Vida e Existência
José Miguel Silva
Queixas de um utente
o lixo, já. não vejo televisão
há. cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.
Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.
José Miguel Silva
Exame de estética
The Go-Betweens
Eu estava na Lavandeira a espera do César
que me prometera 10 gramas para as 6,30
quando um desgraçado me trouxe a notícia
de que o Artur fora encontrado em casa
com a morte a correr-lhe nas veias.
Oh terríveis 6 horas da tarde, eu tinha
na manhã seguinte um exame de Estética
e a questão era responder para que serve
a arte, se não impede a mudança,
se não faz que estejas aqui ao pé de nós
a ouvir o último dos Go-Betweens.
Não serve para muito, serve apenas
para escudar uma sombra, para escorar
as lágrimas, para que a morte não seja
a penúltima a rir.
José Miguel Silva
Nunca gostei de portas
um grosseiro despotismo. Não percebia por
que razão davam passagem a uns e outros não.
Rebelei-me contra elas, tornei-me arrombador.
Decidido a contestar os seus desígnios, passei
os melhores anos da minha juventude a estudar
o idioma das fechaduras. Aos poucos, alcancei
uma secreta mestria: nenhuma resistia à sedução
dos meus arames. As portas franqueadas, e não
o que atrás delas se defende, procurava. Poucas
vezes roubei. Esta alegria me bastava - introduzir
desordem na composta segurança duma casa.
Agora que penso nisso, acho que havia algo
de bárbaro nessa minha obsessão por destruir
a ilusória placidez das fortalezas, os escudos
da propriedade, da suficiência. Porta atrás
de porta, a minha vida passou. Até chegar aqui,
a este lugar indistinto. Também nele há uma porta.
Não me seria difícil arrombá-la. Não fosse dar-se
o caso (e esse é o castigo da minha soberba)
de não saber se estou no céu ou no inferno.
José Miguel Silva
Nunca gostei de portas
um grosseiro despotismo. Não percebia por
que razão davam passagem a uns e outros não.
Rebelei-me contra elas, tornei-me arrombador.
Decidido a contestar os seus desígnios, passei
os melhores anos da minha juventude a estudar
o idioma das fechaduras. Aos poucos, alcancei
uma secreta mestria: nenhuma resistia à sedução
dos meus arames. As portas franqueadas, e não
o que atrás delas se defende, procurava. Poucas
vezes roubei. Esta alegria me bastava - introduzir
desordem na composta segurança duma casa.
Agora que penso nisso, acho que havia algo
de bárbaro nessa minha obsessão por destruir
a ilusória placidez das fortalezas, os escudos
da propriedade, da suficiência. Porta atrás
de porta, a minha vida passou. Até chegar aqui,
a este lugar indistinto. Também nele há uma porta.
Não me seria difícil arrombá-la. Não fosse dar-se
o caso (e esse é o castigo da minha soberba)
de não saber se estou no céu ou no inferno.
José Miguel Silva
Nunca gostei de portas
um grosseiro despotismo. Não percebia por
que razão davam passagem a uns e outros não.
Rebelei-me contra elas, tornei-me arrombador.
Decidido a contestar os seus desígnios, passei
os melhores anos da minha juventude a estudar
o idioma das fechaduras. Aos poucos, alcancei
uma secreta mestria: nenhuma resistia à sedução
dos meus arames. As portas franqueadas, e não
o que atrás delas se defende, procurava. Poucas
vezes roubei. Esta alegria me bastava - introduzir
desordem na composta segurança duma casa.
Agora que penso nisso, acho que havia algo
de bárbaro nessa minha obsessão por destruir
a ilusória placidez das fortalezas, os escudos
da propriedade, da suficiência. Porta atrás
de porta, a minha vida passou. Até chegar aqui,
a este lugar indistinto. Também nele há uma porta.
Não me seria difícil arrombá-la. Não fosse dar-se
o caso (e esse é o castigo da minha soberba)
de não saber se estou no céu ou no inferno.
José Miguel Silva
Agora a sério
o bastante para as guerras
mundiais da mercadânsia,
são simpáticos, os «tugas»,
como todos os inábeis.
Se dão pouco, menos pedem,
desafogam-se em abraços
de convívio quintaleiro,
com o mundo num chinelo
e o chinelo ao pé da porta.
Sem mudanças nem conflitos,
são amáveis com os factos,
obedecem aos estreitos
razoados da renúncia,
não se levam muito a sério.
No lagar da contingência,
reconhecem quase a gosto
a astenia da azeitona,
fazem migas do orgulho,
fazem figas, queimam velas
de tamanho não-te-rales
e que se lixe o candeeiro
do futuro. Malnascidos,
comoventes como ratos
na gaveta da cozinha,
com as patas num trapézio
de suspiros cauteloso,
atilados como filhos
primogénitos da fome,
são apáticos, mas giros:
piedosos quanto baste,
confiantes quando podem,
inocentes como poldros,
pés de salsa ao regadio
da vidina providência.
Faço meus os seus defeitos
(a preguiça, a timidez,
a vocação do remedeio)
e agradeço ter nascido
bem pequeno, com espaço
(quer dizer) para crescer
um pouco mais. Pois
não há pior destino
que nascer acabadinho,
já montado na carroça
triunfante da fiúza,
vendo o mundo p"lo binóculo
invertido do umbigo,
com a alma metralhada
de paixão e cupidez.
Manuel António Pina
Matéria de estrelas
encontrar-nos-emos eternamente
e nunca mais nos veremos.
O impossível volta a ser impossível. Para sempre.
Impossível é cada manhã aberta,
um deus sonha consigo através de nós.
Às vezes quase posso tocá-lo, ao deus,
surpreendê-lo no seu sono, também ele real e efémero.
Matéria, alma do nada,
os mortos ouvem a tua música sólida
pela primeira vez, como uma respiração de estrelas.
A sua intranquilidade transforma-se em si mesma, música.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 125 | Assirio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Matéria de estrelas
encontrar-nos-emos eternamente
e nunca mais nos veremos.
O impossível volta a ser impossível. Para sempre.
Impossível é cada manhã aberta,
um deus sonha consigo através de nós.
Às vezes quase posso tocá-lo, ao deus,
surpreendê-lo no seu sono, também ele real e efémero.
Matéria, alma do nada,
os mortos ouvem a tua música sólida
pela primeira vez, como uma respiração de estrelas.
A sua intranquilidade transforma-se em si mesma, música.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 125 | Assirio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Matéria de estrelas
encontrar-nos-emos eternamente
e nunca mais nos veremos.
O impossível volta a ser impossível. Para sempre.
Impossível é cada manhã aberta,
um deus sonha consigo através de nós.
Às vezes quase posso tocá-lo, ao deus,
surpreendê-lo no seu sono, também ele real e efémero.
Matéria, alma do nada,
os mortos ouvem a tua música sólida
pela primeira vez, como uma respiração de estrelas.
A sua intranquilidade transforma-se em si mesma, música.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 125 | Assirio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Matéria de estrelas
encontrar-nos-emos eternamente
e nunca mais nos veremos.
O impossível volta a ser impossível. Para sempre.
Impossível é cada manhã aberta,
um deus sonha consigo através de nós.
Às vezes quase posso tocá-lo, ao deus,
surpreendê-lo no seu sono, também ele real e efémero.
Matéria, alma do nada,
os mortos ouvem a tua música sólida
pela primeira vez, como uma respiração de estrelas.
A sua intranquilidade transforma-se em si mesma, música.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 125 | Assirio & Alvim, 2012
José Miguel Silva
Poema com Apólogo Moral
de Los Alamos, do Rapto das Sabinas,
nunca mais se pode escrever com maiúsculas
a palavra "Deus"; que se tornou imoral
a gente queixar-se à lua de uma farpa no dedo,
do infortúnio, do tempo que perdemos na paragem
do autocarro. Quem o diz que não se pode,
não sabe, não entende o que poesia seja.
Era um homem que vivia a profissão de marceneiro.
É conhecida a ligação do marceneiro com as farpas
que lhe entram na pele. Este falava com elas,
contava-lhes casos de sorte e azar, queria-lhes bem.
Entendia que também as farpas são filhas de Deus,
isto é, do amor que sentia pela sua arte.
Um dia um acidente aconteceu na máquina de corte,
esse homem perdeu a mão direita. Não por isso deixou
de sentir farpas alojarem-se na mão perdida,
de falar com elas, de recomendar-lhes
que tivessem juizo, que fossem brincar para outro lado.
Nuno Júdice
Estudo biográfico
a amargura da alma, se dirigiu aos seus semelhantes.
Os traços do rosto modificaram-se, e também a voz:
agora, com entoações trágicas, provocava a emoção
do auditório. E se alguém lhe respondia nesse mesmo tom,
demonstrando adesão ou correspondência afectiva,
mudava subitamente. Tornava-se interior, fechado,
e o brilho dos seus olhos sombrios dissipava
a momentânea atmosfera de entendimento.
Assim recebia amigos e inimigos. Secreto
como quem domina a profundidade do espírito,
mas igualmente vulnerável e infantil; até
morrer, como se esperava, soltando sangue e riso
pela boca.
Nuno Júdice | "Obra poética:1972-1985", pág. 158 | Quetzal Editores, 1999
Nuno Júdice
O brilho das cinzas
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. "Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias do Juízo." Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.
Nuno Júdice | "Obra poética:1972-1985", pág. 157 | Quetzal Editores, 1999
Nuno Júdice
O brilho das cinzas
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. "Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias do Juízo." Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.
Nuno Júdice | "Obra poética:1972-1985", pág. 157 | Quetzal Editores, 1999
Nuno Júdice
O brilho das cinzas
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. "Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias do Juízo." Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.
Nuno Júdice | "Obra poética:1972-1985", pág. 157 | Quetzal Editores, 1999
José Miguel Silva
Ritos
Ao meu país
depois de uma longa viagem
O primeiro que faço
É perguntar pelos que morreram:
Qualquer homem é um herói
Pelo simples facto de morrer
E os heróis são os nossos mestres.
E em segundo lugar
pelos feridos.
Só depois
não antes de cumprir
Este pequeno rito funerário
Me considero com direito à vida:
Fecho os olhos para ver melhor
E canto com rancor
Uma canção de começos de século.
Manuel António Pina
O retrato
como quem tomba da varanda à rua
onde está?, em que lembrança sua
ou em que sepultura do passado,
sufocado, com a boca atafulhada ainda de sonhos?
O seu nome é agora menos um nome que uma doença rara
que te desfigurou a cara, uma doença sem nome e sem cura;
cabereis os dois na mesma sepultura?
o de alguém perguntando por um estranho
algures, onde o Lexotan se tornou literatura.
Caberemos todos na mesma sepultura?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 353 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
O retrato
como quem tomba da varanda à rua
onde está?, em que lembrança sua
ou em que sepultura do passado,
sufocado, com a boca atafulhada ainda de sonhos?
O seu nome é agora menos um nome que uma doença rara
que te desfigurou a cara, uma doença sem nome e sem cura;
cabereis os dois na mesma sepultura?
o de alguém perguntando por um estranho
algures, onde o Lexotan se tornou literatura.
Caberemos todos na mesma sepultura?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 353 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
O retrato
como quem tomba da varanda à rua
onde está?, em que lembrança sua
ou em que sepultura do passado,
sufocado, com a boca atafulhada ainda de sonhos?
O seu nome é agora menos um nome que uma doença rara
que te desfigurou a cara, uma doença sem nome e sem cura;
cabereis os dois na mesma sepultura?
o de alguém perguntando por um estranho
algures, onde o Lexotan se tornou literatura.
Caberemos todos na mesma sepultura?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 353 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
O retrato
como quem tomba da varanda à rua
onde está?, em que lembrança sua
ou em que sepultura do passado,
sufocado, com a boca atafulhada ainda de sonhos?
O seu nome é agora menos um nome que uma doença rara
que te desfigurou a cara, uma doença sem nome e sem cura;
cabereis os dois na mesma sepultura?
o de alguém perguntando por um estranho
algures, onde o Lexotan se tornou literatura.
Caberemos todos na mesma sepultura?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 353 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Gare do Sud
desconhecidos de nós, e ainda a outros,
e temo-lo como se o perdêssemos
ficando uma sombra, a nossa sombra.
Estamos longe de casa e essa sombra
é a única morada a que podemos acolher-nos.
A nossa voz não somos capazes já de ouvi-la, balbuciante;
e se a ouvíssemos não a compreenderíamos
porque falamos uma língua estrangeira.
Tivemos um passado mas também ele não nos pertenceu,
lemo-lo, ou ouvimo-lo a
outros mais densos que nós.
Aonde regressamos então?
Ao lado das fluviantes águas,
águas idas e vindas. Noite!,
alguém nos chama mas
não é ninguém que conheçamos
nem ninguém de quem possamos dizer o nome.
Um murmúrio a que alguma razão passada
prende os sentidos e que perdura
no meio da vozearia da solidão e das interrogações,
um olho cego, um animal indecifrável atravessando a
distância e olhando-nos ainda,
a nós que os nossos olhos já não podem ver.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 314 e 315 | Assírio & Alvim, 2012
José Miguel Silva
Iniciação
a janela por abrir.
Alguém o acompanha
nos recados da manhã:
sal 12 pães 1 kg de maçãs
fósforos canela.
Ao sair da mercearia,
roubaram-lhe os pedais da bicicleta,
a roda de orações.
Mãe, quis saber,
quem tomou conta de mim
quando eras pequenina?
José Miguel Silva
A caminho do fogão
o ar despenteado com que chegas a casa e me dizes:
outra vez sopa de nabos; adoro a impaciência com
que me arrancas aos diálogos com o nada, quando
me contas os teus feitos na república do frio; adoro
a tua insónia, os teus escrúpulos morais, a tua esponja
de banho, o teu espírito lavado por agudos desenganos;
outrossim acompanhar-te nas perguntas sublinhadas
pelo tempo, e o teu corpo possuído pela mágica
da música amorosa, quando dança seminu à minha
frente e eu só penso: que bem feito está o mundo.
José Miguel Silva
Salão de beleza (2ª impressão)
à saída do salão de beleza.
Apesar dos muitos e pesados passos
que deixou na terra, do lastro insuportável
de seus anos movediços,
ainda encontra forças para arrastar a alma
até ao reverso de um espelho e desenhar,
de memória, o sanguíneo traço dos lábios,
armar o cabelo para mais uma ilusão.
Admirável a tenacidade das ervas
que à enxurrada opõem a verdura de um grito
e resistem à lição de Marco Aurélio,
ao prolongado cerco da realidade.
Admiráveis porque vestem de gala
para mais uma dança, já solitária,
num baile de fantasmas, todo mental,
sem dar crédito à melancolia nem ouvidos
ao tirânico juízo da crua, da falsa
da estúpida carreta fúnebre.