
teu pungente ferrão, de efeito vário.

Outubro americano, porta aberta
a mundos novos que eram velhos mundos,
permite-nos chegar à descoberta
de nós mesmos, nos pegos mais profundos.

Outubro, que afinal não és diverso
de outro qualquer dos meses da folhinha,
perdoa a sem-razão deste meu verso,
que eu te agradeço, outubro, a croniquinha.
02/10/1955
2 223
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Outubro

Outubro eleitoral, que desabrochas
da vaga primavera de setembro,
misturando biquínis e galochas,
ardor a frio, e coisas que relembro;

outubro já verão na areia clara
de praias leblonianas, espera
um silfo, uma sereia, forma rara
a desfazer-se em rosa na atmosfera;

outubro a despertar em rebeldia
(ó meu passado!) e tropas se alinhando
no caminho do Túnel: quem diria
que a liberdade é um não sei quê nem quando?

Outubro que em tu mesmo te pintavas
para fazer do sangue o selo rubro,
penhor de novos tempos, fúrias, lavas
de puro entusiasmo, ingênuo outubro;

eis que de novo trazes no regaço,
político, um mistério, ó mês estranho.
Outubro, tem paciência, o tempo é escasso
à solução de enigma assim tamanho.

À tua brisa, outubro, se renova
nossa velha esperança malograda
depois de tanta luta e tanta prova,
rumo a Juarez e Mílton, na alvorada.

Que nos darás, amigo? Um homem puro,
numa quadra de paz e grandes feitos?
Ou temos de chorar, de encontro ao muro,
nossos erros, nos erros dos eleitos?

Voltará o passado, outubro, outubro?
Voltarão as misérias e os enganos?
(Como sacerdotisa no delubro,
a musa explora em vão os teus arcanos.)

Que depende de nós, eu sei. No entanto,
à cósmica energia de teu bojo,
o amante e o cidadão se enchem de espanto,
e sob o influxo astral tombam de rojo…

Outubro escorpional, meu aracnídeo
postado entre Balança e Sagitário:
Órion persegue Diana? em vão: agride-o
teu pungente ferrão, de efeito vário.

Outubro americano, porta aberta
a mundos novos que eram velhos mundos,
permite-nos chegar à descoberta
de nós mesmos, nos pegos mais profundos.

Outubro, que afinal não és diverso
de outro qualquer dos meses da folhinha,
perdoa a sem-razão deste meu verso,
que eu te agradeço, outubro, a croniquinha.
02/10/1955
2 223
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aos Santos de Junho

Meu santo Santo Antônio de Lisboa,
repara em quanto coração aflito,
a padecer milhões por coisa à toa.
Por que não baixas, please, do infinito?

O mundo é o mesmo após aquela tarde
em que, à falta de gente, por encanto,
falaste aos peixes, e eles, sem alarde,
meditavam em roda de teu manto.

Não sabemos, Antônio, o que queremos,
nem sabemos querer, porém confiamos
de teu amor nos cândidos extremos
e nessa fiúza todos continuamos.

Se não sorris a nosso petitório,
acudindo ao que houver de mais urgente,
se, em vez do café, levas o tório,
como pode o pessoal ficar contente?

Alferes, capitão de soldo largo,
tua civilidade nos proteja.
Não nos deixes papar arroz amargo,
e os brotos (de grinalda?) leva à igreja.

Olha as coisas perdidas, Antoninho:
vergonha, isqueiro, tempo… Se encontrares
um coração jogado no caminho,
traze-o de volta ao dono, pelos ares.

E tu, senhor São João, que vens chegando
ao estrondo de bombas (de hidrogênio?),
salve! mas, por favor, dize: até quando
o jeito é ensurdecer: por um milênio?

Sei que não és culpado, meu querido.
Amas o fogo, a sorte, a clara de ovo,
a flor de samambaia e seu sentido
mágico, à meia-noite, para o povo.

E o manjerico verde, casamento
com rapaz; ou, senão, murcho, com velho.
Responde, João: em julho vem aumento?
(Bem sei que o assunto foge ao Evangelho.)

Mas dançaremos todos por lembrar-te,
e pulando, sem pânico, a fogueira,
pobres clientes do câncer e do enfarte,
ao clarão de outra chama verdadeira

que arde em nós, não se extingue e nos consola,
ó João Batista degolado e suave,
bendiremos a graça de teu nome,
e na funda bacia a alma se lave.

Não importa, se ardemos: esta brasa,
como o petróleo, é nossa. Mas, bondoso
e friorento São João: ao cego, em Gaza,
dá-lhe em sonho um balcão, para seu gozo.

E tu, ó Pedro astuto e rude, rocha
no caminho do incréu, baixa e descansa,
contando-nos teus contos de carocha,
os mesmos em Caeté como na França.

Tens as chaves do céu ou do Tesouro?
Aqui a turma — é pena — se interessa
bem mais pela segunda — tanto ouro
nas almas se perdendo… A vida é essa.

E o mais que se dissipa em schiaparellis,
balenciagas, espécies superfinas
(que não sei como pôr os erres e eles),
em peles balzaquianas e meninas.

Pedro-piloto-barca: a teu prestígio,
da vida este canhestro e mau aluno,
evitando de longe o curso estígio,
ganha a sabedoria de Unamuno.

No alto não me recebes, mas à porta,
os coros inefáveis surpreendendo,
cultivarei as minhas flores de horta:
a saudade do céu é um dividendo.

Antônio, Pedro, João: aos três oferto
esta saudade em nós, sem testemunho:
pois, se o homem rasteja em rumo incerto,
balões sobem ao céu, no mês de junho.
17/06/1956
2 142
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

De 7 Dias

Começou festiva a semana:
espiávamos por uma frincha
a vitória, e eis que ela fulgura,
rosa aberta ao pé de Garrincha.

Ai, emoções de Gotemburgo!
Futebol que nos arrebatas,
esse rugir de alto-falante
vale mozartianas sonatas.

E torço firme a vosso lado,
cidadãos que morais no assunto,
embora entenda de pelota
simplesmente o que vos pergunto.

Quem ganhou foi o Botafogo,
canta o severiano, alma leve.
Exclama junto um pena-boto:
— É, e quem perdeu foi Kruschev.

Entre estouros, risos, foguetes,
assustado, lá foge o pombo
que bicava milho na praça,
mas surge Adalgisa Colombo,

escultura, graça alongada,
e a seus munícipes ensina
que entre todos os bens da terra
a beleza é graça divina.

E talento é a suprema dádiva:
penso nisso ao ver Pinga-fogo
no Dulcina, e a rara Cacilda
em seu sutilíssimo jogo

de emoção: a infância pisada,
um murmúrio de pai a filho,
diálogo obscuro das almas
para quem o sol é sem brilho.

E que delícia O protocolo,
velho Machado sempre novo!
Nosso teatro já floresce,
não é pinto a sair do ovo.

Mas nem tudo foram ditosas
horas no tempo brasileiro:
o vento no Convair, e a chuva.
A morte estava num pinheiro.

A morte estava à espera, surda,
cega a toda humana piedade.
E esse indecifrável mistério,
inscrição chinesa no jade,

faz baixar um crepe silente
sobre os gaios fogos votivos.
Que João e Pedro, das alturas,
suavizem a pena dos vivos.

E vem outro, mais outro dia.
Paira a esperança, junto à fé.
A bola em flor no campo: joia,
e seu ourives é Pelé.
22/06/1958
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