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Poemas neste tema

Vida e Existência

Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

A flor do diabo

Branca e floral como um jasmim-do-Cabo
Maravilhosa ressurgiu um dia
A fatal Criação do fuIvo Diabo,
Eleita do pecado e da Harmonia.

Mais do que tudo tinha um ar funesto,
Embora tão radiante e fabulosa.
Havia sutilezas no seu gesto
De recordar uma serpente airosa.

Branca, surgindo das vermelhas chamas
Do Inferno inquisidor, corrupto e langue,
Ela lembrava, Flor de excelsas famas,
A Via-Láctea sobre um mar de sangue.

Foi num momento de saudade e tédio,
De grande tédio e singular Saudade,
Que o Diabo, já das culpas sem remédio,
Para formar a egrégia majestade,

Gerou, da poeira quente das areias
Das praias infinitas do Desejo,
Essa langue sereia das sereias,
Desencantada com o calor de um beijo.

Sobre galpões de sonho os seus palácios
Tinham bizarros e galhardos luxos.
Mais grave de eloqüência que os Horácios,
Vivia a vida dos perfeitos bruxos.

Sono e preguiça, mais preguiça e sono,
Luxúrias de nababo e mais luxúrias,
Moles coxins de lânguido abandono
Por entre estranhas florações purpúreas.

Às vezes, sob o luar, nos rios mortos,
Na vaga ondulação dos lagos frios,
Boiavam diabos de chavelhos tortos,
E de vultos macabros, fugidios.

A lua dava sensações inquietas
As paisagens avérnicas em torno
E alguns demônios com perfis de ascetas
Dormiam no luar um sono morno...

Foi por horas de Cisma, horas etéreas
De magia secreta e triste, quando
Nas lagoas letíficas, sidéreas,
O cadáver da lua vai boiando...

Foi numa dessas noites taciturnas
Que o velho Diabo, sábio dentre os sábios,
Desencantado o seu poder das furnas,
Com o riso augusto a flamejar nos lábios,

Formou a flor de encantos esquisitos
E de essências esdrúxulas e finas,
Pondo nela oscilantes infinitos
De vaidades e graças femininas.

E deu-lhe a quint'essência dos aromas,
Sonoras harpas de alma, extravagancias,
Pureza hostial e púbere de pomas,
Toda a melancolia das distancias...

Para haver mais requinte e haver mais viva,
Doce beleza e original carícia,
Deu-lhe uns toques ligeiros de ave esquiva
E uma auréola secreta de malícia.

Mas hoje o Diabo já senil, já fóssil,
Da sua Criação desiludido,
Perdida a antiga ingenuidade dócil,
Chora um pranto noturno de Vencido.

Como do fundo de vitrais, de frescos
De góticas capelas isoladas,
Chora e sonha com mundos pitorescos,
Na nostalgia das Regiões Sonhadas.

2 638
Horst Bienek

Horst Bienek

A época seguinte

I
Há uma época
........e a época seguinte
sobre qual época gostaríamos de conversar?
II
Quando o cervo pastou junto ao leão
quando amadureceu a maçã para aquele que adubara a macieira
quando àquele que pescou o peixe permitiu-se também comê-lo
era uma época
....................época paradisíaca
..........................sobre a qual nossos ouvidos
apreciavam o sermão
Quando nos apertamos de bruços em catres de madeira
quando a escuridão trancafiou nossos corpos em suor
quando a fome esmigalhou-nos os sonhos e o sono
era uma época
....................época tenebrosa
..........................que não desejávamos
aos nossos inimigos
Quando os vigias berravam no pátio para nossa contagem
quando cavamos da terra o carvão com ferramentas cegas
quando buscamos uma resposta nas petrificações negras
por que essa época
....................assim era
...........................sobre a qual preferiríamos
haver lido nos manuais escolares
Quando voltamos sem lembrança às cidades natais
quando – incógnitos – misturamo-nos entre os habitantes
quando arrombamos suas portas e deixamos voltar a desconfiança
era uma época
....................época dolorosa
...........................em que transbordamos
em nossa aflição
III
Nós estamos no caminho de uma época
para outra
..............................mas aonde nos encaminhamos
..............................não haveremos de chegar
..............................às vezes nossos joelhos partem-se
..............................e a chuva molha nossos rostos
nós cantamos
.............ninguém nos ouve
.............(pois o cansaço
.............cola-nos de suor os lábios)
nossos gestos são trémulos
.............ninguém os compreende
.............(pois o desespero
.............rebenta-nos os braços do tronco)
nós continuamos
no caminho que leva de uma época
...........................à época seguinte
IV
Por compaixão jogam-nos palavras no colo
:
Die Zeit danach:/ I / Es gibt eine Zeit / und die Zeit danach / von welcher Zeit wollen wir reden? // II / Als das Reh neben dem Löwen weidete / als der Apfel reifte für den der den Apfelbaum düngte / als wer den Fisch fing ihn auch essen durfte / das war eine Zeit / paradiesische Zeit / von der wir gerne / predigen hörten. // Als wir zusammengedrängt lagen auf hölzernen Pritschen / als die Dunkelheit unsere schwitzenden Leiber einsperrte / als uns der Hunger den Schlaf und den Traum zerspellte / das war eine Zeit / finstere Zeit / die wir unseren Feinden / nicht wünschten // Als der Schrei des Wachmanns uns auf den Appellplatz jagte / als wir mit stumpfen Geräaten die Kohle aus der Erde gruben / als wir in den schwarzen Versteinerungen eine Antwort suchten / warum diese Zeit / so war / von der wir lieber / in den Lesebüchern gelesen hätten // Als wir heimkehrten in die Städte ohne Erinnerung / als – unerkannt – wir uns unter ihre Bewohner mischten / als wir einbrachen in ihre Häuser und den Argwohn zurückliessen / das war eine Zeit / schmerzliche Zeit / die wir unserer Trauer / zuschütteten // III // Wir sind auf den Weg von der einen Zeit / in die andere / doch wohin wir auch gehen / wir kommen nicht an / machmal brechen wir in die Knie / und der Regen nässt unsre Gesichter / wir singen / man hört uns nicht / (denn die Müdigkeit / schweisst uns die Lippen zusammen) / unsere Gesten sind zaghaft / man begreift sie nicht / (denn die Verzweiflung / schlägt uns die Arme vom Rumpf) / wir gehen weiter / auf dem Weg von der einen Zeit / ind die Zeit danach // IV // Mitleidig wirft man uns Wörter in den Schoss
.
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762
Horst Bienek

Horst Bienek

A época seguinte

I
Há uma época
........e a época seguinte
sobre qual época gostaríamos de conversar?
II
Quando o cervo pastou junto ao leão
quando amadureceu a maçã para aquele que adubara a macieira
quando àquele que pescou o peixe permitiu-se também comê-lo
era uma época
....................época paradisíaca
..........................sobre a qual nossos ouvidos
apreciavam o sermão
Quando nos apertamos de bruços em catres de madeira
quando a escuridão trancafiou nossos corpos em suor
quando a fome esmigalhou-nos os sonhos e o sono
era uma época
....................época tenebrosa
..........................que não desejávamos
aos nossos inimigos
Quando os vigias berravam no pátio para nossa contagem
quando cavamos da terra o carvão com ferramentas cegas
quando buscamos uma resposta nas petrificações negras
por que essa época
....................assim era
...........................sobre a qual preferiríamos
haver lido nos manuais escolares
Quando voltamos sem lembrança às cidades natais
quando – incógnitos – misturamo-nos entre os habitantes
quando arrombamos suas portas e deixamos voltar a desconfiança
era uma época
....................época dolorosa
...........................em que transbordamos
em nossa aflição
III
Nós estamos no caminho de uma época
para outra
..............................mas aonde nos encaminhamos
..............................não haveremos de chegar
..............................às vezes nossos joelhos partem-se
..............................e a chuva molha nossos rostos
nós cantamos
.............ninguém nos ouve
.............(pois o cansaço
.............cola-nos de suor os lábios)
nossos gestos são trémulos
.............ninguém os compreende
.............(pois o desespero
.............rebenta-nos os braços do tronco)
nós continuamos
no caminho que leva de uma época
...........................à época seguinte
IV
Por compaixão jogam-nos palavras no colo
:
Die Zeit danach:/ I / Es gibt eine Zeit / und die Zeit danach / von welcher Zeit wollen wir reden? // II / Als das Reh neben dem Löwen weidete / als der Apfel reifte für den der den Apfelbaum düngte / als wer den Fisch fing ihn auch essen durfte / das war eine Zeit / paradiesische Zeit / von der wir gerne / predigen hörten. // Als wir zusammengedrängt lagen auf hölzernen Pritschen / als die Dunkelheit unsere schwitzenden Leiber einsperrte / als uns der Hunger den Schlaf und den Traum zerspellte / das war eine Zeit / finstere Zeit / die wir unseren Feinden / nicht wünschten // Als der Schrei des Wachmanns uns auf den Appellplatz jagte / als wir mit stumpfen Geräaten die Kohle aus der Erde gruben / als wir in den schwarzen Versteinerungen eine Antwort suchten / warum diese Zeit / so war / von der wir lieber / in den Lesebüchern gelesen hätten // Als wir heimkehrten in die Städte ohne Erinnerung / als – unerkannt – wir uns unter ihre Bewohner mischten / als wir einbrachen in ihre Häuser und den Argwohn zurückliessen / das war eine Zeit / schmerzliche Zeit / die wir unserer Trauer / zuschütteten // III // Wir sind auf den Weg von der einen Zeit / in die andere / doch wohin wir auch gehen / wir kommen nicht an / machmal brechen wir in die Knie / und der Regen nässt unsre Gesichter / wir singen / man hört uns nicht / (denn die Müdigkeit / schweisst uns die Lippen zusammen) / unsere Gesten sind zaghaft / man begreift sie nicht / (denn die Verzweiflung / schlägt uns die Arme vom Rumpf) / wir gehen weiter / auf dem Weg von der einen Zeit / ind die Zeit danach // IV // Mitleidig wirft man uns Wörter in den Schoss
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762
Heinrich Heine

Heinrich Heine

Como rasteja devagar

Como rasteja devagar
O tempo, caracol horrendo!
E eu, sem poder mover os membros,
Não saio mais deste lugar.

Na minha cela sempre escura
Não entra sol nem a esperança;
Daqui, em derradeira instância,
Só me liberta a sepultura.

Quem sabe já virei defunto
E esses semblantes em cortejo,
Que à noite desfilando eu vejo,
Não são visitas do outro mundo.

Fantasmas a vagar sem corpo
Ou deuses do templo pagão,
Que adoram fazer confusão
No crânio de um poeta morto. –

A doce festa dos espíritos,
Orgia saturnal e tétrica,
Busca a mão óssea do poeta
Deitar às vezes por escrito.


:


Wie langsam kriechet sie dahin,
Die Zeit, die schauderhafte Schnecke!
Ich aber, ganz bewegungslos
Blieb ich hier auf demselben Flecke.

In meine dunkle Zelle dringt
Kein Sonnenstral, kein Hoffnungsschimmer;
Ich weiß, nur mit der Kirchhofsgruft
Vertausch ich dies fatale Zimmer.

Vielleicht bin ich gestorben längst;
Es sind vielleicht nur Spukgestalten
Die Phantasieen, die des Nachts
Im Hirn den bunten Umzug halten.

Es mögen wohl Gespenster seyn,
Altheidnisch göttlichen Gelichters;
Sie wählen gern zum Tummelplatz
Den Schädel eines todten Dichters. –

Die schaurig su¨ssen Orgia,
Das nächtlich tolle Geistertreiben,
Sucht des Poeten Leichenhand
Manchmal am Morgen aufzuschreiben.


[1853-1854]


.
.
.


NOTA BIOGRÁFICA SOBRE HEINRICH HEINE
preparada por André Vallias.


HEINE – poeta, escritor, jornalista e pensador (nascido Harry, em 1797; batizado Heinrich, em 1825; falecido Henri, em 1856) – foi uma das personalidades mais fascinantes e contraditórias do século XIX. Aluno do crítico, tradutor e teórico da literatura August von Schlegel, do linguista e sanscritólogo Franz Bopp e do filósofo Georg Hegel, ascendeu dos salões literários de Berlim à efervescente metrópole parisiense – onde conviveu com Balzac, Alexandre Dumas, Chopin, George Sand, Berlioz, barão de Rothschild, Théophile Gautier, Franz Liszt, Gérard de Nerval, entre outros – para se tornar o primeiro artista e intelectual judeu-alemão de ampla repercussão internacional. Influenciou tanto Karl Marx, de quem foi grande amigo, quanto Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud, para ficarmos apenas entre os baluartes da Modernidade, palavra que, por sinal, ele próprio introduziu no vocabulário, num de seus caleidoscópicos Quadros de viagem que lhe catapultaram para a fama em meados da década de 1820. Em 1827, publicou uma das mais bem-sucedidas coletâneas de poesia do Ocidente, o Livro das canções, fonte inesgotável para os compositores ­­– Schubert, Schumann, Brahms, Hugo Wolf, Grieg, entre tantos outros – que o fizeram um dos poetas mais musicados da história: somente o poema “Tu és como uma flor” recebeu 451 melodias diferentes! Radicando-se em Paris, em 1831, assumiu o papel de mediador entre as culturas alemã e a francesa. Em artigos de jornal – onde narrava os acontecimentos da política, arte e vida social parisiense para o público alemão – fez observações pioneiras sobre religião e dança, entre outros assuntos. Aos franceses dirigiu instigantes e divertidíssimos ensaios sobre as correntes religiosas, filosóficas e literárias da Alemanha Foi um defensor apaixonado dos ideais da Revolução Francesa, crítico implacável da hipocrisia moral e inimigo feroz do nacionalismo germânico, cujos frutos mais terríveis ele profetizou com um século de antecedência: “um drama há de ser encenado na Alemanha que fará a Revolução Francesa parecer um idílio inofensivo”. Em 1848, a doença – que julgava ser a sífilis – o fez passar os oito anos seguintes entrevado numa “cripta de colchões”, trabalhando incansavelmente, sob doses cada vez mais altas de morfina. Ainda arranjou forças, nos últimos meses de vida, para um affaire platônico com uma jovem e misteriosa visitante que ele apelidou de Mouche (Mosca), e a quem endereçou seus últimos poemas. Faleceu em 1856, sendo sepultado no cemitério de Montmartre.


1 555
Heinrich Heine

Heinrich Heine

Como rasteja devagar

Como rasteja devagar
O tempo, caracol horrendo!
E eu, sem poder mover os membros,
Não saio mais deste lugar.

Na minha cela sempre escura
Não entra sol nem a esperança;
Daqui, em derradeira instância,
Só me liberta a sepultura.

Quem sabe já virei defunto
E esses semblantes em cortejo,
Que à noite desfilando eu vejo,
Não são visitas do outro mundo.

Fantasmas a vagar sem corpo
Ou deuses do templo pagão,
Que adoram fazer confusão
No crânio de um poeta morto. –

A doce festa dos espíritos,
Orgia saturnal e tétrica,
Busca a mão óssea do poeta
Deitar às vezes por escrito.


:


Wie langsam kriechet sie dahin,
Die Zeit, die schauderhafte Schnecke!
Ich aber, ganz bewegungslos
Blieb ich hier auf demselben Flecke.

In meine dunkle Zelle dringt
Kein Sonnenstral, kein Hoffnungsschimmer;
Ich weiß, nur mit der Kirchhofsgruft
Vertausch ich dies fatale Zimmer.

Vielleicht bin ich gestorben längst;
Es sind vielleicht nur Spukgestalten
Die Phantasieen, die des Nachts
Im Hirn den bunten Umzug halten.

Es mögen wohl Gespenster seyn,
Altheidnisch göttlichen Gelichters;
Sie wählen gern zum Tummelplatz
Den Schädel eines todten Dichters. –

Die schaurig su¨ssen Orgia,
Das nächtlich tolle Geistertreiben,
Sucht des Poeten Leichenhand
Manchmal am Morgen aufzuschreiben.


[1853-1854]


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NOTA BIOGRÁFICA SOBRE HEINRICH HEINE
preparada por André Vallias.


HEINE – poeta, escritor, jornalista e pensador (nascido Harry, em 1797; batizado Heinrich, em 1825; falecido Henri, em 1856) – foi uma das personalidades mais fascinantes e contraditórias do século XIX. Aluno do crítico, tradutor e teórico da literatura August von Schlegel, do linguista e sanscritólogo Franz Bopp e do filósofo Georg Hegel, ascendeu dos salões literários de Berlim à efervescente metrópole parisiense – onde conviveu com Balzac, Alexandre Dumas, Chopin, George Sand, Berlioz, barão de Rothschild, Théophile Gautier, Franz Liszt, Gérard de Nerval, entre outros – para se tornar o primeiro artista e intelectual judeu-alemão de ampla repercussão internacional. Influenciou tanto Karl Marx, de quem foi grande amigo, quanto Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud, para ficarmos apenas entre os baluartes da Modernidade, palavra que, por sinal, ele próprio introduziu no vocabulário, num de seus caleidoscópicos Quadros de viagem que lhe catapultaram para a fama em meados da década de 1820. Em 1827, publicou uma das mais bem-sucedidas coletâneas de poesia do Ocidente, o Livro das canções, fonte inesgotável para os compositores ­­– Schubert, Schumann, Brahms, Hugo Wolf, Grieg, entre tantos outros – que o fizeram um dos poetas mais musicados da história: somente o poema “Tu és como uma flor” recebeu 451 melodias diferentes! Radicando-se em Paris, em 1831, assumiu o papel de mediador entre as culturas alemã e a francesa. Em artigos de jornal – onde narrava os acontecimentos da política, arte e vida social parisiense para o público alemão – fez observações pioneiras sobre religião e dança, entre outros assuntos. Aos franceses dirigiu instigantes e divertidíssimos ensaios sobre as correntes religiosas, filosóficas e literárias da Alemanha Foi um defensor apaixonado dos ideais da Revolução Francesa, crítico implacável da hipocrisia moral e inimigo feroz do nacionalismo germânico, cujos frutos mais terríveis ele profetizou com um século de antecedência: “um drama há de ser encenado na Alemanha que fará a Revolução Francesa parecer um idílio inofensivo”. Em 1848, a doença – que julgava ser a sífilis – o fez passar os oito anos seguintes entrevado numa “cripta de colchões”, trabalhando incansavelmente, sob doses cada vez mais altas de morfina. Ainda arranjou forças, nos últimos meses de vida, para um affaire platônico com uma jovem e misteriosa visitante que ele apelidou de Mouche (Mosca), e a quem endereçou seus últimos poemas. Faleceu em 1856, sendo sepultado no cemitério de Montmartre.


1 555
Antonio Cisneros

Antonio Cisneros

Karl Marx died 1883 aged 65

Ainda estou pronto para recordar a casa de minha avó e
esse par de gravuras:
Um cavalheiros na casa do alfaiate, Grande desfile militar
em Viena, 1902.
Dias em que mais nada de ruim podia acontecer. Todos levavam
seu pé de coelho na cintura.
Também minha tia-avó - vinte anos e o chapéu de palha sob o sol,
preocupando-se apenas
com manter a boca, as pernas bem fechadas.
Eram os homens de boa vontade e as orelhas limpas.
No music hall apenas os anarquistas, loucos barbudos e envoltos
em cachecóis.
Que outonos, que verões!
Eiffel fez uma torre que dizia: “até aqui chegou o homem”.
Outra gravura:
Virtude e amor e ciúme protegendo as melhores famílias.
E dizer que o velho Marx ainda não cumprira os vinte anos de idade
debaixo desta erva
- gorda e eriçada, conveniente para os campos de golf.
As coroas de flores e o caixão tinham três descanços
ao pé da colina
e depois foi enterrado
junto ao túmulo de Molly Redgrove “bombardeado pelo inimigo
em 1940 e logo reconstruído”.
Ah o velho Marx moendo e derretendo na marmita os diversos metais
enquanto os filhos pulavam das torres de Spiegel às ilhas de Times
e sua mulher fervia as cebolas e a coisa não avançava e depois
sim e então
veio o da Praça Vendome e aquilo de Lênin e o montão de revoltas
e então
as damas temeram algo mais do que mão nas nádegas
e os cavalheiros puderam suspeitar
que a locomotiva a vapor já não era mais o rosto
da felicidade universal.
“Assim foi, e estou te devendo, velho estraga-festas”.
(tradução de Aníbal Cristobo e Carlito Azevedo)
:
Todavía estoy a tiempo de recordar la casa de mi tía
abuela y ese par de grabados:
Un caballero en la casa del sastre, Gran desfile militar
en Viena, 1902.
Días en que ya nada malo podía ocurrir. Todos llevaban
su pata de conejo atada a la cintura.
También mi tía abuela —veinte anos y el sombrero de
paja bajo el sol, preocupándose apenas
por mantener la boca, las piernas bien cerradas.
Eran los hombres de buena voluntad y las orejas limpias.
Sólo en el music-hall los anarquistas, locos barbados y
envueltos en bufandas.
Qué otoños, qué veranos.
Eiffel hizo una torre que decía "hasta aquí llegó el
hombre".
Otro grabado:
Virtud y amor y cela protegiendo a las buenas familias.
Y eso que el viejo Marx aún no cumplía los veinte años
de edad bajo esta yerba
—gorda y erizada, conveniente a los campos de golf.
Las coronas de flores y el cajón tuvieron tres descansos al
pie de la colina
y después fue enterrado
junto a I
la tumba de Molly Redgrove "bombardeada por
el enemigo en 1940 y vuelta a construir".
Ah el viejo Karl moliendo y derritiendo en la marmita
los diversos metales
mientras sus hijos saltaban de las torres de Spiegel a las
islas de Times
y su mujer hervía las cebollas y la cosa no iba y después
sí y entonces
vino lo de Plaza Vendome y eso de Lenin y el montón
de revueltas y entonces
las damas temieron algo más que una mano en las naIgas
y los caballeros pudieron sospechar
que la locomotora a vapor ya no era más el rostro
de la felicidad universal.
"Así fue, y estoy en deuda contigo, viejo aguafiestas:”
.
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Antonio Cisneros

Antonio Cisneros

Karl Marx died 1883 aged 65

Ainda estou pronto para recordar a casa de minha avó e
esse par de gravuras:
Um cavalheiros na casa do alfaiate, Grande desfile militar
em Viena, 1902.
Dias em que mais nada de ruim podia acontecer. Todos levavam
seu pé de coelho na cintura.
Também minha tia-avó - vinte anos e o chapéu de palha sob o sol,
preocupando-se apenas
com manter a boca, as pernas bem fechadas.
Eram os homens de boa vontade e as orelhas limpas.
No music hall apenas os anarquistas, loucos barbudos e envoltos
em cachecóis.
Que outonos, que verões!
Eiffel fez uma torre que dizia: “até aqui chegou o homem”.
Outra gravura:
Virtude e amor e ciúme protegendo as melhores famílias.
E dizer que o velho Marx ainda não cumprira os vinte anos de idade
debaixo desta erva
- gorda e eriçada, conveniente para os campos de golf.
As coroas de flores e o caixão tinham três descanços
ao pé da colina
e depois foi enterrado
junto ao túmulo de Molly Redgrove “bombardeado pelo inimigo
em 1940 e logo reconstruído”.
Ah o velho Marx moendo e derretendo na marmita os diversos metais
enquanto os filhos pulavam das torres de Spiegel às ilhas de Times
e sua mulher fervia as cebolas e a coisa não avançava e depois
sim e então
veio o da Praça Vendome e aquilo de Lênin e o montão de revoltas
e então
as damas temeram algo mais do que mão nas nádegas
e os cavalheiros puderam suspeitar
que a locomotiva a vapor já não era mais o rosto
da felicidade universal.
“Assim foi, e estou te devendo, velho estraga-festas”.
(tradução de Aníbal Cristobo e Carlito Azevedo)
:
Todavía estoy a tiempo de recordar la casa de mi tía
abuela y ese par de grabados:
Un caballero en la casa del sastre, Gran desfile militar
en Viena, 1902.
Días en que ya nada malo podía ocurrir. Todos llevaban
su pata de conejo atada a la cintura.
También mi tía abuela —veinte anos y el sombrero de
paja bajo el sol, preocupándose apenas
por mantener la boca, las piernas bien cerradas.
Eran los hombres de buena voluntad y las orejas limpias.
Sólo en el music-hall los anarquistas, locos barbados y
envueltos en bufandas.
Qué otoños, qué veranos.
Eiffel hizo una torre que decía "hasta aquí llegó el
hombre".
Otro grabado:
Virtud y amor y cela protegiendo a las buenas familias.
Y eso que el viejo Marx aún no cumplía los veinte años
de edad bajo esta yerba
—gorda y erizada, conveniente a los campos de golf.
Las coronas de flores y el cajón tuvieron tres descansos al
pie de la colina
y después fue enterrado
junto a I
la tumba de Molly Redgrove "bombardeada por
el enemigo en 1940 y vuelta a construir".
Ah el viejo Karl moliendo y derritiendo en la marmita
los diversos metales
mientras sus hijos saltaban de las torres de Spiegel a las
islas de Times
y su mujer hervía las cebollas y la cosa no iba y después
sí y entonces
vino lo de Plaza Vendome y eso de Lenin y el montón
de revueltas y entonces
las damas temieron algo más que una mano en las naIgas
y los caballeros pudieron sospechar
que la locomotora a vapor ya no era más el rostro
de la felicidad universal.
"Así fue, y estoy en deuda contigo, viejo aguafiestas:”
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