Renata Pallottini

Renata Pallottini

1931–2021 · viveu 90 anos BR BR

Renata Pallottini foi uma poeta, dramaturga, contista e tradutora brasileira, uma das vozes mais significativas da poesia contemporânea. Sua obra é marcada pela intensidade lírica, pela reflexão sobre a condição humana, o amor, a morte e a passagem do tempo, com uma linguagem ora coloquial, ora erudita, mas sempre envolvente. Ela explorou diversas formas poéticas, do verso livre a estruturas mais rígidas, e sua escrita frequentemente transita entre o pessoal e o universal, o íntimo e o social. Pallottini também atuou como tradutora de importantes obras literárias, enriquecendo o panorama cultural brasileiro com seu talento e sensibilidade.

n. 1931-01-20, São Paulo · m. 2021-07-08, São Paulo

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Ternura

Compreende: não é a minha Ternura que te nego.
É antes, a casa que não é minha,
A liberdade que não me deram,
As horas que me arrancam.
Minha Ternura, essa está intacta,
Ninguém a pode roubar.
É como a Casa que eu sempre sonhei,
Onde viveriam todos os Amigos,
Como a liberdade de andar pelas ruas sem tempo,
Como as horas da noite que eu guardo para os sonhos
Antes de dormir.


Publicado no livro Acalanto (1952).

In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.1
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Biografia

Identificação e contexto básico

Renata Pallottini foi uma escritora, poeta, dramaturga, contista e tradutora brasileira. Nasceu em São Paulo em 10 de janeiro de 1931 e faleceu na mesma cidade em 30 de novembro de 2019. Destacou-se como uma das vozes mais importantes da poesia brasileira contemporânea.

Infância e formação

Passou a infância e a juventude em São Paulo. Sua formação literária foi sólida e eclética, combinando estudos formais com uma vasta experiência de leitura e vivência cultural. A paixão pela palavra e pela arte moldou sua trajetória desde cedo.

Percurso literário

Renata Pallottini iniciou sua carreira literária com a publicação de poemas e contos em jornais e revistas. Ao longo de sua trajetória, publicou diversos livros de poesia, que lhe renderam reconhecimento nacional. Também atuou como dramaturga e contista, demonstrando versatilidade em sua criação literária. Sua atividade como tradutora foi igualmente relevante, vertendo para o português obras de autores estrangeiros.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Sua obra poética é vasta e diversificada, abordando temas como o amor, a morte, a solidão, a memória, a passagem do tempo, a condição feminina e a crítica social. Seu estilo é marcado por uma linguagem rica e expressiva, que transita entre o coloquial e o erudito, o lírico e o reflexivo. Explora tanto o verso livre quanto formas mais estruturadas, com forte musicalidade e densidade imagética. O tom de sua poesia varia, mas frequentemente carrega uma profundidade existencial e uma sensibilidade aguçada.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Renata Pallottini viveu e produziu em um período de intensas transformações culturais e sociais no Brasil e no mundo. Sua obra dialoga com as correntes literárias de seu tempo, mas mantém uma identidade autoral forte e inovadora. Esteve inserida nos círculos literários de São Paulo, participando ativamente da vida cultural da cidade e do país.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se divulga sobre os detalhes íntimos de sua vida pessoal, mas é sabido que dedicou sua vida à arte e à literatura com paixão e rigor. Sua experiência como mulher e artista em um contexto muitas vezes desafiador certamente moldou sua visão de mundo e sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Renata Pallottini obteve reconhecimento em vida por sua obra literária, tanto pela crítica especializada quanto pelo público leitor. Suas poesias foram incluídas em antologias e a autora foi objeto de estudos acadêmicos e homenagens.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra se insere na tradição da poesia moderna brasileira, mas com características únicas. Ela contribuiu para a renovação da linguagem poética e para a ampliação dos temas abordados na poesia contemporânea. Seu legado reside na força de sua voz lírica e na profundidade de suas reflexões.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Renata Pallottini é frequentemente analisada sob a ótica da sua capacidade de expressar a complexidade dos sentimentos humanos, a fragilidade da existência e a beleza encontrada no cotidiano. Sua obra convida à introspecção e à contemplação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sua versatilidade como escritora, transitando entre poesia, prosa e teatro, é um dos aspetos notáveis de sua carreira. A tradução de obras significativas também demonstra sua profunda conexão com a literatura mundial.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em 2019, deixando um importante acervo literário. Sua obra continua a ser lida, estudada e celebrada, garantindo sua memória e seu lugar de destaque na literatura brasileira.

Poemas

21

Ternura

Compreende: não é a minha Ternura que te nego.
É antes, a casa que não é minha,
A liberdade que não me deram,
As horas que me arrancam.
Minha Ternura, essa está intacta,
Ninguém a pode roubar.
É como a Casa que eu sempre sonhei,
Onde viveriam todos os Amigos,
Como a liberdade de andar pelas ruas sem tempo,
Como as horas da noite que eu guardo para os sonhos
Antes de dormir.


Publicado no livro Acalanto (1952).

In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.1
2 505

Esta Canção

"aquilo que é, já foi;
e aquilo que há de ser já foi;
Deus fará vir outra vez o que já se passou."
Eclesiastes, 3:15

Esta canção rateia a tarde clara
buscando a minha voz que é sua fonte.
Assim voltam os pássaros ao campo,
assim volta o horizonte ao horizonte.

Sou o doido que canta para si,
cônscio de não saber nem do que inventa;
recriando o criado, ele sorri,
ciente de que não faz nem acrescenta.

Tudo já foi, apenas se repete;
este lugar de amor será pregresso
quando for dor a dor que se promete.

Chegou-me agora o que já foi futuro;
assim Deus me prepara o teu regresso
como se planta um poema nascituro.

1 352

Primeiro Foi a Noite

"No princípio criou Deus o céu e a terra.
Gênesis, 1:1
Primeiro foi a noite. E a noite feita,
desta engendrou-se a luz, julgada boa.
Depois, fez-se o agudo desespero do céu.
E a terra. E as águas separadas.

E um mar se fez, da lúcida colheita
das águas inferiores. A coroa
tornou-se firmamento. "Haja luzeiros" —
ordenou-se às estrelas debulhadas.

Houve flores estáticas e flores
que procuravam flores; e houve a fome
de carne e amor e dessa fome as dores

e das dores o Homem. Deste, esquiva,
toda fome, sua fêmea, e no seu sexo,
mais uma vez a noite primitiva.

1 524

Por Ti Deixei

"Portanto, deixa o homem
a seu pai e a sua mãe,
e se une a sua mulher;
e são uma só carne."
Gênesis, 2:24
Por ti deixei, do meu rebanho lento
a alva timidez; da minha casa
o fogo acolhedor tornado brasa
e a brasa morta transformada em pranto.

Das mãos de minha mãe ficou-me o manto,
da boca de meu pai restou-me a frase
e estes meus olhos são cisternas rasas
onde à tardinha vem beber o vento.

Ponho a teus pés o meu desejo triste
que se renova numa força eterna,
e te ofereço uma faqueza a mais;

pedaço do meu tronco que partiste,
carne, que foste um pouco de meu cerne!
À minha própria carne tornarás.

1 433

Através da Vida

Através da vida o homem
vai sendo ludibriado.
Deitando-se em qualquer porta
o homem percebe que ficou de lado.
E depois constatando
que a mulher não lhe foi dada
para amá-lo, como está dito.
Foi-lhe dada para nada.
A mulher ao longo da vida
percebe que foi sendo usada
e que agora está no fim.
E que nunca recebeu um sim.
Os filhos que ali estão
estão ali porque estão.
Não tinham sido queridos.
Tinham só acontecido.
E os filhos que ali estão,
não sabem de coisa alguma.
Vão à escola se vão à escola.
Se não vão, inventam uma.

Depois que morre a gente descansa
e a terra é quente, mesmo na morte.
Depois da morte eu descansarei
e não terei medo da morte.
E não olharei para o alto, temendo
o alto peso da terra.
Mas estarei dormindo e dormindo.
De forma eterna e só então eterna.


Publicado no livro Os Arcos da Memória (1971).

In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.17
1 448

Noite Afora

A quem devo dizer que em tua carne
se sobreleva o tempo e o duradouro,
mancha de óleo no azul, alaga e intensifica
o contratempo a que chamei amor?

A quem devo dizer dos meus perigos
quando, o corcel furioso, olhei ao longe
e não vi mais limites que o oceano
nem mais convites que o das ondas frias?

Como antepor o corte nas montanhas
— Liberdade — ao dever que a si mesma impõe a terra
de estender-se conforme o espaço havido?

Malícia do destino, ardil composto outrora...
Arde a grama da noite em que te vais embora,
e essa chama caminha, essa chama, essas vinhas,

essas uvas, cortadas noite afora.


Poema integrante da série Noite Afora.

In: PALLOTTINI, Renata. Noite afora. São Paulo: Brasiliense, 197
1 601

Poema da Rua Maria Antonia

Por sobre o muro
voam bombas e garrafas incendiadas
pedras agudas e palavras
duras.
Por sobre o muro
voa a lembrança de um amor que houve
uma visão passada e deslocada
que tenta ultrapassar o muro e do alto
proclamar-se intocada.
Mas as garrafas incendeiam tudo
e a palavras
tornam menos urgente o amor antigo
e mais urgente o aviso:
esta é a guerra das guerras
guerra civil dos que foram amigos.
Por sobre o muro
espio com espanto o pátio incendiado
os jovens que se atingem entre lágrimas
os feridos e os gestos e os detalhes.
Minha cabeça ponho sobre o muro.
É uma cabeça desligada do seu corpo
como a cabeça de um guilhotinado
de olhos abertos.
Com meus olhos abertos sobre o muro
vejo o sangue e a fumaça da contenda.
Não posso distinguir qual dos lados do muro
é o mais claro, o mais limpo, o mais certo, o mais justo.
Meus olhos na cabeça decepada,
Buscam ansiosamente sobre o muro
o caminho mais curto, a razão mais sensata,
ou pelo menos a mais desinteressada.
Meus olhos, na cabeça desnorteada
procuram com inútil desespero
a arma de lutar, a faca de se defender
o punho de atacar.
Na cabeça infeliz meus olhos são culpados
de verem o que aos mortos foi negado.


In: PALLOTTINI, Renata. Coração americano. Pref. Luiz Carlos Cardoso. Il. Aldemir Martins. 2.ed. São Paulo: Feira de Poesia, 1979

NOTA: "Poema da Rua Maria Antonia" é a quarta parte do poema "Simposium", composto de 10 partes
1 768

O Carro

O carro corre ao longe numa boa
feito a nuvem que passa,
feito o vento que voa.

A máquina do carro é o fino;
o ruído ardido
é o defeito que tem tudo que é feito.
Senão, tudo era chato
e perfeito.


In: PALLOTTINI, Renata. Café com leite. São Paulo: Quinteto, 1988. p.1
2 702

Salvo

Salvo
a falácia da queda e o seu após
nada tenho a constatar
do que caiu sobre nós.
Digo-te qual suponho:
o que passou, passou.
Não ponho sobre ti o peso do meu sonho,
nem do que velo, nem do que findou.
Salvo a falácia do erro
tudo o mais fui eu:
quem nasceu e se pôs de pé,
quem cresceu e não cresceu,
quem humilhou e perdoou,
quem finalmente morreu

e hoje chora ao pé da cova
pelo dorido do que aconteceu.

1 586

Macunaíma

(...)

Meu filho, cresce ligeiro,
para ir pra São Paulo
e ganhar dinheiro.

Adeus mato cheiroso orvalho da manhã
adeus água de prata cascata
adeus ramo de arruda hortelã
a mata está a pique de acabar
jandaia buriti jussara aracuã
cresce depressa pra dandar
meu filho
pra ganhar
vintém
cresce depressa e entrega a mata
ao invasor
meu filho pra ganhar
vintém
Quanta floresta! É ouro verde na divisa
brasileiro vai ganhar
vintém

cresce depressa e sem caráter brasileiro
e vende a mata
pra ganhar
vintém

Na cidade das máquinas doente
Macunaíma sobrevive e pensa:
nas ruas, cipoal de muita gente,
só o ato de brincar
é que compensa.

Para a tristeza, o amor;
para a preguiça
o amor, e para a febre
mordidas de saúva da paixão.

Muita saudade
e muita pouca ação
os males do Brasil
são.

Macunaíma, audaz tumucumaque,
menino inventador, herói de araque,
lá vai ele, criador de boi-bumbá;
voltando para a terra antes que acabe,

para o seu galho em antes que desabe,
para as florestas
cada vez mais menos,
para as montanhas, já
montes de Vênus,
para os campos,
agora mais pequenos...

Macunaíma encolhe igual sanfona
na charanga brasílico-amazona.

(...)


In: PALLOTTINI, Renata. Cantar meu povo. São Paulo: Massao Ohno, 198
3 105

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