Poemas neste tema
Vida e Existência
Ruy Belo
Necrologia
Portugal tem nove milhões de habitantes
Lisboa talvez tenha um milhão
Nada disto me pode consolar bem sei
Morreu antónio gião
Eu não o conhecia nunca o conhecerei
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 149 | Editorial Presença Lda., 1984
Lisboa talvez tenha um milhão
Nada disto me pode consolar bem sei
Morreu antónio gião
Eu não o conhecia nunca o conhecerei
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 149 | Editorial Presença Lda., 1984
927
Ruy Belo
As grandes insubmissões
As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.
Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.
Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.
Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.
- Ó maurício, faltaste à aula das nove.
E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.
Tocou para a aula das dez.
- Ó maurício, não vens à aula?
O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.
Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.
Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.
Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 181 e 182 | Editorial Presença Lda., 1984
Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.
Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.
Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.
- Ó maurício, faltaste à aula das nove.
E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.
Tocou para a aula das dez.
- Ó maurício, não vens à aula?
O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.
Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.
Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.
Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 181 e 182 | Editorial Presença Lda., 1984
943
Ruy Belo
As grandes insubmissões
As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.
Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.
Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.
Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.
- Ó maurício, faltaste à aula das nove.
E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.
Tocou para a aula das dez.
- Ó maurício, não vens à aula?
O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.
Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.
Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.
Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 181 e 182 | Editorial Presença Lda., 1984
Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.
Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.
Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.
- Ó maurício, faltaste à aula das nove.
E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.
Tocou para a aula das dez.
- Ó maurício, não vens à aula?
O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.
Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.
Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.
Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 181 e 182 | Editorial Presença Lda., 1984
943
Ruy Belo
As grandes insubmissões
As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.
Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.
Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.
Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.
- Ó maurício, faltaste à aula das nove.
E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.
Tocou para a aula das dez.
- Ó maurício, não vens à aula?
O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.
Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.
Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.
Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 181 e 182 | Editorial Presença Lda., 1984
Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.
Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.
Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.
- Ó maurício, faltaste à aula das nove.
E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.
Tocou para a aula das dez.
- Ó maurício, não vens à aula?
O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.
Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.
Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.
Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 181 e 182 | Editorial Presença Lda., 1984
943
Ruy Belo
Quadras quase populares
Sei tão de cor estes dias
que a única emoção forte
seria ele vir até mim
do fundo da sua morte
Nua a cruz a mesa lisa
Na mínima paisagem
branco e redondo de coragem
quanto couber no tempo agoniza
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 37 | Editorial Presença Lda., 1984
que a única emoção forte
seria ele vir até mim
do fundo da sua morte
Nua a cruz a mesa lisa
Na mínima paisagem
branco e redondo de coragem
quanto couber no tempo agoniza
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 37 | Editorial Presença Lda., 1984
877
Ruy Belo
Idola Fori
Eu sei diversas coisas
saber é afinal a minha única ocupação
Sei pouco de manhãs
mas talvez possam dizer de mim que amei o mar
e cada árvore que me viu passar
e insistir na vida como uma canção em voga
Quem mais que eu
quem foi esqueceu?
Estamos mal feitos pronto
Para quê a doçura no olhar
de uma mulher certos dias?
O morno calor do sol rasante pelas tardes
de setembro na senhora da guia
senti-lo em abril numa sala voltada ao poente
de súbito sabendo de todos os papéis
ou outra eternidade que não essa
Talvez ouvir egmont sentindo-me importante de repente
ou então conversar sobre o poeta à beira da água
chegar a mangualde ao pôr-do-sol
ou a duas igrejas na semana santa
ouvir os sinos na matriz vizinha
cheirar madeira nova nas gavetas
fechar a porta sobre todos os cuidados
cantar a triunfante juventude
não mais andar perdido de ano em ano
não mais a morte questão para ociosos
à tarde no café dos reformados
Oh quem me dera ser católico
ou pelo menos morar alguma vez
em lisboa ou nos arredores de lisboa
Não há remédio nenhum
esqueci-me de tanta coisa
Sei que isto não é grande coisa
mas nenhuma outra coisa me é dada
o que é preciso é que não doa muito
Depois que me escondam na terra como uma vergonha
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 176 e 177 | Editorial Presença Lda., 1984
saber é afinal a minha única ocupação
Sei pouco de manhãs
mas talvez possam dizer de mim que amei o mar
e cada árvore que me viu passar
e insistir na vida como uma canção em voga
Quem mais que eu
quem foi esqueceu?
Estamos mal feitos pronto
Para quê a doçura no olhar
de uma mulher certos dias?
O morno calor do sol rasante pelas tardes
de setembro na senhora da guia
senti-lo em abril numa sala voltada ao poente
de súbito sabendo de todos os papéis
ou outra eternidade que não essa
Talvez ouvir egmont sentindo-me importante de repente
ou então conversar sobre o poeta à beira da água
chegar a mangualde ao pôr-do-sol
ou a duas igrejas na semana santa
ouvir os sinos na matriz vizinha
cheirar madeira nova nas gavetas
fechar a porta sobre todos os cuidados
cantar a triunfante juventude
não mais andar perdido de ano em ano
não mais a morte questão para ociosos
à tarde no café dos reformados
Oh quem me dera ser católico
ou pelo menos morar alguma vez
em lisboa ou nos arredores de lisboa
Não há remédio nenhum
esqueci-me de tanta coisa
Sei que isto não é grande coisa
mas nenhuma outra coisa me é dada
o que é preciso é que não doa muito
Depois que me escondam na terra como uma vergonha
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 176 e 177 | Editorial Presença Lda., 1984
1 075
Ruy Belo
Idola Fori
Eu sei diversas coisas
saber é afinal a minha única ocupação
Sei pouco de manhãs
mas talvez possam dizer de mim que amei o mar
e cada árvore que me viu passar
e insistir na vida como uma canção em voga
Quem mais que eu
quem foi esqueceu?
Estamos mal feitos pronto
Para quê a doçura no olhar
de uma mulher certos dias?
O morno calor do sol rasante pelas tardes
de setembro na senhora da guia
senti-lo em abril numa sala voltada ao poente
de súbito sabendo de todos os papéis
ou outra eternidade que não essa
Talvez ouvir egmont sentindo-me importante de repente
ou então conversar sobre o poeta à beira da água
chegar a mangualde ao pôr-do-sol
ou a duas igrejas na semana santa
ouvir os sinos na matriz vizinha
cheirar madeira nova nas gavetas
fechar a porta sobre todos os cuidados
cantar a triunfante juventude
não mais andar perdido de ano em ano
não mais a morte questão para ociosos
à tarde no café dos reformados
Oh quem me dera ser católico
ou pelo menos morar alguma vez
em lisboa ou nos arredores de lisboa
Não há remédio nenhum
esqueci-me de tanta coisa
Sei que isto não é grande coisa
mas nenhuma outra coisa me é dada
o que é preciso é que não doa muito
Depois que me escondam na terra como uma vergonha
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 176 e 177 | Editorial Presença Lda., 1984
saber é afinal a minha única ocupação
Sei pouco de manhãs
mas talvez possam dizer de mim que amei o mar
e cada árvore que me viu passar
e insistir na vida como uma canção em voga
Quem mais que eu
quem foi esqueceu?
Estamos mal feitos pronto
Para quê a doçura no olhar
de uma mulher certos dias?
O morno calor do sol rasante pelas tardes
de setembro na senhora da guia
senti-lo em abril numa sala voltada ao poente
de súbito sabendo de todos os papéis
ou outra eternidade que não essa
Talvez ouvir egmont sentindo-me importante de repente
ou então conversar sobre o poeta à beira da água
chegar a mangualde ao pôr-do-sol
ou a duas igrejas na semana santa
ouvir os sinos na matriz vizinha
cheirar madeira nova nas gavetas
fechar a porta sobre todos os cuidados
cantar a triunfante juventude
não mais andar perdido de ano em ano
não mais a morte questão para ociosos
à tarde no café dos reformados
Oh quem me dera ser católico
ou pelo menos morar alguma vez
em lisboa ou nos arredores de lisboa
Não há remédio nenhum
esqueci-me de tanta coisa
Sei que isto não é grande coisa
mas nenhuma outra coisa me é dada
o que é preciso é que não doa muito
Depois que me escondam na terra como uma vergonha
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 176 e 177 | Editorial Presença Lda., 1984
1 075
Ruy Belo
Homeoptoto
Soubesse eu que me aceitas
Sentisse eu nos meus passos a firmeza que tem
nos seus a criança que vai para a escola
levada pelos olhos imensos da mãe
tivesse todo o meu ser a configuração
bastante pra caber na tua longa mão
e lá morrer essa mão onde todas as loucuras são
possíveis fosse a tua presença mais do que eu não ter
mais ninguém a meu lado
Não estivesse eu sujeito ao inverno que vem
mais carregado de memórias do que ninguém
E eu não procuraria este meu nome em vão
na folha que descreve o vento
nesta fronte onde vêm repousar as moscas
fronteira do meu pensamento
nas crianças de gestos decisivos
ou noutros pobres seres transitórios
(Nem tanta servidão precisaria para libertar
umas simples palavras do tempo)
Viesses tu beleza sempre antiga e sempre nova
encher aquela mão que abre
dentro de mim a inquietação
e a minha humilde prece tomaria a forma
do mais agudo ângulo das tuas duas mãos
onde toda a paisagem triangular termina
O teu silêncio ondularia menos que qualquer planície
tão pouco ambíguo como não sei que nuvem
Colhesses um por um os meus passos dispersos
achasses-me nos meus perdidos versos
e eu não repousaria nas ideias que estendo como mantas
nalgum pinhal à hora da sesta perto do mar
O teu lugar
seria sempre no côncavo do sonho
eu não me esqueceria
de agora ou logo ir-te lá buscar
E nestas tardes que sobre nós desdobras
passariam as dobras dos cuidados
Em nós quaisquer outonos morreriam
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 35 e 36 | Editorial Presença Lda., 1984
Sentisse eu nos meus passos a firmeza que tem
nos seus a criança que vai para a escola
levada pelos olhos imensos da mãe
tivesse todo o meu ser a configuração
bastante pra caber na tua longa mão
e lá morrer essa mão onde todas as loucuras são
possíveis fosse a tua presença mais do que eu não ter
mais ninguém a meu lado
Não estivesse eu sujeito ao inverno que vem
mais carregado de memórias do que ninguém
E eu não procuraria este meu nome em vão
na folha que descreve o vento
nesta fronte onde vêm repousar as moscas
fronteira do meu pensamento
nas crianças de gestos decisivos
ou noutros pobres seres transitórios
(Nem tanta servidão precisaria para libertar
umas simples palavras do tempo)
Viesses tu beleza sempre antiga e sempre nova
encher aquela mão que abre
dentro de mim a inquietação
e a minha humilde prece tomaria a forma
do mais agudo ângulo das tuas duas mãos
onde toda a paisagem triangular termina
O teu silêncio ondularia menos que qualquer planície
tão pouco ambíguo como não sei que nuvem
Colhesses um por um os meus passos dispersos
achasses-me nos meus perdidos versos
e eu não repousaria nas ideias que estendo como mantas
nalgum pinhal à hora da sesta perto do mar
O teu lugar
seria sempre no côncavo do sonho
eu não me esqueceria
de agora ou logo ir-te lá buscar
E nestas tardes que sobre nós desdobras
passariam as dobras dos cuidados
Em nós quaisquer outonos morreriam
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 35 e 36 | Editorial Presença Lda., 1984
1 245
Ruy Belo
Meditação magoada
Deixa-me olhar-te pássaro real
A saltitar nesta tarde esquecida
Como uma clara afirmação de vida
Mesmo porque esse teu corpo vale.
Que alguma coisa morre em cada qual
Leio-o nessa cabeça ao alto erguida
Mas tens a alegria extrovertida
De não sentir em ti o nosso mal.
Somos contemporâneos meu amigo
Por isso posso conviver contigo
Compartilhar o orgulho de estar vivo.
Eu penso e tu não pensas é que é certo:
Tu a saltar e eu aqui tão perto
A pensar que da morte não me privo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 164 | Editorial Presença Lda., 1984
A saltitar nesta tarde esquecida
Como uma clara afirmação de vida
Mesmo porque esse teu corpo vale.
Que alguma coisa morre em cada qual
Leio-o nessa cabeça ao alto erguida
Mas tens a alegria extrovertida
De não sentir em ti o nosso mal.
Somos contemporâneos meu amigo
Por isso posso conviver contigo
Compartilhar o orgulho de estar vivo.
Eu penso e tu não pensas é que é certo:
Tu a saltar e eu aqui tão perto
A pensar que da morte não me privo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 164 | Editorial Presença Lda., 1984
1 008
Ruy Belo
Meditação magoada
Deixa-me olhar-te pássaro real
A saltitar nesta tarde esquecida
Como uma clara afirmação de vida
Mesmo porque esse teu corpo vale.
Que alguma coisa morre em cada qual
Leio-o nessa cabeça ao alto erguida
Mas tens a alegria extrovertida
De não sentir em ti o nosso mal.
Somos contemporâneos meu amigo
Por isso posso conviver contigo
Compartilhar o orgulho de estar vivo.
Eu penso e tu não pensas é que é certo:
Tu a saltar e eu aqui tão perto
A pensar que da morte não me privo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 164 | Editorial Presença Lda., 1984
A saltitar nesta tarde esquecida
Como uma clara afirmação de vida
Mesmo porque esse teu corpo vale.
Que alguma coisa morre em cada qual
Leio-o nessa cabeça ao alto erguida
Mas tens a alegria extrovertida
De não sentir em ti o nosso mal.
Somos contemporâneos meu amigo
Por isso posso conviver contigo
Compartilhar o orgulho de estar vivo.
Eu penso e tu não pensas é que é certo:
Tu a saltar e eu aqui tão perto
A pensar que da morte não me privo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 164 | Editorial Presença Lda., 1984
1 008
Ruy Belo
Meditação magoada
Deixa-me olhar-te pássaro real
A saltitar nesta tarde esquecida
Como uma clara afirmação de vida
Mesmo porque esse teu corpo vale.
Que alguma coisa morre em cada qual
Leio-o nessa cabeça ao alto erguida
Mas tens a alegria extrovertida
De não sentir em ti o nosso mal.
Somos contemporâneos meu amigo
Por isso posso conviver contigo
Compartilhar o orgulho de estar vivo.
Eu penso e tu não pensas é que é certo:
Tu a saltar e eu aqui tão perto
A pensar que da morte não me privo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 164 | Editorial Presença Lda., 1984
A saltitar nesta tarde esquecida
Como uma clara afirmação de vida
Mesmo porque esse teu corpo vale.
Que alguma coisa morre em cada qual
Leio-o nessa cabeça ao alto erguida
Mas tens a alegria extrovertida
De não sentir em ti o nosso mal.
Somos contemporâneos meu amigo
Por isso posso conviver contigo
Compartilhar o orgulho de estar vivo.
Eu penso e tu não pensas é que é certo:
Tu a saltar e eu aqui tão perto
A pensar que da morte não me privo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 164 | Editorial Presença Lda., 1984
1 008
Ruy Belo
Turismo
Eu vi morrer um homem e caminho
Vários motivos de morte e uma
agenda mas
almoço
Há mesas e cadeiras e passeios e
sabe-me
a café
Mistério de maresia ou de ningué
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
Vários motivos de morte e uma
agenda mas
almoço
Há mesas e cadeiras e passeios e
sabe-me
a café
Mistério de maresia ou de ningué
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
1 048
Ruy Belo
Turismo
Eu vi morrer um homem e caminho
Vários motivos de morte e uma
agenda mas
almoço
Há mesas e cadeiras e passeios e
sabe-me
a café
Mistério de maresia ou de ningué
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
Vários motivos de morte e uma
agenda mas
almoço
Há mesas e cadeiras e passeios e
sabe-me
a café
Mistério de maresia ou de ningué
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
1 048
Ruy Belo
Maran Atha
Eu sou senhor aquele que sente
frios ainda os pés nas estações
com que nos chega o tempo sucessivamente
Nada me fica na alma nem a tarde de praia
quando o vento tinha
uma linguagem nas barracas
Não há coração em mim para a folha que morre
e ando a matar uma por uma até
alegrias simples como a certas horas
reparar que temos um corpo
determinamos uma sombra
e ocupamos um espaço que nos leva
a estar aqui agora nesta rua
e não noutra parte
Homem levantado e caído
setenta vezes sete vezes por dia
que morte me quer para além
de deixar cair os braços?
Eu que te vi e revi descer solene
como um raio sobre o meu destino
que te dei um lugar mais definitivo
em minha boca do que a folha de outono
teve na calçada
quando de vez vieres que será de mim?
E tenho a ousadia de morder-te
à superfície do dia. Tu bem sabes
que catedral de esperança te reservo
Talvez já amanhã nos não saudemos sob as árvores
e venhas sobre as nuvens
sobre o coração sobre a morte sobre mim"
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 32 | Editorial Presença Lda., 1984
frios ainda os pés nas estações
com que nos chega o tempo sucessivamente
Nada me fica na alma nem a tarde de praia
quando o vento tinha
uma linguagem nas barracas
Não há coração em mim para a folha que morre
e ando a matar uma por uma até
alegrias simples como a certas horas
reparar que temos um corpo
determinamos uma sombra
e ocupamos um espaço que nos leva
a estar aqui agora nesta rua
e não noutra parte
Homem levantado e caído
setenta vezes sete vezes por dia
que morte me quer para além
de deixar cair os braços?
Eu que te vi e revi descer solene
como um raio sobre o meu destino
que te dei um lugar mais definitivo
em minha boca do que a folha de outono
teve na calçada
quando de vez vieres que será de mim?
E tenho a ousadia de morder-te
à superfície do dia. Tu bem sabes
que catedral de esperança te reservo
Talvez já amanhã nos não saudemos sob as árvores
e venhas sobre as nuvens
sobre o coração sobre a morte sobre mim"
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 32 | Editorial Presença Lda., 1984
1 177
Ruy Belo
Maran Atha
Eu sou senhor aquele que sente
frios ainda os pés nas estações
com que nos chega o tempo sucessivamente
Nada me fica na alma nem a tarde de praia
quando o vento tinha
uma linguagem nas barracas
Não há coração em mim para a folha que morre
e ando a matar uma por uma até
alegrias simples como a certas horas
reparar que temos um corpo
determinamos uma sombra
e ocupamos um espaço que nos leva
a estar aqui agora nesta rua
e não noutra parte
Homem levantado e caído
setenta vezes sete vezes por dia
que morte me quer para além
de deixar cair os braços?
Eu que te vi e revi descer solene
como um raio sobre o meu destino
que te dei um lugar mais definitivo
em minha boca do que a folha de outono
teve na calçada
quando de vez vieres que será de mim?
E tenho a ousadia de morder-te
à superfície do dia. Tu bem sabes
que catedral de esperança te reservo
Talvez já amanhã nos não saudemos sob as árvores
e venhas sobre as nuvens
sobre o coração sobre a morte sobre mim"
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 32 | Editorial Presença Lda., 1984
frios ainda os pés nas estações
com que nos chega o tempo sucessivamente
Nada me fica na alma nem a tarde de praia
quando o vento tinha
uma linguagem nas barracas
Não há coração em mim para a folha que morre
e ando a matar uma por uma até
alegrias simples como a certas horas
reparar que temos um corpo
determinamos uma sombra
e ocupamos um espaço que nos leva
a estar aqui agora nesta rua
e não noutra parte
Homem levantado e caído
setenta vezes sete vezes por dia
que morte me quer para além
de deixar cair os braços?
Eu que te vi e revi descer solene
como um raio sobre o meu destino
que te dei um lugar mais definitivo
em minha boca do que a folha de outono
teve na calçada
quando de vez vieres que será de mim?
E tenho a ousadia de morder-te
à superfície do dia. Tu bem sabes
que catedral de esperança te reservo
Talvez já amanhã nos não saudemos sob as árvores
e venhas sobre as nuvens
sobre o coração sobre a morte sobre mim"
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 32 | Editorial Presença Lda., 1984
1 177
Ruy Belo
Maran Atha
Eu sou senhor aquele que sente
frios ainda os pés nas estações
com que nos chega o tempo sucessivamente
Nada me fica na alma nem a tarde de praia
quando o vento tinha
uma linguagem nas barracas
Não há coração em mim para a folha que morre
e ando a matar uma por uma até
alegrias simples como a certas horas
reparar que temos um corpo
determinamos uma sombra
e ocupamos um espaço que nos leva
a estar aqui agora nesta rua
e não noutra parte
Homem levantado e caído
setenta vezes sete vezes por dia
que morte me quer para além
de deixar cair os braços?
Eu que te vi e revi descer solene
como um raio sobre o meu destino
que te dei um lugar mais definitivo
em minha boca do que a folha de outono
teve na calçada
quando de vez vieres que será de mim?
E tenho a ousadia de morder-te
à superfície do dia. Tu bem sabes
que catedral de esperança te reservo
Talvez já amanhã nos não saudemos sob as árvores
e venhas sobre as nuvens
sobre o coração sobre a morte sobre mim"
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 32 | Editorial Presença Lda., 1984
frios ainda os pés nas estações
com que nos chega o tempo sucessivamente
Nada me fica na alma nem a tarde de praia
quando o vento tinha
uma linguagem nas barracas
Não há coração em mim para a folha que morre
e ando a matar uma por uma até
alegrias simples como a certas horas
reparar que temos um corpo
determinamos uma sombra
e ocupamos um espaço que nos leva
a estar aqui agora nesta rua
e não noutra parte
Homem levantado e caído
setenta vezes sete vezes por dia
que morte me quer para além
de deixar cair os braços?
Eu que te vi e revi descer solene
como um raio sobre o meu destino
que te dei um lugar mais definitivo
em minha boca do que a folha de outono
teve na calçada
quando de vez vieres que será de mim?
E tenho a ousadia de morder-te
à superfície do dia. Tu bem sabes
que catedral de esperança te reservo
Talvez já amanhã nos não saudemos sob as árvores
e venhas sobre as nuvens
sobre o coração sobre a morte sobre mim"
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 32 | Editorial Presença Lda., 1984
1 177
Ruy Belo
Para dizer devagar
Pelo menos que ao fim teus sacramentos cubram de coragem
igual à de enviar-te, ao ver-se então de pé na tua frente,
aquele que nem sempre soube ser bastante transparente
para dele imprimir nos dias nada mais que a tua imagem
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
igual à de enviar-te, ao ver-se então de pé na tua frente,
aquele que nem sempre soube ser bastante transparente
para dele imprimir nos dias nada mais que a tua imagem
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
1 158
Ruy Belo
Para dizer devagar
Pelo menos que ao fim teus sacramentos cubram de coragem
igual à de enviar-te, ao ver-se então de pé na tua frente,
aquele que nem sempre soube ser bastante transparente
para dele imprimir nos dias nada mais que a tua imagem
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
igual à de enviar-te, ao ver-se então de pé na tua frente,
aquele que nem sempre soube ser bastante transparente
para dele imprimir nos dias nada mais que a tua imagem
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
1 158
Ruy Belo
Vício de matar
Para onde há-de ir billy the kid?
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
874
Ruy Belo
Vício de matar
Para onde há-de ir billy the kid?
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
874
Ruy Belo
Vício de matar
Para onde há-de ir billy the kid?
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
874
Ruy Belo
Vício de matar
Para onde há-de ir billy the kid?
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
874
Ruy Belo
Vila do Conde
O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 143 e 144 | Editorial Presença Lda., 1984
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 143 e 144 | Editorial Presença Lda., 1984
6 688
Ruy Belo
Vila do Conde
O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 143 e 144 | Editorial Presença Lda., 1984
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 143 e 144 | Editorial Presença Lda., 1984
6 688