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Poemas neste tema

Vida e Existência

Amadeu Amaral

Amadeu Amaral

A um Adolescente

A Júlio Mesquita Filho

III

Basta crer na Beleza. Ama-a no Cosmos, fora
de ti, e ama-a em ti mesmo. É a suprema pesquisa!
Busca-a. E esculpe teu ser, juntando, hora por hora,
à mente que concebe o escopro que realiza.

Perguntas: — Onde o metro, a norma, a arte precisa
para rasgar no bloco a forma que se ignora?
— Quem ao leão deu o ardor com que os desertos pisa?
E quem à águia ensinou a ser do azul senhora?

Tens o instinto voador de quem nasceu com asa.
Ama o que é forte e puro, odeia o que é perverso,
o que é baixo, o que é vil, tudo que anda de rastros.

E põe-te em comunhão, no entusiasmo que abrasa,
com a Beleza, esplendor da Vida e do Universo,
com a poesia, os heróis, os abismos e os astros.

IV

Falta o preceito firme a que a ação se conforme?
Falta uma diretriz certa e definitiva?
— Quem a teve jamais? O bom ideal é informe,
e a Certeza, ai de nós! de todo o encanto o priva.

A torrente que corre e espadana, áurea e viva,
sem parar nem recuar no itinerário enorme,
busca um sonho que além, sob a névoa, se esquiva...
e ai! dela, se desvenda o sonho azul que dorme!

Sê tu como a caudal: foge ao remanso e ao charco.
A água pura é a que ferve e cintila entre abrolhos.
O miasma e o lodaçal moram nas águas mansas.

Avança, seja o sol resplandecente ou parco;
— e se a meta surgir, algum dia a teus olhos,
impele-a para além à proporção que avanças!


Publicado no livro Espumas: versos (1917).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.152-153. (Obras de Amadeu Amaral
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Olavo Bilac

Olavo Bilac

João do Rio

"A religião é um freio!", dizia o conselheiro Acácio, venerado filho do boticário Honrais, e neto de monsieur de La Palisse.

Parece, porém, que o Rio de janeiro, esta árdega e desbocada cidade em que vivemos, não se contenta com um só freio: o Rio de Janeiro precisa de muitos freios, cuja ação combinada lhe modere e sofreie o ardor dos instintos em marcha acelerada para a abolição dos pecados.

O Rio de Janeiro não tem Religião: tem Religiões. Os cariocas acreditam ardentemente ganhar o reino do céu, lançam mão de todas as amarras, e recorrem ao mesmo tempo ao auxílio de todos os credos e de todos os ritos. Ora, graças! Já não se dirá de nós o que dos Tasmânios incréus disse o missionário Clark: "Morrem sem pensar em Deus, como os cangurus", ou o que dos hotentotes disse Campbell: "Só vieram ao mundo para matar e comer". Nós viemos ao mundo para... crer e rezar.

Ninguém imaginava que houvesse tantas religiões por aqui: nós somos católicos, positivistas, budistas, protestantes, batistas, luteranos, calvinistas, hierosolimitas, sebastianistas, ocultistas, gnosticistas, cabalistas... que sei eu? O Rio de janeiro é Credópolis: aqui, como naquele vale do Egito, em que Flaubert localizou a Tentação de santo Antão, todas as religiões da terra... e do espaço vieram reunir-se, e exibir-se em parada de mostra.

O meu companheiro João do Rio deu-se agora a um inquérito sobre todas essas religiões, e os seus artigos, publicados nesta mesma Gazeta, têm revelado cousas maravilhosas. Ontem, encontrei João do Rio... Ele resplandecia: pareceu-me que cada uma das religiões estudadas e devassadas lhe tinha dado um pouco do seu clarão do Além-Mundo... João saía do Mistério, todo cheio de Mistério: tinha mistério na face, no corpo, no chapéu, nas botas. E, assim como as mulheres de Florença diziam de Dante, quando ele passava pelas ruas: "Lá vai aquele que voltou do inferno!" — também do meu querido João do Rio se pode dizer, com respeitoso espanto: "Lá vai aquele que voltou do Mistério!".

Essas revelações têm despertado um interesse justo. Não houve ainda, desde o princípio das eras até hoje, problema que, mais do que o problema religioso, apaixonasse a alma humana. Alguns psicólogos acreditam que há no cérebro humano uma região especial, onde reside o domínio privado da religiosidade...

O inquérito da Gazeta, conduzido com talento e brilho, vem provar que esse domínio da religiosidade, se existe, nunca terá talvez as suas fronteiras anuladas.

João do Rio tem corrido vários templos — uns encantadores e sóbrios, outros severos e solenes, outros lôbregos ou equívocos, ou sinistros, ou cômicos, instalados em bibocas ou em fundos de clubes de dança. E ainda o inquiridor não visitou as casas em que se praticam a quiromancia, a necromancia, a cartomancia, a piromancia, [***], a oniromancia, e todas as outras artes da magia, que, pelo seu caráter cultual e místico, também fazem parte da grande repartição das religiões.

Somente agora, podemos avaliar os mistérios que a nossa Capital, sob a sua enganadora aparência de leviana futilidade, guarda e esconde no seu seio.

Mal sabíamos nós que vivíamos a acotovelar por essas ruas tantos sacerdotes!

Olhai aquele sujeito, que vai de rosto magro e chupado, pitando melancolicamente um cigarro, com um ar apagado e insignificante de quem não sabe o que está fazendo no mundo... Não vos deixeis iludir pela sua aparência nula: aquele sujeito é um vidente, que confabula de dia e de noite com os mortos e a cujo aceno imperativo e seco as almas fogem do limbo e vêm roçar de novo, com a ponta da sua asa imaterial, a Terra corrompida.

Vede aquele homem calmo, pacato, gordo, vestido com correção e limpeza, pisando firme, com a mão na algibeira da calça, sacolejando as chaves da burra. Pensais que aquele pacífico burguês só trata dos seus negócios e da prosperidade de sua casa comercial? Puro engano nosso: aquele homem vive dentro de um halo de espíritos, e conversa com eles, e deles recebe lições, e por eles conhece todos os segredos do éter infinito, em cuja amplidão, entre os mundos volantes, erram as Psiques e os Corpos Astrais...

Reparai agora naquele mocinho imberbe, esbelto, com um buço no beiço e um clarão de garotinho nos olhos. Cuidais que é um alegre colegial, somente preocupado com o sum-es-fui e com o teorema de Euclides, dividindo o seu tempo entre o estudo dos preparatórios e o namoro das meninas janeleiras? Longe disso! aquele mocinho é um sacerdote de Mitra, para quem a Gnose não tem segredos, e para quem o Talmude é mais claro do que um copo d'água...

E ali tendes um mendigo, sentado à soleira de uma porta, com a cabeça calva ao sol, estendendo o chapéu aos transeuntes. Não vos enganeis... Aquele mendigo é mais rico que Rockefeller e Morgan: sabe consultar os astros, possui um pedaço da pedra filosofal, vende aos centilitros o elixir da longa vida, e, versado em todos os arcanos da alquimia, sabe converter o chumbo em ouro, com o simples auxílio de uma pitada de pó e da boa vontade do divino Hermes Trimegisto...

Nos bondes, nos teatros, nos cafés, nós vivemos irreverentemente a pisar os calos de grandes heresiarcas, de poderosos magos, de fortes arquiatros, de sagrados pastores de almas. Em cada uma das ruas de Botafogo, ou do saco do Alferes, da Gamboa, ou das Laranjeiras, há um templo, uma basílica, um delubro, uma capela, um antro de pitonisa, uma caverna de oráculo: o Rio de janeiro é Credópolis.

A todas essas religiões cujo culto é público ou secreto, mas que têm uma organização mais ou menos metódica, é preciso juntar as religiões individuais, as superstições que são peculiares a cada indivíduo.

Este nunca sai de casa sem fazer quatro piruetas seguidas no patamar da escada; aquele não vai para o trabalho sem beijar sete vezes um pedaço de corda de enforcado; aquele outro tem na corrente do relógio um dente de veado morto no quarto minguante da lua de outubro; qual não realiza negócio senão em quarta-feira; qual não arrisca cinco tostões no jogo dos bichos sem oferecer um copinho de aguardente a santo Onofre; e um sujeito conheço eu (não lhe escrevo o nome para não o vexar) que, há doze anos, ao descer do bonde, entra na cidade pondo o pé direito na mesma pedra da mesma calçada da mesma esquina da mesma rua...

Também essas superstições são governadas pelo instinto de "religiosidade". Religião não é somente "um freio", como dizia o conselheiro Acácio: é um freio para as almas ardentes e impetuosas; mas, para as almas lerdas ou apáticas, não é freio: é acicate, é chicote, é espora, é estimulante, é álcool, é choque elétrico... Da Religião se pode dizer o que dizem do hábito de fumar os fumantes incorrigíveis: dá fome a quem não a tem, e aplaca a fome a quem a tem...

Estou em dizer que nunca se fez, no Rio de janeiro, como pesquisa de psicologia social, um inquérito tão interessante como esse da Gazeta.

O século XIX, no seu último quartel, assistiu a um reflorescimento de crenças. O século XX está assistindo à exacerbação desse movimento de regresso à fé. O reverdecer, não da Religião, mas das Religiões, não se está fazendo apenas no Rio de Janeiro: faz-se em todo o mundo civilizado. Multiplicam-se as conversões, ressuscitam crenças mortas, exumam-se ritos antigos, reacendem-se apagadas seitas. Na culta Europa, em Paris e em Londres, já existem templos do masdeísmo, do budismo e do sabeísmo.

Que quer dizer esse regresso à fé? É um sinal de progresso ou de decadência moral?

Pela mistura das religiões, pela complicação dos credos, pelo baralhamento das seitas — parece a princípio que há aí um sintoma de degenerescência. O primeiro sintoma de queda de Roma foi a importação e a implantação de todos os cultos e de todas as religiões das províncias
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Machado de Assis

Machado de Assis

8 de Outubro de 1893

Segunda-feira desta semana, o livreiro Garnier saiu pela primeira vez de casa para ir a outra parte que não a livraria. Revertere ad locum tuum – está escrito no alto da porta do cemitério de S. João Batista. Não, murmurou ele talvez dentro do caixão mortuário, quando percebeu para onde o iam conduzindo, não é este o meu lugar; o meu lugar é ri a Rua do Ouvidor 71, ao pé de uma carteira de trabalho, ao fundo, à esquerda; é ali que estão os meus livros, a minha correspondência, as minhas notas, toda a minha escrituração.

Durante meio século, Garnier não fez outra coisa senão estar ali, naquele mesmo lugar, trabalhando. Já enfermo desde alguns anos, com a morte no peito, descia todos os dias de Santa Teresa para a loja, de onde regressava antes de cair a noite. Uma tarde, ao encontrá-lo na rua, quando se recolhia, andando vagaroso, com os seus pés direitos, metido em um sobretudo, perguntei-lhe por que não descansava algum tempo. Respondeu-me com outra pergunta: Pourriez-vous résister, si vous étiez forcé de ne plus faire ce que vous auridez fait pendant cinquante ans? Na véspera da morte, se estou bem informado, achando-se de pé, ainda planejou descer na manhã seguinte, para dar uma vista de olhos à livraria.

Essa livraria é uma das últimas casas da Rua do Ouvidor; falo de uma rua anterior e acabada. Não cito os nomes das que se foram, porque não as conhecereis, vós que sois mais rapazes que eu, e abristes os olhos em uma rua animada e populosa, onde se vendem, ao par de belas jóias, excelentes queijos. Uma das últimas figuras desaparecidas foi o Bernardo, o perpétuo Bernardo, cujo nome achei ligado aos charutos do Duque de Caxias, que tinha fama de os fumar únicos, ou quase únicos. Há casas como a Laenimert e o Jornal do Comércio, que ficaram e prosperaram, embora os fundadores se fossem; a maior parte, porém, desfizeram-se com os donos.

Garnier é das figuras derradeiras. Não aparecia muito; durante os 30 anos das nossas relações, conheci-o sempre no mesmo lugar, ao fundo da livraria, que a princípio era em outra casa, n. 69, abaixo da Rua Nova. Não pude conhecê-lo na da Quitanda, onde se estabeleceu primeiro. A carteira é que pode ser a mesma, como o banco alto onde ele repousava, às vezes, de estar em pé. Aí vivia sempre, pena na mão, diante de um grande livro, notas soltas, cartas que assinava ou lia. Com o gesto obsequioso, a fala lenta, os olhos mansos, atendia a toda gente. Gostava de conversar o seu pouco. Neste caso, quando a pessoa amiga chegava, se não era dia de mala, ou se o trabalho ia adiantado e não era urgente, tirava logo os óculos, deixando ver no centro do nariz uma depressão do longo uso deles. Depois vinham duas cadeiras. Pouco sabia da política da terra, acompanhava a de França, mas só o ouvi falar com interesse por ocasião da guerra de 1870. O francês sentiu-se francês. Não sei se tinha partido: presumo que haveria trazido da pátria, quando aqui aportou, as simpatias da classe média para com a monarquia orleanista. Não gostava do império napoleônico. Aceitou a república, e era grande admirador de Gambetta.

Daquelas conversações tranqüilas, algumas longas, estão mortos quase todos os interlocutores, Liais, Fernandes Pinheiro, Macedo, Joaquim Norberto, José de Alencar, para só indicar estes. De resto, a livraria era um ponto de conversação e de encontro. Pouco me dei com Macedo, o mais popular dos nossos autores, pela Moreninha e pelo Fantasma branco, romance e comédia que fizeram as delícias de uma geração inteira. Com José de Alencar foi diferente; ali travamos as nossas relações literárias. Sentados os dois, em frente à rua, quantas vezes tratamos daqueles negócios de arte e poesia, de estilo e imaginação, que valem todas as canseiras deste mundo. Muitos outros iam ao mesmo ponto de palestra. Não os cito, porque teria de nomear um cemitério, e os cemitérios são tristes, não em si mesmos, ao contrário. Quando outro dia fui a enterrar o nosso velho livreiro, vi entrar no de S. João Batista, já acabada a cerimônia e o trabalho, um bando de crianças que iam divertir-se. Iam alegres, como quem não pisa memórias nem saudades. As figuras sepulcrais eram, para elas, lindas bonecas de pedra; todos esses mármores faziam um mundo único, sem embargo das suas flores mofinas, ou por elas mesmas, tal é a visão dos primeiros anos. Não citemos nomes.

Nem mortos, nem vivos. Vivos há-os ainda, e dos bons, que alguma coisa se lembrarão daquela casa e do homem que a fez e perfez. Editar obras jurídicas ou escolares não é mui difícil; a necessidade é grande, a procura certa. Gamier, que fez custosas edições dessas, foi também editor de obras literárias, o primeiro e o maior de todos. Os seus catálogos estão cheios dos nomes principais, entre os nossos homens de letras. Macedo e Alencar, que eram os mais fecundos, sem igualdade de mérito, Bernardo Guimarães, que também produziu muito nos seus últimos anos, figuram ao pé de outros, que entraram já consagrados, ou acharam naquela casa a porta da publicidade e o caminho da reputação.

Não é mister lembrar o que era essa livraria tão copiosa e tão variada, em que havia tudo, desde a teologia até à novela, o livro clássico, a composição recente, a ciência e a imaginação, a moral e a técnica. já a achei feita; mas vi-a crescer ainda mais, por longos anos. Quem a vê agora, fechadas as portas, trancados os mostradores, a espera da justiça, do inventário e dos herdeiros, há de sentir que falta alguma coisa à rua. Com efeito, falta uma grande parte dela, e bem pode ser que não volte, se a casa não conservar a mesma tradição e o mesmo espírito.

Pessoalmente, que proveito deram a esse homem as suas labutações? 0 gosto do trabalho, um gosto que se transformou em pena, porque no dia em que devera libertar-se dele, não pôde mais: o instrumento da riqueza era também o do castigo. Esta é uma das misericórdias da Divina Natureza. Não importa: laboremus. Valha sequer a memória, ainda que perdida nas páginas dos dicionários biográficos. Perdure a notícia, ao menos, de alguém que neste país novo ocupou a vida inteira em criar uma indústria liberal, ganhar alguns milhares de contos de réis, para ir afinal dormir em sete palmos de uma sepultura perpétua. Perpétua!


ASSIS, Machado de. A semana: crônicas, 1892-1893. Organização, introdução e notas de John Gledson. São Paulo: Hucitec, 1996. P. 310-312. (Literatura brasileira, 2).
NOTAS: Baptiste Louis Garnier (1823-1893), que chegou ao Brasil em 1844, e foi o mais importante editor brasileiro do século XIX. Foi o editor do próprio Machado. A Casa Sousa Laemmert foi fundada po Eduard Laemmert (1806-1880) e outros em 1827. Foi vendida e reorganizada como o nome de Laemmert e Cia. Em 1891. O Jornal do Comercio fora fundado por Pierre Plancher em 1827, e vendi mais de uma vez. Léon Gambetta (1838-1882), político republicano francês, dos mais importantes no período da fundação da Terceira República. Emmanuel Liais (1826-1900), astrônomo e geógrafo francês, que passou muitos anos no Brasil, onde chegou em 1858, publicando várias obras de natureza científica sobre o país; Cônego Joaquim Fernandes Pinheiro (1826-1876), escritor, autor de várias obras de história do Brasil, como a História do Brasil contada aos meninos (1870); e Joaquim Norberto de Sousa Silva (1820-1891) historiador e autor da História da conjuração mineira (1873). Fantasma branco, peça de 1856, o bastante popular para ser representada no Rio em julho de 1893
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Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

Quem Lucrava?

Mas quem, na verdade, lucrava com esse vasto ouro? Com esse ouro brasileiro, extorquido com tanta ganância e molhado de tanta lágrima? O Brasil? Não. Portugal? Fato incrível: também não. Portugal não lucrou coisa alguma com aquela caudalosa riqueza. "O inglez sentava-se com o Rei á mesa e aplaudia o desperdício: porque todo o ouro do Brasil passava apenas por Portugal, indo fundear em Inglaterra, em pagamento da farinha e dos generos alimentícios com que elle nos alimentava e vestia. A industria nacional constava de operas e devoções. Por isso nem todo o ouro do Brasil bastou: a divida nacional cresceu (!) e Lisboa, para não morrer de sede, teve de pagar com um imposto especial a construção do seu acqueducto".

"Nem todo o ouro do Brasil bastou! A divida nacional cresceu!" Mal acredita a gente no que lê. Será possível? Talvez, numa crise de mau humor, tomado subitamente de parcialidade, deixasse o notabilíssimo escritor tombar da pena a frase azeda. Mas não. Vêde Coelho da Rocha: "No reinado seguinte ao de D. João V, para occorrer ás necessidades do Estado e atrazo dos pagamentos, abriu o governo um empréstimo de dez milhões de cruzados a juro de cinco por cento". Ao que pondera o Pinheiro Chagas: "Parece incrível que, tendo D. João V nas minas do Brasil um banqueiro tão commodo, fosse durante o seu governo que o Estado contrahisse mais empréstimos". "De forma que o reinado, em que as torrentes de ouro do Brasil verdadeiramente inundaram Portugal, foi aquelle em que o Paiz ficou mais empenhado e em que se deixou mais vasio o thesouro".

Que triste destino teve o ouro do Brasil! Ouro fatídico! Não serviu de nada, absolutamente nada, para a colônia que o produziu com sangue. Mas também não serviu de nada, absolutamente nada, para o país afortunado que o recebeu aos jorros.

Apenas — pálido consolo! — como relíquias evocadoras daquelas grandezas magníficas, "hoje (escreve saudosamente A. Pimentel), quando os coches de D. João V se estadeiam em alguma das grandes solemnidades officiaes, como que se desdobram aos nossos olhos todo o esplendor dessa corte que o ouro e os diamantes do Brasil egualaram ás riquezas phantasticas do Oriente ..."

E é só.

Convenhamos que é muito pouco.


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 110-112. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
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Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

A Terra da Promissão

Soldados e viageiros, à roda do fogo, nos pousos, desfiavam, como a chuçar a cobiça dos ouvintes, todo um rol diabólico de maravilhas. Narravam-se coisas embasbacantes. Muita gente contava, debaixo de juras, que havia nas minas tanto ouro, tanto que "no Cuyabá, até as pedras dos fogoens, onde se punham as panellas, eram de ouro". Ainda: "para se colher ouro, não é necessario mais do que arrancar touceiras de capim; nella vêm pegadas as folhetas". Grande verdade. O ouro de Cuiabá era todo de aluvião. Andava solto à flor da terra. Por isso, comentando aqueles relatos, afirmava o cronista com justeza: "isto de arrancar-se capim e virem granetes de ouro pegados ás raizes, é certo; foi coisa vista muitas vezes, tanto nas lavras do Sutil, como nas da Conceição".

Mas não ficava só nisso. Havia muitas e incríveis gabolices. Chegou-se mesmo a dizer, "naquellas exageraçoens fabullozas", que, "no Cuyabá, em vez de grãos de chumbo, serviam-se os caçadores, nas espingardas, de grãos de ouro para matar veados..."

A conseqüência dessas falas espicaçantes era uma só e fatal: canalizar para essas terras, tão fantasticamente abarrotadas de riquezas, densa caudal de aventureiros. E foi, de fato, densa e torrenciosa, a caudal de gente que alagou Cuiabá. Os cronistas, sem excetuar um único, narram com destaque essa desabalada carreira para as minas, "divulgada a noticia pellos povoados (lá diz Barbosa de Sá), foi tal o movimento que cauzou nos animos, que das Minas-geraes, do Rio de janeiro, de toda a Capitania de Sam Paulo, se aballaram muitas e muitas gentes. Deixavam cazas e, fazendas, deixavam molheres e filhos, deixavam tudo, botando-se para aquelles sertoens como se fora a terra da promissan ou o Parahyzo incoberto em que Deus poz os nossos primeiros paes".

Cuiabá, não há dúvida, tornou-se a aspiração mais fascinante dos sertanejos. Era a "terra da promissan!". De São Paulo, mais particularmente, o êxodo para lá foi verdadeira loucura. Pode-se dizer que, na vila, não ficou homem válido. Partiu tudo. "O que soube, logo que aqui cheguei (mandava dizer ao Rei, numa carta, o governador Rodrigo César) é que tinham ido para aquellas minas mais de dois mil paulistas". Só naquelas lavras, segundo arrolamento, "havia naquelle armo (o que espanta!) duas cazas de truque, onze fornos e dois mil seiscentos e sete escravos".

Mas todos os forasteiros, brancos e negros, escravos e forros, vindos ali à busca do ouro, chuçados pela só fome das riquezas, não pensavam jamais em lavouras e sementeiras. Parece isso extraordinário, mas é verdade. Passavam dia e noite nas catas. Ninguém tinha tempo para abrir roças. Ninguém tinha tempo para cuidar de criação. Por isso, naquelas lavras, "não havia porcos, não havia gallinhas, não havia nada. Faltava o milho em toda a povoação". Os gêneros vinham de fora, lá do longínquo São Paulo, em monção. Mas quase sempre, nos vaivéns terríveis daquelas duras varações — "chegavam as fazendas já podres; morria muita gente de fome".

As coisas atingiam, está visto, preços verdadeiramente fabulosos.


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 51-53. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
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Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

Território entre o Gesto e a Palavra

Entre o gesto e a palavra: território escondido dentro de mim
Marcas de mortas visões; tentativas, indecisões, regozijos,
Entre o gesto e a palavra. Território:
Um silêncio, um gemido, um esforço imaturo
Possibilidade de um grito, modulação de uma dor.
— Ritmos mais doces que os das águas,
— Ternuras mais íntimas que as do amor
Entre o gesto e a palavra. Território
Onde as idéias se ocultam e os pensamentos se perdem
Os conceitos se escondem, os problemas se dissolvem
Entre o gesto e a palavra. Território.
— Os problemas da escolha, os princípios;
Transcendências: transparências, mediante
Uma luz que não se acende, existem
No território contido entre o gesto e a palavra.
— Um axioma, um lema, um versículo, um fonema,
Uma ameaça, uma tolice, o som velar, o eco,
Talvez a estátua de uma atitude.
Estão no campo depois do gesto
E antes da palavra.
Também estás para mim, amiga, entre esses dois expressivos
Entre alguma coisa de mímico ou de sonoro
Alguma coisa que é aceno ou que é voz:
Entre o de mim e o de ti: Tu estou
Tu vivo
Tu falo
Tu choro
Estás, mesmo que entre nós dois não exista
Um aparato gramático — uma sentença verdadeira
— ou uma síntese poética
Ilusória expressão com que se conformam os ingênuos —
Mesmo que a palavra se reduza a simples gesto verbal
Entre o gesto e este gesto há um infinito real.


In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.207-208. Poema integrante da série Mundos Paralelos
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Marcelo Gama

Marcelo Gama

Sugestões do Ocaso

Para o Carlos Torelly

Não sei por que será que os aspectos de agosto
me convidam à cisma à hora do sol posto!

Ontem fazia frio, era roxo o arrebol,
e céus e terra e tudo, as árvores e as águas,
pareciam estar carpindo as suas mágoas...
Choravam de saudade, ao ver partir o sol.

E eu também fiquei triste, até eu, que sabia
que a treva era um instante e o sol ressurgiria!

A natureza tem desses fundos mistérios...
Sei que uma sepultura é o nada, a eterna paz,
e entretanto, meu Deus! não me sinto capaz
de penetrar sozinho, à noite, em cemitérios!

Segredos que a razão não nos explica: o caso
é que eu participei da amargura do ocaso.

Erguendo os braços nus, despidos pelo outono,
o arvoredo guardava atitudes de prece.
O silêncio rezava. Era como se houvesse
romarias no espaço. A tarde tinha sono.

Da paisagem subia, espiralando, o incenso
que me fazia ter o coração suspenso.

E estávamos nós dois: eu e minh'alma, ali;
eu sentado, ela em frente; e puz-me a interrogá-la...
Pois embora ela fosse um doente sem fala,
não conto, por pudor, certas coisas que ouvi.

Por Deus Nosso Senhor, que perdi toda a calma!
E haver inda quem negue a existência da alma!

Ai! como foram más, amargas, aziagas,
as horas que passou est'alma combalida!
Mas o instante de horror maior em minha vida
foi quando eu a despi e examinei-lhe as chagas!

Depois, risquei no chão, uns sinais cabalísticos...
Lembrei-me de morrer, e puz-me a escrever dísticos...

Epitáfios assim: "Foi mau, mas morreu cedo".
E havia logo abaixo, um nome de mulher...
(A gente muita vez escreve o que não quer...)
Sepultura e noivado... Estremeci de medo.

Que se a idéia de morte às vezes nos conforta,
apavora-nos ver uma pessoa morta.

E fiquei-me a cismar. Além, a lua triste
tinha molhada em pranto a palidez da face...
(Que bom seria ouvir, se a lua nos contasse,
os romances de amor a que dos céus assiste!)

Não sei por que será que os aspectos de agosto
me convidam à cisma, à hora do sol posto!...


Publicado no livro Via Sacra (1902).

In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.31-3
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Marcelo Gama

Marcelo Gama

Sugestões do Ocaso

Para o Carlos Torelly

Não sei por que será que os aspectos de agosto
me convidam à cisma à hora do sol posto!

Ontem fazia frio, era roxo o arrebol,
e céus e terra e tudo, as árvores e as águas,
pareciam estar carpindo as suas mágoas...
Choravam de saudade, ao ver partir o sol.

E eu também fiquei triste, até eu, que sabia
que a treva era um instante e o sol ressurgiria!

A natureza tem desses fundos mistérios...
Sei que uma sepultura é o nada, a eterna paz,
e entretanto, meu Deus! não me sinto capaz
de penetrar sozinho, à noite, em cemitérios!

Segredos que a razão não nos explica: o caso
é que eu participei da amargura do ocaso.

Erguendo os braços nus, despidos pelo outono,
o arvoredo guardava atitudes de prece.
O silêncio rezava. Era como se houvesse
romarias no espaço. A tarde tinha sono.

Da paisagem subia, espiralando, o incenso
que me fazia ter o coração suspenso.

E estávamos nós dois: eu e minh'alma, ali;
eu sentado, ela em frente; e puz-me a interrogá-la...
Pois embora ela fosse um doente sem fala,
não conto, por pudor, certas coisas que ouvi.

Por Deus Nosso Senhor, que perdi toda a calma!
E haver inda quem negue a existência da alma!

Ai! como foram más, amargas, aziagas,
as horas que passou est'alma combalida!
Mas o instante de horror maior em minha vida
foi quando eu a despi e examinei-lhe as chagas!

Depois, risquei no chão, uns sinais cabalísticos...
Lembrei-me de morrer, e puz-me a escrever dísticos...

Epitáfios assim: "Foi mau, mas morreu cedo".
E havia logo abaixo, um nome de mulher...
(A gente muita vez escreve o que não quer...)
Sepultura e noivado... Estremeci de medo.

Que se a idéia de morte às vezes nos conforta,
apavora-nos ver uma pessoa morta.

E fiquei-me a cismar. Além, a lua triste
tinha molhada em pranto a palidez da face...
(Que bom seria ouvir, se a lua nos contasse,
os romances de amor a que dos céus assiste!)

Não sei por que será que os aspectos de agosto
me convidam à cisma, à hora do sol posto!...


Publicado no livro Via Sacra (1902).

In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.31-3
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