Poemas neste tema
Vida e Existência
José Miguel Silva
Não é tarde
O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.
Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.
Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão de que a vida
não se esgota, como os saldos de Verão.
E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.
Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.
Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão de que a vida
não se esgota, como os saldos de Verão.
E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.
1 230
José Miguel Silva
Não é tarde
O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.
Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.
Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão de que a vida
não se esgota, como os saldos de Verão.
E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.
Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.
Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão de que a vida
não se esgota, como os saldos de Verão.
E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.
1 230
José Miguel Silva
O Atalante - Jean Vigo (1934)
No dia em que fomos ver O Atalante
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
Sou tão estúpido.
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
Sou tão estúpido.
1 461
José Miguel Silva
Centro Comercial
Irrompem no elevador. São quatro,
fogem de um, fecham-lhe a porta,
riem-se juntos. O outro, eixo moído,
embate na vida, força a entrada,
acaba no chão: eu não sei o caminho
de casa! De nada lhe serve chamar
as Erínias, largam a trote os netos
de Zeus, o vinho da força responde
por eles, esconde de todos a destruição.
E eu, o que faço? Não faço nada.
Um pouco mais velho, um pouco
mais sonso, tal como vós,
escolho o caminho da loja seguinte.
fogem de um, fecham-lhe a porta,
riem-se juntos. O outro, eixo moído,
embate na vida, força a entrada,
acaba no chão: eu não sei o caminho
de casa! De nada lhe serve chamar
as Erínias, largam a trote os netos
de Zeus, o vinho da força responde
por eles, esconde de todos a destruição.
E eu, o que faço? Não faço nada.
Um pouco mais velho, um pouco
mais sonso, tal como vós,
escolho o caminho da loja seguinte.
1 370
José Miguel Silva
San Miniato Al Monte
Em San Miniato caminhamos sobre mortos,
epitáfios, tristes portas a que batemos, sem
saber, com um descuido de volúveis, ociosos
tacões, enquanto farejamos, de nariz no ar,
a gostosa patranha da Ressurreição. Como se
não estivesse em nossas mãos, em nossos olhos,
operar o milagre possível: ceder uma fatia
do nosso juízo a estes apelos que de baixo
nos lançam os desapossados, os que já nada
têm a perder excepto o olhar de quem passa.
A esmola duma pausa para articular o nome
de Luigi Nardi, Angela Ferraresi, Anunzziata
de Fabris, Alamanno Biagi, Teresa Puggi...
epitáfios, tristes portas a que batemos, sem
saber, com um descuido de volúveis, ociosos
tacões, enquanto farejamos, de nariz no ar,
a gostosa patranha da Ressurreição. Como se
não estivesse em nossas mãos, em nossos olhos,
operar o milagre possível: ceder uma fatia
do nosso juízo a estes apelos que de baixo
nos lançam os desapossados, os que já nada
têm a perder excepto o olhar de quem passa.
A esmola duma pausa para articular o nome
de Luigi Nardi, Angela Ferraresi, Anunzziata
de Fabris, Alamanno Biagi, Teresa Puggi...
635
José Miguel Silva
San Miniato Al Monte
Em San Miniato caminhamos sobre mortos,
epitáfios, tristes portas a que batemos, sem
saber, com um descuido de volúveis, ociosos
tacões, enquanto farejamos, de nariz no ar,
a gostosa patranha da Ressurreição. Como se
não estivesse em nossas mãos, em nossos olhos,
operar o milagre possível: ceder uma fatia
do nosso juízo a estes apelos que de baixo
nos lançam os desapossados, os que já nada
têm a perder excepto o olhar de quem passa.
A esmola duma pausa para articular o nome
de Luigi Nardi, Angela Ferraresi, Anunzziata
de Fabris, Alamanno Biagi, Teresa Puggi...
epitáfios, tristes portas a que batemos, sem
saber, com um descuido de volúveis, ociosos
tacões, enquanto farejamos, de nariz no ar,
a gostosa patranha da Ressurreição. Como se
não estivesse em nossas mãos, em nossos olhos,
operar o milagre possível: ceder uma fatia
do nosso juízo a estes apelos que de baixo
nos lançam os desapossados, os que já nada
têm a perder excepto o olhar de quem passa.
A esmola duma pausa para articular o nome
de Luigi Nardi, Angela Ferraresi, Anunzziata
de Fabris, Alamanno Biagi, Teresa Puggi...
635
José Miguel Silva
Salão de beleza (1ª impressão)
Divertidas aporias alimentam os diários
de quem vive o abandono das cidades.
O que fazes, terra vã, nesse passo movediço
de carreta funerária, os lábios uma taça
esbotenada, os olhos como duas pás de cinza,
o que esperas tu à porta da Beleza?
Ditirâmbica ilusão, descordoada lira
cujo timbre nenhum salmo recupera,
por que tintas queres vestir-te para o baile,
se a morte, esse fácil D. Juan, que não sabe
dizer não, é o único galã que permanece
na penumbra do salão e tu própria
já não sabes muito bem
a que santo encomendar as tuas pernas.
de quem vive o abandono das cidades.
O que fazes, terra vã, nesse passo movediço
de carreta funerária, os lábios uma taça
esbotenada, os olhos como duas pás de cinza,
o que esperas tu à porta da Beleza?
Ditirâmbica ilusão, descordoada lira
cujo timbre nenhum salmo recupera,
por que tintas queres vestir-te para o baile,
se a morte, esse fácil D. Juan, que não sabe
dizer não, é o único galã que permanece
na penumbra do salão e tu própria
já não sabes muito bem
a que santo encomendar as tuas pernas.
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José Miguel Silva
5
Há quem olhe para as coisas e veja formas,
cores, colmeias de melífluo sentido.
Eu nunca vi senão prefácios à destruição.
Nas linhas dum rosto via medo farpado,
na curva dum ombro, o peso que suporta.
Encarava com descrença o sorriso das praças,
na cabeça dum menino lia o mapa do inferno
e no amor o combustível da ganância.
Não sei como foi, eu nunca soube fechar
os olhos e dormir como os demais.
E se olhava para dentro de mim, era ainda
pior: uma paisagem abjecta entre colunas
de mercúrio, de enxofre, de metais pesados
como a consciência. Fui, em suma, um triste,
um homem estacado na fronteira entre
verdade e pânico, e desconfiado, sempre,
de qualquer ideia de consolação. Retirado,
no final, para um respiro de montanha,
esforcei-me por manter a ilusão de ser
o último elo na cadeia antropológica,
o nec plus ultra da insanidade.
cores, colmeias de melífluo sentido.
Eu nunca vi senão prefácios à destruição.
Nas linhas dum rosto via medo farpado,
na curva dum ombro, o peso que suporta.
Encarava com descrença o sorriso das praças,
na cabeça dum menino lia o mapa do inferno
e no amor o combustível da ganância.
Não sei como foi, eu nunca soube fechar
os olhos e dormir como os demais.
E se olhava para dentro de mim, era ainda
pior: uma paisagem abjecta entre colunas
de mercúrio, de enxofre, de metais pesados
como a consciência. Fui, em suma, um triste,
um homem estacado na fronteira entre
verdade e pânico, e desconfiado, sempre,
de qualquer ideia de consolação. Retirado,
no final, para um respiro de montanha,
esforcei-me por manter a ilusão de ser
o último elo na cadeia antropológica,
o nec plus ultra da insanidade.
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José Miguel Silva
Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)
Um ser humano é um combinado de egoísmo,
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.
1 769
Al Berto
A Invisibilidade de Deus
dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão
o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu
(in 'Sete Poemas do Regresso de Lázaro')
outros afirmam:
a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão
o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu
(in 'Sete Poemas do Regresso de Lázaro')
1 993
Al Berto
A Invisibilidade de Deus
dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão
o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu
(in 'Sete Poemas do Regresso de Lázaro')
outros afirmam:
a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão
o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu
(in 'Sete Poemas do Regresso de Lázaro')
1 993
Nuno Júdice
Apenas
Apenas uma coisa inteiramente transparente:
o céu, e por baixo dele a linha obscura do horizonte
nos teus olhos, que pude ver ainda
através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas
da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas
num silêncio de hesitações. Há quanto tempo,
tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo
se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,
cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, foto-
grafias cuja cor desaparece, substituindo os corpos
por manchas vagas como aparições; e sinto, eu
próprio, que uma parte da minha vida se apaga
com esses restos.
1 071
Nuno Júdice
Apenas
Apenas uma coisa inteiramente transparente:
o céu, e por baixo dele a linha obscura do horizonte
nos teus olhos, que pude ver ainda
através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas
da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas
num silêncio de hesitações. Há quanto tempo,
tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo
se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,
cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, foto-
grafias cuja cor desaparece, substituindo os corpos
por manchas vagas como aparições; e sinto, eu
próprio, que uma parte da minha vida se apaga
com esses restos.
1 071
Nuno Júdice
Apenas
Apenas uma coisa inteiramente transparente:
o céu, e por baixo dele a linha obscura do horizonte
nos teus olhos, que pude ver ainda
através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas
da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas
num silêncio de hesitações. Há quanto tempo,
tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo
se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,
cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, foto-
grafias cuja cor desaparece, substituindo os corpos
por manchas vagas como aparições; e sinto, eu
próprio, que uma parte da minha vida se apaga
com esses restos.
1 071
Nuno Júdice
Explicação
O poema é esta casa abandonada, o rosto belíssimo de imagens mortas.
Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", contracapa | Quetzal Editores, 1999
Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", contracapa | Quetzal Editores, 1999
1 197
Nuno Júdice
Eva
Quando Eva andava nua pelo paraíso,
disfarçava o tédio à sombra das árvores,
colhendo as flores, cheirando o seu perfume,
e pensando como seria bom ter um céu
para espreitar.
Um dia, uma dessas flores transformou-se
em fruto; e Eva levou-o à boca,
trincou-o, provou a sua polpa.
Por um estranho efeito
de causa e consequência, o sabor da maçã
obrigou Eva a cobrir a sua nudez
com folhas e flores, que passaram
a ser uma metáfora do corpo
que escondem.
Então, o pecado tornou-se uma simples
figura de retórica, e o sexo um exercício
de interpretação.
1 663
Nuno Júdice
Eva
Quando Eva andava nua pelo paraíso,
disfarçava o tédio à sombra das árvores,
colhendo as flores, cheirando o seu perfume,
e pensando como seria bom ter um céu
para espreitar.
Um dia, uma dessas flores transformou-se
em fruto; e Eva levou-o à boca,
trincou-o, provou a sua polpa.
Por um estranho efeito
de causa e consequência, o sabor da maçã
obrigou Eva a cobrir a sua nudez
com folhas e flores, que passaram
a ser uma metáfora do corpo
que escondem.
Então, o pecado tornou-se uma simples
figura de retórica, e o sexo um exercício
de interpretação.
1 663
Al Berto
Senhor da Asma
deitado há muito tempo - o cigarro luzindo
como um olho de tigre vindo da noite e
lá fora
ainda se percebe a húmida incandescência das frésias
o rumor surdo de vozes pelo jardim onde
a florida macieira se recorta no intenso céu de verão.
mais além
o rouxinol a madressilva
a sebe de pilriteiros
a brisa de um mar invisível - aflora-te a boca
arde no coração
a memória álgida dos limos dos casinos das praias
saturadas de sal e de sedução
mas nada é perfeito - nem o magnífico chapéu
de mademoiselle de noailles nem os dias que
aos ziguezagues vão passando iguais e monótonos
falta-me o tempo para procurar o tempo perdido
e não estou deitado na recordação da infância
confesso
que odeio escrever cartas ou enviar recados
ando há uma semana arrumando livros - comovido
acabei agora mesmo de sacudir
o pequeno novelo de poeira acumulada
no interior das páginas do senhor da asma
por hoje é tudo
como um olho de tigre vindo da noite e
lá fora
ainda se percebe a húmida incandescência das frésias
o rumor surdo de vozes pelo jardim onde
a florida macieira se recorta no intenso céu de verão.
mais além
o rouxinol a madressilva
a sebe de pilriteiros
a brisa de um mar invisível - aflora-te a boca
arde no coração
a memória álgida dos limos dos casinos das praias
saturadas de sal e de sedução
mas nada é perfeito - nem o magnífico chapéu
de mademoiselle de noailles nem os dias que
aos ziguezagues vão passando iguais e monótonos
falta-me o tempo para procurar o tempo perdido
e não estou deitado na recordação da infância
confesso
que odeio escrever cartas ou enviar recados
ando há uma semana arrumando livros - comovido
acabei agora mesmo de sacudir
o pequeno novelo de poeira acumulada
no interior das páginas do senhor da asma
por hoje é tudo
2 154
Al Berto
Se um Dia a Juventude Voltasse
se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida
sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor
depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo
mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição
(in 'Rumor dos Fogos')
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida
sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor
depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo
mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição
(in 'Rumor dos Fogos')
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Al Berto
Se um Dia a Juventude Voltasse
se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida
sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor
depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo
mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição
(in 'Rumor dos Fogos')
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida
sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor
depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo
mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição
(in 'Rumor dos Fogos')
1 317
Manuel António Pina
No rosto da morte
Em qualquer sítio em mim, em 1952,
alguém passa numa rua eternamente.
Alguém ficou lá em mim depois,
outro perdeu-o o coração para sempre.
Quem me lembro de isto
dorme um sono alheio
onde em mim existo. -
Coração, sombra de uma sombra,
na pétala mais funda da noite.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 121 | Assirio & Alvim, 2012
alguém passa numa rua eternamente.
Alguém ficou lá em mim depois,
outro perdeu-o o coração para sempre.
Quem me lembro de isto
dorme um sono alheio
onde em mim existo. -
Coração, sombra de uma sombra,
na pétala mais funda da noite.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 121 | Assirio & Alvim, 2012
1 289
Manuel António Pina
Partida
De súbito extinguiu-se qualquer coisa,
soltou-se qualquer peça de uma máquina incompreensível
de que dependia, afinal, a minha vida;
tornou-se tudo demasiadamente literal,
até eu estar ali, sem compreender;
e até eu não compreender parecia
algo inteiramente incompreensível;
o mundo, que via pela primeira vez,
via-o através de uns olhos que não me pertenciam,
que não pertenciam, porque eu próprio era
um acontecimento incompreensível acontecendo,
algo que me acontecia não sabia a quem;
o comboio afastava-se levando-te
para fora de mim como alguém sonhando,
e eu e tudo o que de mim sabia desaparecera
e ficara um sítio vazio
onde as últimas horas da tarde
como aves extenuadas pousavam.
Manuel António Pina | "Todas as palavras" | Poesia reunida, Ed. Assírio & Alvim, 2012
soltou-se qualquer peça de uma máquina incompreensível
de que dependia, afinal, a minha vida;
tornou-se tudo demasiadamente literal,
até eu estar ali, sem compreender;
e até eu não compreender parecia
algo inteiramente incompreensível;
o mundo, que via pela primeira vez,
via-o através de uns olhos que não me pertenciam,
que não pertenciam, porque eu próprio era
um acontecimento incompreensível acontecendo,
algo que me acontecia não sabia a quem;
o comboio afastava-se levando-te
para fora de mim como alguém sonhando,
e eu e tudo o que de mim sabia desaparecera
e ficara um sítio vazio
onde as últimas horas da tarde
como aves extenuadas pousavam.
Manuel António Pina | "Todas as palavras" | Poesia reunida, Ed. Assírio & Alvim, 2012
1 595
Nuno Júdice
Epigrama gastronómico
Há mil e cem anos
de poesia num só dia
mil e cem palavras
numa só sílaba,
mil e cem páginas
numa linha
-quando abro o livro
do teu corpo, e provo mil
e cem receitas num só
amor.
1 385
Manuel António Pina
Coração, sombras de quem?
Isto que pergunta: "Quem?"
e me falta sob as palavras
é o que me falta também onde
o coração verdadeiro falta?
A voz que fala,
a minha verdadeira voz de alguém,
é o silêncio que em
isto se cala?
E eu, ou quem?
O de mim, as palavras,
os gestos, o espaço?
Onde me pesas, cansaço?
Voz, a quem me falas?
Coração, sombras, de quem?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 114 | Assirio & Alvim, 2012
e me falta sob as palavras
é o que me falta também onde
o coração verdadeiro falta?
A voz que fala,
a minha verdadeira voz de alguém,
é o silêncio que em
isto se cala?
E eu, ou quem?
O de mim, as palavras,
os gestos, o espaço?
Onde me pesas, cansaço?
Voz, a quem me falas?
Coração, sombras, de quem?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 114 | Assirio & Alvim, 2012
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